27 de agosto de 2011

Enquanto isso, no Café...

Entre burburinhos e risadaria:
- Hey brother, esse povo se expõe demais, é nítida a atitude dos mais jovens, que parecem achar que o mais importante é a imagem, querem a fama acima de tudo, mesmo sem terem talento, justificativa para o sucesso e base psicológica para alcançarem e sustentarem essa exposição, bem como o julgamento dos desconhecidos que isso acarreta.
- Concordo contigo, por medo e pela superficialidade das relações muitas pessoas crescem com déficit de caráter e sem formação ética do que é uma sociedade forte; então, vemos os juvenis mostrando suas intimidades a quem não lhes interessa realmente, enquanto se fecham a quem deveria realmente importar. É como se julgassem que o outro também se satisfizesse com a falta de profundidade, pois é conveniente perceber as qualidades que cada indivíduo acha que possui e escolhe transmitir, ficando a vaidade confortável com o mundo da aparência e com os defeitos todos escusos, supostamente.
- Pois é, pois é, são juvenis e incautos... Como se não houvessem símbolos inconscientemente transmitidos, ou ainda, como se cada significante não formulasse sua própria verdade, que inevitavelmente é diferente de quem a comunica. Muito por culpa da mídia, esse reino de duas almas contrapostas, a busca pela verdade sem hipocrisias, e a busca pelas matérias que rendam anunciantes e mais vendas.
- Ah, a mídia, essa rainha do segredo aplicado, que informa e também desinforma, mas que, sem dúvida, forma um mercado leitor-consumidor, ávido pelo prazer das notícias e que alimenta e é alimentado pelas corporações marqueteiras. São negociantes e clientes com almas despedaçadas, com astigmatismo, impossibilitadas de ver além do aqui e agora.
- Sim, conseguir enxergar a médio e a longo prazo é um talento restrito, nossos ancestrais se contentavam em planejar o sustento da semana. O imediatismo, a fugacidade e o hedonismo devem lidar com o tédio, a preguiça e o vazio a que somos estimulados, num mundo onde quase todos os valores ruíram. O que restou? O individualismo e a necessidade de pertencer a um grupo idiota qualquer para poder ser rotulado de descolado e participativo. Porém, o interesse de fato na solidariedade e na construção gradual de uma sociedade mais sólida em termos econômicos, técnicos, de qualidade de vida, de maior equidade social e de formação ética e educacional fica para os velhos e tiozinhos de cabelo branco que em algum lugar mandam no mundo.
- Perceba, quem é que consegue enxergar e olhar claramente além de 50 anos? O homem e as sociedades foram se formando com o passar de muitos anos e nós mesmos somos agentes de transformação delas; querendo ou não repassamos valores, e se não os contestamos, ficamos coniventes com o presente que nos é imposto, jogando a culpa na tradição. O mundo continua a fluir e continuará desse modo enquanto houver vida, porém o humano é o que mais teve poder e possibilidade de mudá-lo, e com as tecnologias atuais pode mudar quase tudo, a seu bel-prazer; grande perigo que deve ser remediado com profundas reflexões éticas de pensadores, juristas e especialistas do momento.
- É, mas a ciência não tem resposta para tudo; ela se roga como a maior autoridade do momento, cadeira que antes era dos teólogos e dos sacerdotes, e pensa legitimar todas as verdades advindas dela, esquecem os cientistas que mesmo a fria e insensível lógica, e demais processos científicos, são construções humanas, portanto passam por questões morais e éticas, que relativizam as verdades. As conclusões sempre serão passíveis de dúvida e de suspensões de veredictos.
