24 de dezembro de 2011

Liberdade... pt 3

III

A moralina se serve de controle fundamental em prol da coesão social, o que na verdade é apenas manifestação do ressentimento entre aqueles que não têm a vida que quiseram, portanto precisam aliviar seus egos recalcados com tentativas hostis de impedir o sucesso e a felicidade dos talentosos, ou ousados. Que tipo de coesão é essa? A mediocridade e a observação da cartilha como valores máximos, coagindo todo mundo em volta a aceitar e a seguir a prática dos amuados. Em outras palavras, a igualdade é mais importante do que a liberdade. Ocorre um detrimento da distinção e da ambição de quem se vê com potencial de ser grande, e não suporta o papo furado e homogêneo de velhacos nostálgicos com um passado que nunca existiu e que, mesmo tornado real, não seria adequado aos subversivos.

É muito comum haver evangélicos que possuem um passado “manchado” por atos nem um pouco honrosos pregarem contra os ‘delinqüentes’, os ‘libertinos’, os ‘devassos’ e os ‘ímpios’. A explicação mais óbvia é que eles se arrependeram de tamanha bobagem que fizeram em suas vidas e buscam redenção no outro extremo, com a perda da liberdade (a prisão voluntária e condicional dos tempos atuais). Como diz a canção: “Isso pra mim é aposentadoria de malandro, foi sangue ruim a vida inteira e depois de velho quer virar santo”. Querem refazer a reputação, tão maculada, a fim de se tornarem puros, como se o objetivo da vida fosse a retidão...

Ora, se pensam que de posse da liberdade as pessoas em geral só fazem besteira, em especial as que não foram salvas e não servem ao ‘Senhor’, a culpa é de quem precisa de um bode expiatório para aliviar a má consciência. Se não compreenderam o sentido da vida e o valor da existência, porque perturbar aqueles que estão quietos e satisfeitos com o caminho ‘escuso’ pelo qual optaram? Parece até que as coisas são resolvidas na marra e no grito, e se não é assim, falta algo – longe de mim esse ímpeto traumático! Nem todos precisam de cabresto para “entrar na linha”, o intelecto já é o suficiente para diferenciar o certo e o errado. Deixem os grilhões de rituais e costumes religiosos a quem sente necessidade de rotinas letárgicas. O servilismo, embora egoísta, origina sentimentos de ódio ao ‘estrangeiro’, ou ‘bárbaro’. Ideais diferentes passariam a originar não só opositores ou diversidade cultural, mas inimigos de fato.

Personalidades diferentes demandam lideranças diferentes, mas os chefes, os líderes, os patrões, os senhores, conseguem ser versáteis? Há os mandões, os carismáticos, os democráticos, os liberais e os burocráticos. Cada um, em seu estilo, tem preferência por liderados que combinem mais com seu perfil, e vice-versa. A situação se foca, então, em saber a dosagem correta para uma relação mais aprazível, o que nem sempre é possível; paciência e aprendizado que só advém da prática. Errando e aprendendo progredimos, infelizmente não são todos que se mostram dispostos, humildes e maduros bastante para reconhecer esse princípio social para a boa convivência. Quando são envolvidas duas ou mais pessoas, a interdependência, invariavelmente, existirá. Todavia, algum grau de autonomia, podendo ser em grande percentual, também haverá. Todos querem algum poder, o mundo não é dividido entre ‘senhores e escravos’, mas entre quem manda mais e quem obedece mais, e todos transitam entre as duas estradas. A preponderância numa pessoa de o orgulho e a vaidade, a imposição e a submissão, a prepotência e a modéstia, entre outros sentimentos, poderá definir se esse alguém permanecerá mais confortável dando ou recebendo ordens.

Aqueles que se julgam bem-sucedidos cobram os mais novos e os que vagueiam para terem um objetivo em suas vidas miseráveis. E mais, não os permitem sair do “caminho correto”, nunca, sob pena de ouvirem sermão sobre boas maneiras, solidariedade e comprometimento. Como se a vida que eles tiveram fosse a almejada por seus aconselhados. Então, descobrimos que há todo tipo de pessoa; que mania que os homens têm, e principalmente as mulheres, de cutucar e cobrar os outros por atitudes idênticas. Cada um deveria se autogovernar e se preocupar quando o direito dos outros foi violado. O modo de ver o mundo é sempre diferente, até gêmeos univitelinos e criados juntos crescem de forma diversa, imaginem aqueles sob rotinas e costumes incompatíveis.

