3 de abril de 2013

O Bizarro Cindido


Resistir às tentações ou não resistir, cedendo aos comandos do corpo? Quando é que os olhos, a boca e os ouvidos ficam acima da razão? Amor é ética, mais que senso de estética, apesar deste ser o gatilho das relações que, depois da fase da paixão, inaugurará o algo mais; para alguns é transcendental, mas para muitos, nem um pouco. Logo, a razão auxilia no amor, mais do que o inverso, pois este tem no homem efeito quase nulo, pois seria abdicar das vontades tiranas – nada mais ilógico. Ou seja, a promiscuidade é algo bastante racional? Não deixa de ser, desde que os impulsos estejam sob as tramas em prol de uma cadeia de conquistas – ah, essa autoafirmação.

Cadeias, correntes, elos, vícios, ciclos, manias. Gire, rode, circule, incite, consuma. As pessoas juram que estão sendo autênticas, se ao menos percebessem a dose de manipulação que aturam elas seriam menos hipócritas. Talvez de pouco adiantasse, pois as máscaras são sedutoras e todos as vestem, senão a sociedade se digladiaria interminavelmente; o amor-próprio suporta apenas certa dose de verdade (em respeito aos vícios), após esse limite a sanidade se perde. E a guerra é sintoma de orgulho ferido além do suportável, basta os líderes aglutinarem meia dúzia de insatisfeitos para fazer disparar o primeiro canhão da estupidez. Quanto mais intensa é a ação, maior é o recalque acumulado. A ação humana é impulsionada por paixões que entram e de alguma forma precisam sair.

Mas o contrato social, o famoso pacto entre os cidadãos cansados do medo da morte, instaura o controle sobre cada membro. Sem poder agir conforme os desejos, entra em pauta a metafísica, a crença no algo mais, seja religião, nação ou ideologia. Passada essa histeria coletiva, a maioria ainda reluta em descrer nelas, enquanto muitos aceitam a ausência de sentido nas coisas. Percebem que não adianta tentar implementar seus desejos, há muitos interesses em jogo e o seu é somente mais um entre a multidão de sequiosos. Então o capitalismo chega com tudo, como ilusória solução ao niilismo crescente, diz para seus rebentos consumirem e se aperfeiçoa a ponto de não deixa-los descontentes sem novidades interessantes a cada estação. É a produtividade de um lado e a neofilia de outro. O prazer é repetido, o hedonismo se instaura, mas a satisfação passa.

Aspirações podem ser reprimidas em prol de um bem maior, que então se empilhariam como pólvora velha em dinamite esquecida, bastando um pequeno pavio ser aceso para detoná-la. Antes disso, neuroses irromperiam para amansar a besta interna, que deve se regozijar de tempos em tempos. Conversar com máquinas às vezes resolve, pois virtualidades são mecanismos artificiais do cérebro, projetando uma realidade adaptada à fome que em alguma de suas sinuosidades desperta e dispara as sinapses, mas a saciedade é efêmera e fortalece o sujeito. As bombas simplesmente adiam sua explosão.

Aparece a culpa, o senso cristão de que algo está errado. Pecados mortais precisam ser redimidos, do contrário (novamente), a sanidade seria perdida. Autoflagelação, possessão ou depressão, sintomas já corriqueiros num ambiente que os estimulam, mas nunca admite. Não geraria dinheiro, esse mundo precisa hodiernamente de doentes para prosperar, claro que a maioria escorando um no outro, torcendo para não ser contaminada com alguma chaga mortal, e uns malditos bamburrando e sorrindo. Ciclicamente esse modelo se desgasta e entra em crise, porém não há outra alternativa; então outra malandragem, outros slogans, se reinventam, jurando que gastar é bom, é história, mesmo que seja o fim da história. Ah, dali pra frente é relaxar e gozar, o resto está resolvido.

Tolices são compartilhadas e aplacam nervosismos que outrora fizeram surgir gangues em bairros periféricos – viva os games e o pornô. Sentir-se bem é um imperativo, melhor que seja sem prejudicar um desavisado, ainda que o sujeito satisfeito seja um merda: cada vez mais sua mente derrete, irremediavelmente sua personalidade se compromete e seu coração não entra em jogo, jamais compete. O problema é quando a maioria for assim (já é?): a agir na realidade como no mundo virtual. Sem oponentes fica fácil vencer e conquistar. Isso tudo é se aceitar ou um autoerotismo? As pessoas só postam sorrisos, nunca suas verrugas, anseiam por controlar, pois de alguma forma sabem que serão controladas, querem ao menos escolher seu capataz. Que seja na base da intimidação, assim a tortura será menor, e talvez até mútua! Quem não se considera, o outro desconsidera.