- Gosto dessa abordagem, a ciência sempre será humana, porém não é suficiente às vivências rotineiras, cabe às religiões, às artes e às filosofias esse papel de dar sentido à vida, tanto em comunidade quanto isoladamente, na medida do possível. Você já conhece minha postura crítica, polêmica e restritiva à religião – quero evitar me delongar ainda mais sobre ela; através da arte cada pessoa poderá explorar aspectos da própria vida e expor sua perspectiva da realidade, se permitindo abrir ao mundo e engajando outras pessoas a fazerem o mesmo: que todos sonhem, inventem, trilhem seus caminhos e sejam criativos, há infinitas maneiras de fazer e de perceber algo, porque continuar a repetir, a repassar, sem ruminar, o que foi recebido? Numa linha semelhante encontram-se as filosofias, elas traduzem em linguagem mais racional, esquematizada e metafórica essa atitude artística da vida, respeitando e estimulando a liberdade, as singularidades e subjetividades de cada ser, admitindo realidades paralelas e pensando nas implicações éticas e políticas de tamanhos interesses, diversos e difusos.
- Depois dessa aula, preciso tomar um gole deste líquido precioso (glup, glup). Ahhh! Pensam que os juízos moldam nossos desejos e anseios, mas ocorre o oposto. É a armadilha de ser racional demais, quer-se aperfeiçoar e acaba com o efeito inverso, de se sair prejudicado. Essa lógica instrumental destrói a auto-conservação, passa-se a viver um pesadelo, que gera emoções negativas, viciosas. Emoções positivas, que dão alegria, bem-estar e maior ligação com a natureza e a vida social é que deveriam ser almejadas, também penso que a arte e a inversão de valores nocivos à experiência corpórea e intelectual sejam um bom caminho a ser perquirido.
- É, às vezes temos insights maravilhosos que dificilmente são expressos em linguagem vulgar ou comum, mas eles são sensações únicas, quando a terra se abre e o véu de Maia é retirado; apenas o indivíduo consegue entender, e aqueles poucos mais desenvoltos em simbolismos alternativos conseguem explicar e traduzir esses signos tão pessoais. Ocorre então uma emancipação, uma salvação, uma autonomia, por um meio aparentemente egoísta, mas que é compassivo, pois há o desejo de que outros tenham o sentimento de pertencer à humanidade e de sublimar a existência, e sem moralismos!
- Sei, é como se conseguíssemos parar o tempo, retroceder e avançar o olhar e então se orgulhar da própria vivência e da tentativa de melhorar o mundo. A liberdade esclarecida e o existencialismo que se abre à alteridade, sem enterrar a metafísica – sem recorrer a um materialismo radical que tudo objetiva e quer arrogantemente controlar –, admitindo fluxos, choques e afetos, como uma saída, mesmo que provisória, isto é, transitória a certas fases da vida, contudo satisfatória aos tormentos emocionais e às assustadoras contradições racionais. Não que esses terríveis fantasmas desapareçam de uma vez por todas, mas descansarão toda vez que se recorrer às livres meditações esclarecidas e solidárias.
- Eu gostaria de me dividir em quatro (um para estudar, outro para trabalhar, mais um para se divertir e outro para se relacionar), a fim de continuar essa construtiva e fluída conversa que tivemos, mas como sou apenas um, devo ir embora e cuidar da vida, até mais, valeu.
- Até mais ver, obrigado pela conversa de nível.

