17 de maio de 2013

O que é ser/estar Normal? (pt. II)


II

Há um filósofo francês, especializado em questões da Medicina, chamado Georges Canguilhem (1904-1995), sua tese de doutorado continha o título O Normal e o Patológico. Ele se esforçou por sistematizar uma filosofia para as ciências da vida. Convém expor sua diferenciação entre normalidade, que eu vinha falando na seção I, e normatividade. Esta é a capacidade para avaliar estados humanos pela racionalidade do fenômeno vital, enquanto a primeira é simplesmente um critério valorativo, que separa os estados normais dos patológicos. Canguilhem se perguntava: “O conceito de doença será o conceito de uma realidade objetiva acessível ao conhecimento científico quantitativo? A diferença de valor que o ser vivo estabelece entre sua vida normal e sua vida patológica seria uma aparência ilusória que o cientista deveria negar?” Ele não acreditava que a relação entre o normal e o patológico se desse através de mera variação quantitativa. A saúde seria uma categoria fundamental de imposição de uma normatividade social à vida. O autor ia contra o conceito de média que regulava as leis da fisiologia.

Nessa experiência clínica o normal estaria assentado num campo mensurável acessível à observação, com meios de abstrair o corpo a um padrão geral de cálculo. Como o corpo, nesse caso, foi reconfigurado baseando-se nos princípios da física moderna, a individualidade complexa do sujeito se dissolveu em sistemas e, de uma vez, simplificou-se em prol da manipulação por experts. A partir dessa constituição de uma tecnologia de normatização do corpo temos o guia da racionalidade clínica que, na verdade, é uma anatomia fascinada pela procura da lesão de órgãos e tecidos como causa explicativa para desvios de conduta; um sistema de saber e de orientação da praxis que procura naturalizar seus dispositivos de justificação, como se estivéssemos diante de fatos que falassem por si mesmos. E quem afirma existir apenas diferenças quantitativas entre normal e patológico admite a possibilidade de definir a saúde perfeita, no entanto, isso não passaria de um conceito normativo, um tipo ideal. Concluindo logicamente, essa idealização estabeleceria normas, que visam desvalorizar a existência a fim de legitimar a correção da mesma.

Mas correção ou modificação em nome do quê? Canguilhem responde e defende o contrário, apelando à fenomenologia. O patológico só começaria quando é reconhecido como tal pela consciência (quando exatamente?), então marcada pela experiência da doença, Em medicina, como em qualquer outra área onde há primazia do olhar humano, é o pathos que chama o logos, fazendo-o funcionar. A ontologia, por conseguinte, se faz presente para, com menos mecanicismo, fundar as normas, porque a normatividade dependerá do que o próprio vivente relata e de como ele sofre em suas relações sociais e nos períodos de introspecção. (Pode haver controvérsia, mas não consigo pensar no ser humano como um autômato). Para o francês, a norma própria ao normal é, antes de tudo, individual.

Sendo assim, a dimensão quantitativa deixa de exclusivamente autorizar a intervenção médica na atividade terapêutica, e a dimensão qualitativa passa a ser preponderante. Além disso, como a perturbação do equilíbrio anterior é a doença, essa alteração em alguma localidade do organismo implicará numa alteração do todo, fazendo com esse organismo por inteiro adoeça. Para o filósofo a normalidade se relaciona obrigatoriamente com o meio, simplesmente porque é onde o sujeito responderia às exigências do momento. Desse modo, a patologia poderia até ser uma variação normativa da vida, mas não seria regida pela mesma norma que a fisiologia, ou seja, ela restaria relacionada à vida e não à saúde. Logo, cairiam por terra todas as prescrições dos DSMs, tidas quase como a Lei entre os psiquiatras.

O meio ambiente humano é fundamentalmente mediado por construções de valores sociais. Discordar dos valores vigentes e não se identificar com qualquer outro é um ponto de urgência. Temos, então, uma famosa sentença de Canguilhem: “Viver é, mesmo para uma ameba, preferir e excluir". Tanto no menor nível quanto no maior, são as crenças, ideologias e paixões que dão sentido à vida. Cabe aos donos do poder e à tradição hegemônica reconhecer isso, conscientizando-se de que estão torturando seu povo ao reduzir a margem de escolha e ao classifica-lo “doente”. Contudo, é possível que o biopoder deseje justamente essa opressão.

