3 de junho de 2012

Nossa irascibilidade corriqueira


É mais fácil destruir do que construir, isso é intuitivo. A existência pessoal nunca está acabada, apesar de todas acabarem. A vida é construída o tempo todo, mas basta um mísero infortúnio, como uma agulha contaminada ou um alucinado de arma em punho, para que a morte se apresente com toda sua perversidade, sempre à espreita para alegria das funerárias, esse serviço funesto que lucra com a tristeza alheia. Toda mudança pode ser vista como uma morte, da convicção, aquela idéia acoplada ao ego. Os impacientes são agressivos diante das transições; quem não percebeu o valor das sutilezas quer passar como um trator sobre o incompreensível, portanto incontrolável e amedrontador, isto é, algo acima de suas forças rudimentares. Os orientais há muito sabem e ensinam a virtude da paciência, estão acostumados com o contato com a natureza, tão grandiosa e sublime quando contemplada em conforto, e com as relações sociais em ambientes sofríveis e apinhados; a vida zen arrefece a agressividade teimosa que a qualquer momento pode irromper como uma bomba.  
Os jovens de hoje, os garotinhos criados em apartamento, em condomínio ou outro lar urbano, quase sempre trancafiados por causa do zelo excessivo de pais atordoados com as notícias alarmantes da violência sempre crescente, apesar de nunca citarem as estatísticas em queda, esses jovens quase não têm raiz, isto é, há pouca tradição transmitida, não sabem de onde vieram e se identificam com algo imediato que lhes afeta. Não é tanto culpa da falta de comunicação dos pais, estes também desconhecem a própria linhagem ou então querem esquecer um passado rural e tortuoso, digno de pena diante de valores burgueses tão em voga nos shoppings, vitrines e anúncios metropolitanos; é mais culpa do acelerado êxodo rural e da falta de mestres, com excesso de ídolos. Voltando ao imediato, quero dizer com isso a influência sobre os jovens de algo que seduz pelo efeito avassalador de causar prazer e liberar frustrações, como é o caso do videogame (item para mim emblemático), ou da Barbie e do sonho de ser princesa contemporânea, no caso das meninas. Nas entrelinhas a indústria transmite sua mensagem a quem não tem discernimento, então os pais acatam, ao notarem o brilho nos olhos de seus rebentos, além de não verem mal algum em compartilhar valores consumistas e vaidosos. E o ciclo segue: é fácil convencer uma mente em branco.
Isso daí levará a que? Onde quero chegar com esse preâmbulo gratuito? Novamente sairei do nada e chegarei a lugar nenhum? Ou desta vez haverá uma conclusão clara e perceptível? Bem, isso depende do leitor, enquanto isso eu tentarei desenvolver minha argumentação. A psicanálise nos ensina sobre a importância dos primeiros momentos de vida, a tal relação quase simbiótica com a mãe, além dos traumas infantis, entre outras teorias para lá de controversas no meio acadêmico. É certo que a saída do conforto da barriga, do colo, dos braços, da casa, quem sabe da cidade, da mãe, ou mesmo do pai, se este criar um laço forte já na primeira fase da vida da criança, essa saída, ainda que temporária, é impactante para uma cabecinha frágil e medrosa. Passa o tempo, a relação com os pais, que em geral é afetuosa e pacífica, vai se revelando mais humana, ou animal, com advertências, violência e erros; a noção de pai herói ou de mãe perfeita vai diminuindo, pois é claro que de perto todos têm defeitos, mas isso não significa que a admiração por eles diminua – nesse ponto se trata de outro processo complexo que não esmiuçarei aqui. Além disso, as informações externas podem chegar com mais força do que a referência paternal, ainda que essa sempre seja um paradigma para quem vive em família. Enfim, quero dizer que mesmo na redoma do lar sentimentos negativos podem aflorar. Com o contato crescente com o mundo dos “outros”, do desconhecido com 1001 possibilidades, esses incômodos sem dúvida aparecerão, pois retira as crianças da zona de conforto, testa-as – atitudes criativas e respostas elaboradas são exigidas.
Com isso, eu chego ao ponto central: nossa reação perante o imprevisto. Qual a primeira impressão que temos diante do que não estamos acostumados e que na maioria das vezes nos deixa acuados, senão perplexos? É a rejeição, a negação, o preconceito, a vontade de eliminar. O ódio é instintivo, suplantá-lo seria exigir uma posição humilde ou desapegada ou compreensiva, ou amorosa (o amor é o oposto do ódio). Porém, somos seres etnocêntricos, não gostamos de admitir que nosso lugar não seja bom, seria uma ofensa pessoal, sem esse auto-engano passional de que nossa nação (etnia, clube, ou algo do tipo) é a melhor, ou ao menos é correta e formadora de pessoas superiores ou preparadas, nossa existência estaria em perigo, haveria crise, um momento de ruptura urgente que deixou tal nação sem sentido. Com o individualismo, esse etnocentrismo, ainda que sem raízes históricas, se acentua, pois o Eu se torna o Deus a cultuar, ofendê-lo seria uma blasfêmia, é mister tirar satisfação.
