30 de julho de 2011

2 para manter a média mensal

Regurgitar

Metafísica, que pode falsear memes,
Todavia reúne razão e episteme
A existência, com suas ontologias,
Parece, mas se difere das fantasias

Exprimindo o cinismo que me é peculiar,
O ceticismo que irrompe do particular,
O ateísmo, à minha reputação recorrente,
E as críticas sobre a forma e a matéria, mormente

Recuso, refuto, rejeito, regurgito
O que eles – incautos, sensíveis e ilógicos –
Chamam de alma, entidade ou sobrenatural,
O incorpóreo - sem matéria e espiritual

Talvez pela falta de fé eu me coroo;
Algumas verdades eu rotulo de ilusões
Há também o oposto e demais combinações.
Não julguem o fenômeno, assaz restrito,
De energia sem causa; entendimento, insisto!

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Apelo à estação

Divague sobre a nouvelle vague,
Divulgue-a sem pressa e sem vagar
Noviço, sem apelar a convícios,
Que atropela o serviço, sem vícios

A tentativa de instruir o menino,
De obstruir o malogrado destino
É a alternativa de destruir o fascínio
A fim de construir seu autodomínio

É sabido que a admoestação da libido
E do que mais for assim tão descabido
Será a manifestação do proibido
E a gestação dos que foram sucumbidos

Está, então, concebida a contestação
Do ressabido: tem-se uma infestação
De zumbidos do exibido e deslambido;
E uma prestação de contas do inibido