Penso que o melhor conselho que se pode dar é: “seja feliz, e se precisar de ajuda e de uma assessoria, estarei aqui para facilitar o alcance dessa teleologia universal”. As cobranças deveriam se resumir a questionamentos sobre a má consciência de comportamentos constantes e que enfraquecem e rebaixam o indivíduo ou que nunca elevam um terceiro. Pois bem, os limites, às vezes, são conhecidos após muito sofrimento, se a educação não bastou para tornar essa pessoa esperta, deixe estar, os percalços da vida complementará sua formação ética. Apenas quando a crise se instalar e só um fiapo de esperança restar é que o desespero tomará conta de amigos e familiares, e esse decadente terá provado que não mereceu a liberdade que lhe foi imposta, servindo, agora voluntariamente, a chefes implacáveis na missão de reeducá-lo à liberdade. E se após tudo isso ele se mostrar incorrigível, no final a visão da morte lhe trará amargor, pois verá que sua vida fora triste e inválida, digna de pena, aconselhando os outros, se houver alguém, a não seguirem os seus passos.

(...e vem mais)

23 de dezembro de 2011

Liberdade... pt 2

II

Além da definição epistemológica e analítica que os contemporâneos e linguistas atualizam conforme a indicação das suas hermenêuticas, o termo Liberdade possui três significados principais:
- a ausência de limites e de condições a exercê-la, aquilo que é causa de si (uma ilusão ou Deus), ou então a polêmica anarquia;
- a necessidade do Mundo, ou seja, partes que devem realizar seu ‘destino’ a fim de garantir a ordem total do cosmos e
- a possibilidade de efetivação das coisas, que passa pela escolha limitada e condicionada do ser pelo ambiente.

Sobre a primeira noção é importante a observação de Kant sobre a espontaneidade absoluta: vista como fenômeno (efeito) ela é necessidade (a 2ª noção) e vista como númeno (como deveria ser) ela é liberdade. A segunda noção é bastante hegeliana, vinculando o agir livre com a participação no intelecto do Absoluto; é romântico e ao mesmo tempo servil, ao ceder ao Estado todas as forças necessárias à efetivação da realidade. Porém, que tipo de valores o cidadão tem que defender se ele não participou de sua elaboração e não pode discordar do que lhe é imposto? Por fim, a terceira noção trata da determinação da medida em que se pode escolher. Sou inclinado a concordar com isto: o homem sofre as determinações das condições ambientais e históricas em que está inserido, contudo não há um fatalismo ao qual não poderá escapar, com resultados previsíveis de suas escolhas, de antemão. Há um conceito político republicano e liberal: os cidadãos participam da elaboração e da fiscalização das leis a que todos os membros da sociedade estarão submetidos.

No âmbito político, concorrem duas correntes, que parecem opostas, ainda que não contraditórias: uma defende o individualismo e a redução da ação do Estado sobre seus cidadãos, enquanto a outra defende o caráter absoluto, quase divino, do Estado, afirmando que liberdade civil é a obediência às leis. Apesar de não serem excludentes entre si, percebe-se a cisão/racha (ideológica) entre os militantes e simpatizantes dessas correntes: de um lado os que defendem o pluralismo de idéias e a garantia de formas de liberdade que não interferem no direito dos outros (liberais), e do outro lado os que prezam mais pela igualdade e pela idéia de que existe um ser ou ente superior ao qual todo mundo deve obediência e deve pedir licença para exercer sua idiossincrasia (socialistas). Grande exemplo disso atualmente é a liberdade de causar mal a si mesmo.

Se alguém resolver usar drogas, ele estaria isolado ou de alguma forma iria interferir em toda a sociedade, e prosseguindo, como assegurar o direito de praticar algo sem que qualquer outra pessoa tenha participação/interesse? Costuma-se aumentar a carga tributária a fim de bancar gastos com a saúde, contudo as políticas estatais estão cada vez mais restringindo essa individualidade e desestimulando comportamentos nocivos, como a proibição do fumo e a ingestão de álcool em certos locais e horários. Porém, vejam, há uma grande diferença entre proibir e desestimular. Por exemplo, o casamento homossexual; não faz sentido limitar os direitos dos gays, todavia estimular que a sociedade seja gay, ou drogada, ou bêbada, ou suicida, é outra história. Passa pela instrução cultural e ética a formação de uma sociedade livre e forte, mesmo possuindo membros ‘decadentes’.