O mais importante é não ser deixado de fora, nada pior que a angústia do ostracismo. É melhor a fofoca correr solta do que ninguém lhe notar. A responsabilidade recairá sobre cada ser medíocre, sorte daqueles que jogam a culpa nos outros, aliviam-se. Os que engolem seco e se calam, travam, e travados permanecem. Diante da forquilha, do caminho bifurcado, não conseguem se decidir, quem sabe delegarão sua escolha à manada que vem logo atrás e certamente os empurrarão para a direita ou para a esquerda, para nunca mais poderem escolher o lado de lá. Ao menos experimentarão e terão um dia uma nova chance de ir para A ou B com menos hesitação.

Os convictos, que não se permitem hesitar, causam muita inveja, mesmo que um olhar atento revele a inconsistência de suas convicções, como um instinto que só quer passar por cima do que surge à frente dos chifres tresloucados. Mas será mesmo imprescindível essa legitimação da razão? Não será mais útil ouvir os apelos dos hormônios e dos sentimentos que urgem independentemente de métodos e gélidos esquemas? Todos têm as suas carências, presumindo-se que ninguém é uma máquina que apenas cumpre ordens de serviço. Preencher essas carências com o que parecer urgente no momento é como a maioria age, eticamente ou não.

A ética libertina é um desses casos. Ouvem-se os apelos do tesão e danem-se as incongruências ou as consequências danosas aos edifícios da vivência, como reputação, família, posses, instituições e órgãos. Há sempre um medo latente de ser taxado de safado, ímpio, larápio e sacana, porém isso é fichinha contra os hormônios que entorpecem a mente e tornam a visão turva. Os libertinos fizeram a seguinte pergunta: a dúvida da traição mais freia ou acelera a própria infidelidade? E concluíram que é melhor se livrar desses dilemas, abraçando os acasos da vida. Viver é festar.

Eles enfrentam a dura batalha contra a moral e os bons costumes, além da batalha interna de ter de esquecer tudo o que aprendeu até então, para efetivar as fantasias mais bizarras. Quando uma minoria choca os caretas da sociedade burocrática, os moralistas logo se aprumam para combatê-los. Ser subversivo é difícil, mesmo entre quatro paredes. É impossível haver mutualismo num caso desses, mesmo que a intenção seja boa (de haver comensalismo), pois o orgulho de quem não participa interpreta o fato como uma sacanagem de parasitas sociais que tanto corroem os alicerces da tradição de verniz consumido. Sobra cara-de-pau para dizer que nunca haveria de cometer tais libidinagens e falta a modéstia de permitir que outros contemplem por aí essa beleza de deitar.

Nem todas são humildes em admitir que não são rainhas, contudo ainda podem falar, ainda que com uma voz embargada, o que parece insuficiente. E nem todos são pacientes a fim de suportar as histerias jorradas por princesas sem mais o afã de serem coroadas, e ainda sorrirem, para eles seria suficiente. Refúgios contornam as frustrações. Abstrações auxiliam na sublimação. A falta de sentido prossegue. Pequenas vitórias enganam a autoestima. É essa a bizarrice de sentir-se cindido.

21 de março de 2013

Quem te ouve?


Inaudito

Ninguém te escuta
Ninguém te lê
Ninguém te entende
Ninguém te quer
Sequer para te foder
como o culpado frequente.

É a sobrevida, amigo
bicho, lixo, carrapicho,
ainda a respirar, ofegar, resfolegar,
tentando ser a outrem peste.

Mas em desgraça nem vírus se instala,
No máximo bactérias e abscessos
te desfiguram, sem dores –
As feridas e suas cicatrizes
são histórias a incorporar,
Então um leguelhé encontrou sentido –
as chagas prestaram favores.

Cometes os teus deslizes
sem notar que são carcarás
expungindo a tão seca terra
dos fortes e fartos fedores,
Seu barulho pouco incomoda
os distraídos em lares perdidos,
Eles nada leem, veem ou ouvem
que não lhes seja de suma importância.

Mas essa utilidade causa repugnância
aos enfermos do decaído mundo:
Sem máscaras acham-se os sãos.
Contra o padrão nada pode um nauseabundo!
Ah, onde hoje se encontra
a esconsa campana

dos vulgos sadios?
 
 
O Cofre

Empurrei o cofre até o meu limite
E tentei empurrar mais um pouco
Segui empurrando...
Em-pur-ran-do
 
Apenas parei quando a loucura interveio
Meu rosto contorcido não era mais de um feio
Era o de um exótico ouvinte
Que gesticulava sem falar,
Ou seria sem parar?
 
Tiques nervosos expressavam confusão mental,
Foram tentativas de ordenamento
Ainda que atabalhoadas,
A meu fiel público: os quatro ventos,
Demanda muito usual.
 
Aos chistes sempre seguiram
Sorrisos nervosos
Gargalhadas, farofada.
Então derrotei meu terrível,
Abominável e temível oponente:
O Nada!
 