22 de julho de 2011

Devagar a Divagar

Veja bem, ou vejam bem, hoje divagarei, ou melhor, neste post escreverei sobre banalidades, sobre ideias difusas, ora confusas e obtusas, ora inertes ou meros flertes. A princípio este blog foi parido para que eu mesmo começasse a parir meus pensamentos, a fim de me conhecer melhor, principalmente, mas também para conhecer melhor o mundo, para tentar me expressar melhor e para me sentir bem melhor – pesos tendem a derrubar qualquer um, meu pessimismo precisou aprender a lidar com as adversidades.
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Ando escrevendo pouco, eu sei, ou então nem é tão pouco assim, mas como tenho lido coisas tão diversas e interessantes, acabo sentindo que escrevo menos do que eu gostaria. O fato é que estou conseguindo crescer sem a necessidade de me expressar por este meio, são por outras maneiras e não me disponho a elencá-las, at least not right now!
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Circunstâncias diferentes acabam levando a ideias e opiniões diferentes, é inevitável, estou apreciando a nova fase. Somos egoístas, porém as perspectivas me levam a compreender melhor os outros lados, as outras pessoas, os fatos passados, as minhas atitudes e conceitos; revejo e reflito; naturalmente as mudanças chegam, elas não são abruptas como parecem, perceba que as sementes explodem sob o chão, contudo a situação indicava que aquilo aconteceria, anyway, nós apenas teimamos e relutamos em aceitar o contínuo fluxo das informações e dos organismos. Êtes vous plus Zen.
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Meu niilismo foi superado, continuo contestador e com opiniões peculiares, porém ânsia por um sentido da vida e a negação de todo e qualquer valor ficou para trás. Essa tendência de um ateu mandar tudo às favas e pensar em destruir porque nada está bom ou faz sentido são as turbulências da transição; todo começo é difícil, mas veja bem, toda mudança é um começo e uma continuação do que havia antes, o processo é dialético, os resíduos da construção anterior permanecem, sobretudo a cultura, os memes, as informações subjetivas, fluidos sutis que não desaparecem, no máximo obliteram após um longo tempo e árduo esforço de transformação.
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O existencialismo é uma salvação filosófica do vazio, do nada da contemporaneidade, e se oferece sem muletas, cada um se esforçará por uma vida autêntica, livre ao máximo de influências fúteis e tristes, com valores que vão fazer sentido a esta única pessoa: o ateu que acredita na vida e no progresso pessoal, social e da natureza. As pessoas não deveriam precisar das religiões, todavia num mundo de rebanho isso se faz necessário ainda, infelizmente, bad lucky for them. Porém, de filosofias o homem sempre será carente, pelo menos enquanto não se tornar máquina. Bem como ele precisa de ciência e tecnologia, mas com um dosador realístico, consciente de si, a fim de não se tornar um escravo de inovações muitas vezes supérfluas. E necessita, sobremaneira, da arte, não apenas para ver e apreciar, mas para se expressar e se esforçar em compreender a si mesmo emocionalmente e intelectualmente, afinal o ato artístico envolve lógicas e padrões, bem como o insconsciente e as intenções desconhecidas, ou ainda l’art pour l’art.
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Contatos, mesmo que superficiais com a sabedoria oriental me levaram a esse preenchimento. Lições importantes a um mundo globalizado pela dominação ocidental, em especial a do imperialismo americano, é claro. Pois bem, as influências dos EUA foram, majoritariamente, a do cristianismo protestante, a da democracia liberal e burocrática e a do capitalismo, com os judeus dando várias mãos para que ele vingasse bem. As filosofias orientais pouco se fizeram presente, até mesmo porque elas surgiram em cenários de restritos recursos naturais e em locais densamente povoados, o oposto do nascimento do USA. O resto da América acaba engolindo esse materialismo frio, consumista, contratual, competitivo, com um orgulho quase que tribal, e se esquece que isso tudo foi criado artificialmente e em muito pouco tempo, relativamente. Sabedorias de séculos, de milênios – sem correr o risco de proferir uma hipérbole –, não podem ser ignoradas, escamoteadas e escarnecidas, devem ser apreendidas; a vida não se faz só de dinheiro e status. Além disso, o cristianismo é, indeed, enganação e hipocrisia.
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Para finalizar, desviando do assunto, ou não, afinal também diz respeito ao tio Sam, queria expor rapidamente sobre a intolerância. Todos querem se sentir superiores; ser orgulhoso e vaidoso é natural no homem, nosso instinto bairrista, etnocêntrico e antropocêntrico nos inclina a se sentir bem onde estamos; os outros – “l’enfer c’est les autres” – são piores, uma vez que são “exóticos, profanos, ignorantes, amaldiçoados, infelizes” e termos depreciadores afins. A nossa ética nos diz para lutarmos por um mundo e uma sociedade na qual acreditamos, então rebaixamos quem não se comporta da forma correta idealizada por nós, que somos os outros também! Só que ser um moralista é cair no erro de legitimar os conflitos, pois as visões são inúmeras, então todo mundo que tiver uma opinião diversa poderá agredir seu oponente, o que é um absurdo.
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Agressões a gays, ateus, adúlteros ou mendigos nunca deveriam ocorrer, pois essas pessoas não ferem a dignidade e o direito de ninguém mais por serem assim, enquanto se abstiverem de provocar o próximo; a justiça e o revide são legítimos, mas não quando esta “agressão visual” choca os mais conservadores ou os sensíveis. Todos têm o direito de causar o mal a si (se o outro assim entender), pode até ser ultrajante alguns casos, como sexo explícito e jogatinas a céu aberto, porém, clubes e locais específicos devem ser liberados, pois há consentimento mútuo na participação de seus membros, logo não faz sentido proibir puteiros, cassinos, casas de swing, cerimônias gays de casamentos, entre outros atos, desde que sejam privativos, consensuais e dentro dos requisitos legais. A briga deve ser pacífica e nos argumentos. Lobbies ocorrem porque hoje o que manda é o dinheiro, mas quem sabe um dia o que comandará será o melhor embasamento técnico e social.
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Talvez eu não tenha estruturado tão bem meus pensamentos, mas me livrei de passar mais de um mês sem fazer uma postagem sequer. Écrit, mon fils, écrit!