A partir das influências que recebeu durante toda a vida e do projeto que assumiu para se tornar quem se deseja, tanto no futuro quanto no próprio presente, o indivíduo, por ser dinâmico, se reinventa constantemente e cria valores, sem qualquer desculpa metafísica, ainda que baseado em percepções vagas, peculiares e subjetivas. As escolhas contingentes irão progressivamente construir esse homem engajado, que sem dúvida passará por conflitos e angústias por não poder passar por cima de tudo e de todos com seus anseios, mas que procurará se afirmar e se realizar, sem possibilidades de queixas por escolhas equivocadas ou pelos acidentes que a vida traz, e é comum a todos. A experiência ensina e afeta, sendo o suficiente para os arrependimentos se esvaecerem.

As teorias deterministas, baseadas num Universo estático, afirmando a causalidade necessária e absoluta dos fatos, caíram por terra com a consolidação da física contemporânea. Se o espaço e o tempo são uma coisa só e a percepção do movimento dos objetos e do tempo depende da posição relativa dos referenciais; se todas as partículas subatômicas estão em movimento incessante (em temperaturas logo acima de zero kelvin) e o princípio da incerteza, paradoxalmente, é uma certeza, torna-se uma falácia a conclusão de que o mundo é predeterminado. Transpondo esse conceito às ordens social e moral, podemos concluir que a mente das pessoas e a relação política entre essas pessoas também são indeterminadas, ainda que sob circunstâncias limitadas. Sendo assim, temos um determinismo restrito, que nos permite esperar certas atitudes e pensamentos, probabilisticamente, mas não de forma taxativa. Com a liberdade também é assim, o imponderável ou o milagre não acontecerá, entretanto o mesmo padrão de resposta repetindo-se indefinidamente também não haverá. Somente uma consciência viajando a velocidade da luz seria capaz de observar o mundo inercial, mas ela seria capaz de repassar as percepções de tal proeza?

A relatividade da liberdade e dos valores é um fardo para quem aceita somente o ‘preto no branco’, quando se notar que a realidade é efêmera e inconstante, perceber-se-á que os ventos da mudança carregam consigo bons frutos, ainda que sazonalmente. No entanto, a concretude das coisas existe para quem nela acredita. Apesar dessa visão objetivada do mundo, é preciso salientar que nem tudo é racional, melhor ainda, na maioria das vezes basta confiar nos instintos e nos sentimentos para se viver bem e em paz. Com as várias bifurcações que a vida nos impõe diariamente, muitas decisões acabam sendo tomadas intuitivamente, de forma ilógica, sem o devido cuidado reflexivo, e mesmo assim parece ser o melhor procedimento, ou não estaríamos aqui. Somos lançados no absurdo que é o mundo e a sociedade, num primeiro olhar, contudo ainda desejamos nosso bem-estar, sempre. A liberdade deveria ser concedida apenas a quem a merece, no entanto as nossas ações são sempre voltadas para a potência, isto é, para a efetivação do poder que nos é inerente e nos empurra em direção à auto-afirmação. Logo, todo aquele que se engajar numa vida de ações conforme seu desejo o induzir e ceder no que não for conveniente, estará livre, podendo ser um fardo ou um bem.

(...tem mais)

22 de dezembro de 2011

Liberdade... pt 1

Liberdade: um fardo, um destino ou um bem em si?

I

“Tal é a fraqueza humana: temos frequentemente de nos curvar perante a força, somos obrigados a contemporizar, não podemos ser sempre os mais fortes.” Assim dizia em seu “Discurso” La Boétie, lamentando o fato da escravidão e da submissão dos homens, principalmente a voluntária, mas também a imposta. Como são desgraçados os prisioneiros que não querem escapar, os impotentes que se deixam tiranizar, ou ainda, parecem covardes os idólatras. E há o triste vício de quem não luta por sua liberdade e se deixa levar, como um pusilânime, à conversa mole de um babaca cheio de defeitos que só pode se sentir bem, isto é, valorizado, se tiver súditos em suas mãos sujismundas e gordurosas, tal qual bactérias em volta do furúnculo. Cortem a fonte e eles ficarão com suas malas vazias, assim como uma planta, sem água, seca e definha. Enquanto houver a politicagem corrupta, composta de bajuladores, séquitos do trono, medrosos e cúmplices, os carniceiros reinarão, regozijando-se em suas luxúrias depravadas, tal qual um Kadhafi, um Borgia ou um Kim Jong-il. O uso de capangas ressentidos e de guardas humilhados atormentando a população não é o suficiente para que não se lute por um governo democrático ou republicano.