Vislumbro-me insano,
Minha condição sine que non,
Para me sentir vivo e bem,
Não mais um neném,
Pra nunca mais ser bebê.
 
Agradeço ao maçarico –
Derreteu certas conexões,
Fundiu oblíquas terminações
E abriu o cofre em meu peito.
Descobri que sou rico.
 

 

17 de março de 2013

Você Quer?!


O Cão e a Dona

 
Eu me arrastei até você,
Das pernas delgadas, lustrosas, folgadas,
Feito um cão adestrado,
Feito o cachorro que sei que sou.
 
Então você me pôs na coleira,
Puxando-a meigamente quando queria
E abruptamente quando eu pedia.
Era o amor, entre lambidas e afagos.
 
Eu farejava suas unhas quebradas
E me afastava ao cafungar esmaltes.
No banho as sombras escorriam
Sobre sua face borrada,
Intensificando sua beleza cinzenta.
 
Fiel, lati para toda e qualquer ameaça,
Fui a um canto sempre que ordenava;
Abanei o rabo para seus queridos,
Mas também para meus comparsas.
 
Fiz cara de quem caiu da mudança
E faz de tudo por tigela de leite.
Foram ardis de felino manhoso,
Cuja verdade nunca alcança.
 
Realizei gracinhas por ser torto,
Implorei por não ser direito.
Você fingiu e me aceitou de volta;
Enfim praticou o crime perfeito:
Veneno em meu favorito prato!
 
 

Sobrequerer

Se querer fosse poder
As pessoas morreriam
De tanto sentir prazer

4 de março de 2013

Redação Juvenil


Minha Mão

 

Eu tenho certeza de que a minha mão é a parte do corpo que mais vejo. Ela está bem diante da minha fuça, todo dia, e às vezes me sinto enjoado dela, mas esses são os momentos que nem eu me aguento. Conheço cada veia que se mexe, ossinho que se destaca quando forçado, unha, pelo e digital, sei quando estalar os dedos e o som que fará – é claro que tudo nas devidas proporções. A expressão famosa deveria ser alterada para “conheço isso como o dorso da minha mão”, mas talvez não soasse tão bem quanto a original. Constatação estranha essa (conhecer em minúcias a própria mão), pois a mão dos outros é uma das últimas coisas a ser notada. Talvez a mão seja o umbigo egoísta que entra em contato com o mundo, mas que passa despercebido e só quem é íntimo o conhece e o toca. Diferente é nosso rosto, que só nos é conhecido diante de um espelho, e ao contrário dos vaidosos, raramente me olho diante dele, exceto quando saio do banho – nesse caso é sempre. É por isso que quando alguém critica minha barba, meu cabelo, meus cravos ou outra imperfeição eu nem ligo, pois atento-me a minha mão.

A mão é quase o símbolo do tato, apesar da pele cobrir o corpo inteiro. É com ela que costumamos coçar, tocar o outro e os objetos, sentir o calor ou o frio, segurar ou empurrar os pesos da rotina, pegar ou largar o que nos interessa ou não, como numa partida de tênis. É com ela que tomamos muitas decisões, mesmo que seja um mero ato final, como assinar, apertar um botão ou digitar um texto. Azar de quem não tem as sutis ranhuras na ponta dos dedos, visto que sente menos a textura dos objetos.

Os ombros carregam aquilo que os braços rapidamente fadigariam, mas as mãos, na soma, carregam muito mais peso que imaginamos antes de parar para refletir. Atlas se auxiliava dela para suportar o mundo. Quem sabe se deixasse esse labor tortuoso apenas às suas costas, tornar-se-ia mais insensível e corcunda, abandonando as pessoas a destinos mais miseráveis? Quem sabe essa ausência de mãos guiando-nos não tenha tornado cada ser humano mais mesquinho e infeliz? Quem sabe a linguagem de libras não deveria ser matéria obrigatória nas escolas, como português, inglês e espanhol? Quem sabe mais apertos de mãos reduziriam a violência?

Já me aconteceu de tanto olhar para as mãos, focando em seu tamanho avantajado, que cheguei a sonhar com uma delas inchada e descomunal, como no clipe Everlong, utilizando-a como um superpoder. Desperto, fica difícil imaginar como seria a minha vida sem uma das mãos, ainda mais sem ambas, ou mesmo com elas, mas incapaz de utilizá-las. Teclados, cordas, folhas, coisas grandes e pesadas, coisas miúdas e sutis, e no que mais eu encoste e nem me recorde por parecer tão banal, tudo isso seria como algo inatingível, um holograma que não posso pegar, pois apenas vislumbrado e que escapa inevitavelmente entre os dedos, feito água da cascata. Acordar um dia e não ver as minhas queridas mãos onde deveriam estar seria sufocante, traumático, doloroso, sofrível, desesperador. Seria pior que perder a língua ou o nariz ou talvez a perna. O quê, a mão é mais importante que a perna? E por que não? Além do fator estético e da rápida locomoção, uma perna não tem muita utilidade. Muletas, próteses e cadeiras de roda estão aí para rapidamente substituí-la, enquanto a mão exige muito mais avanços tecnológicos. Mesmo com todas as bactérias e toda a sujeira que se infiltra e se espalha por ela, os momentos de prazer advindos do toque da mão compensa uma enfermidade passageira; não há anticorpos para um regozijo perdido, ninguém largaria um osso saboroso porque ouviu avisos de que ele pode fazer mal, mesmo trazendo tantos outros benefícios.