30 de junho de 2011

Hobbies e Ociosidade

O ócio, isto é, descansar, vagar; a inação, a moleza, a suavidade agradável; um privilégio da vida folgada, que se distingue de seu oposto, daquele que nega o ócio, pelo trabalho – que para nós, brasileiros, majoritariamente assume o sentido original de sacrifício ou tortura –, pela labuta, que nada lembra o lazer e aliena, segundo a corrente marxista. Sociedade que define papéis sociais aparte da existência plena e total do cidadão, ao contrário dos indígenas e primitivos, que tudo misturam– vida espiritual, produtiva, material e social.
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Mas o discurso para convencer os “colaboradores” é de integração, de equipe, de realização a partir do esforço em garantir o lucro e melhorar a organização. Vontade modelada e moldada para todos serem mais uma das peças do sistema e da ordem (pré)estabelecida de cima para baixo. Formas inconscientes de comportamento em mensagens sublimadas e subliminares pela coação das expectativas do mercado. Como no esporte, o importante é vencer e ter sucesso, quando o fato é gostar de ser marionete. Mesmo com a alienação industrial, seria ingenuidade pensar que não haveria efeitos colaterais no indivíduo. Durante o tempo livre, ele continua amortecido e condicionado a seguir a marcha da retórica conservadora. Liberdade organizada, vigiada e estressada, concordo... Não, como assim?!
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Ou vive-se para trabalhar ou trabalha-se para gastar em diversão, bem é verdade que para os privilegiados que podem fazer sobrar dinheiro após os gastos com contas e demais obrigações diárias e mensais. Contudo, até mesmo os pobres se sentem pressionados em gastar com coisas que não sejam indispensáveis à sobrevivência, então muitos acabam se endividando. A adrenalina sentida ao usufruir de seus hobbies muitas vezes é argumento suficiente para os gastos extravagantes. Torna-se um vício que dificilmente se consegue se desfazer, um tema ubíquo das conversas tolas. É o entretenimento, o hedonismo, como o sentido da vida, um sinal claro e simbólico do esvaziamento ontológico da sociedade ocidental. Essa obsessão e paranoia tende a ser vista como psicopatologia, mas é claro que todos precisam de lazer, a prática de atividades relaxantes inspira e afasta a melancolia.
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O hobby torna-se o “matar o tempo”, que sem dúvida mata as pessoas, em contrapartida. Tudo delimitado e burocrático como a vida no escritório, na oficina ou na fábrica. Para se adaptar deve-se renunciar à fantasia, sendo mais objetivo e menos subjetivo. Norma voluntariamente aceita de que a carreira e os planos devem permear as demais áreas da vida. Afinal, tempo é dinheiro, deve-se correr atrás do lucro e fugir do prejuízo. Ué, cadê a tal folga? Ética protestante que sempre vê com maus olhos a vadiagem, a miséria, a inutilidade e até mesmo o avarento ou poupador, pois o objetivo da vida é o sucesso e a salvação, claro que através da grana, a si e ao senhor, e não por meio da contemplação e do repouso monetário.
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A indústria cultural precede o gosto da massa popular, regulando seus hábitos e inculcando o sonho da fama; ela compensa a morte de Deus com outros ídolos, cada vez mais coisificados; de preferência exclui-se o gosto pela reflexão, revertendo o esforço durante o lazer em aborrecimento. Ou então sensacionaliza, para que o pacato cidadão se sinta representado e tenha exposta a sua indignação à violência que sofre diariamente. Pois bem, isso não passa de fuga sadomasoquista. Fica a pergunta: onde são localizados os interesses pessoais, livres de influências hipnotizantes da grande mídia?
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Propaganda, pressões de colegas, da vaidade forjada e da mídia onipresente que idiotizam ao dirigir a felicidade à aparência, ao supérfluo e ao consumo. Que cada um pense que faz o que tem vontade, no mundo liberal, todavia a ilusão é espalhada por esses mecanismos suplementares de controle e manutenção do status quo. Diversão superficial que é inventada em prol da produtividade; massa adestrada que nunca se realizará, visto que foi destruída sua capacidade criativa, não foi incentivada para se expressar autenticamente, restringe-se em imitar, ou a praticar artesanato, no máximo; cópias em série, o mais do mesmo, paródias, o lugar comum, que faz nascer o tédio, que logo é suprimido pelo surgimento e usufruto da moda da última semana. Tem-se a semiformação cultural através da padronização das condutas. Tudo é transformado em mercadoria, cada uma com seu preço justo, de oferta e procura. Ora, com essa comercialização perde-se o sentido desejável, autônomo e idiossincrático de reflexão, emancipação, espontaneidade e protesto.
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Nichos e mais nichos emergem como resistência e movimento alternativo (contracultura) às imposições do gosto dominante e monopolista. Porém, o objetivo desse imperialismo não é a formação qualitativa do sujeito, pensante e atuante, mas o seu oposto – a mera quantidade. A fim de evitar as cíclicas crises capitalistas, estimula-se a compra de inovações tecnológicas e científicas, que deixa todo mundo abismado com tamanho progresso; é nítida a aura de superioridade de quem tem acesso aos últimos modelos, à última geração, a sua vaidade é gananciosamente alimentada.
O que é pop precisa ser veloz, imagético e evitar o espírito crítico, afinal o seu conteúdo é o que menos importa. A censura ocorre de forma sutil, com a exposição maçante apenas do que é vinculado aos interesses dos patrocinadores. Tenta-se produzir objetos diferentes, mas que serve apenas para cada um de nós se sentir pressionado a se inserir em um rótulo específico e afirmar a sua identidade, claro que falsificada. Como esse sujeito bestificado é incapaz de se governar, ele se limita a digerir, grosseiramente, o que vem de fora e a repassar aos outros a batata quente, sem se expressar.
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P.S.: Post inspirado em vivências e observações, é claro, e também no texto de T. Adorno “Tempo Livre”.
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17 de junho de 2011