As religiões em geral pregam a humildade justamente para haver menos guerras, mortes e uma cultura de ódio sem fim. Entretanto, elas se utilizam de discursos simplistas e servis. Também não somos uns canibais, nem tão “homem lobo do homem”, somos seres sociais e solidários, contudo sempre desconfiamos do vizinho. Sem um mínimo de humildade, alteridade e compaixão haveria mais mortes do que nascimentos, o que inviabilizaria a sobrevivência de um povo, ainda mais com armas na mão. Essa lei da selva, ou de pirata como eu prefiro chamar, predomina em locais sem essa lição de humildade, principalmente com homens competitivos e vingativos (a vingança é outra reação odiosa). E por que esse ódio cresce tanto? É justamente pela afronta ao status quo, que muitos preferem chamar de honra. É impossível eliminar isso, é a primeira reação. Uma civilização que busque infiltrar valores transcendentais ou progressistas ou persistentes (no sentido de uma obra que perdure) deverá ter cidadãos educados a superar esse instinto destrutivo. Sem a tolerância resta o enfrentamento, que numa barbárie se traduz em guerra civil, ou na submissão como valor.
A infantilidade das pessoas gera reações agressivas. Talvez eu esteja em defesa de uma sociedade pacífica demais, com valores positivistas e racionais em demasia, porém devo criticar essas pulsões de morte (Thânatos) quando efetivadas – a estupidez humana é sem limites. A educação e a prática da convivência cordial, que servem de exemplos sólidos aos que não têm uma referência prolongada de violência, ou mesmo a estes, parece-me o caminho mais eficiente para uma cultura cortês, disciplinada, em defesa de obras mais elevadas do que brigas de rua. É claro que não há como sonhar em eliminar a agressividade, todavia pode-se sonhar com agressões canalizadas em obras de arte, esporte ou jogos sem feridos. De novo, o videogame como refúgio. Ao se pôr “na pele ou na mente” de uma personagem a pessoa pode fazer o que quiser sem risco de punição, uma situação cômoda, contudo ela passa a compreender um mínimo sobre ver o mundo de outra ótica. No caso dos jogos violentos a raiva contida é descontada virtualmente, costumando ser suficiente para evitar maiores danos.
Por fim, cito o fenômeno das redes sociais. Parece que todos precisam se expor para sentirem que pertencem à sociedade ou mesmo ao mundo. Todos agora precisam ter e demonstrar opiniões, ainda que sejam sem embasamento e homogêneas, na verdade é preferível que sejam semelhantes à da maioria, há menos risco de repreensão. E quais são os usuários mais freqüentes e comentadores? Justamente os jovens, os que se encontram frustrados por não terem realizado ainda algo grandioso, por não terem uma identidade definida, por perceberem o esvaziamento de sentido nas coisas, enfim, por não se sentirem satisfeitos com a própria existência, geralmente parasitária, sendo assim, partem a direcionar suas raivas ao que lhes desconforta, por mais ínfimo e banal que seja. Ato geralmente praticado na covardia do anonimato e no conforto da cadeira do quarto. Ali fica fácil berrar, eu quero ver gritar na cara do traficante que ele é um câncer social, ou ao político que ele enoja o país, ou ao tirano que ele deve morrer, correndo o risco de ser mordido por um cão, ter a mãe morta, levar spray na cara ou levar pedrada na cabeça como os egípcios. Mas não, reclamam que a Microsoft está com layout ultrapassado ou que o Facebook censurou suas fotos.
Raulzito teria vergonha desse povo que só sabe protestar e desafogar sua ira barata sem ao menos ser um latino-americano que sabe se lamentar. Raulzito não aprovaria uma geração pró-sistema e que é metamorfose ambulante, mas que não se admite nem se admira como tal. Geração em que todos têm uma já velha opinião formada sobre tudo sem nem ter tido a oportunidade de confrontar idéias, muito menos tempo de formular juízos. Ou seja, é mais fácil xingar e botar a culpa no bode que rumará ao deserto para alcançar a redenção que essa alcatéia de tolos lobisomens juvenis nunca terá. A ira cotidiana precisa de palavrões. A irascibilidade corriqueira precisa desabafar no boteco ou pela internet, sob pena de acumular chagas que resultarão em melancólicos arrependidos. O rock outrora recebia de braços abertos esses gritos de liberdade e de angústias, porém agora recebe o chororô dos frangotes.
É bom gritar, é bom desabafar, é bom protestar, mas é preciso saber onde fazer, e principalmente como fazer. Os punks já demonstraram sua infantilidade, os emos a sua depressão, os góticos a sua melancolia, entre outros, sempre babacas surgirão reclamando com inveja da felicidade alheia, ainda mais que todos possuem voz e meios de divulgá-la. Apesar da quase obrigatoriedade de ser feliz, ou pelo menos de assim parecer, a sociedade está doente, o aumento do consumo de remédios, drogas e livros de auto-ajuda e a procura por psiquiatras, pastores e xamãs contemporâneos, em parte atesta isso. Sempre nos assemelharemos a uma criança carente e apavorada no escuro. Saber encarar a vida como a tradicional criança em contato com o mundo sempre novo e fascinante é igualmente fascinante. Gritaremos às vezes e até quebraremos alguns vidros, apenas demonstrando nossa incompreensão e fraqueza diante dos desafios. Ambos são naturais, um é fácil e instintivo, já o outro é mais dureza de praticar: o ódio destrói, o amor constrói.