Que um povo preferisse morrer a ter que viver por décadas, séculos, ou mesmo milênios, sob o jugo de déspotas; perseguição sem fim que incorpora à cultura, logo às personalidades de seus membros, o sentimento de resignação, de que não se deve contestar e nem enfrentar os líderes. Como a liberdade parece ser um conceito estranho, julgam, pois, pelo hábito, que a vida de seus pais é a correta para eles também. Mas que povo doente e decadente – incurável? Qual o sentido em viver sob a trêmula lâmina da espada, sempre pronta a decapitar insurgentes e homens sedentos pela vida livre e plena? Sem a liberdade tudo o mais é tedioso e sem sentido; é um primado, sem ela, assim como sem a razão ou os sentimentos, a vida humana não vale a pena ser vivida, é apenas sobrevivência nauseante, sendo impossível de se dizer “isto é meu”.

Os tiranos não são bobos, eles fazem infundir em seus comandados, desde o berço, a ideia de que a vida correta é a da alienação, a do rebanho, e os hipnotizados, que pena, só dizem amém às palavras e aos atos cruéis dessas autoridades. Grande educação e formação republicana, tal qual a compaixão de um pirata por suas cativas! Somente o saber e a experiência do prazer de ser livre tornarão uma pessoa, bem como um povo, defensores impetuosos de seus direitos naturais. Que os reacionários e conservadores, sejam os incautos ou os malditos, compreendam: não há ‘natureza escrava’, a escravidão é uma humilhação, ninguém que reflita razoavelmente desejará uma vida passada em servidão. Ainda que a maioria precise de um guia ou mestre para dar sentido à existência. A questão é saber por que, ainda hoje, muitos refutam a liberdade como algo universalmente desejável e se negam a fazer escolhas próprias, isto é, autênticas: não querem contestar ou sua ignorância os leva a serem enganados? Após tanto ingerirem comida estragada deixam de sentir a podridão de seu sabor?

Ademais, tal qual uma criança birrenta que não aceita ser contrariada, haverá sempre um inepto que desconfia de quem o quer bem, por meio de ações desagradáveis à primeira vista, e prefere ser tapeado por traiçoeiros que oferecem o doce com uma mão, escondendo o punhal na outra. É por existir uma massa inculta e incauta que políticos populistas prometem – e por vezes entregam – mixarias, migalhas, esmolas, engodos, a fim de mantê-la sob rédeas curtas (artimanhas coronelistas e do “pão e circo” deitaram e rolaram com essa tática). É o hedonismo em troca da estupidez; foram os néscios absortos pelo ópio chinês, enquanto seus governantes perversos usurparam a nação, sob a imagem de uma pompa invejada e venerada, claro que demagógica. Um pouco de promessa de segurança, pelo medo forjado de que os estrangeiros e os inimigos podem atacar e aterrorizar, é o suficiente para que muitos prefiram um mal conhecido em detrimento do terrível desconhecido.

E, a partir dessa manipulação de reis incompetentes e gananciosos, não poucas vezes, surgiram lendas, mitos e deuses que a própria populacha inventava para acalmar os egos das pessoas, pois ser submisso a um grande senhor é válido – metafísica religiosa que consola, justifica e adestra uma sociedade de dezenas de milhares de membros. A devoção é base para a perpetuação no poder. E a ostentação é uma forma de causar inveja e servir de exemplo/modelo para que os demais sigam o caminho e tentem manter esse sistema autofágico e odioso, como é o caso dos traficantes. Doravante, ninguém de dentro desse círculo restará imune aos malefícios de tamanho desprezo pelo bem-comum. O hábito costuma cegar. Parece que é melhor estar unido na lama do que independente num terreno estranho e cercado por ameaças incontroláveis e sorrateiras.