C'est ma vie, chérie

Relações são jogos de poder, sejam eles implícitos ou explícitos, intensos ou sutis, com discursos de defesa prolixos ou lacônicos. É certo que divergências, e com elas os conflitos, emergirão. E atenção ao afã de se expressar, ao calor do momento, às faíscas da raiva, que não devem resultar, no porvir, em arrependimentos.
Confiança é algo que se constrói ao longo prazo, stone by stone, step by step, e que desmorona em um único erro, que nem precisa ser grosseiro e crasso. Voltar a confiar como antes não existe, pois temos memória, e as sentimentais são as que mais demoram a fluir corredeira abaixo.
Há segredos que não devem ser compartilhados, não há onisciência, logo não há porque querer saber de tudo. Nem mesmo o dono do sigilo irá se lembrar de tudo o que houve; laissez-faire, laissez-passer.
Envolvimentos podem ser profundos ou serenos, porém quem sofre deseja modificar o outro, para embarcá-lo em sua trajetória sentimental, ou ambos chorarão ou ambos comemorarão. Pois é, todos somos egoístas, gostamos de compartilhar os prazeres e os desalentos. Todo mundo erra.
Não abro mão de minha liberdade, mesmo sabendo que ela é sempre limitada, pois é, vigilância é uma prisão. Restringir meus movimentos é amputar a minha perna; sofro com isso, tenho formigamentos em partes perdidas; vale a pena abrir mão de tudo em nome da liberdade, sinônimo de existência?
Necessária solidão, a vontade de ficar só e não apenas de se sentir sozinho, que poucas vezes foram efetivadas e que aparentemente será nada além de um sonho perdido. Alguns apreciam a exclusiva companhia da própria sombra, enquanto outros sofrem sem ter quem abraçar ou com quem conversar. Sim, para muitos o ostracismo é a maior pena que se pode imputar.
Preocupações práticas destroem sonhos teóricos, hipóteses e fantasias. A práxis nos torna burgueses. O pão e a carne de cada dia é indispensável ao pensamento. O tempo à contemplação e ao ócio criativo fica cada vez mais reduzido, e pior, contestado! Pressões do ambiente quase nos convencem de que o mundo etéreo e abstrato das ideias é tolice.
Compromissos e obrigações com pessoas, animais, plantas, casas e textos – adulto é responsabilizar-se. Sociedade de adultos infantilizados e de crianças sem infância completa nos faz repensar valores. Seria bom poder escolher com o que se preocupar e ocupar, contudo não há plenitude, somos encurralados e as decisões são de qualquer modo tomadas.
Quais objetivos são inflexíveis, quem sabe como será o futuro? Há planos, mas num ambiente aberto e em constante mudança, as situações são adaptadas às vontades. Ainda não sei direito o quero, mas estou fazendo o devir, cotidianamente, algum dia saberei exatamente para onde vou? De qualquer maneira vagarei, se estiver vivo e saudável.
Ao segurar a mão fria eu me lembro de que ela morrerá para mim se a deixar partir, não tornaria a segurá-la, o que trava ímpetos de desistência. Nonada, viver é assaz perigoso, a morte está em todo lugar.
Após a partida, o tempo e os sonhos curarão a dor, mas saiba que personalidades não mudarão. Pessoas mudam, mas o que elas são, seu valores éticos e morais pouco se alteram, então.