25 de agosto de 2011

Apenas duas opiniões (doxas)

1 - Questões metafísicas persistem, as neurociências, que passaram a assumir o encargo (momentâneo) da filosofia contemporânea, o de acabar de uma vez por todas com a agourenta metafísica (para os lógicos, racionalistas e materialistas), parecem se julgar – sem qualquer modéstia – detentoras da teoria de tudo, assim como ramos especulativos da física, que já dão sinal de desistência dessa empreitada hercúlea, para não dizer onipotente. Basta aceitar o perspectivismo e a psicologia tradicional, que admitem subjetividades únicas, que por vezes são classificadas no mesmo rótulo ou padrão apenas por analogia, uma necessidade imperativa da nossa lógica maníaca.
Se fossemos apenas a matéria, ou seja, o cérebro destituído de mente/alma/espírito, um conjunto, mesmo que complexo, de processos físico-químicos, estaríamos reduzidos a um órgão, isto é, o eu, o indivíduo, o ser humano, seria a sua massa encefálica, e qualquer afirmação no sentido de efetuar projeções, imaginações e ideologias seriam quimeras de um maluco metafísico; que coisa ultrapassada há tanto tempo! E olha que quem simplificava e reduzia em generalizações interessadas a realidade (aparente e/ou efetiva) eram os primeiros cientistas e pensadores. Sugestões e conclusões oferecidas por filósofos da mente devem servir como contraponto ao reducionismo acima criticado, a fim de compreender melhor o que é humano, que com certeza é mais do que algoritmos e gráficos extraídos de ressonâncias magnéticas.
Enfim, eu defendo que temos que acreditar em alguma coisa, pois o cinismo e o ceticismo, que são radicais no sentido estrito, ficam parecendo atitudes de idiotas, um escapismo, uma avocação de posturas supremas, porém sem sentido, apesar do rigor lógico intrínseco a essas correntes de pensamento. Porém, o homem não é uma máquina que só executa ordens, mesmo que internas (da própria psiqué), é preciso conviver com as contradições, oras; só os tolos desejam e advogam nunca cair em paradoxos. Afinal, o princípio da não-contradição não resolve problemas existenciais, um pouco de pragmatismo é importante.

