27 de janeiro de 2013

Sobre a Filosofia Cínica - pt. 1


I

Farei aqui ponderações sobre a escola cínica; sobre o cinismo, esse termo que perdeu o sentido original, tornando-se mero sinônimo de cara-de-pau. Quem foram os cínicos e quem ainda segue tal filosofia de vida? Só os anêmicos, os mímicos ou os bulímicos? Apenas adianto que ela é bastante pragmática, desapegada e pessimista. Ética socrática na vertente dos lúgubres artistas. Sem abdicar do ar de superioridade perante os pretensiosos mortais (com suas meias verdades), paradoxalmente a partir de uma posição inferior, do olhar do cão abandonado, mas que pelo labor supera paixões e quaisquer tipos de dor. Aquele que se rebaixa a viver como um cão revela-se acima dos homens ordinários. Ele sabe do que é capaz e está alheio às convenções sociais, essas máscaras que aprisionam o sujeito, tolhendo-o dos riscos e desafios da natureza, de livres bichos.

O cínico foca em sua existência mesma e está pouco preocupado com intrincadas teorias e abstrações que nada lhe dizem, afinal estão no mundo das ideias. Quem não cessa de divagar, cessa de praticar. Por que tanta apreensão em nomear e definir as coisas? O falatório não passa de tautologias que só dizem o óbvio ou de recheios que caem no absurdo e no convencimento por retórica. O cinismo exige uma ética, contanto que contenha uma cartilha minimalista com o essencial para viver, apesar dos não-cínicos acharem disso isto: mero sobreviver. Questões linguísticas devem ficar em suspenso, pois o uso das palavras resulta em aporias. O ceticismo teórico é radical feito o pirrônico, porém a inércia cética é incoerente diante das necessidades do mundo, do corpo e da alma. O simples agir soluciona as contradições, pois ninguém morre delas, mas de inanição, sim. A lógica e a falta dela convivem em equilíbrio no homem bem resolvido e contente. Não há maior coerência. O perigo está na pretensão e não na frugalidade, está na coação e não na sobriedade.

E como é possível manter a retidão diante da decadência, da corrupção e das disputas sem fim e sem sentido dos homens? É ficando à parte, recusando-se a pertencer a tal estado degenerado, não sendo conivente com tamanha imundície, falsidade e mesquinharia. Arrogância, dificuldade em lidar com mudanças e com as maculadas sequelas que as misturas inevitavelmente acarretam? É bem possível. O estado originário se perdeu, a entropia significa aumento exponencial da distância inicial, ocorreu uma hibridização daquele pontinho branco harmônico e puro. É duro aceitá-la, mas por ser inevitável, é preciso. Essa dificuldade em suportar ser sujo para sempre, sem possibilidade de redenção, reduz a gana de viver. Especialmente se for entre os pobres e podres homens, mas longe, no meio da selva e da relva, há uma chance; é o mais próximo do ato original que se pode estar. É a crença no “mito do bom selvagem” de Rousseau. A civilização não pode dar marcha à ré, mas um indivíduo pode tentar; é o que o cínico faz. Ele tenta redimir os erros dos outros e das instituições corporativistas. Como o vizinho espelha sua podridão, o cínico foge desse sinistro reflexo.

E vai para onde? Para um lugar onde não precisa mais zombar dos outros, pois isso lhe lembraria de sua condição miserável – todo escárnio é também uma apunhalada em si, pois descontar a frustração no outro é escamotear os próprios defeitos. A multidão tende a agir como rebanho dócil, tolerando falhas em prol do grupo – é uma loucura legitimada. Isso não deveria ser permitido. Mas proibir todo ato seria loucura maior! Solução? Novamente, o isolamento. Que cada um seja juiz, júri e réu, acusador e acusado, e numa só alma – suporte essa angústia ou se mate! Só não é permitido prolongar a fealdade da massa de gente carente e vaidosa. Gente que cria e venera deuses e ídolos, tão ocos e supérfluos quanto um toco de bambu. Só fora dos grupos a sede de poder irá obliterar, até esse ermitão perder as papilas gustativas que saboreariam o amargor do domínio.

Os progressistas creem num futuro sempre melhor e os reacionários pensam que a idade de ouro ficou lá pra trás. Ambos erram, só há o aqui e agora, e esse presente é apenas o momento onde é vivida toda experiência, sem valores prévios nem tradições. Ou seja, cada ato é forçoso e banal. Mas o homem adora erguer monumentos por suas conquistas e bravuras. Todo poder seria contingência do orgulho. E como as pessoas têm necessidade de se sentir poderosas!

A indiferença é quase uma norma ao cínico, uma das poucas. Decorre disso a suspeita de arrogância por parte dos desavisados que recebem patadas, bicadas ou mordidas dele. Na verdade, há apenas introspecção e um mergulho na única fonte de conhecimento que se pode controlar, não totalmente, mas uma grande parte dela, que é o próprio eu. E quem se faz de objeto de estudo deixa pra lá o que não lhe diz respeito, que é em suma o resto do mundo. Que incongruente um mendigo orgulhoso! Contudo, essa não é a questão, o cínico é amoral, quer apenas cutucar feridas que o povo não vê, pois não reconhece suas idiossincrasias como doenças. A mosca zumbe até o homem lhe dar um tapa mortal, porquanto do entorno ela não sairá. Este é papel do cínico na praça, uma velha lição de Sócrates: ironizar o interlocutor até este reconhecer a própria pequenez e ignomínia.