Os sentimentos imanentes de quem é ou se faz de indiferente são genuínos ou manipulados para evitar constrangimentos? Parceiros se manipulam reciprocamente. A cultura também ensina a se ter emoções.
Sentimento de carência exige afetos para contrabalançá-lo. O que é desejável: diminuir a carência para não necessitar mais de tanto afeto ou aumentar as demonstrações de afetividade para reduzir a carência que sempre volta? E o perigo de se tornar mania e obsessão? Frieza e distanciamento seria uma boa solução. Todavia, quem deseja um mundo de pessoas com déficit de carinho? Seriam infelizes ignorando o motivo de suas tristezas, isto é, uma sociedade doente e deprimente.
Excesso de carência resulta em nervosas doenças, fico cansado de exigências, deixe-me curtir a decadência. Tenho direito a tomar líquidos banais e a dialogar com amigos superficiais. Aprendi a aceitar a mediocridade, apesar disso impedir a plena felicidade.
Uma família deveras coesa pode ser motivo de alegrias e de tristezas, abdica-se de si em nome da união, devo ambicionar esse turbilhão? Bem, somente quando estiver preparado, enquanto isso, é melhor ficar parado.
A linguagem corporal não mente, exceto para aqueles que foram treinados a mascará-la. Mas quem aprendeu a reconhecê-la? Por livros ou por intuição muitos conseguem captar sinais além da gramática e das palavras explícitas. Eu não sei mentir direito e não sei identificar mentiras, sou um ingênuo, minha saída é desconfiar, ser cético, sempre. Sei que não sou desenvolto socialmente, precisei racionalizar para entender os humanos, enquanto a maioria os compreende instintivamente.
Defendo o ceticismo e o método científico contra as religiões e as crenças infundadas. Pelo embasamento de argumentos ao alcance de verdades, mesmo que provisórias. O real só é válido se for legítimo. Ainda assim, é preciso conceituar, por vezes toscamente, para se ter alguma segurança, contanto que seja com método e não pela fé ou por mitos.
Tolerar ou toler: quem cede se ilude com as mudanças que não virão, e quem impõe impede idiossincrasias, que são qualidades para um e defeitos para outro, de se manifestarem. No desespero aceitamos tudo, todavia as frustrações são inevitáveis. Individualidades devem ser admiradas, amar não é tolerar, é se apossar de tudo, é por isso que só as almas gêmeas têm amor-paixão.
Uma parte oferece lições de desapego, enquanto a outra oferece lições de maturidade, nesse cabo-de-guerra o crescimento acontece. Porém, os fins se aproximam à muralha, como saber quando um ciclo terminou? A inefável admiração mútua dos corpos e de atos sustenta levemente quaisquer insinuações de derrocada.
Um desligamento automático é impossível entre os espíritos, a energia continua a conectá-los, e vai se arrefecendo e obliterando com o tempo e com a distância até restar apenas a partícula da lembrança. Entretanto, todo começo, bem como todas as transições, é difícil. A resiliência e a entropia negativa adaptam o corpo à nova realidade até se transformarem em aconchego, que é novamente rompido pela inserção de outra fonte calor no ambiente fechado.

26 de maio de 2011

Seu Peru não morreu!