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2 - Em problemas e realidades tão atuais e recentes, sob mudanças e transformações provenientes especialmente da rápida evolução tecnológica e das invenções e traquinagens que mais servem para fins hedonistas do que utilitários à sociedade em geral – leia-se desfavorecidos de primeiras necessidades –, velhos hábitos, antigos conceitos, ultrapassadas práticas, deslocadas atitudes, noções démodés, todos eles permanecem, portanto não realizam efetivas mudanças. Assim como a legislação não acompanha, na mesma velocidade, as mudanças sociais, as pessoas não se associam ao avanço técnico das máquinas e teorias científicas, mundos paralelos emergem e submergem continuamente.
Na tentativa de pensar sobre temas demasiado contingentes, autores elaboram teses e expõem conclusões incipientes, que pululam a toda hora, dessa forma é possível que diminua o hiato entre o que acontece e o que é inferido historicamente (de forma verdadeira), devido ao crescimento exponencial do número de análises – mesmo eu sabendo que quantidade não significa necessariamente qualidade. Todavia, é óbvio que antes de dez anos nenhuma tese se solidifica, se surgem obras que influenciam fortemente alguma área do saber, é de se desconfiar, é provável que houve um mero comportamento de manada.
A aparência, que no mundo da imagem parece ser tudo o que pode haver (num primeiro momento), domina e influencia; afinal, instintivamente tendemos a favorecer os apelos visuais, e quanto mais chamativos eles forem, mais a memória atuará em esforço conjunto com as específicas redes neuronais para guardar a lembrança, e os sentimentos e seus hormônios correlatos atuarão identicamente, para que deem a impressão de lembranças vivas e frescas, quando de seu resgate. É o mundo da pose que insiste em se sobrepujar ao senso crítico. Contudo, sobre a prevalência dos sentidos ou da razão abstrata, fico com o antigo ditado “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”.

30 de julho de 2011

2 para manter a média mensal

Regurgitar

Metafísica, que pode falsear memes,
Todavia reúne razão e episteme
A existência, com suas ontologias,
Parece, mas se difere das fantasias

Exprimindo o cinismo que me é peculiar,
O ceticismo que irrompe do particular,
O ateísmo, à minha reputação recorrente,
E as críticas sobre a forma e a matéria, mormente

Recuso, refuto, rejeito, regurgito
O que eles – incautos, sensíveis e ilógicos –
Chamam de alma, entidade ou sobrenatural,
O incorpóreo - sem matéria e espiritual

Talvez pela falta de fé eu me coroo;
Algumas verdades eu rotulo de ilusões
Há também o oposto e demais combinações.
Não julguem o fenômeno, assaz restrito,
De energia sem causa; entendimento, insisto!

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Apelo à estação

Divague sobre a nouvelle vague,
Divulgue-a sem pressa e sem vagar
Noviço, sem apelar a convícios,
Que atropela o serviço, sem vícios

A tentativa de instruir o menino,
De obstruir o malogrado destino
É a alternativa de destruir o fascínio
A fim de construir seu autodomínio

É sabido que a admoestação da libido
E do que mais for assim tão descabido
Será a manifestação do proibido
E a gestação dos que foram sucumbidos

Está, então, concebida a contestação
Do ressabido: tem-se uma infestação
De zumbidos do exibido e deslambido;
E uma prestação de contas do inibido