“A mão que afaga é a mesma que apedreja”, já dizia o verso, a mão contaminada é a mesma que traz o antídoto e a cura, sem ela seria como morrer de desgosto, pois fora impossibilitado viver plenamente. Se os olhos são a janela da alma, as mãos são a porta; o primeiro serve principalmente para notarmos o que está distante e não podemos trazer para perto, ou ainda para facilitar os passos e o manuseio, mas há tantos animais que se locomovem bem sem eles, servindo-se de outros sentidos como radares; já a mão é primordial para o que está perto. Podemos dispensar os olhos quando estamos ao lado de quem amamos, tocamos seu corpo e permitimos que informações além da obviedade da visão adentrem em nosso espírito. Se eu quero algo perto de mim, puxo-o com uma das mãos, quase sempre com a direita, devido ao fato natural de ser destro – muito me admira quem sabe escrever com ambas as mãos e não se atrapalha ao usá-las, não tive a disciplina dessa prática motora. Então, abraço-o ou apenas deslizo sobre ele.

Talvez as virtualidades não me prendem justamente pela impossibilidade de tocá-las. Acho que a tecnologia demorará muito ainda para transformar o mundo 2-D em 4-D (3-D seria ainda virtual), e talvez nem compense tamanho esforço, apenas o teletransporte supriria esse agudo anseio de aproximar o que está longe das nossas mãos, contudo perto dos olhos. Há muito menos graça em simplesmente observar do que tocar, como seria bom se primeiro tocássemos o que desconhecemos, para enfim vermos o que era. Mas quem anda vendado dentro de casa? Sem as mãos nos enganamos mais facilmente, talvez a partir dela haja uma chance de captar a energia, a essência, o âmago das coisas e das questões. Infeliz daquele que a perdeu ou não a usa. Infelizes dos árabes larápios que tiveram-nas decepadas, carregando o estigma social e a tristeza de praticamente perder o sentido do tato – sofrimento duplo num lugar por si só sofrível.

Tudo bem que já existem próteses para substituir qualquer membro perdido, mas não é a mesma coisa. Sem essa muleta evoluída o sujeito ainda sentirá aquele pedaço faltante de seu corpo coçando, formigando ou latejando, e com ela, mais realizará tarefas grosseiras, como andar, segurar ou acenar. Duvido que um dia cheguemos à perfeição de uma mão natural, com todos os seus filamentos e nervuras mandando sinais alucinadamente a uma mente consciente que só quer saber do básico, mas que tem o potencial de sentir muito mais que o corriqueiro ou os comandos biônicos. Com estes corre-se sempre o risco de perder algo mais que a sensibilidade dos dedos.

Bizarrices acontecem, como a síndrome da mão alheia, um pedaço de nós pode agir contra a nossa parte preponderante, a que chamamos de eu – nunca duvide do que uma porção importante sua seja capaz de fazer. Cada dedo pode vir a ser um tentáculo, um punho cerrado carrega uma grande energia potencial, uma mão aberta pode proferir um tabefe ou um golpe mortal, fisicamente ou não. Agradeço a esse conjunto de carpo, metacarpo e dedos, sem ele eu seria menor do que já sou. Com ele, carrego inúmeras possibilidades de vida ou morte, que talvez se comparem somente ao cérebro e ao coração. Doravante, prosseguirei sentindo o mundo e aperfeiçoando-me.
 
P.S.: Sem P.S. dessa vez, rá!

28 de fevereiro de 2013

E Mais Inutilidades Ruminadas


Se for à Floresta Use Capacete
 
Se der cana ao capeta, usará a caneta;
Se der na carpa um cacete, sujará o carpete.
Sinal do palacete que se cala é capacete;
Se um canalha retirar o valete
Surgirá cavalete, ou canalete.
 
Sob a capa a vedete parece um cadete,
Sem colher comum almoça a mulher.
Sempre as flores estarão em festa na floresta;
Sobre aquela garrafa gigante
Sei que garante andar a girafa.
 
Cochicho de Carrapichos

Do cochicho à rixa basta ser prolixo,
Pixa o muro, mas é esguicho do lixo,
Enquanto Garrincha de amplo fecho pechincha
Com seu capricho, bem fixo – tornado prefixo.
 