Espírito Anão

O anarquista narcotizado,
Com seus olhos de defunto,
Trazem-no almas levianas
Mais o espírito anão

Ser, estar e parecer,
Em repouso permanecer.
Transeunte em ligação -
Predicados prejudicados

Locução, ora objeto direto,
Ora diretriz indireta;
A gramática, enquanto tal,
Tornada sintaxe fatal

O ímpio ignora a gnose,
Vez não ser um asceta.
A seita aceita o agnóstico:
Ceticismo profético

Mentes versadas aprendem
Semântica ou semiótica,
Mas robôs, zumbis e autômatos
Não apreendem a eubiótica


Maturidade não sobremaneira

Pensa-se que se é, pode ser,
Em parte se é, só, mas não o todo;
Ademais, se é a menos, ou a mais.
Julga-se do mármore ou do lodo

Menos reclamações, mais conselhos,
Impaciência perdida, por apelos.
Uma discussão não é para ser ganha,
É para embasar futuros argumentos –
Acumulações em processamento

É sério, firme e confiante
O equilibrado circunspecto
Da diplomacia agora amante
Adquiriu luzidio aspecto

Se disser possuir pleno exercício
De suas mentais funções, equivoca-se;
Erra, então, em seu lugar recoloca-se,
A hora de aprender é nesse interstício

Como se livrar ou se lavar,
Ser autônomo ou ser autômato
Se para nós não há sol a sós?

Oh, ledo e tolo independente,
Somos da dependência carente.
Com responsabilidade existencialista
Da sociedade o progresso assista

Porém, ‘inda insistem em lhe dizer
A tomar o caminho da virtude:
Os grilhões da moralina habitual
Todos os papéis sociais urdem

Cresce, a inocência cessa de ter
E a alegria da ignorância juvenil.
Labutou, inferiu e se precaveu,
Cidadão feito, seu sonho fugiu!

Negou, renegou e relegou
Ao subsolo as intempéries.
Foi dialético e se felicitou
Com as recém contraídas peles


P.S.: 2 anos de blogagem. Oba!...

18 de maio de 2011

Hatred is all around

Administração da Raiva

A raiva, o ódio pelo sofrimento
Erupções: externar o peso alivia
Pressões irrefreáveis dos tormentos
Única saída é pela rebeldia

Batalhas internas, explodem granadas
Respinga a violência em pessoas paradas
Ofensa, injúria, heresia e grosseria
Insolentes agressões feito epidemias

Alegria esvaída em ruínas
As catástrofes autoritárias
Aviltam a elite, agora pária
Triste derretimento da platina

Ser vil não pode ser conveniente
Quem é com a derrota conivente?
Saber perder e se manter sereno,
Somente o monge está sempre vencendo

Impropérios ditos fora de si
Provêm as desculpas e os pesares
Por vezes falsos como os dos farsis
Encosto é embuste dos populares

Quais dos objetos é a causa da raiva?
Qual ressalva é para manter a calma?
Os valores impedem a venda d’alma
Contudo, ainda cai a pesada saraiva

Instinto hostil e rude erode e domina
Perverso tal qual o sol sobre a melanina
Embrutece, envelhece, aquece e apetece
É-nos, porém, indispensável alicerce

O que faz animar a explosão incendiosa?
Justifica-se a detonação insidiosa?

A paz é sempre preferível à guerra?
Pretere-se a que menos potência emprega
A vida vilipendia o odioso homem
Que esse fastidioso as parcas assombrem


P.S.: Tudo isso para dizer "Puta que o pariu, vai tomar no cu!"

28 de abril de 2011

À droite e à gauche

Efeito de perspectiva; dos ruídos da aparência a oitiva. Ambiente que, em sua variedade, invariavelmente, a vários muda a mente. Avançar em idade, o que muitos, cometendo um equívoco, generalizam em maturidade.
Quem se satisfez ou se acomodou com seus objetivos ou suas metas – como se em viver houvesse finalidade, mesmo que específica a cada vivente – guinou à direita. O jovem é sonhador, falange de hormônios em conflito que supõe-se tender a revoluções; angústia que rebela. Basta dar-lhe pequenos desejos, ou basta a conquista de pequenas vitórias, que sua impaciência se reduz consideravelmente.
Faz-se exceção aos compulsivos e aos hospedeiros de outras psicopatologias que apetecem egos inseguros. Traumas de infância, que geralmente são provocados por infantis personalidades que ora protegem em demasia e ora exige em excesso; intervenções intempestivas e tempestuosas. Tempestades que parecem não acabar para quem não estava preparado para passar pelo olho do furacão.