Há, ainda, o martírio de sentinelas conspiradoras num ninho de cobras opulentas. E há o outro lado da moeda, isto é, a vingança, um prato que se come frio: a punição dos reis narcisistas e de mentes perturbadas, que será por meio de pequenas revoluções e pela danação imortal de seus nomes e restos por um povo instruído e ético que repudiará comportamentos fascistas, punindo inclusive os descendentes inocentes, alheios à perversão de seus antepassados. Alguém que se chame Hitler, Herodes ou Saddam será estigmatizado e provavelmente desejará trocar de nome o quanto antes. A justiça não é divina, é humana e social, a vida não se resume ao presente, ela se amplia às gerações futuras, estas tomarão ciência do que é desejável e respeitado e do que é nojento e repugnante; noção que é construída por meio de debates e acordos (formais ou tácitos).

(...e continua)

11 de dezembro de 2011

Causas necessárias e desconhecidas do agora

Causas e efeito

Aspiração vital, isto é,
Aspirar poder,
O máximo que se puder,
Intimista e imanente.
É tão óbvio, tão banal e venial,
O mecanismo é somente,
Após a sucessão dos fatos,
Semiótica das conseqüências.

Tornar-se-á ortodoxo, quiçá,
Colapsar o remorso
Em concomitância, ver-se-á,
Com contumazes infartos
De ineptos catatônicos
Em suas idílicas, líricas
Reminiscências paradoxais
Dos vórtices outrora causais

________---------''''¹²³

Não querer é poder

Se eu quero, só posso querer,
Não posso não querer, por ora.
Já se não quero, posso vir a querer,
Tal é a minha liberdade intuitiva

Ao querer algo, tomarei a decisão,
Entre agir ou não agir; é humana ética,
Que limita o espaço e cessa a sessão.
A angústia sorrateira sai furtiva

Pode-se estar apto a algo atraente
Ou julgar-se não apto; é controlável.
Já com a vocação é bem diferente
A faísca do dom não é contornável

O inconsciente, vital, subjuga a si
O mundo por ele representado,
Nada tendo de racional ou universal,
Põe as normas e as regras de lado

O excesso de carência aumenta o desejo,
Desejo que será frustrado ou não;
Ao eliminá-lo, vai-se com ele a frustração.
Se nada me falta, há poder de sobejo
+
-

14 de novembro de 2011

Dialética: Dois logos, Um caminho

O diálogo como desenvolvimento pessoal

Conversar, debater, dialogar, enfim, a arte grega da dialética como processo de autoconhecimento e resolução de conflitos ou impasses, ou apenas um agente de mudança de perspectiva, a fim de alcançar uma unidade que de outra forma não seria atingida. Para tanto, é preciso haver dois sujeitos de opiniões distintas e, se não convictas, bem embasadas, além de humildade para reconhecer a força da argumentação contrária. À primeira vista pode parecer, mas não é para ser uma queda de braço com objetivo de subjugar o adversário por meio da retórica. Pontos de vista de longa duração dificilmente serão alterados após um confronto de ideias, o importante é a tomada de consciência de que a própria opinião pode ser enriquecida com detalhes não percebidos antes das formulações postas pela outra pessoa.

O imperativo de se sentir e de querer ser valorizado através da exposição dos argumentos, ou dos princípios professados, pode gerar a impressão de que se está sendo arrogante; às vezes se está sendo mesmo, mas não conscientemente, é apenas a necessidade de poder se manifestando através da fala mais prolixa e incisiva. Para muitos falta o conselho de alguém dizendo para pegar leve, que se está exagerando, que ninguém precisa ouvir sentenças impositivas e achá-las agradáveis, além de que dificilmente uma opinião será alterada desta forma: na marra. Assim sendo, o prepotente poderá se tornar alguém cortês, mesmo com opiniões fortes e pouco ortodoxas, e desejável num círculo de debates, sendo mais observado e influente com a nova atitude.

Em um relacionamento isso se apresenta como fundamental, afinal a maioria das discussões provém de ideias ou atos reprováveis que antes não foram esclarecidos como detestáveis. Pode acontecer de um dos dois querer passar por cima só para irritar ou demonstrar que está em situação superior ou independente ao outro, algo que não aconteceria se tivesse havido uma predisposição para deixar bem claro o que se pretende ou quem se é. A individualidade, a sinceridade e os dilemas são subjetividades que quase todo mundo prefere fugir a enfrentar de uma vez, postergando para um futuro qualquer, é claro que no formato de uma bola de neve.