Ele se serve do humor negro, às vezes sutil, às vezes escrachado. O principal é expressar ironias, mordacidade, aquela denúncia que só os espertos e atentos captarão. O cínico não deseja mudar o mundo, muito menos outra pessoa, ele solta suas frases e quem puder que faça bom uso delas. São poucos os humildes que param para escutá-lo, mas com certeza não se arrependerão; Alexandre Magno recebeu uma pitada de sabedoria cínica com somente uma frase enigmática, sinal de que não é preciso ser grandioso ou eloquente para ser o suficiente. Pelo contrário, a ganância se alimenta justamente do tamanho do hospedeiro, feito câncer esfomeado. Reconhecer esse mínimo à vida plena talvez seja mais difícil que acumular bens e posses, como fazem os bilionários.

Todavia, quem nada, ou pouquíssimo, tem quer mais. O homem tem essa mania de desejar sem parar. Ele vai querendo e se aprisionando. Então quando perde um dente, uma dentadura ou um dente-de-alho chora. Já o cínico não lamenta as perdas, jamais terá depressão. Seu saber e sua memória lhe bastam. A felicidade não está no mundo exterior, mas no interior. A única coisa que tem a perder é a própria vida, pois única. Ele tenta aproveitá-la ao máximo, apesar de não parecer. Só não quer se entregar aos caprichos dos sentidos, uma vez que desvirtuam. A virtude lhe é cara e bem definida, esse é seu objetivo diário, até a morte; ele nunca terá momento de descanso, apesar do desapego material. E essa virtude é política, não moral. Sua intenção é genérica, não localizada, daí seu desprendimento às coberturas jornalísticas. Não há muito a que zelar e ao mesmo tempo há tanto dever a ser cumprido, isso se explica pela relação complexa entre corpo e alma. Eles se inter-relacionam de forma imbricada e deixam seu dono perplexo e angustiado para aplacar os ânimos.

Cada necessidade do corpo vai gerando mais outra, mesmo depois de satisfeita, é parte natural do processo orgânico. A vida é cíclica. A cada ação, uma reação, e por aí vai, até retornar, com outra roupagem e em outro contexto, porém com aspectos muito semelhantes. Reduzir a velocidade dessa espiral é o alvo do esforço incansável do cínico, isto é, tentar retardar o movimento de rotação, apesar de isso ser uma tarefa hercúlea. Pouco importa. Sentir-se um herói, mesmo que ninguém mais o julgue como tal, reconforta. Quem sabe este não é o cinismo que o cínico não percebe: sua vida virtuosa e heroica é mais uma pretensão humana que nada vale? Reconhecer isso o tornaria mais tolerante com as falhas dos outros. Ele busca respostas também, não é apenas provocador, logo suas acusações e seus escárnios voltam pra ele, quando pensa agir melhor que os demais. Como toda ação humana é ética e política, e funda valores que passarão mais cedo ou mais tarde também pelo escrutínio público, ninguém está aquém ou além dele. Porém, os cínicos parecem querer se posicionar ao largo desses juízos. Só que a responsabilidade pesa para eles igualmente.

15 de janeiro de 2013

Oferendas e Descartes


Minha jangada, após anos de uso, foi deixada aos cuidados da correnteza, e por esta seguiu até descer em câmera lenta pela garganta sempre úmida de uma foz qualquer; enfim digerida por um lago receptivo, um desses bons anfitriões o qual a Natureza é pródiga em formar. Naquelas pacíficas águas minha jangadinha foi bem aproveitada, como sempre são as oferendas que os desapegados entregam de coração exultante, pois sabem que no ciclo do carbono, ou no de vários outros elementos químicos, todo item ou ação carregado de energias boas e sinceras é sabiamente reaproveitado para manter o meio ambiente harmônico e seus seres vigilantes e brilhantes. Se o excesso dessas doações transbordar o rio, não há com o que se preocupar, a água das enchentes costuma fazer brotar sementes esquecidas e ovos depositados, ainda não eclodidos. Todo alimento deveria ser assim: um singelo barco à deriva. O tempo se encarregaria de encontrar um destinatário que, de bom grado, usufruiria e se regozijaria com mais uma dádiva do mundo.

Todo objeto que encontramos pelo caminho é sugestivo. A princípio é apenas um esboço, uma silhueta dificilmente discernida, um projeto de uma realidade do porvir, que uma mente sagaz e uma vontade irresistível irão transformar em algo maior, seja por prospecção ou por simples manuseio baseado em repetições insistentes. Para visualizar além das sombras são precisos olhos iluminados, coisa rara. Essa matéria-prima, uma pedra rara em estado bruto, é um rascunho a ser lapidado por uma técnica e fluído pela inspiração de um anseio tirânico. Mas um objeto inerte precisa dessa arbitrariedade, a fim de sair do marasmo ao prazer quase sublime que só atos ao bel-prazer são capazes de garantir. Ao final, voilà, uma bela obra de arte. Se a volição for somente ancorada em preceitos e padrões deveras rígidos, haverá artesanato – ele tem o seu desfrute, mas não se compara ao assombro de uma arte autêntica e original. Em tudo consta um fundo a explorar.