Cobras matreiras que aprenderam e improved a eficiência da manipulação pela manutenção do status quo e da “ordem social”. Povo hedonista que se tranquiliza morbidamente com os prazeres alcançáveis, mas nem tanto, inventados e empurrados pelos publicitários de plantão.
Condicionamento concebido e concretizado por sacerdotes que se atualizam e se revezam no altar. É impressionante essa evolução de técnicas obtusas paralelamente à educação (quase) universal e ao intercâmbio exponencialmente crescente de informações e ideias. Todavia, mobilizações subversivas se arrefeceram, ou viraram clichês, ou ainda migraram para os sítios reclusos da grande rede mundial.
Ademais, a direita ruge e se diverte com o imobilismo da esquerda de ideias e ideais repetidos, quiçá arcaicos, mesmo que corretos, quem sabe apenas teoricamente, que, contudo, não se difundiram e se enraizaram na massa incauta, sedente e esfomeada por pragmatismo. Abstrações da teoria exigem atitudes e pensamentos como que transcendentes, num círculo de divinos e/ou oniscientes: “é certa coisa de outro mundo, meu filho”.
A cesta básica mensal e o conserto do fogão têm mais valor; o populismo é efetivo, pois sempre haverá alguém disposto a se deixar enganar e favorecer outrem, desde que resolvido seu problema momentâneo. E não faltarão raposas que retiram seu alimento instantâneo e sua riqueza consentânea da miséria alheia. Incômodo será quando esses animais de famintos olhos se aglomerarem e, sem limites, destruírem tudo em volta – espólios.
Porém, os impostos garantirão a sobrevivência dos predadores que descansam em piscinas; o turbilhão da crise dissipar-se-á, enquanto a base, e até mesmo o centro, da pirâmide paga as fichas da jogatina. E pode apostar que esse nocivo ciclo voltará a acontecer. Ninguém largará o osso voluntariamente, ainda mais se o seu vizinho (raposa, hiena, abutre?) estiver de olho em sua diversão.

O sonho metafísico do paraíso medieval foi estilisticamente transformado no sonho materialista americano (fama e grana). Efeitos colaterais dessas plásticas são secundários, irrelevantes, mundanos.
A fim de legitimar o processo, ciências são instrumentalizadas em prol do sistema defendido por seus operadores e seus investidores. Bem como é condicionada a massa popular a pensar como eles. Hoje é o “fique rico ou morra tentando”, antes era o “ora que melhora”, ou então “o salvador voltará”, entre outros slogans alucinatórios; ilusões que regozijam o poder. Perca-as!
Crítica, ceticismo, resistência e combate como contraponto à inércia transmitida pela corrente do sistema, em prol do conhecimento pessoal e interpessoal. Eis o lema.