22 de julho de 2011

Devagar a Divagar

Veja bem, ou vejam bem, hoje divagarei, ou melhor, neste post escreverei sobre banalidades, sobre ideias difusas, ora confusas e obtusas, ora inertes ou meros flertes. A princípio este blog foi parido para que eu mesmo começasse a parir meus pensamentos, a fim de me conhecer melhor, principalmente, mas também para conhecer melhor o mundo, para tentar me expressar melhor e para me sentir bem melhor – pesos tendem a derrubar qualquer um, meu pessimismo precisou aprender a lidar com as adversidades.
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Ando escrevendo pouco, eu sei, ou então nem é tão pouco assim, mas como tenho lido coisas tão diversas e interessantes, acabo sentindo que escrevo menos do que eu gostaria. O fato é que estou conseguindo crescer sem a necessidade de me expressar por este meio, são por outras maneiras e não me disponho a elencá-las, at least not right now!
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Circunstâncias diferentes acabam levando a ideias e opiniões diferentes, é inevitável, estou apreciando a nova fase. Somos egoístas, porém as perspectivas me levam a compreender melhor os outros lados, as outras pessoas, os fatos passados, as minhas atitudes e conceitos; revejo e reflito; naturalmente as mudanças chegam, elas não são abruptas como parecem, perceba que as sementes explodem sob o chão, contudo a situação indicava que aquilo aconteceria, anyway, nós apenas teimamos e relutamos em aceitar o contínuo fluxo das informações e dos organismos. Êtes vous plus Zen.
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Meu niilismo foi superado, continuo contestador e com opiniões peculiares, porém ânsia por um sentido da vida e a negação de todo e qualquer valor ficou para trás. Essa tendência de um ateu mandar tudo às favas e pensar em destruir porque nada está bom ou faz sentido são as turbulências da transição; todo começo é difícil, mas veja bem, toda mudança é um começo e uma continuação do que havia antes, o processo é dialético, os resíduos da construção anterior permanecem, sobretudo a cultura, os memes, as informações subjetivas, fluidos sutis que não desaparecem, no máximo obliteram após um longo tempo e árduo esforço de transformação.
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O existencialismo é uma salvação filosófica do vazio, do nada da contemporaneidade, e se oferece sem muletas, cada um se esforçará por uma vida autêntica, livre ao máximo de influências fúteis e tristes, com valores que vão fazer sentido a esta única pessoa: o ateu que acredita na vida e no progresso pessoal, social e da natureza. As pessoas não deveriam precisar das religiões, todavia num mundo de rebanho isso se faz necessário ainda, infelizmente, bad lucky for them. Porém, de filosofias o homem sempre será carente, pelo menos enquanto não se tornar máquina. Bem como ele precisa de ciência e tecnologia, mas com um dosador realístico, consciente de si, a fim de não se tornar um escravo de inovações muitas vezes supérfluas. E necessita, sobremaneira, da arte, não apenas para ver e apreciar, mas para se expressar e se esforçar em compreender a si mesmo emocionalmente e intelectualmente, afinal o ato artístico envolve lógicas e padrões, bem como o insconsciente e as intenções desconhecidas, ou ainda l’art pour l’art.
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Contatos, mesmo que superficiais com a sabedoria oriental me levaram a esse preenchimento. Lições importantes a um mundo globalizado pela dominação ocidental, em especial a do imperialismo americano, é claro. Pois bem, as influências dos EUA foram, majoritariamente, a do cristianismo protestante, a da democracia liberal e burocrática e a do capitalismo, com os judeus dando várias mãos para que ele vingasse bem. As filosofias orientais pouco se fizeram presente, até mesmo porque elas surgiram em cenários de restritos recursos naturais e em locais densamente povoados, o oposto do nascimento do USA. O resto da América acaba engolindo esse materialismo frio, consumista, contratual, competitivo, com um orgulho quase que tribal, e se esquece que isso tudo foi criado artificialmente e em muito pouco tempo, relativamente. Sabedorias de séculos, de milênios – sem correr o risco de proferir uma hipérbole –, não podem ser ignoradas, escamoteadas e escarnecidas, devem ser apreendidas; a vida não se faz só de dinheiro e status. Além disso, o cristianismo é, indeed, enganação e hipocrisia.
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Para finalizar, desviando do assunto, ou não, afinal também diz respeito ao tio Sam, queria expor rapidamente sobre a intolerância. Todos querem se sentir superiores; ser orgulhoso e vaidoso é natural no homem, nosso instinto bairrista, etnocêntrico e antropocêntrico nos inclina a se sentir bem onde estamos; os outros – “l’enfer c’est les autres” – são piores, uma vez que são “exóticos, profanos, ignorantes, amaldiçoados, infelizes” e termos depreciadores afins. A nossa ética nos diz para lutarmos por um mundo e uma sociedade na qual acreditamos, então rebaixamos quem não se comporta da forma correta idealizada por nós, que somos os outros também! Só que ser um moralista é cair no erro de legitimar os conflitos, pois as visões são inúmeras, então todo mundo que tiver uma opinião diversa poderá agredir seu oponente, o que é um absurdo.
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Agressões a gays, ateus, adúlteros ou mendigos nunca deveriam ocorrer, pois essas pessoas não ferem a dignidade e o direito de ninguém mais por serem assim, enquanto se abstiverem de provocar o próximo; a justiça e o revide são legítimos, mas não quando esta “agressão visual” choca os mais conservadores ou os sensíveis. Todos têm o direito de causar o mal a si (se o outro assim entender), pode até ser ultrajante alguns casos, como sexo explícito e jogatinas a céu aberto, porém, clubes e locais específicos devem ser liberados, pois há consentimento mútuo na participação de seus membros, logo não faz sentido proibir puteiros, cassinos, casas de swing, cerimônias gays de casamentos, entre outros atos, desde que sejam privativos, consensuais e dentro dos requisitos legais. A briga deve ser pacífica e nos argumentos. Lobbies ocorrem porque hoje o que manda é o dinheiro, mas quem sabe um dia o que comandará será o melhor embasamento técnico e social.
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Talvez eu não tenha estruturado tão bem meus pensamentos, mas me livrei de passar mais de um mês sem fazer uma postagem sequer. Écrit, mon fils, écrit!