A bicha lixa sua unha mixa
E destrincha um rabicho entre buchichos.
Logo o nicho suplica: “lincha ela”,
“Afixa no crucifixo”, “deixa que eu guincho” –
São os relinchos do povo carrapicho.

 

23 de fevereiro de 2013

Você, minúsculo grande homem que hesita


Você reclama ou reclamou de várias coisas, mas agora se vê aí, limitado por suas escolhas e incapaz de reclamar de si mesmo, pois julga sempre ser consciente e responsável pelo que faz. Você então lê sobre o poder do inconsciente e sobre a consciência e o eu como mitos construídos para evitar a loucura e identificar alguém para honrar ou punir. Você então percebe o abismo diante de si e gostaria de se jogar lá dentro, mas sua educação burocrática o impede de fazer escolhas intempestivas e abusivas. Portanto você se tornou insensível às emoções que antes, via lampejos, cativaram-lhe, mesmo a indignação pelos erros alheios (agora facilmente tolerados), e tudo por causa das repetições, essa praga que martela ao homem os fatos do mundo e o sentido da vida, como se o hábito fosse a maior necessidade e causa de prostração que pode haver. O hábito lhe habita e não há nada que você possa fazer, a não ser andar pelado pela rua, mas isso seria um crime, além de alvo de chacota, por maior que seja seu pinto e por mais belo que seja seu conteúdo. Você não admite ouvir sons que deixam os outros em transe, os jovens especialmente, porque isso é se entregar ao império dos sentidos e do efêmero, como se as suas manias não tivessem a mesma intenção de alucinar e ao mesmo tempo sentir seu firme papel no mundo. Ou seja, todos querem ter controle sobre a própria vida, a diferença é que você não admite que esse controle se dê por fatores externos, como se os objetos que você manipula não o tornassem escravo de alguma forma. Você apenas permite em sua casa sons que lhe remetem às antigas e corriqueiras fases de raiva e frustração, prolongando esse estágio de insatisfação indefinidamente, exceto quando dá brecha às musicas que não combinam com sua personalidade, mas teimoso que é, recusa-se a dança-las.

Você fica adiando seus desejos, suas vontades, suas obrigações, como se num dia afortunado fosse efetivamente realiza-los, de forma intensa e satisfatória, como se ao finalizá-los lá na frente não surgissem outros anseios e imperativos que sugam parte desse prazer que sempre escapa pelo corpo, até mesmo nessa procrastinação, tornada hábito pela promessa de prazer, tão irrisória, mas que lhe convence. Você não quer pagar pra ver sua incompetência, então prefere manter o potencial obscuro de grandes feitos, como se as ideias não realizadas fossem mais do que ilusões e metafísicas, como sempre inventadas para fazer o homem se sentir superior aos demais (humanos ou não, desde que abaixo dos deuses). Você finge que toca, que escreve e que pensa, só para não se sentir incapaz, mas como seus parentes lhe elogiam, você internaliza essa competência amadora, temendo o fracasso público quando se tornar profissional, pois os mimos dos interessados pouco valem, então você não ultrapassa a linha do amadorismo.

Você acumula e acumula o que já usufruiu, para algum uso posterior, a fim de repetir o regozijo ou simplesmente captar trechos que marcaram sua vivência, porém raramente usufruirá desse material estocado na dispensa de seu recinto, e mesmo que venha a fruir, jamais será a mesma coisa, mas você alimenta essa esperança de que o prazer nunca irá lhe faltar, por mais ferrado que esteja. Talvez só o desespero seja capaz de motivar esse gozo intenso de tudo o que é promessa de prazer, seja nas coisas que já foram usufruídas, seja nas que você guardou para esses momentos de pânico. Talvez falte a você reconhecer que sua situação é precária, o suficiente para desesperar-se continuamente, porém isso seria andar à beira da insensatez, algo angustiante demais para ser suportado em paralelo a outras demandas, tão exigente de equilíbrio e frieza de espírito. Você quer A junto com B, por mais incongruentes que sejam, ampliando seu horizonte e reduzindo seu foco, numa fórmula eficaz para a melancolia, ao gerar inúmeras expectativas e frustrar a maioria, sem conseguir se contentar com as realizadas, pois inferiores às deixadas para trás. E mesmo assim você se acha alguma coisa, pois conseguiu mais que a maioria, e sabe que alguns lhe invejam; compara as vidas e torce para que elas não se cruzem, no máximo entrecruza olhares; esse ouro de tolo não é o final de sua mísera existência, então você traça objetivos, para cumpri-los pela metade.