Não vou ser tolo para afirmar que a solução é ser totalmente sincero, porque todos sabem que muitas coisas escondemos até de nós mesmos, imagina para um outro que inevitavelmente é diferente e provavelmente estará contrariado em ouvir ou ver algumas verdades. Porém, um meio termo entre as partes pode ser acordado, de preferência antes que aconteça a situação desagradável. É difícil, gostamos de manter as aparências, de olhar para as coisas boas e de ignorar os defeitos, sofreríamos se convivêssemos, o tempo todo, com a dura, crua, terrível e tenebrosa realidade, sem as fantasias metafísicas que nos consolam e nos convencem de que o amor existe. É isto, temos medo do que poderá nos incomodar e entristecer a ambos; a fase de desencanto e término de namoro nós preferimos manter embaixo do tapete, que é quando a crise irrompe, magnífica.

Atualmente, com tantos seres mimados espalhados pelo mundo, essa minha premissa (queremos fugir a enfrentar as dificuldades) se torna evidente. Todos se acham certos, pois são o centro do mundo, e desejam apenas usufruir do outro em seu melhor, e quando os defeitos começam a emergir, tanto do outro como de si, a maioria foge para sua redoma confortável, no colo da mamãe ou do computador. A humildade de receber críticas, ou somente opiniões divergentes, para melhorar a própria personalidade ou conduta, encontra-se ausente. Após bastante dengo, aplausos e aprovações, as pessoas se arrefecem, optando por seguir o fluxo do mundo, que tende a forçar todos a se adaptarem – seja para mudanças de comportamento na aparência ou na ética –, apenas naquilo que lhe for mais conveniente, que não à toa costuma se resumir à postura externa, mais facilmente percebida e elogiada.
O poder, que traz o sentimento de glória, provoca na maioria dos sujeitos mudanças externas, contudo o padrão mental permanece; as modinhas vem e vão e o pertencimento (pela aceitação dos demais), ao se aderir a tal tendência, é o suficiente para essas pessoas, pois já cumpriram com seu dever de retribuição social ao sem coniventes com o que vem sendo feito. Elas não se aprofundam e acabam não mudando o mundo e nem si mesmas. O motivo é claro, não quiseram ouvir impactantes ideias que mudariam seu caráter, logo estão ainda numa zona de conforto, e não se fizeram ouvir, ou por não terem personalidades ou por não aceitarem o desafio de pôr à prova desejos e anseios que provavelmente a maioria discordaria ou faria pouco caso.

O etnocentrismo é um padrão universal de comportamento das culturas. Cada indivíduo tende a ver as coisas a partir do grupo em que está inserido, em especial a família, os vizinhos, a escola, o trabalho e os amigos, e chama o que vem de fora de “bárbaro” ou de algo semelhante. A globalização e a mais intensa troca de informações e acesso a diversos saberes e culturas deveriam ter reduzido essa mania de se achar sempre certo em relação aos demais, porém a teimosia em não dialogar com o diferente permanece. Talvez pela importância demasiada que cada indivíduo dá a si mesmo, ou então porque as relações que se dão com os mais diferentes indivíduos são superficiais, sem alterações de fato na mente e nos julgamentos morais. Enquanto isso vou debatendo e dialogando, claro que sem a frequência devida, mas ao menos de forma crônica e observando a importância disso para meu desenvolvimento. Creio que está sendo positivo, apesar de já ter sido acusado de ter me tornado outra pessoa, quase irreconhecível, embora eu insista que a minha “essência” permanece.
=]

P.S.: Post sem qualquer consulta bibliográfica, exceto a do Aurélio, que sempre me acompanha.

13 de novembro de 2011

Duas Antigas, por algum motivo, não antes publicadas

Corner Club

Ali eu consertei contigo meus erros
E em mim recuperaste a confiança
Enfim, ignorei uns antigos medos
Assim, ruína foi minha segurança

Lembro de nosso beijo choroso
Eu, tão sensível quanto um Caetano,
Demonstro como estou pesaroso,
Embalado por Los Hermanos

Era especial de Cazuza e Raul
Cruzando olhares escuros, te enganei
Quando soubes e choraste, respeitei
Porém, pareceu guerra em Cabul

Por lá, penso em ti, em nós; nada bem.
Só, eleva-me o favor de um alguém
Aprenderei o que é desapego,
Após tanto tempo, tanto apego?
Espero que sim, e tu também.
Fim é o começo, não somos reféns
|

Camaleoa

Ficarei para sempre grato
Pela compaixão de seu ato
Eu, num blues day, ignorei-a, altiva
Surpreendi-a, reparei-me, que viva