30 de junho de 2011

Hobbies e Ociosidade

O ócio, isto é, descansar, vagar; a inação, a moleza, a suavidade agradável; um privilégio da vida folgada, que se distingue de seu oposto, daquele que nega o ócio, pelo trabalho – que para nós, brasileiros, majoritariamente assume o sentido original de sacrifício ou tortura –, pela labuta, que nada lembra o lazer e aliena, segundo a corrente marxista. Sociedade que define papéis sociais aparte da existência plena e total do cidadão, ao contrário dos indígenas e primitivos, que tudo misturam– vida espiritual, produtiva, material e social.
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Mas o discurso para convencer os “colaboradores” é de integração, de equipe, de realização a partir do esforço em garantir o lucro e melhorar a organização. Vontade modelada e moldada para todos serem mais uma das peças do sistema e da ordem (pré)estabelecida de cima para baixo. Formas inconscientes de comportamento em mensagens sublimadas e subliminares pela coação das expectativas do mercado. Como no esporte, o importante é vencer e ter sucesso, quando o fato é gostar de ser marionete. Mesmo com a alienação industrial, seria ingenuidade pensar que não haveria efeitos colaterais no indivíduo. Durante o tempo livre, ele continua amortecido e condicionado a seguir a marcha da retórica conservadora. Liberdade organizada, vigiada e estressada, concordo... Não, como assim?!
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Ou vive-se para trabalhar ou trabalha-se para gastar em diversão, bem é verdade que para os privilegiados que podem fazer sobrar dinheiro após os gastos com contas e demais obrigações diárias e mensais. Contudo, até mesmo os pobres se sentem pressionados em gastar com coisas que não sejam indispensáveis à sobrevivência, então muitos acabam se endividando. A adrenalina sentida ao usufruir de seus hobbies muitas vezes é argumento suficiente para os gastos extravagantes. Torna-se um vício que dificilmente se consegue se desfazer, um tema ubíquo das conversas tolas. É o entretenimento, o hedonismo, como o sentido da vida, um sinal claro e simbólico do esvaziamento ontológico da sociedade ocidental. Essa obsessão e paranoia tende a ser vista como psicopatologia, mas é claro que todos precisam de lazer, a prática de atividades relaxantes inspira e afasta a melancolia.
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O hobby torna-se o “matar o tempo”, que sem dúvida mata as pessoas, em contrapartida. Tudo delimitado e burocrático como a vida no escritório, na oficina ou na fábrica. Para se adaptar deve-se renunciar à fantasia, sendo mais objetivo e menos subjetivo. Norma voluntariamente aceita de que a carreira e os planos devem permear as demais áreas da vida. Afinal, tempo é dinheiro, deve-se correr atrás do lucro e fugir do prejuízo. Ué, cadê a tal folga? Ética protestante que sempre vê com maus olhos a vadiagem, a miséria, a inutilidade e até mesmo o avarento ou poupador, pois o objetivo da vida é o sucesso e a salvação, claro que através da grana, a si e ao senhor, e não por meio da contemplação e do repouso monetário.
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A indústria cultural precede o gosto da massa popular, regulando seus hábitos e inculcando o sonho da fama; ela compensa a morte de Deus com outros ídolos, cada vez mais coisificados; de preferência exclui-se o gosto pela reflexão, revertendo o esforço durante o lazer em aborrecimento. Ou então sensacionaliza, para que o pacato cidadão se sinta representado e tenha exposta a sua indignação à violência que sofre diariamente. Pois bem, isso não passa de fuga sadomasoquista. Fica a pergunta: onde são localizados os interesses pessoais, livres de influências hipnotizantes da grande mídia?
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Propaganda, pressões de colegas, da vaidade forjada e da mídia onipresente que idiotizam ao dirigir a felicidade à aparência, ao supérfluo e ao consumo. Que cada um pense que faz o que tem vontade, no mundo liberal, todavia a ilusão é espalhada por esses mecanismos suplementares de controle e manutenção do status quo. Diversão superficial que é inventada em prol da produtividade; massa adestrada que nunca se realizará, visto que foi destruída sua capacidade criativa, não foi incentivada para se expressar autenticamente, restringe-se em imitar, ou a praticar artesanato, no máximo; cópias em série, o mais do mesmo, paródias, o lugar comum, que faz nascer o tédio, que logo é suprimido pelo surgimento e usufruto da moda da última semana. Tem-se a semiformação cultural através da padronização das condutas. Tudo é transformado em mercadoria, cada uma com seu preço justo, de oferta e procura. Ora, com essa comercialização perde-se o sentido desejável, autônomo e idiossincrático de reflexão, emancipação, espontaneidade e protesto.
£
Nichos e mais nichos emergem como resistência e movimento alternativo (contracultura) às imposições do gosto dominante e monopolista. Porém, o objetivo desse imperialismo não é a formação qualitativa do sujeito, pensante e atuante, mas o seu oposto – a mera quantidade. A fim de evitar as cíclicas crises capitalistas, estimula-se a compra de inovações tecnológicas e científicas, que deixa todo mundo abismado com tamanho progresso; é nítida a aura de superioridade de quem tem acesso aos últimos modelos, à última geração, a sua vaidade é gananciosamente alimentada.
O que é pop precisa ser veloz, imagético e evitar o espírito crítico, afinal o seu conteúdo é o que menos importa. A censura ocorre de forma sutil, com a exposição maçante apenas do que é vinculado aos interesses dos patrocinadores. Tenta-se produzir objetos diferentes, mas que serve apenas para cada um de nós se sentir pressionado a se inserir em um rótulo específico e afirmar a sua identidade, claro que falsificada. Como esse sujeito bestificado é incapaz de se governar, ele se limita a digerir, grosseiramente, o que vem de fora e a repassar aos outros a batata quente, sem se expressar.
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P.S.: Post inspirado em vivências e observações, é claro, e também no texto de T. Adorno “Tempo Livre”.
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17 de junho de 2011