27 de maio de 2012

Toda frase é dispensável. Nós prosseguimos enunciando-a


Agora, o vazio


Agora partem os valores e os princípios.
Ué, cadê a verdade que cá se postava,
Que amiúde na rotina revelava-se?
Ética dos costumes emblemática


Os pais entregam seus filhos a outrem criar
Em paz estragam a cria de gerações
Então carregam a culpa pelos maus tratos:
Babás supersticiosas, mamães ociosas


Descarga de tensão em jogos virtuais
Bullying, humilhação e pedra em animais.
Uma criança não é anjo e nem capeta,
Busca sua identidade e auto-afirmação;
Anseios sob repressão bastante a afetam


O retrato de família coesa de outrora
Cunhou o reles jargão “tal pai, tal filho”,
Mas se desgastou, seu brilho foi-se embora.
Restaram os genes e o teimoso atavismo


Qual será a influência predominante?
Aparentemente há sorteio, é randômico.
A ignorante pressa nós arrogamos,
Não se nota o óbvio e restam os reclamos:
“O bom dura pouco”, “o mundo está perdido”


Deparar-se com o vazio é comum
É muito incomum lhe sorrir de volta
Ninguém convida agressor algum,
Porém, conviver com o inimigo íntimo
Desperta em nós compaixão – lugar-comum


Preenche-se o vácuo com cores berrantes
Berro interior após lutas hercúleas –
Imperativo do hedonismo a todo instante


Sem vestir a máscara de ator contente
Julgam-me persona non grata ou enfadonha –
O Surto da Síndrome do Decadente

&EΣε€Є

Maletas e Muletas


Qual é o peso das malas que levamos nas viagens?
Será leve se aproveitamos o percurso – leves rodinhas
Mas toda mulher carrega nas costas as bagagens

As covardes traições cometidas contra os queridos
São sinceras fugas diante da angústia de viver sem amor
Quando o outro desejado nos rejeita, resta o rancor

Amor platônico só é bom quando nunca deseja agir,
No mundo ideal toda ação é prova da imperfeição
O que é perfeito se contenta em ser pura potência,
Infelizmente, o homem precisa das aplicações
E doravante se arrepende com as conseqüências

O medo aprisiona, mas ninguém preso fica,
Despontando a gritar regozijos, nem diz ser rica.
A vítima o agressor culpa, pesando sua consciência,
Enquanto isso, toda mulher carrega as bagagens,
Após precisa inventar as próprias miragens

Para viver, por vezes seguimos às cegas.
Segue a seta que tu apontas a ti mesmo
Um dia te pegarás contemplando adegas,
Senão viverás de muletas dependendo;
Eu ando sem elas, jamais me arrependo

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P.S.: Excepcionalmente 3 postagens no mês, por nele completar  3 anos de blog.


12 de maio de 2012

O Inferno de Strindberg


Trespassando a burguesia temos o infernal, tal qual Hefesto, forjando o modernismo, mas desta vez como fruto poético, e não como metalurgia. Das gélidas trevas, “nascido já nostálgico do céu”, foi compelido a fugir do inferno da sociedade que o criou, por conta do bombardeio moral a suas idéias controversas. Ora, se a racionalização é inútil quando tudo é ilógico e hostil à existência, inevitavelmente conturbada e carregada de tormentos dentro da cachola, o melhor, aliás, o fatídico, é contestar essa tradição. Não antes sem haver uma pitada de vingança, pelo orgulho ferido de ser excluído do meio acadêmico por causa de métodos pouco ortodoxos. Como culpar o pavio curto, as manias e o imanente espírito artístico? O melhor seria nunca ter tido pretensões positivistas, desde que a sociedade aceitasse a subjetividade e os dramas humanos como fonte de conhecimento.

Essas concepções transgressoras da subjetividade aliada a uma proposta criativa para a então eminente arte são permeadas por conflitos e turbulências. As alucinações e os devaneios, sejam visões corriqueiras ou esporádicas, formulam as próprias significações, que são singulares e contíguas e, sem dúvida, criativas e ousadas. E toda a matéria-prima se encontra no cotidiano, na vida pesada, na jornada de dores por perdas e de perdas com dores. Se o fato se apresenta, não o temamos nem reprimamos, absorvamos, ainda que pareça ser uma “luta inútil contra os invisíveis”. Se os números falam, respondamo-los, afinal toda ajuda é bem vinda. Se os parentes e amigos não podem vê-los, que se esforcem para atingir a verdade. Comunicação é relação que exige capacidade de iniciativa, apesar de não estarmos a toda hora pró-ativos – mas que infortúnio!