Imaginem quantas obras-primas e tesouros imortais da humanidade, seja em forma física ou apenas na memória efêmera dos povos, esfacelaram-se no ar porque faltara um desses detalhes que insistem em escapar dos sentidos humanos: tempo ou conhecimento ou devoção. Cada sujeito observador e desejante tem o potencial artístico de produzir uma dessas preciosidades, porém são poucos os intempestivos, disciplinados e ousados para chegar a tamanho êxtase. Ser produtivo em quantidade e qualidade não é para qualquer um, mas bem que podia ser, se houvesse estímulo para tanto. Contudo, a maioria quer facilidades e diferenciação por bobeiras. Esquecem-se das essências.

O problema é que a doença os doentes da modernidade teimam em não reconhecer. Vidrados nas últimas novidades anunciadas com promessas de trinta segundos de felicidade eterna eles estão ocupados demais para mudarem seu foco. Todo médico sabe o valor que há em mudar de ares e paisagens, nem que seja pela amplitude que a visão do paciente ganharia. Porém, eles se amam tanto que não sabem quem são nem onde estão. A viagem ao interior é íngreme, mas as ladeiras não são mais tolerantes pelos passageiros, pois obtusos e marejados. Eles já sabem como e onde serão enterrados e lamuriados; enjoado com o caminho bastante tracejado, deslumbrados ficam com os sininhos dourados em meio à pressa da feira. Bichos adestrados não podem mais pensar por si e buscar essências, seguem normas e formalidades, sem elas, restam irresolutos.

O senso comum entorpeceu os viventes, que não plenificam suas experiências, estão demasiadamente adormecidos.  Mas há aqueles que o defendam, esses não passam de ruminadores, um gado que muge e ronca de pé, e ainda assim julgando-se desperto. Enquanto isso, os lustradores e enceradores de móveis e peças luxuosas se preocupam com o brilho dos metais que ninguém irá reparar, ao invés de retirar a poeira, as teias e o mofo de mentes anestesiadas, por pouco não  putrefatas. Mas cada um conhece o que é importante e zela por isso. O sol nasce para todos, porém cabe ao homem posicionar seus maiores bens para receber a energia diurna do astro-rei. Cabe a ele decidir o que ofertar ao rio, poluindo-o ou conservando-o. O ciclo não para.

 

13 de janeiro de 2013

Inveja do lado de lá


O criticado de hoje é o aliado de amanhã, o bode expiatório de sino dourado de hoje é o compadre de amanhã, o Exu chuta que é macumba de vestes badaladas de hoje é o santo de amanhã, a persona non grata metidinha de hoje é o parceiro de amanhã. É assim a vida dos invejosos sem opinião formada. Falar, reclamar, chiar, resmungar, choramingar pitangas porque foi excluído da patota é comum para quem não sacou como os fatos se amarram. O novo rico, ou apenas a classe média emergente, não me deixa mentir. E eu queria estar enganado, mas não sou iludido.

“A nossa inveja dura sempre mais tempo que a felicidade daqueles que invejamos.” Talvez a inveja seja o pecado capital mais recorrente de nossos pobres e ignorantes cristãos. É tão fácil falar mal do playboy de vida mansa quando se está do outro lado da rua. O sentimento ruim surge de bate-pronto e precisa sair para não deprimir o pé-rapado. Então o coitado enche a boca para reclamar da falta de ética dos burgueses de condomínio. Quem mais rasga o verbo é quem mais tem culpa no cartório. É igual a pai safado de menina bonita ou marido possessivo de mulher boa, eles aprontaram das suas, sabem do que outro homem ou as mulheres são capazes, portanto professam loquazmente sua hipocrisia aos colegas, vizinhos e cachaceiros da meia-noite. Não se enganem, discurso inflamado é sinal de culpa enrustida.

Como a maioria dos homofóbicos que dizem não admitir filho, amigo ou político baitola, esse ou já queimou ou ainda queima ou se contorce de vontade de queimar a ruela. Reconhece que aquilo não é legal socialmente, mas no escurinho se diverte pra valer. Quem sabe não seja inveja da diversão alheia mais do que incômodo pela perversão que degenera os bons costumes interioranos? Nem eles sabem responder. Recalcar por demais os prazeres faz com que conscientemente só seja repassado o sermão que se acabou de ouvir ou que insistentemente é gritado nos ouvidos pelos submissos anos da miserável vida de periquito. A gaiola é a maior fomentadora da inveja. O bichinho quer sair e aproveitador a saudável liberdade dos transeuntes risonhos e bem vestidos. O oprimido sempre carregará a dor da humilhação sofrida. Quanto pior o sentimento, maiores serão os gritos. As grades podem até sair de seu rosto, mas permanecem em seu peito comprimido.

E se o voluntarismo não significar felicidade autêntica, há uma farmácia na esquina fornecendo antidepressivos aos angustiados e apressados urbanos. Um sorriso na face é um grande sinal de vida boa, ou no mínimo de uma vivência satisfatória. O que um sorriso não é capaz de provocar! Um infeliz é capaz de mudar de time, de bairro, de profissão, de ideologia e de caráter para possuir um sorriso contumaz em seu já cansado rosto, em sua expressão cabisbaixa e em seus ombros derrubados por pesos físicos e metafísicos. A aparência garante mais sucesso que a legítima personalidade. Assim pensam os fracos de espírito e deslumbrados pela encenação.