C'est ma vie, chérie

Relações são jogos de poder, sejam eles implícitos ou explícitos, intensos ou sutis, com discursos de defesa prolixos ou lacônicos. É certo que divergências, e com elas os conflitos, emergirão. E atenção ao afã de se expressar, ao calor do momento, às faíscas da raiva, que não devem resultar, no porvir, em arrependimentos.
Confiança é algo que se constrói ao longo prazo, stone by stone, step by step, e que desmorona em um único erro, que nem precisa ser grosseiro e crasso. Voltar a confiar como antes não existe, pois temos memória, e as sentimentais são as que mais demoram a fluir corredeira abaixo.
Há segredos que não devem ser compartilhados, não há onisciência, logo não há porque querer saber de tudo. Nem mesmo o dono do sigilo irá se lembrar de tudo o que houve; laissez-faire, laissez-passer.
Envolvimentos podem ser profundos ou serenos, porém quem sofre deseja modificar o outro, para embarcá-lo em sua trajetória sentimental, ou ambos chorarão ou ambos comemorarão. Pois é, todos somos egoístas, gostamos de compartilhar os prazeres e os desalentos. Todo mundo erra.
Não abro mão de minha liberdade, mesmo sabendo que ela é sempre limitada, pois é, vigilância é uma prisão. Restringir meus movimentos é amputar a minha perna; sofro com isso, tenho formigamentos em partes perdidas; vale a pena abrir mão de tudo em nome da liberdade, sinônimo de existência?
Necessária solidão, a vontade de ficar só e não apenas de se sentir sozinho, que poucas vezes foram efetivadas e que aparentemente será nada além de um sonho perdido. Alguns apreciam a exclusiva companhia da própria sombra, enquanto outros sofrem sem ter quem abraçar ou com quem conversar. Sim, para muitos o ostracismo é a maior pena que se pode imputar.
Preocupações práticas destroem sonhos teóricos, hipóteses e fantasias. A práxis nos torna burgueses. O pão e a carne de cada dia é indispensável ao pensamento. O tempo à contemplação e ao ócio criativo fica cada vez mais reduzido, e pior, contestado! Pressões do ambiente quase nos convencem de que o mundo etéreo e abstrato das ideias é tolice.
Compromissos e obrigações com pessoas, animais, plantas, casas e textos – adulto é responsabilizar-se. Sociedade de adultos infantilizados e de crianças sem infância completa nos faz repensar valores. Seria bom poder escolher com o que se preocupar e ocupar, contudo não há plenitude, somos encurralados e as decisões são de qualquer modo tomadas.
Quais objetivos são inflexíveis, quem sabe como será o futuro? Há planos, mas num ambiente aberto e em constante mudança, as situações são adaptadas às vontades. Ainda não sei direito o quero, mas estou fazendo o devir, cotidianamente, algum dia saberei exatamente para onde vou? De qualquer maneira vagarei, se estiver vivo e saudável.
Ao segurar a mão fria eu me lembro de que ela morrerá para mim se a deixar partir, não tornaria a segurá-la, o que trava ímpetos de desistência. Nonada, viver é assaz perigoso, a morte está em todo lugar.
Após a partida, o tempo e os sonhos curarão a dor, mas saiba que personalidades não mudarão. Pessoas mudam, mas o que elas são, seu valores éticos e morais pouco se alteram, então.
Os sentimentos imanentes de quem é ou se faz de indiferente são genuínos ou manipulados para evitar constrangimentos? Parceiros se manipulam reciprocamente. A cultura também ensina a se ter emoções.
Sentimento de carência exige afetos para contrabalançá-lo. O que é desejável: diminuir a carência para não necessitar mais de tanto afeto ou aumentar as demonstrações de afetividade para reduzir a carência que sempre volta? E o perigo de se tornar mania e obsessão? Frieza e distanciamento seria uma boa solução. Todavia, quem deseja um mundo de pessoas com déficit de carinho? Seriam infelizes ignorando o motivo de suas tristezas, isto é, uma sociedade doente e deprimente.
Excesso de carência resulta em nervosas doenças, fico cansado de exigências, deixe-me curtir a decadência. Tenho direito a tomar líquidos banais e a dialogar com amigos superficiais. Aprendi a aceitar a mediocridade, apesar disso impedir a plena felicidade.
Uma família deveras coesa pode ser motivo de alegrias e de tristezas, abdica-se de si em nome da união, devo ambicionar esse turbilhão? Bem, somente quando estiver preparado, enquanto isso, é melhor ficar parado.
A linguagem corporal não mente, exceto para aqueles que foram treinados a mascará-la. Mas quem aprendeu a reconhecê-la? Por livros ou por intuição muitos conseguem captar sinais além da gramática e das palavras explícitas. Eu não sei mentir direito e não sei identificar mentiras, sou um ingênuo, minha saída é desconfiar, ser cético, sempre. Sei que não sou desenvolto socialmente, precisei racionalizar para entender os humanos, enquanto a maioria os compreende instintivamente.
Defendo o ceticismo e o método científico contra as religiões e as crenças infundadas. Pelo embasamento de argumentos ao alcance de verdades, mesmo que provisórias. O real só é válido se for legítimo. Ainda assim, é preciso conceituar, por vezes toscamente, para se ter alguma segurança, contanto que seja com método e não pela fé ou por mitos.
Tolerar ou toler: quem cede se ilude com as mudanças que não virão, e quem impõe impede idiossincrasias, que são qualidades para um e defeitos para outro, de se manifestarem. No desespero aceitamos tudo, todavia as frustrações são inevitáveis. Individualidades devem ser admiradas, amar não é tolerar, é se apossar de tudo, é por isso que só as almas gêmeas têm amor-paixão.
Uma parte oferece lições de desapego, enquanto a outra oferece lições de maturidade, nesse cabo-de-guerra o crescimento acontece. Porém, os fins se aproximam à muralha, como saber quando um ciclo terminou? A inefável admiração mútua dos corpos e de atos sustenta levemente quaisquer insinuações de derrocada.
Um desligamento automático é impossível entre os espíritos, a energia continua a conectá-los, e vai se arrefecendo e obliterando com o tempo e com a distância até restar apenas a partícula da lembrança. Entretanto, todo começo, bem como todas as transições, é difícil. A resiliência e a entropia negativa adaptam o corpo à nova realidade até se transformarem em aconchego, que é novamente rompido pela inserção de outra fonte calor no ambiente fechado.