À alegria que transborda quero me juntar
As diferenças contornáveis instigam.
Magnético: opostos atraídos ficam!
Desconheço o perfume, conheço seu ar

Como dizer quem é mais arisco?
Ela é arredia, em primeiro seu orgulho
Desdenho as dores vindas dos riscos,
Fazem meu dia os beijos ao muro

Miro a lua cheia deste réveillon
Passado sem ela, não há de ser bom
Dela recebo uma boa surpresa;
Nada de resposta, vem a tristeza

Sua vaidade e a minha vontade
Ao menos em um a paixão arde
Duas garrafas não afogam as mágoas
Bebo e me curo nas mesmas águas

Dividir espaço e tempo - estima
Deu-me esperança - um bom alento
Colocar a felicidade acima
Mais que a consideração e me contento
-

P.S.: Ou elas estão em algum lugar e eu não percebi?

20 de outubro de 2011

Praticamente um rapsodo

Pacato marinheiro

A estória a seguir é de um marinheiro:
Agora sente o odor da densa maresia
Enquanto rememora os fatos, com ufania,
De quando fazia estada em navios cargueiros

Deleitava-se em vestir o fosco escafandro;
Diante da vida marinha era um assombro:
As algas, o sal, a água e seus meandros –
Cefalópodes, crustáceos e cetáceos

Retesava velas, bem aprumadas,
Acelerando o barco em alguns nós.
Gritava a seus ínclitos camaradas:
“Sintam o zéfiro de encontro a nós!”

Às ordens do insigne comandante
Empertigava-se, por diplomacia,
Mas não ao avistar bucaneiros errantes,
Pérfidos que suscitam aleivosia

Ao deglutir alimentos adstringentes,
Que irritavam sua gorja, ele finalmente
Se punha a pigarrear ou a gorgolejar,
Se não houvesse náusea, quando ia gorgolar

Se a embarcação tivesse de engolfar,
Torcia para ver os astutos delfins
E em portos délficos golfe jogar,
Então esgotado, é delfino tornado, enfim


Quando será a sua hora?

É uma pintura: risca e arrisca, surge o artista!

Quem é o maior cidadão do mundo?
Qual é o lado que me faz profundo?
Quanto tempo falta para lhe esquecer?
E quando é a hora para amar você?

Deve haver algo a mais àquele que busca a paz

Quando é pior invocar o orgulho?
Em qual lago límpido eu me misturo?
Quem é que vai a Malta para envelhecer?
Quem vê a lua nova em meio ao fumacê?

Se ela diz que sim, vem a mim um belo marfim

Como pode o mago trespassar um muro?
Quantos altos fados parecem barulhos?
Por que um homem mata e logo diz amém?
Até onde eu vou andar a fim de me aquecer?

Sei que não dura, ela acusa, escusa e infusa

Quem é o maior cidadão do mundo?
Em qual lago límpido eu me misturo?
Por que um homem mata e logo diz amém?
Quem vê a hora andar tende a desfalecer

2 de outubro de 2011

Os muros ruem num festival

Um Cochilo

Durante a guerra, eis que encontro
Um rato, adoecido, na agitada relva
Tento tratá-lo, não sou veterinário,
O roedor morre de frio; ouço um badalo.

Mas não, são bombas, minha face,
Por efeito moral, se desfigura.
Ninguém está por perto, há silêncio;
Um estrondo, bum! O sonho é um pesadelo...

Cochilo no colo de minha mulher
A circulação da perna se interrompe
Meu pé parece inchado de cachaça
A visão de duas mulheres se esvaece

É um beco sem saída, não sem vida,
Gritaria minha assusta um transeunte:
É o despertar do adormecido ciúme
Paciência talvez também seja ciência


Morremos Jovens

Ouça, se eu vier a morrer jovem,
No entanto quem não morre jovem?
Você diz que chorará por mim,
Mas, de fato, chorará por si.

As minhas se cinzas se espalharão;
Jogue-as em alto mar, às algas,
Peça isso ao cortês capitão
No fundo, as vidas ficam análogas.

O luto perdura por certos dias
Rejeite a contumaz melancolia
Seu comodismo não corrobora
Com os seus atos comigo, até agora.

Enfim me sinto como mais um só
Na multidão meu ser pôs-se anulado
Doravante, eu restarei isolado.
Vivemos juntos, morremos a sós.