 Manifestações externas de aprovação contam mais pontos que a retidão moral que sabe identificar o certo e o errado, o digno e o ignóbil, o faça e o não faça. Estoicismo nada pode contra as torrentes hedonistas que espalham fotos de gente sorrindo e pulando de alegria. Como dizer que a vida desses não é boa quando seu quarto é mobiliado por itens sombrios e circunspetos? Conclusão lógica: divertir-se é melhor que suportar no osso as lombadas e intempéries da encosta nebulosa e estacionada. Motivação torna-se a palavra de ordem, mas para isso é preciso mudar de ares, conhecer novos idiotas e tornar-se mais um. Pertencer é um imperativo, o contrário é fracasso. Por essas e outras o compartilhamento garante a alegria dos carentes.

Falta, sempre falta, algo, nem que seja ruim. O que não pode predominar é o vazio. Esse é o mal maior. Ocupar-se é não dar sopa para o azar. E assim se precaver do terrível demônio da modernidade: o tédio. Só que nessa espiral muitos bestalhões são lançados em mundos indesejados, com mais problemas que o anterior, mas tudo bem, antes apagar incêndio a jogar pedra no lago. Chegando junto dos que prometem farra e vida boa, o reclamão e mal amado vai à forra, claro que não sem batismos e impaciência até sintonizar a frequência sem chiados. Que os infelizes que ficaram para trás entendam e se adaptem ao novo sujeito. Pergunto: quem se sujeita mais aqui?

Pose, poser! Flashes não faltarão, pipocarão até cegá-lo, quem sabe isso não será o necessário para fazê-lo voltar a enxergar? Enquanto a inveja for sua força motora não haverá salvação, o fetichismo é sua pretensa redenção. Talvez tenha sido o melhor pra sua vida, do contrário haveria suicídio ou veias escorrendo por ralos. Apenas saiba que continuará ralo, sem sacar como os fatos se amarram. Apenas sua postura mudou: os criticados agora recebem elogios e a vidinha de antes se tornou alvo de escárnio. E chega de se vangloriar que o lado daí é o melhor e que o lado de cá da rua restam os losers. Cada um com sua fantasia de felicidade e suas acusações de tolice. A sua inveja permanece, mas não gerou inveja nos outros, seu objetivo não foi totalmente concluído.

“Ninguém é realmente digno de inveja, e tantos são dignos de lástima!”
 
P.S.: Tentarei iniciar uma nova fase, com escritos mais despojados, dependerá da inspiração, da disciplina e do tempo vago. Não que isso vá mudar alguma coisa...

29 de dezembro de 2012

Só para fechar o ano e manter a média mensal


Em atos se fazendo

Eremita, um tanto arcano,
Escuta os prantos, soprando
Entre sapatos e panos.
Eia, de um salto entra o profano,
Errante mulato obsceno,
É ingrato, assim vai procedendo.
E sai do mato o sarraceno,
Está armado, com maça ardendo;
Entoa bem alto seus hinos.

Tem estado nosso assassino
Em estratos, vem decaindo
Espalhado, e dor reluzindo.
Eu sei como trato meu sono,
Escapei do nefasto Cronos;
Estampo no retrato o trono
Espelhado, os nobres repondo.
Ecoa seu brado o forte huno,
Ermo, revirado e profundo.

Encolheste, incauto Bruno!
Epíteto: gato ou Raimundo.


Hesitante

Hesitação, posto ser oposto
À excitação, essa vontade que arde,
É do elo excisão, está avessa a duelos.
Soberba, versa sobre equitação
Não sobe, não sente a tração;
Atração? Só por equiparação.
É o parado palhaço sob porções
De emoção, o espaço do cadarço,
Age calabreadamente.

Irresoluto, solta soluços;
Ao titubear é um tatu ao mar;
A cada vacilo acode bacilos;
Sempre incerto, suspende-se, aberto.
Sujeito inseguro, de ares soturnos,
Por seu jeito indeciso é nunca preciso,
Todos são: ameaça, vício e mordaça.
Tolo, trepida na via entupida
E trôpego se agita, já sôfrego.

Passará a vida a claudicar
Com sua triste cauda a arcar...

º°o0.
P.S.: Que venha 2013, apesar de não prometer nada.

16 de dezembro de 2012

Vontades, Instituições e Ética


Desde que o homem compreendeu que suas vontades são insaciáveis – elas podem ser efetivadas e acalmar a pessoa, mas retornam após um curto período de satisfação e euforia – e que um indivíduo conflita com seu semelhante, ou um povo com seu vizinho, para garantir os próprios anseios (em geral os mais imediatos), líderes entenderam que precisavam regular as ações das pessoas a fim de manter alguma ordem e força do grupo, com fins de sobrevivência, esse imperativo biológico. Em decorrência disso nasceram leis, regulamentos, dogmas, éticas, interditos, etc. Colocaram de um lado os vícios e de outro as virtudes. Os orientais foram mestres na dominação da vontade e muito antes dos pretensiosos europeus perceberam que para haver coesão comunitária e evitar os lobos conterrâneos precisavam elaborar filosofias e cartilhas rígidas, regulando as condutas dos aldeões cada vez mais apinhados, antes sequer destes agirem. Num território com pouco alimento para tanta gente, a saída, enquanto se desenvolviam tecnologias mais eficientes para colheita, lavoura e armazenamento, foi garantir a segurança do povo em detrimento da liberdade. Então as religiões inventaram que liberdade é não ser escravo do corpo, essa frágil matéria cheia de desejos tirânicos, mesquinhos e sem fim, que insiste em perturbar a alma. Comande sua mente, mantenha-se tranqüilo, permaneça sereno e atingirá o nirvana, sem os aborrecedores conflitos terrenos. Todos (a princípio) aceitariam a doutrina pregada diariamente, não discutiriam com a autoridade diretamente enviada pelos deuses e se resignariam com o pouco, mas suficiente, que possuíssem. A idéia de ciclo lhes era lugar comum, apesar de estar sob a alcunha de destino (dharma ou karma). Sem dúvida foi uma práxis útil, pois certas culturas perduraram e se tornaram milenares.