Você não percebe que tudo fica para trás, mas que de alguma forma marca o caminho, como pegadas para algum perito assalariado atestar que você passou por ali, porém isso só interessa aos forenses, sempre à espreita para ferrá-lo no caso de se tornar bandido ou por ter feito alguma cagada séria na vida. Parece que você gostaria de congelar o tempo e esfregar na cara dos transeuntes, tão apressados e distraídos, sobre a grandiosidade de seus atos, como se eles não quisessem fazer a mesma coisa, tanto que entopem a internet e a televisão com coisas fugazes e banais, comprovando que todo mundo quer um espaço no mundo, todavia só as 24 horas do dia são capazes de limitar esse espaço cada vez mais apertado. “O que realmente fica dos meus atos nesse mundo natural que parece tão estranho ao projetado em nossa juventude?”, você pergunta. Eu não sei como lhe responder, somente asseguro que é assim mesmo, sufocante e cheio de oportunidades, que permite alegrias aos que não querem mais do que não podem ter. “Eu quero sempre mais que ontem, mais que hoje, mais que amanhã”, você confirma a famosa música dos Rolling Stones e impede sua satisfação nessa passagem única por este fantástico e pequeno planeta.

Você se esquece de quase tudo o que viu, sentiu e falou, tendo sempre a impressão de que não viveu, mas saiba que a memória conservada não consegue perdoar, ela rumina tanto os fatos e ideias que abre as portas para o rancor lá se instalar, pois a mente tem esse costume de mais se incomodar com um dado ruim do que se jubilar com um bom, o regozijo se apresenta quando os bons superam os ruins, desde que não haja uma catástrofe aí no meio. Você jura que quer ser feliz, contudo fica inventando subterfúgios e se ocupando de obrigações que sua razão tirana sussurra como as maiores fontes de justiça, nascendo assim a moral que diferencia o certo do errado, mas que parece muito oposta à vida artística e autêntica, onde efetivamente está a fonte de felicidade. Você então trava e adia o sorriso em seu rosto para um momento oportuno, quando as coisas se encaixarão e tudo fará sentido, como num passe de mágica. Mas você sabe que isso não existe.

Agora volta a reclamar das coisas, dessa vez de si, indignado com a própria pequenez, incapaz de transcender, com os pés fincados na terra e a cabeça boiando no mar ou flutuando nas nuvens, sempre atrás de algo que na verdade está logo atrás, na nuca ou na orelha. Então parece ouvir algum chamado, apenas não está pronto para senti-lo em toda a extensão de sinfonia primorosa. Mas é um começo: melhor um vislumbre do paraíso do que uma temporada no inferno, porém sem essa segunda não haveria a primeira – mero efeito de comparação.

P.S.: Às vezes é preciso o anúncio de um peido para fazer florescer um texto.

18 de fevereiro de 2013

Um Hiato


Entre papos e sopapos
Uns políticos pútridos,
De posse de maças marciais,
Tossem regalias esdrúxulas.
Nunca endosse anomalias mixurucas!
 
O lema do sistema é:
Venha, trema!
E teima se puderes
Ou se pudores tiveres.
 
Nas vias dos reveses
Seguiam disputas estúpidas
Ao invés do que a lei, ou o rei, regia;
Todavia se viam entupidas.
 
Apostólicos e históricos
Estoicos cachaça rechaçam
E troçam das nossas galinhas –
Essa joça que fossa abolia.
 
Vão melando o não lindo hindie
Nos meandros de seu melindre:
O arbítrio do sátiro,
Como árbitro sabido,
É um hábito saído
De um sítio com salitre.
 
De mentes mortas
Uma mosca é amante,
Sente que há amostras
Aos montes. Lá, avante!
 
A frenologia e seu frenesi
Enfim tiveram um fim.
E não foi bem assim
Que você veio até mim
E eu vim frenar por aqui?
 
Vós, vôs, foi dez
A foz de oito pés.
Há algoz e morbidez,
Vós vos fodeis.
 
Peçais peças à beça,
Só o besta não presta
Da cabeça, apressa...
O resto é destro,
Nem presto nem canhestro;
Destoou dos sestros,
Posposto que testa
Mais às pressas?
 
Estatística sem mística
E analítica sem características
Não esticam nem criticam,
Serão sempre balísticas.
 
Sigo meu faro e atalho
Pelo bromedálio vendo otários
E um dromedário macabro.
Abro o calendário,
Evito atos falhos,
É como um candelabro,
Descaro vários.
Meus caros, me calo.
 
P.S.: Hiato duplo, um bom período sem publicar algo e um mais longo ainda sem publicar algum poema non sense.