- Paraliso, destruo, rompo, dissolvo a ordem presente. Sou o incendiário do mundo! Desde pequeno busquei a Deus, mas reneguei esse déspota e encontrei o demônio (Alp). Já que o Inferno é o espelho da Terra, eu serei enviado, como Bhrigu, às profundezas por meu mestre, em face da minha presunção, e trarei de lá o fogo purificador. Mas antes disso, passem pelos labirintos de minha mente, que é inteligível, contudo são poucos os heróis como Teseu dispostos a percorrê-lo.

 É útil, ainda, salientar que a travessia possui muitos pontos cegos e as tochas iluminam-na por pouco tempo; aquele que compreender que deve abandonar o temor o quanto antes, tateando por algum tempo no escuro, encontrará a saída mais cedo, pois as sinuosidades diminuirão. Por tortas estratégias criam-se retas. Enfim nasce o senso estético, deveras atormentado.

No meio da luta entre o bem e o mal, ou ao menos de seus conceitos, o artista buscava auxílio das forças divinas, que até lhe davam forças, contrabalançado pelo medo infundido. Nesse campo de batalha espiritual vozes advogavam para o escritor tomar o caminho mais proveitoso, porém ele se sente puxado violentamente por esses poderes que se movem no mesmo sentido, mas em direções opostas. Como saber se a escolha o levará à redenção ou ao abismo, sendo que as culpas e os pecados enrijecem-se em sua consciência? Durante a existência raramente podemos usar o fio de Ariadne, os  sucessivos pontos de interrogação irão assombrá-lo; saber responder ou evitar as perguntas pode ser tranquilizador. Todavia, se os questionamentos não cessarem, os tormentos aumentarão exponencialmente, trazendo a insanidade ao indivíduo. Logo o inferno êxito logrará.

A fim de obter bons resultados em alquimia, o literato de outrora sofre com a aflição por conta do manuseio de elementos químicos sem a proteção e os cuidados necessários. As mãos encontram-se assadas, a dor crônica o impede de realizar qualquer trabalho manual, inclusive usar a pena; porém o significado das escamas se soltando da pele foi de limpeza, o corpo se encarregava de expelir os venenos. O sangue era a consagração da atividade. Tudo isso era facilmente suportável, a única agonia era não dever agradecimentos além de a si mesmo e à alquimia. A solidão, o silêncio e o deserto eram imperativos ao temperamento irrequieto, curioso e teimoso. Para suportar o isolamento foi preciso dispensar a sociedade, e se fosse preciso, como de fato foi, dirigindo-lhe ofensas, inclusive a entes queridos. Incauta soberba: isolado ninguém faz milagre, é apenas ilusão.

Uma pena isso, pois os impetuosos percebem a burrada após algum tempo e então se consomem de remorsos. Fraquezas dos sentimentais: álcool e meretrizes. Péssimas companhias, apesar de contínuas. A durável vaidade e o orgulho ferido desses seres precisam de escapes e de desculpas, ainda que esfarrapadas – contagia-se pela hipocondria e pela paranóia. O estrangeiro em uma terra não tão estranha vê ciladas em toda parte. Isto é, sai duma jaula e entra numa gaiola. Sentir-se no abismo da tristeza é apenas uma projeção da própria incompetência. Compadece de si para provocar a piedade das misericordiosas. Perdido por dentro, portanto perdido por fora.

Ao velho a juventude é um inimigo natural, desde que ele não a tenha aproveitado, ou seja, envelheceu sem viver, fez-se ranzinza, turrão e casmurro: “o outono aqui dentro, a primavera lá fora”. Após uma sucessão de eventos sem significado, o tédio surge e a melancolia se instaura. Sem paixão a vida é um fardo; incapaz de declarar seu desejo por qualquer dama (interessante ou não) ele ficava passivo, sendo escolhido por alguma rara mulher de atitude. A fim de evitar o sofrimento com uma libido não efetivada, ele reprimia sua paixão e punia-se como se isso fossem “pecados ou tentações” – doente. Na falta de equilíbrio, agarrar-se ao terço, à cruz e aos cristais é a maneira mais rápida para alcançar alguma serenidade. O espírito corregedor do ocultismo remeteu nosso herói ao mundo platônico; longe deste terreno, a nostalgia libertava-o dos anseios carnais e decadentes.

Notas e escritos num diário funcionaram como um bom remédio. Expressar o que incomoda, e exige sair do sujeito para se difundir e influenciar mundo afora, alivia e sempre traz um mínimo de paz de espírito. O problema é se desequilibrar novamente e cair em superstições e manias tolas – efeito da insegurança. Um moderno querer regressar à Idade Média quedará maluco, a história não perdoa. Por ora, é impensável conviver com as dúvidas e as incertezas, apesar de não ser possível escapar delas. A razão organizadora e tirana enfim tem seu efeito colateral: tormentos psíquicos. É mister haver uma fé: a felicidade é um fim a todos, se por um caminho (o racional) não foi possível atingi-la, restou optar pelo outro (o ascético), “e que renasça a harmonia da matéria e do espírito”.