Não estou querendo dizer que esse foi o único motivo das vitórias sucessivas, após tormentas e invasões regulares; desafios que todo vivente enfrenta, como que para provar que merece estar vivo, favorecendo o aperfeiçoamento genético. Porém, é difícil negar sua importância à resistência ante a entropia. Também não quero pregar a estratégia quase sempre bem sucedida de repressão social através de manipulação psicológica em prol de líderes com objetivos nem um pouco democráticos. Por mais que os fins possam justificar os meios, atualmente toda decisão autoritária e impositiva gera focos de revolta, maiores ou menores, eficazes ou frouxos. Cada cultura que defenda seus interesses e prossiga com seus valores, apesar da globalização tender a homogeneizá-los pela primazia da economia, do capital e do consumo. Contudo, vejo que apontar a um caminho único, facilmente identificável e com promessas de felicidade seduz os incautos e necessitados (a maioria) por um pedaço de madeira qualquer para não se afogarem nos oceanos niilistas que cobrem igualmente quase todo o planeta. Essas garantias de satisfação imediata são infalíveis, apesar de danosas para quem um dia se ver marionete. Todavia, uns pensam que viver bem é não se perturbar e outros, que é realizar as aspirações. Em ambos os casos é preciso haver paciência.

O que fazer doravante com essas vontades? Toda ação interfere no ambiente e na sociedade, podendo nesta o fato se dar de forma indireta. É angustiante tomar ciência do potencial de corrosão e destruição que cada um carrega. Isto é, o outro deve ser levado em conta; a ética do libertário é a mesma do tirano, com diferença de escala apenas. Ignorar isso é tentar se imiscuir da culpa de ser mais um ferrando com o mundo já tão judiado. Olhem eles aí, os judeus, que tanto entendem de reprimir as vontades em prol de um deus corporativista e severo com os infiéis, bastante idêntico aos seus eternos rivais muçulmanos. Nessa briga de Jeová contra Alá, a humanidade é derrotada, como sempre aconteceu – os gregos e os nórdicos bem o sabem. Viver com os olhos voltados para o céu, se não for astrônomo com assistentes vigiando as condições dos equipamentos, é correr o risco de ser picado por uma víbora matreira e vil. A evolução não diz que os mais fortes e inteligentes vingam, esse privilégio é dos mais aptos, quase sempre os mais baixos e sacanas. O ser humano, por sorte ou não, está num nível de poder escapar em boa medida dessa grande lei. Os memes falam mais alto que os genes, contudo quase toda moral existente nos grandes povos privilegiou o comportamento de rebanho domado, ou seja, ignóbil – é o preço de ser animal social. Por outro lado, a visão progressista defende uma consistência cultural baseada tanto em idéias quanto em atitudes, com a devida reflexão posterior para ajustar o melhor rumo, sob pena do povo se tornar afetado ou bruto. A problemática está em saber quem terá mais poder: os progressistas ou os conservadores?

Fiz o primeiro passo, que consistiu em compreender, ainda que ligeiramente, o ponto de vista de cima, isto é, o da estrutura: as instituições precisam de alguma maneira seduzir, manipular ou conduzir (ou outro termo mais adequado) seus membros numa direção pra atingir objetivos e valores pré-traçados. Hobbes, Maquiavel, Marx e Weber talvez sejam os pensadores mais notáveis dessa perspectiva. Sem essa arbitrariedade reguladora haveria o risco de anarquia e de barco à deriva, pois confiar nos homens, por si só conseguindo uma convivência pacífica por meio de acordos tácitos e isentos de tabus seria acreditar num nível divino da “natureza humana”, que sabemos ser deveras passional e selvagem. E mesmo a razão não me parece suficiente a evitar o caos e a barbárie, pois sem questionamentos éticos e políticos (sempre relativos), ela é estéril e mecânica, capaz de cometer atrocidades, como a ciência nazista ou soviética, ou ainda segundo futuros distópicos narrados por filmes e livros de ficção científica. Agora quero abordar a visão de baixo, do humano ordinário, que introjeta essas ordens de cima e tenta repassá-las, mas que inevitavelmente se vê diante de dilemas por causa de sua vontade que vai de encontro aos deveres da boa convivência.

O homem não é um elefante que observa tudo de cima e anda devagar, a cuidar de seus parentes e tentando ser discreto, apesar de sua grandiosidade. Nós estamos mais para pavões, papagaios, raposas, cordeiros, lobos, alces, macacos, abutres, ratos e gralhas. Gostamos de aparecer, demonstrar mais importância do que temos, falar sem muita capacidade para tanto e se for preciso voar em cima das sobras. Não é muito fácil convencer as pessoas de que elas são fracas e pequenas sem apelar para a subserviência a um senhor qualquer, fantasioso ou sanguíneo. Apesar dessa pequenez humana há muito que ser feito, o existencialismo tratou muito bem sobre esse tema. Menos pretensão, metafísica e arrogância e mais senso prático. A ciência já nos situou no mundo, restando às filosofias explicar sobre as inúmeras possibilidades de viver melhor e mais livre.