26 de maio de 2011

Seu Peru não morreu!

Espírito Anão

O anarquista narcotizado,
Com seus olhos de defunto,
Trazem-no almas levianas
Mais o espírito anão

Ser, estar e parecer,
Em repouso permanecer.
Transeunte em ligação -
Predicados prejudicados

Locução, ora objeto direto,
Ora diretriz indireta;
A gramática, enquanto tal,
Tornada sintaxe fatal

O ímpio ignora a gnose,
Vez não ser um asceta.
A seita aceita o agnóstico:
Ceticismo profético

Mentes versadas aprendem
Semântica ou semiótica,
Mas robôs, zumbis e autômatos
Não apreendem a eubiótica


Maturidade não sobremaneira

Pensa-se que se é, pode ser,
Em parte se é, só, mas não o todo;
Ademais, se é a menos, ou a mais.
Julga-se do mármore ou do lodo

Menos reclamações, mais conselhos,
Impaciência perdida, por apelos.
Uma discussão não é para ser ganha,
É para embasar futuros argumentos –
Acumulações em processamento

É sério, firme e confiante
O equilibrado circunspecto
Da diplomacia agora amante
Adquiriu luzidio aspecto

Se disser possuir pleno exercício
De suas mentais funções, equivoca-se;
Erra, então, em seu lugar recoloca-se,
A hora de aprender é nesse interstício

Como se livrar ou se lavar,
Ser autônomo ou ser autômato
Se para nós não há sol a sós?

Oh, ledo e tolo independente,
Somos da dependência carente.
Com responsabilidade existencialista
Da sociedade o progresso assista

Porém, ‘inda insistem em lhe dizer
A tomar o caminho da virtude:
Os grilhões da moralina habitual
Todos os papéis sociais urdem

Cresce, a inocência cessa de ter
E a alegria da ignorância juvenil.
Labutou, inferiu e se precaveu,
Cidadão feito, seu sonho fugiu!

Negou, renegou e relegou
Ao subsolo as intempéries.
Foi dialético e se felicitou
Com as recém contraídas peles


P.S.: 2 anos de blogagem. Oba!...

18 de maio de 2011

Hatred is all around

Administração da Raiva

A raiva, o ódio pelo sofrimento
Erupções: externar o peso alivia
Pressões irrefreáveis dos tormentos
Única saída é pela rebeldia

Batalhas internas, explodem granadas
Respinga a violência em pessoas paradas
Ofensa, injúria, heresia e grosseria
Insolentes agressões feito epidemias

Alegria esvaída em ruínas
As catástrofes autoritárias
Aviltam a elite, agora pária
Triste derretimento da platina

Ser vil não pode ser conveniente
Quem é com a derrota conivente?
Saber perder e se manter sereno,
Somente o monge está sempre vencendo

Impropérios ditos fora de si
Provêm as desculpas e os pesares
Por vezes falsos como os dos farsis
Encosto é embuste dos populares

Quais dos objetos é a causa da raiva?
Qual ressalva é para manter a calma?
Os valores impedem a venda d’alma
Contudo, ainda cai a pesada saraiva

Instinto hostil e rude erode e domina
Perverso tal qual o sol sobre a melanina
Embrutece, envelhece, aquece e apetece
É-nos, porém, indispensável alicerce

O que faz animar a explosão incendiosa?
Justifica-se a detonação insidiosa?

A paz é sempre preferível à guerra?
Pretere-se a que menos potência emprega
A vida vilipendia o odioso homem
Que esse fastidioso as parcas assombrem


P.S.: Tudo isso para dizer "Puta que o pariu, vai tomar no cu!"