28 de janeiro de 2013

Sobre a Filosofia Cínica - pt. 2


II

Por que os valores tácitos e a moral de uma sociedade precisam ser seguidos à risca? Por que não subvertê-los ou esfregar na cara dos cidadãos civilizados que seus hábitos são singelas conveniências que em outro momento ou local não são regras? Alguns precisam desses chacoalhões para acordar e perceber a banalidade de toda etiqueta e padrão de conduta. Além disso, a maior circulação de pessoas, portanto de ideias, favorecem a competição de interesses, e nesse jogo político não há resposta definitiva. Portanto, convicções tornam-se bobagens que o ego e a coesão social precisam defender arbitrariamente, evitando o consequente rebaixamento. Ora, a tendência de uma cidade em crescimento é misturar tudo, as influências não possuem limites definidos, logo cada valor bebeu daqui e dali; a pureza havia se perdido há tempos.

Nota-se que essa confluência de memes perturba a lógica organizadora. E o homem, apesar de não ser dominado por ela, dentro de uma sociedade instituída, utiliza-a bastante, com fins de segurança. Ou seja, para não cair em confusões imensas que atordoam, o sujeito serve-se do logos, impedindo que a instrução recebida não seja capaz de compreendê-las. Dessa maneira ele pode cumprir seu papel social com os significados que costumava colocar anteriormente, quando havia uma percepção de estabilidade. Essa situação estável não existe mais, mas ele sente que existe. Do contrário, entraria em parafuso, chutando o balde e ignorando honras e reputações. Rejeitá-las é o que faz o cínico. Ele percebeu o caos de tantos interesses conflitantes e desprezou a cultura, que até servira em pequenas comunidades, mas que em uma metrópole (ou perto disso) é inócua. Daí o cosmopolitismo como preceito, pois poucas leis universais servem em qualquer lugar, as outras são picuinhas. Os homens são todos semelhantes, é besteira arrogar a inserção num grupo superior.

O filósofo e naturalista Thoreau e o ensaísta e aristocrata Montaigne foram muito influenciados pelas ideias cínicas. Reclusos, demonstraram a seus contemporâneos e principalmente aos homens do futuro um modo virtuoso e desapegado de viver. Thoreau foi para os bosques buscar somente o que fosse essencial à vida e fez amizade com os bichos e as plantas. Contestou os avanços industriais e fez a cabeça de líderes pacifistas do século XX. Montaigne foi para seu castelo e, em homenagem a seu amigo Étienne de la Boétie, escreveu pensamentos avançados e ousados que muito tempo depois foram compreendidos e aplicados. Quis saber o que era possível saber e não foi além do básico e frugal. Ambos se prepararam para a morte e nada lamentaram, mesmo sem a certeza de outra vida.

Para superar as reviravoltas, ou segue-se o sistema, sem parar para refletir e questionar, ou volta-se para si, seguindo a velha máxima délfica do “conhece-te a ti mesmo”. O cinismo defende a segunda opção, pois seria o único modo de alcançar serenidade e certezas. Isso remete ao estoicismo, que foi bastante influenciado pelos cínicos, mas sem o humor inerente à escola de Antístenes e infelizmente tomado de metafísica que adia a satisfação para um porvir que nunca chega. Ambos buscam autonomia, ou autarquia (o termo preciso em grego), que é liberdade e controle sobre si. Os monges budistas e os mosteiros cristãos também almejam isso, só que são sérios demais para se permitirem extravagâncias como masturbar-se em público, pedir esmola para estátua ou dividir parceiros sexuais com quem se propuser a transar. Foi preciso nascer um Marquês de Sade para chocar através de uma voluptuosidade que pouco ambiciona, apenas realiza. Depender cada vez menos das coisas exteriores e não precisar buscá-las é autodomínio, e ser senhor de si acalma. O estoico e o cínico almejam essa ataraxia, mas o segundo não a transcende.

Isso porque o cínico abandonou os deuses da tradição, sabe que eles servem de desculpas para atos incorretos e não são os verdadeiros. As coisas do homem (cultura) e as divinas (naturais) não se conjugam, contudo a maioria não aceita isso. Ele blasfema contra os santos e as divindades louvadas em praça pública, bem como escandaliza o beato cidadão. Logo, como é possível ficar bem sem deuses inteligíveis e sendo mais uma ínfima criatura tentando manter a vida? Ele sente-se como um semideus capaz de desmerecer contendas e apreensões humanas e ao mesmo tempo é simplório como um cão. Ao agir conforme exige a natureza, voltar-se-á junto aos animais, mas sendo um que usa mais o que é chamado racionalidade e que julga possuir um eu.

Entretanto, alguém pode concluir que o retorno à vida frugal e rústica é estar mais próximo do magnânimo criador. Quem conclui desse modo é um cínico pouco filosófico. Após ter mostrado aos homens os limites de suas capacidades, fez de seu mundinho o verdadeiro e redentor. Ora, agiu da mesma forma que seus desafetos. Foi contraditório. Como alguns se empolgaram com a maneira cínica de viver, não se atentaram à inerente falha de toda ética e postularam-se donos da verdade e únicos a exercer virtudes. Quem assim operou foi mais um pretensioso e petulante, fingiu ser divino. A própria Natureza é divina – a metafísica cínica era panteísta, como a maioria das orientais – e indiferente ao homem, ele mesmo é o culpado e o abençoado por seus atos, a natureza apenas devolve o que recebeu, de forma impassível e isonômica.