Entre as filosofias que tratam sobre a vontade posso citar estas: budismo, estoicismo, hedonismo, epicurismo e cristianismo. É claro que há muitas outras, mas vou me ater a essas. O budismo, o estoicismo e o cristianismo, grosso modo, compartilham a idéia de que é preciso controlar ferrenhamente os desejos, a ponto de evitar que eles nasçam, por mais difícil que isso possa parecer. Os desejos nos afastariam do que é realmente importante (as virtudes) e nos levariam ao mau caminho (dor e existência infeliz, aqui ou além). Essa defesa do desapego e do asceticismo se torna cada vez mais difícil em um mundo que bombardeia os transeuntes de informações, banais ou nobres, e estimula-os para consumirem. O hedonismo defende o prazer acima de tudo, único bem disposto de sentido, num voluntarismo exacerbado que obviamente privilegiaria os mais fortes e protegidos (piratas ou reis), pois cada passo dado em direção à liberdade, ou libertinagem, é um passo atrás à segurança (a sua ou a dos outros). Nesse caso está mais alinhado com a ideologia capitalista. Já o epicurismo seria um meio termo entre a retidão moral e a devassidão. Ele aceita o prazer como um bem, pois o homem é dotado de várias sensações que exigem afagos, no entanto vincula esse prazer à tranqüilidade do espírito, uma vez que satisfeitos os desejos (rigorosamente selecionados) a pessoa se tornaria mais feliz e virtuosa, instruindo demais companheiros a segui-la.

Em suma, é difícil ficar indiferente perante os fatos da vida, e mesmo que se consiga não há garantia de vida feliz, a menos que haja uma convicção de que a única felicidade possível é aquela quando se consegue não desejar (ataraxia). Também não há garantias de satisfação plena com desejos insistentemente renascidos e penosamente realizados, a música do Rolling Stones toca até hoje, a comprovar que a maioria concorda que não dá para obter satisfação plena, uma vez que o tédio se instala e o vício se presta a dominar o sujeito quando ele menos espera. É um jogo sem vencedores, há no máximo consciência limpa por haver coerência em seguir princípios e normas. Os maquiavélicos riem com os objetivos alcançados a qualquer custo, mas com a condição de desconhecerem os estragos lá do caminho. Já os beatos e monges sorriem sem mostrar os dentes, jurando contentamento ascético. Questão universal e antiga, respostas relativas e contingentes.

Eu queria não passar vontade, mas passo. Talvez a virtualidade conquiste tantos adeptos ansiosos justamente pelo alívio imediato. Eles descarregam suas frustrações, preenchem a carência com atenção superficial e controlam o momento, ignorando as conseqüências, até porque na hora elas são de fato imperceptíveis. Mas tudo volta, os orientais sabem disso há muito tempo. O mundo dá voltas. As coisas passam, mas alguma substância permanece; metamorfoses ocultam o caráter original. Tudo tem um preço, é bom se conscientizar dos possíveis efeitos de cada ação. Assim como a ignorância é uma bênção: os olhos não veem, o coração não sente e o sono é longo e contínuo.
(**(&
 )(*$
P.S.: Ando um pouco desanimado para escrever essas coisas frívolas e de parco embasamento e resultado prático. Venialidades que muitos outros já escreveram, enquanto eu simplesmente repasso ao vento ou aos bytes, ignorando as origens e os leitores. Porém, se eu não escrevesse seria ainda pior, pois acho melhor ser um incompetente do que um incapaz ou inativo.

23 de novembro de 2012

Cada pessoa é uma sombra impenetrável, ainda assim erigimos um prédio de crenças sobre ela


Mamoeiro

Ó, mamoeiro, meu mamoeiro,
Por que não foste um limoeiro?
Talvez parreira ou laranjeira?
Qualquer pé de frutas acres
À minha língua e à minha barriga
Satisfazer acidamente

Um pássaro com sementes planou
Sobre meu quintal anos atrás,
Tinha planos d’alguma terra semear.
Eis que nesta hortinha depositou
O gérmen negro d’outro pomar,
Extraído por um bico certeiro

Lá no alto, além das cercas,
Vejo mamões já putrefatos,
Fora do alcance de gatunos braços.
Reservatório de varejeiras,
Dele nem as aves se alimentam,
Um dia há de cair e adubar
O solo enegrecido igual

Folhas com dedos longos, nove,
Caem do seu braço molengão
Semanalmente – lástima da nudez.
O caule denuncia a amputação
Naturalmente operada a tez,
Indiferente e apressados
Brotam quatro outros galhos

Doo mamão às mamães
Que já muito me deram pães;
De receitas é ingrediente.
Filetes verdes amarelam
Até se alaranjarem nas vasilhas,
Mas no invólucro não se estragam

A cada dia mais imponente:
Mamoeiro, parece que zelas
Por mim e por meu par
Ali, entre as duas janelas
Que mal se prestam a contemplar
A formosura de crescente fruta
...azar da concretude.

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Discussões da Relação


Dançando, ela evidencia a expressão do seu ânimo
Mais elogios deve receber o vestido,
Se não, revolverá a censura, decerto unânime,
Com a gola, o lençol e a toalha umedecidos.