Para retornar o sentimento de juventude e livrar-se dos tormentos foi preciso fugir dos sórdidos ambientes onde freqüentava. Num jardim parisiense a alegria absorveu-o, claro que provisoriamente, enquanto pensava vislumbrar e contemplar a beleza natural que o divino criou. Bastou um leve incômodo (a ele uma maligna provocação) para a paranóia e a irritação voltarem com tudo – todos eram suspeitos de conspirações para infernizá-lo e agravar sua angina. Sem encontrar uma ciência metafísica, tudo lhe parecia deslocado e labiríntico – a beatitude fora perdida. Ao menos ele levantou a hipótese de ser o culpado pela demente imaginação, ainda que não se convencesse disso. E pouco importava sua culpa, ele não se considerava dono do próprio destino.

Vencido, deita-se resignado e disposto a morrer, curvando-se às incomensuráveis forças divinas. Porém, tal qual um judeu, seu orgulho é inflado pelas inúmeras humilhações e ele dirigidas. Vitimiza-se constantemente, em parte a fim de despertar compaixão e clamar por auxílio, em parte porque justificaria seu estado de danação. É mais por birra e vaidade que o ranzinza não se mata – jamais deves regozijar teus inimigos! Podes sair estropiado da luta, “mas com as honras do combate”. Após esse demasiado convívio com a tristeza, ódio, ira e vingança instauraram-se em seu coração definitivamente, ou em sua mente. Malditos sejam os ricos, os felizes, os viventes...

Enfim reconhece que passou por belos momentos, por celestiais estados de espírito, e que essa felicidade, ou alegria, só é possível com os cuidados e com a limpeza da consciência. É a má consciência, esse morcego que à noite bate à porta e entra de assalto no quarto, que traz a perspectiva neurótica e pessimista das coisas. Só dá adeus aos bons sonhos quem não tem paciência e diz não ter tempo para regar o próprio jardim; e os que não sabem o que querem. Esses sonhos parecerão curtos aos olhos de quem os dispensou em detrimento a outros mais atuais. Assim, seguirá em marcha aleatória, em peregrinação a um objetivo sem sentido, pois não sabe o que quer. Quem não reflete sobre o que realmente deseja avistará tentação em qualquer bijuteria.

O demônio tornou-se um espantalho apenas e Strindberg consolou-se com esta graça concedida: Swedenborg devastou as ervas daninhas em sua mente e sua luz clareou o céu. Por fim, expiação, e conseqüente salvação, por uma religião nova e progressista. Após uma formidável batalha contra o verdadeiro inimigo (superego versus ego), a resolução: arrependimento (perdão). A ajuda de Balzac foi pontual: “o remorso é a impotência de quem persiste no erro. Só o arrependimento é força que acaba com tudo”. E sua vida não terminou, não houve tragédia, mas sim cura – redenção! E termina católico, sem trair seus antepassados (a religião mater), e ainda passivo, alegando que foi o próprio catolicismo que o perseguiu e esclareceu-o sobre a existência. Existência essa que servirá de exemplo aos que não se deixarão enganar pela vaidade de um profeta-impostor, que se julgava inútil e tolo, mas que deu, ao menos, uma ínfima contribuição ao mundo, ou uma imensa, se você tiver mente aberta a um aprendizado litero-filosófico.

Fonte Bibligráfica:
STRINDBERG. Inferno. Ed. Hedra, 2010.

9 de maio de 2012

Escuta teus sonhos, se puderes


Oniricamente falando


Não choveu enquanto chovia
E eu me pus a imaginar triângulos redondos
Isso porque meus pensamentos imperfeitos
Inscreviam-se em versos perfeitos


Perfeição do que não está acabado,
Posto que tudo é matéria e nada termina,
Os ideais são deveras ilógicos.
Se discordar, tente você puxar suas linhas


O homem entrou no buraco da agulha
E não quis mais sair daquele fundo,
Poço fundo povoado por anjos
E por quem mais puder ser mudo
Neste mundo infinitamente infinito


Já o buraco da chave não podia adentrar
O buraco da fechadura da dura porta,
Que era rangida por velhas dobradiças
Relembrando-me cânticos de missa


Forte infortúnio afortunado!
Nesse domingo avistei paquidermes:
Do branco nariz dos elefantes broncos
Saíam armas mortais a inimigos,
Mas não a protegidos de Hermes


Nem a seguidores de Orfeu: os líricos.
Ressoava a lira e se esqueciam das normas,
Sejam as civis ou as gramaticais.
Estão conservados em tonéis com formol,
Num mundo onírico, os seus cordões umbilicais


Marujos de calça curta velejavam,
Após suas moafas de rum à beira do cais,
Um barco dentro de uma garrafa
Outrora preenchida de microgirafas


O chamado traiçoeiro e sedutor das sereias
Foi abafado pelo esguicho das rajadas baleias,
O mergulhador aproveitou os jatos d’água
Para surfar sobre o cilindro sibilante.
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Jardins Suspensos em Mim