Até hoje quem chega às conclusões cínicas costuma se apegar a um deus qualquer ou a cometer atos drásticos, como matar ou se suicidar. É muito pesado esse fardo de ser pequeno, estar sem mestres e ainda tentar ser venturoso. Perdido, o homem não costuma optar por essa filosofia, mas por consolos. Porém, a divindade se revelará fantasiosa enquanto a razão não ceder lugar à fé. Não dá para retornar à irracionalidade. É nítida a tendência ao niilismo aqui. O movimento hippie caiu nessa armadilha. Após negar sua participação numa sociedade cruel, recluiu-se, mas conjecturou tantas hipóteses alternativas que abdicaram da razão e se entregaram a entorpecentes que ampliam o uso da parte inconsciente do cérebro e a quimeras sem quaisquer evidências. Diante do nada, escolheu o prazer. Isso é mais uma face do pessimismo que não encontra respostas. Ou se opta pela ascese estoica ou pelo gozo repetido (hedonismo) – entre Antístenes e Aristipo. O exercício constante da razão angustia, e aliado à decadência material e política – o que claramente ocorreu no mundo helênico -, fez sobrar pouco espaço para a vitalidade e o vigor instintivos dos tempos áureos.

A tristeza contumaz é um estado insuportável, é contrária à vida. Os rituais primitivos buscavam afastar os maus espíritos que reduziam a alegria dos homens. Só que as forças sobrenaturais perderam seu poder perante a razão disciplinadora e controladora. Ao mesmo tempo em que o logos liberta o indivíduo das sombras e dos monstros do que é inexplicável, ele reconhece as limitações humanas. Seu excesso funda e estrutura uma cultura permeada por interditos proibitórios. Se há pujança, poderio e harmonia social as pessoas não andarão cabisbaixas e sorumbáticas, agirão naturalmente, sem muita reflexão e confiando no vizinho. Mas se desgraças sobrevêm e o sofrimento é prolongado, é preciso ruminar soluções até o triunfo chegar. Unir logos e fracasso é a fórmula do desgosto. Escapar desse cenário desolador foi a busca dos gregos sob o jugo dos macedônios e romanos. As escolas céticas, estoicas e cirenaicas propuseram saídas à derrocada iminente. Não tiveram vida longa no meio helênico, mas suas bases servem de modelo até hoje. A cada crise e ruptura esse pessimismo é retomado.

Varrer para longe os tabus e o desconforto pela crescente manipulação e escravização dos meios culturais sobre o indivíduo é o que almejam os cínicos. Mas onde eles veem honestidade, virtude e liberdade, os demais veem perversão, extravagância e ingenuidade. Os gregos eram reticentes com os estrangeiros (bárbaros), comportamentos esdrúxulos por parte desses foram interpretados majoritariamente como incivilizados, portanto dignos de repúdio. O cínico tinha ciência desse desprezo social e retribui quase que na mesma moeda, mas por motivos bastante distintos. Radicalizar e afrontar ouvintes foram modos de agir que perguntavam: “O que realmente importa?”. Poucos ousaram e souberam responder, não sem antes titubear.

Só pela renúncia ao estritamente humano e cultural seria possível a felicidade, que não está garantida. E estar feliz, para um cínico, é estar com o mínimo de sensações e de dores. Deixar o corpo e a alma estáveis e serenos é uma luta inglória, mas vale a pena, segundo os cínicos e os estoicos. O fato é que as mudanças num mundo híbrido e com ramificações exponencialmente maiores assustam quem deseja essa paz de espírito e um olhar mais lento, duradouro e profundo, a fim de captar a essência das coisas. O cínico tem sérias restrições ao futuro imprevisível e altamente mutante. Ele não conseguirá se conhecer e nem saberá o que valorizar. O estado selvagem é mais pacato e previsível, e com segredos mais belos. Ali se encontra a promessa de plenitude. Não é preciso procurar alegrias, basta ser coerente com a Natureza, assim poderá estar contente. É simplesmente querer o menos pior e não se perder com desmedidas ambições. O porém é que certas conquistas civilizatórias são quase irrenunciáveis e geram outros desejos.

No fim, esse desprezo pela humanidade pode se revelar apreço pelo cosmos. Não sem assumir grandes riscos pela crença na contracorrente. Ser alternativo exige tenacidade.

P.S.: Pode não parecer, mas esse texto me deu um trabalho do cão. Foi uma tomada de consciência de minhas limitações teóricas, acadêmicas, sintáticas e literárias. Mas talvez um cínico diria para mim: "em que isso importa? Vc não saiu do lugar". É difícil mesmo ser um cínico...