E à solta, com seu desatino, com seus lagartos,
Descarregará as acumuladas frustrações;
O troco: paroxismo da ira num reles prato.
As descargas embaralham nossas dejeções.


O constante sorriso sofreu interferência
As faces alvirrubras encararam-se tensas,
Pois faltou sintonizarmos a exata frequência
E incorremos nesta programação semanal:
Irritadiços pela desatenção usual


Eu refuto, denuncio a tola intolerância.
E o refluxo das más emoções origina ânsias.
Os olhos simplesmente se prestam a hidratar
O que o coração não prontificou-se a regar.


Penso: em todo lar ocultam-se esconsos defeitos.
Lento curso da paz – ainda há luz em meu peito


19 de novembro de 2012

Falar pouco, Escrever muito, Dizer o suficiente


Constatações para surdos

I

Palavras roucas e energizadas se irrompem,
À minha revelia;
Tomara seja o grande meio-dia.
Eu não sei quem sou, só sei
Das poucas coisas que quero,
Sobrevivo, e espero.

Abro-me a muros vendados,
Faço-me de burro vendido,
Então vislumbro o rosto atrás das personas –
Apressadas pessoas em seu já habitual prejuízo.
Corpos eu agito,
Contudo, sem copos
Só os surdos escutam meus gritos,
Só os invisíveis da rua percebem os avisos.

A avó, a neta, as desiludidas, todas
Espiam o outro,
Sempre a possuir defeitos
Insuportáveis, levados pelo vento
Até o vizinho, tronco.

Também denunciam o costume vermelho
Que tenta cobrir a nudez que ruboriza
Os selvagens urbanos.
O íntimo brilha
Através da biju e do celular promocional
Na noite, que o destacam na multidão
Atordoada, à toa,
Dopada.

Dente d’ouro, sorriso nervoso, óculos milanês:
Esconderijos ao bobo freguês,
Deslumbradinho.
E os cães maltrapidos a invejar:
O sol, a brisa, o mar
E o prato cheio.
Não o terno,
Macacão laranja dos vaidosos com pastas.
Mas reprimem: “Ah, vão pastar!”

Duro no ofício, duro no divã, duro na orla
Ou na areia, e claro
No necrotério.
Na autópsia o morto fala, o sangue não mais circula,
Mas finalmente fala,
Pelo que o IML declara.

II

O motorista aguarda, o paciente e o cliente
Aguardam, mesmo o guarda
Aguarda, mas a vaga não aguarda, nem a fome.
Só o imperativo deveria esperar,
Por que gostamos de inventá-lo?
Parece tão bom fila pegar,
Nem que seja pra ser fuzilado,
Como é de praxe –
Prática de apostador ansiando o desespero.

No travesseiro é onde seus olhos enxergam,
Porém no escuro não há controle.
Faltam ornamentos, protocolo ou símbolos
A denunciar o status e o frenesi,
Para isso há aeroportos e táxis.

Ocupação é oposição ao ócio, que é alteridade,
Reconhece os adoecidos
E os solitários, e as úlceras.
Nem todos descobriram seus bálsamos e placebos,
Mas panacéias são propagandeadas.
Na tela o tolo vê celeridade
E celebridades em série:
Um galã, ou uma modelo, anuncia
E um idólatra blasé compra suflês,
Sem parar, sem parar. Sem parar!

Enquanto isso, o choro é engolido etilicamente
E a mágoa sai via baforadas;
Os venenos entram e saem,
E a culpa é dos caciques.
Os ecos da infância nunca se esvaem.

O discurso fácil é curto e curtido
Por meio das pichações virtuais.
Vigia-se e pune-se tumulto
No coreto ou nos murais.
Então o papo de botequim tornado gratuito
Folhetim é lido por homens-meninos.
O jovem vilipendia a imagem no espelho
E fantasmas irradia, é o seu destino.

Para decifrar as coisas do mundo, tão fortes,
Enigmas de morte,
Agarra-se às certezas, sempre miúdas
E tomadas de empréstimo:
Rebento ascético.

15 de novembro de 2012

Mente Ocupada


Participem. Ei, participe! O que você acha que vai conquistar na vida, ficando aí parado? Quem hoje está aí ao seu lado, e se diz grande amiga, se mexerá e amanhã partirá num cavalo alado. Mente Ocupada. Vamos embora, camarão que dorme a onda leva! Todo aquele que se enerva sucesso alcança. O restante contempla o objeto, inferindo pra que lado pende a balança. Mente ocupada. Mente ocupada. Ninguém fará algo que tu almejas, os outros tomarão por ti as decisões, depois não culpa o destino ou os signos por supostas conspirações. Quem não arrisca não petisca e quem deixa a vida lhe levar acaba sendo por ela levada. Mente ocupada. A correnteza do rio tudo apanha e transporta, deixando as tranqueiras em sua curva que nunca transborda. A natureza sempre dá um jeito em seus excessos, mas o homem raramente sabe o que fazer com os dejetos. Recicle. Reciclemos. Eia! Mente Ocupada. Cada ação gera uma reação, cada ato nosso é um treino. Inteira, meia, mais, menos... Menos?! Pela sinergia, sigamos trabalhando; dados à base somemos. Se a quantidade de informações aumenta exponencialmente, como então separar o joio do trigo? Ah, o que é importante costuma encontrar seu abrigo. Mente ocupada. Mente, ocupada.