Um vale foi construído sobre prédios:
Os jardins suspensos metropolitanos.
Era agradável caminhar nesse arcano,
A floresta filtrava nossa diária poluição

Amigos desaparecidos por lá aparecem
Rinocerontes e ocapis luas observam.
Respeito e sorriso são estruturas
Que azuis e verdes conservam

Então recebi no tímpano flechada -
Aviso do que não mais deveria ouvir.
Mas batom cicatriza feridas caladas
Auto-infligidas, por timidez e orgulho

Eu deveria estar lá, e lá estou;
Cá não estou, ainda que o corpo não vá.
A mente voa veloz, projeta ali
O que aqui eu não bem percebi
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28 de abril de 2012

O Mendigo

Cansado da burocrática vida
Dos que labutam, pagando os impostos
E chateiam-se com tecidos róseos,
Ou traquinagem e supérfluas dívidas

O ex-cidadão largou tudo e foi à rua,
Viver do que ali achava, fez-se mendigo;
 Chocava madames com suas agruras.
Gentil, não só olhava ao próprio umbigo

Por não ser um ignorante, ignorava,
Ou melhor, desprezava os arrogantes:
 “Só quem é vazio valoriza insígnias”
Mas vaidosos veem nisso ignomínia

Lembrou-se de enfastiosos panegíricos
Proferidos – pérfidos apedantados
Agora só se dirigem ao cínico
Os que se encontram mal afortunados

Abestalhados inculcam seus cultos
A outrem, mas não os vencem, nem se convencem.
Já o mendigo capta o jogo dos brutos;
 Grátis recebeu aquilo que os filisteus
Diziam ser um mal: a vida frugal

Colegas de praça o chamam de mindingo
E enfiam na orelha o dedo mindinho.
Respeitado e influente brada seu signo:
Por bagatelas é que não me indigno!

Pensamos nele como curva de rio
Da cultura que dispensa dispensando-se.
 Gostamos de apontar à fuça o fuzil,
 Somos déspotas como um Ferdinando

Pretensiosa compaixão e seus ardis
Escamoteiam sentimentos viris
Tratam como vítima o sujo pedinte
E se comprazem, não estão lá entre os vinte

Para de fingir indulgência!
Por que pensas que ele é indigente?
Algo escasso, insuficiente,
Alguém muito menos que gente?
Nem é ele o infeliz de nascença...

2 de abril de 2012

Chuva, eu só peço que caia devagar

Chove lá fora e aqui faz tanto frio. Assim dizia a canção popular. Assim eu me encontrava em meu lar. A água não parava de cair do céu; o som dos trovões e a repentina iluminação dos relâmpagos me acordaram. A luz do céu acorda o mundo. Ok, não choveria por anos como em Macondo, mas a insistência da tempestade me fez lembrar o clássico livro. (De leituras evasivas quero manter distância, faça você o mesmo.) A madrugada seria longa após esta rara insônia. Sem reclamar, reflito e chego a conclusões. Momentos imprevistos podem trazer bons efeitos. O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído. Há flexibilidade diante de oportunidades inesperadas, que à primeira vista seriam agourentas, mas que parecem úteis agora e agregam perspectivas, que não mais se ignora. O sábio tira proveito em cada ciclo sazonal. Toda fruta tem uma fase propícia ao plantio e à colheita. A natureza é afável ao bom homem do campo. Bem, um pouco de otimismo não mata ninguém, afinal.

Goteiras me remetem à solução de problemas. É preciso reformar o forro, o gesso, a laje, mas deixo para um momento de urgência; por exclusiva questão estética eu evito meter a mão no bolso. Pinga, pingos, manchas do pinga-pinga – o aguaceiro e o fluxo pluvial ativam na bexiga a urina. Uns dois litros saem de mim e uma hora depois, mais um litro. Enquanto a enxurrada invade a minha casa, eu me seco por dentro. Portanto bebo água, por ora ela ainda existe em forma potável, apesar de não ser tão potável assim. Nunca o é, sempre ingerimos sujeiras por aí. Não entendo como os hipocondríacos e os portadores de TOC conseguem viver: não podemos controlar tudo. Muito menos limpar!

Seco por dentro, eu me seco por fora, após uma rápida saída na varanda, a fim de verificar o carro e o cachorro. Sinto-me cumprindo deveres. Ora, isso é a moral, não a ética. Como posso agir em direção ao oposto do que defendi e alinhado ao que critiquei? Um homem não pode se reduzir a imperativos. A vida é muito mais que seguir ordens e orgulhar-se do dever cumprido. Compro, portanto, a idéia de cumprir sim um dever, mas não do que esperam de mim, e sim do que eu mesmo espero de mim, isto é, a ética da minha vontade e não a moral da vontade dos outros. E, num momento poético, tomo banho de chuva. Liberto-me da fraqueza de reclamar das derrotas e das impossibilidades que pressionam e paralisam. Subterfúgios e expiações de um derrotista. Ah, friorento, se não fosse a baixa temperatura ficarias mais tempo molhando a cabeça ao léu! Até, quem sabe, dançando com tua cálida amante um bolero de Ravel. Talvez uma corrida maluca pela rua, seminu, fosse mais libertador. Todavia isso não foi preciso; indolor, aqueles escassos segundos pulando no reduzido espaço tiveram significado suficiente. Menos queixumes, mais conselhos decentes.