14 de abril de 2011

De volta às reflexões toscas

O existencialismo humanista afirma que todos devem se responsabilizar, e não apenas por seus atos, mas como se cada ação fosse realizada visando a humanidade e o bem comum. Logo, a angústia será inevitável, pois além de carregar o fardo de sempre ser culpado, não haveria como o indivíduo saber se as escolhas tomadas, de fato, melhoraram a vida do próximo e dos incontáveis desconhecidos. O livre-arbítrio é tido como irredutível, o homem é condenado à liberdade, não se admite justificativas ou desculpas pelos atos, ou seja, todas as pessoas têm consciência plena das circunstâncias e de suas decisões. E são sempre culpadas.
Ora, então não existe qualquer tipo de determinismo e nem se admite que pressões sociais, históricas ou políticas como condições superiores ao poder individual que, por vez, pode tecer a “linda” teia da humanidade. Portanto, ninguém pode fazer quaisquer concessões para ter benefícios, pois comportamentos radicais são restritivos. Pode-se chamar esta doutrina de estoica? É uma ética dicotômica, ou tudo está conforme se pensa e idealiza como justo e correto, ou deve-se optar pela abstenção, para não cair em hipocrisia. Pois bem, quem é que consegue ser um monge hoje em dia?
As paixões, o id, são maiores que nosso autocontrole, quem as reprime restringe sua capacidade de gozar a vida, e privilegia o logos em detrimento da vontade, que na verdade nos comanda. Acredito que decidimos antes de tomarmos consciência disso e que não há pensamento desinteressado. Porém, como adivinhar qual era a intenção, original, e de onde ela partiu? Somos passíveis de decifração, apenas não surgiram métodos filosóficos, ou antropológicos, ou neurológicos, suficientemente complexos para responder mais satisfatoriamente às idiossincrasias do homem.
A mentira e a tolerância caminham juntas, e como não há metafísica, não há dívida moral ao alcance de objetivos que impeça de se servir de meios em que ninguém se machuca ou perde. Eu mando o imperativo categórico para o lixo, afinal tudo é contingencial e hipotético, valores e princípios devem ser relativizados. O mundo das virtudes é platônico, kantiano, hegeliano – cristão; a práxis exige mais ação instintiva e menos hesitação moralista. Não há bem ou mal, há sucesso ou fracasso. Os dilemas emergem e não há resposta exata para eles. O que há são evidências e decisões baseadas em probabilidades.
A política é o jogo dos interesses, alguém – ou quem sabe todos – ficará insatisfeito, ou pelo menos não plenamente contente. Porém, a algum acordo, a alguma decisão, se chegará; a democracia é a maneira mais legítima de se estabelecer consenso. É claro que os nossos representantes políticos não espelham como a sociedade deveria ser, e muitas vezes nem o que ela é, mesmo em perspectiva de segmentos ou de nichos, contudo foram as peças postas à mesa, que melhorias sejam feitas. A menos que aconteça uma revolução, que na grande maioria das vezes é frouxa, visto que é deposta por outra, convivamos.
Fino equilíbrio, quem melhor agradar o povo, ou convencer de que está agradando, mais tempo ficará no poder. Os caminhos do indivíduo e da sociedade sempre se cruzam, todavia pensar que um ser humano que não se encontra no topo da pirâmide mude o mundo, como a fábula do beija-flor apagando incêndio, é prepotência. Pense globalmente, aja localmente. Mas, de fato, a mobilização tem um certo poder de provocar mudanças. Que cada um carregue o peso de seu mundo, e seja proporcionalmente fiscalizado por isso; chega da exigência de uma nação de Atlas.
Fatídico político sem mediador. A hierarquia continuará a existir, e a justiça, no caso, consiste em distribuir as benesses e as cobranças gradativamente, com punições burocráticas, além do inevitável julgamento subjetivo e efêmero do público. Contra a homogeneidade. Por um egoísmo responsável e por uma distribuição meritocrática e ligeiramente solidária de riquezas. Que os economistas respondam qual é o melhor modelo a ser adotado e que os cidadãos elejam quem os beneficie.
Bem, o exposto pode não ser um sistema filosófico, está mais para um desabafo anárquico, porém, interpreto como um ensaio que defende mais a liberdade que a doutrina que critiquei acima, e que faz mais sentido cobrar pela responsabilidade individual. Como deveria ser definida a humanidade, ou o humano? Pelo pensar, pela razão que o permite dominar quem não a possui ou não a utiliza? Tamanhas análise e racionalidade enxergam o mundo mecanicamente. Os instintos e os sentimentos também têm direito à liberdade. Somos mais prisioneiros do que homens livres. Nossa mente ainda não atingiu o potencial suficiente para dispensar o corpo e ultrapassar os limites atuais do livre-arbítrio.


P.S.: Falei e ouvi demais durante as últimas semanas, então justifico minha ausência, até porque costumam ser as pessoas próximas a mim que leem este incongruente blog.