Mente ocupada. Ocupada do que ainda nem veio, tampouco se vislumbra surgir, mas está para um dia emergir, e prontamente em todos irá acoplar, a fim dela acabarem por sugar. Regra do mercado: novidade obcecada por gente, gente compulsiva por novidades. Assim é ditada a vida na vazia e populosa cidade. Mentes ocupadas. Há sempre um pouco mais de caldo numa polpa não o bastante explorada. Obstante a distração, a manada de búfalos ensandecidos carrega consigo poeira e os seres por predadores e coletores esquecidos. Inda não consigo ver a saturação que anunciaram, talvez tenha sido um lapso. Temos que ir, rápido! Vamos lá, a caravana não para e as aberrações descartáveis assumirão em breve outra roupagem, mais cara. Mente ocupada. O demente não é de todo culpado por sua flagelada condição, aqueles que o criaram, deveras ocupados com o zelo de suas obrigações, deixaram vaga a carência arduamente sondável. A sociedade gira feito patinadora de pistas alvas, e girando evita que a inércia produza um desastre insanável. Se o planeta se recusasse a rodar, vidas não seriam salvas, pois vagariam pelo espaço sideral. Oh, sem ritos fúnebres: a derrocada do bem e o triunfo do mal! Mente ocupada. Ocupada, ela não mente. Mentes culpadas só há quando desligam seu piloto automático; ao seguir o sistema cada prenúncio de má consciência dissipa-se de imediato. A rede corporativa trata de encontrar o bode para os remorsos de seu grupo num subúrbio expiar, afinal existem profissionais exclusivos para indicá-lo. No fim, a massa conhecerá só o canto do galo. Mente ocupada. 

Não conteste, obedeça! Tente, compare, ande, ou melhor, corra! na esteira, você verá que não é tarefa difícil. Que o deserto dentro do seu peito cresça. Até os grãos saírem por todos os seus orifícios. Vendê-los-á como se de ouro fossem feitos. E não é assim que todo o Executivo vem sendo eleito? Mente ocupada. Hoje os corvos pairam sob a luz do sol, acabou-se o que um dia se nomeou respeito. Cultivam na selva de pedra o que jamais foi coisa nativa. Estripulias à parte, jogar o jogo com as regras dos bichos de preto poupa os amadores das brigas. Observam a sombra projetada até constatarem que é aquilo que deve ser: verdade induzida. Mente ocupada. Gente ocupada com serviços braçais, e seus patrões nem ligando para os repetidos “uis e ais”. Porque logo atrás deles há uma fila indiana dando volta no quarteirão; a ignorância é fruto dos ciclos e das manias, nunca da subversiva reflexão. Enquanto isso, chefes e subalternos mantêm os pulmões estufados e as faces longe do chão. Mente ocupada. Suposta mente racional, suposta gente liberal, a mão-de-obra continua sendo lucrativa; encher faminta barriga é preterido quando há bolsos a preencher. Coisa dita reiteradamente na tevê, mas quem é o audacioso que dessa forma a lê? Não as mentes mal ocupadas. Ocupada mente, falando e se achando. E outras mentes dela rindo e debochando.

Replique os rabiscos à mão na porta: jovem adora pensar que choca, pois convive com montes de bosta, que desconhecem o político em quem votam, seguem apenas pegadas da trilha da tropa. O juvenil, a cada esquina que dobra, julga o que passou como sobra, somente vale o aqui e agora, ao vento e ao relento formulários solta. E doravante ocupa-se com esta frota: repetição incessante de gestos duma mosca já morta. Sai! Enxota daqui, vire suas costas a essa gente tão torta, que pretensiosamente diz que de boas coisas gosta, enquanto desgasta a nobre madeira com sua viciada rosca, sem porca. Mente ocupada! Consuma, pois bem, não é disso que o mercado precisa? Sim, também. Precisa de gente ávida pelo que a maioria já tem e pelo que pode ser que venha. A técnica utilitária descobriu esta nossa senha: desfrutar daquilo que convém e tratar um infeliz com desdém. É forçoso a mala estar cheia. Mente ocupada. Pessoas tão ocupadas, o processo que antes desafogava em prazer, então é tratado como dever. Sem balada não posso ficar, meu videogame tenho que jogar, não saio de casa sem me perfumar, minha garota logo vou descartar. Fetichismo em evidência: tudo visível é objeto. Foi-se a suposta má consciência. Gozo o máximo que puder, meu corpo pede submissão, e seja o que Deus quiser. Pergunto: quem foi dominado? Mesquinho garoto abusado, jogue a moeda, tudo tem dois lados. Mente ocupada. Mente danosamente ocupada. Danos na mente, danos no corpo, psicossomático. Não preciso ser doutor, xamã ou matemático, os índices falam por si. Olhe, mais uma farmácia, logo ali, homens de branco atendem doentes sem fim. E quem, na sua aconchegante caverna, percebe a própria loucura? Ignorância é bênção, feridas ela sutura. Iludir-se com as convicções é inventar sua cura. A mentira repetida verdade se torna. O engodo a face abobada adorna. Felizmente, a realidade sempre retorna. A menos que a mente nunca deixe de se ocupar. Sendo assim, encontra outra mente a culpar. Mente ocupada.

P.S.: Tentar ler cada § numa talagada só.