A inspiração costuma surgir quando menos se espera e deve-se estar preparado para expressar tal insight. Antes eu ponderava que era possível adiar a ocasião de escrever, compor ou desenhar, até porque aquela idéia pertencia a mim e não continha em si uma iminente exteriorização. Mas não, era uma tolice, eu não passava de um palerma burocrático que julgava a arte como mais uma técnica em série, só aguardando o impulso da esteira e dos moldes industriais para surgir, ou brotar, o objeto inicialmente imaginado. Uma câmera fotográfica digital não extravasa sentimentos. Tal qual a chuva, que é jorrada das nuvens carregadas de tamanha umidade acumulada ou do choque térmico impetuoso, a obra de arte deve irromper desse entusiasmo estético imediatamente, de preferência. Essa vontade é tão impaciente que se ela não for formalizada, ela se esgota, e talvez reste efetivada num universo paralelo, pois não neste, deveras determinista. Por aqui fica apenas no inconsciente, nos recônditos da memória e da imaginação, desse indivíduo/hospedeiro. E perde-se a contribuição à humanidade – apesar de essa poética transformar nas sutilezas a pessoa. Contudo, em ambos os casos a arte é mais um espasmo da ocasião, da conversão formidável de acontecimentos que culminaram em tal evento, do que uma propriedade desse sujeito sem talento. Foi apenas um traço da subjetividade que legitimou a sua assinatura no episódio. Que sujeito é esse? Está lá fora, está aqui dentro, não tá nem aí e muito menos aqui?

Por fim, no terminadouro, no nadir, no ocaso, no crepúsculo, sugamos o resto de energia para a limpeza em seguida, do sereno noturno e do orvalho matinal, até a chegada da aurora que anuncia esperançosamente um dia cheio de ocasiões fortuitas. Doravante, caia chuva dadivosa, chove chuva generosa, inunde nossos rios, pastos e lamaçais, formando em cachoeiras véus naturais. E se não for pedir muito, que seja devagar, para o regozijo de quem possui olhos aguçados e uma mente desperta e hábil, observando o fenômeno atmosférico, algures raro, alhures corriqueiro, por aqui ambos. Para que seu aspecto cinza não signifique vazio, mas traga ventos favoráveis a encalhados navios. E aquele que arremeter lampejos de sabedoria saberá filtrar sua tormenta em benefício próprio e quiçá comunitário. Muito se sabe que após a tempestade vêm a calmaria e a bonança, entretanto muitos não compreenderam isso e perdem o bonde da alegria, resignando-se com o do choro, de águas salgadas e amargas.

26 de março de 2012

Limpezas, por pedra

Uma limpeza

Sol é detergente
E chuva é solvente
Sonhos são calmantes
E amor, alvejante

Dentro de uma empresa
Só se pode ver presa
Tamanha beleza; um azar
Ao sorriso, nunca a relaxar

Asseio de mofadas idéias:
Convícios de Hera ou Medeia
Na fluidez do eterno devir
Faz-se o homem, enfim a sorrir

Libido é vontade, que é vida.
A dúvida põe-nos em dívida
Com a imperiosa e intolerante vontade
Exercitar-se já é estar em vantagem

Sou pedra

Humilde, de convicções maleáveis,
Sou pedra pintada, imóvel, louvável.
Reflito, não intenciono, repasso
O que todos querem ver e prever: solução
Marco meu passo num pedaço de sedução

Nua na calçada, de peito à lua,
Despercebida, eu percebo placebos
Dispendiosos, são pretensas ofensas.
Os bolsos transportam jóias e bens,
Mas a roupa desfila sem um alguém

A um palácio que toma forma de cabana,
Proferem: “bacana”! Isto é, macaco e bananas...
Logo pelos hirsutos ficarão eriçados
Com os berros d’alguma antítese (sacana?) –
Perder o controle não é descontrole

7 de março de 2012

Come on, Get Out (In & Out)

Assim como tudo o que sobe tem que descer, o que entra tem que sair. É claro que nesse segundo caso o processo não é tão óbvio e simples. Múltiplas variáveis influenciam como causas de um efeito por vezes imprevisível. Uma bolha de sabão uma hora vai estourar e um balão de gás que sobe rumo à estratosfera se esvaziará após perder pressão; a interação do ambiente externo com o interno e a troca de calor e de pressão entre eles, conforme as leis descritas pela termodinâmica, influenciarão no resultado final. Se o cenário for conhecido, basta calcular segundo as fórmulas dadas que a previsão se concretizará na hora certa, por outro lado, com um cenário não tão bem descrito, as projeções se mostrarão apenas probabilísticas, isto é, o momento, o local e o efeito poderão ser apenas conjecturados.

No que se refere às ciências humanas, apesar dos cientistas americanos tentarem objetivar ao máximo, tratando-nos como máquinas manipuláveis socialmente, ou como animais destituídos de valores morais e de senso estético e de justiça, ou seja, detentores de uma natureza essencial – com ação e reação facilmente identificáveis –, eu penso que as causas e efeitos não podem ser categóricas, jamais saberemos o que gerou tal resultado e nem que certos estímulos acarretarão em determinadas conseqüências – não com exatidão! Por que crianças gostam de soprar bolhas de sabão para em seguida estourá-las? Criar e destruir é uma tendência constante nos humanos, dá controle sobre suas vidas. E por que outras ficam indiferentes à efemeridade das coisas? Instintos de predador e de presa habitam em nós, um querendo anular o outro, restando o sujeito em convulsões mentais e sentimentais.

Quanto maior for a tensão acumulada pela pessoa, maior será a necessidade de extravasar. Sabemos muito bem disso em época de Carnaval, em viradas de ano, em happy hours e nas baladas de fim de semana. O estresse da rotina precisa ser liberado, ainda que por meios não tão nobres assim, como bebedeiras e violência. A arte é uma grande válvula de escape, porém para executá-la de maneira apropriada é preciso de um pouco de técnica, de um bom conhecimento de si e do ambiente que o cerca, de um estado emocional minimamente desequilibrado e de energia ou angústias engarrafadas, afinal ninguém pinta um quadro por dia por muito tempo. Esse transbordamento subjetivo pode gerar obras memoráveis, ou nem tanto, mas sem dúvida terá mais significado que a frieza de um trabalho técnico, um artesanato ou outra produção em série qualquer. Enfim, o espírito artístico ignora o objetivo material, a vontade é apenas de jogar para fora o que tanto agita por dentro. Talvez por isso os técnicos de esportistas não aconselham seus atletas a praticarem sexo antes dos jogos, pois aquela tensão primordial da libido – acreditam eles – é uma fonte insubstituível de garra e criatividade. Freud percebeu isso e formulou sua teoria sobre a sublimação, em virtude de libido reprimida. Quem goza demais fica sem força e rebeldia para romper barreiras – o hedonismo contra a tragédia. Esquivo-me, não hierarquizo prazeres, mas a humanidade sim.

Nesse entra e sai rotineiro, sendo que algumas entradas são diacrônicas e as saídas são principalmente sincrônicas, pois as pessoas não costumam ter paciência para retirar o que lhes incomoda, nesse processo a economia, a sociedade e a vida agradecem. Se atingíssemos um nirvana, uma ataraxia, qual seria o sentido em continuar vivendo? Ainda que muitas de nossas escolhas sejam aborrecimentos, sem elas não teríamos o que fazer e morreríamos de tédio. Que se encham as sacolas de papelão, um embuste é melhor do que o insuportável vazio. Basta saber que se trata de um engodo para não se iludir com o valor inventado. Então, aventuras são experimentadas, empreendimentos são investidos, filhos, concebidos, cidades, erguidas e filosofias, escritas, ou ponderadas. Fala-se do fim da história, o que não passa de balela, a história só chegaria ao fim quando de fato a humanidade fosse extinta, no entanto só uma catástrofe monumental seria capaz da proeza – para alguns niilistas seria uma dádiva (desmerecimento desistente de quem se paralisa perante o incontrolável).

Pressão e cobrança por resultados sobre quem não dá importância à competitividade ou para os que não têm boa auto-estima só agravam a situação. Esse estresse adicional com sinceras intenções de motivar ajuda os folgados que querem vencer, contudo não querem se esforçar. Adicionam-se raiva, gana e eletricidade e obtêm-se bons resultados objetivos, mas também maus resultados subjetivos. É a ética do vencedor com um foco em mente (derrotar o adversário), não é a ética de quem deseja uma vida mais feliz e harmoniosa. O mundo material tem desses contrapontos: inconvenientes e obstinadas adversidades. É uma pena não poder separar, no homem, a parte mecânica e a parte idiossincrática, deveras simbólica, muitas confusões seriam dissipadas. Mas não é uma pena lidarmos tão bem e intensamente com curvas e fugas pela tangente, para então voltarmos aos circuitos ovais da rotina.

Como eu disse no princípio, o processo do que entra e do que sai num indivíduo não é óbvio nem simples. Valores estão envolvidos e convencer os outros a mudá-los é uma tarefa árdua, com severos, quem sabe, efeitos colaterais. Todavia, é a partir do que se valoriza que haverá vontade para lutar, para correr atrás do que se pede e para significar a existência. Em uma esfera de informações chegando a nós como um paquiderme sobre a grama (agravado pelo fato de serem contraditórias), o sentimento de barco à deriva é inevitável a quem não tem convicções e uma sólida moral (seria coisa de fundamentalista, de dogmático). Porém, é forçoso também acreditar em algo e viver conforme a ideia, isto é, defender uma ética e praticá-la pela política. É nesse embaraço que optamos e traçamos o rumo de onde queremos chegar: o passado entrou, algum futuro sairá, pode acreditar.