O componente político se infiltra neste ponto, do definir “o que é doente” e “o que é sofrimento psíquico”. A rigor, não há qualquer relação imediata entre a dor física e o desprazer advindo de um sofrimento tido como patológico que acaba por levar as pessoas à clínica. Há certas dores buscadas como forma de irromper uma autoviolência criadora, ou pelo menos uma superação de limites. Como diz Nietzsche: “Só a grande dor [...] nos obriga, a nós filósofos, a descer em nossas profundezas e a nos desfazer de toda confiança [...] Duvido que tal dor nos deixe melhor, mas eu sei que ela nos aprofunda”. É como a fatídica máxima: “o que não me mata me fortalece”. Quem não decai não poderá se elevar um dia.

Em última instância, a doença é tudo que faz o corpo falar, agitar, gritar, que transforma o corpo em um problema e que demanda cuidados e intervenção. Ela é a produção de normas de ajustamento entre o organismo consigo mesmo e com o ambiente circundante; normas então vivenciadas como restrição do mundo e da capacidade de atuação do indivíduo biológico; normas incômodas, pois vinculadas às pulsões de morte, conforme exposto na seção I. Novas normas deverão servir de embrião do desenvolvimento de novos comportamentos, doravante afirmadores. É o lado bom das crises: fazer ver o que a zona de conforto interdita, proíbe. O que aparece como rompantes de neuroses e anormalidade pode ser o prenúncio de uma nova potência de normatividade em relação à vida. Em outras palavras: o conceito de normal se renova ciclicamente. Bom para os artistas.

E o conceito de vida, o que é? Bem, é especulativo, um conceito que, longe de impor uma normatividade reguladora única a nossas expectativas de realização, deve ser capaz de expor a raiz da profunda a-normatividade e indeterminação que parece nos guiar no interior dos embates na vida social. Afinal, queremos crer que o inferno são os outros. Como já dito, a vida é uma atividade normativa polarizada contra tudo o que é valor negativo, tudo o que significa decréscimo, decadência e impotência, e resignação nesse estágio. Se a diversidade orgânica não implicar em tal polarização, a diferença pouco importaria, não significaria doença. Por outro lado, seres vivos que se afastaram do tipo específico, muitas vezes serão os inventores de novas perspectivas e hábitos. A vida, mesmo no animal, não é mera capacidade de evitar dissabores e se conservar. Ela é tentativa, ensaística, atividade baseada na capacidade de afrontar riscos e triunfar, tolerando ocasionais monstruosidades. Ao comparar com o citado acima, vemos uma posição nietzscheana no filósofo francês, que procura vincular a criação de valores com a vontade de potência.

Essa posição de centro produtor de valor é própria a todo homem são (normativo). Uma norma única de vida é sentida de modo privativo, e não positivamente, como gostaria a fria medicina. Sendo a saúde a produção de normas de um organismo dentro de seu meio, a norma seria carregar um potencial adaptativo e não simplesmente se conformar com o que há. Do contrário (organismo completamente adaptado e fixo), surgiria a doença, por estar ausente a margem de ação a fim de suportar fatais mudanças e infidelidades do meio. Uma vida sã e confiante é uma vida flexível, diferente das máquinas. Ser capaz de trazer várias soluções a um conjunto de problemas e ainda definir significados valorativos da ação operada garante a saúde. Nessa linha, um reflexo não é mera reação, mas ação a partir de uma intenção dotada de sentido e de orientação. Essa vida reflexiva afasta-se da menoridade.

Sintetizamos a experiência intelectual de Canguilhem através das seguintes perguntas: compreendemos bem um organismo biológico quando vemos nele apenas um feixe de funções e órgãos que se submetem a padrões gerais de mensuração e quantificação, respondendo às exigências de ajustamento a um meio causalmente fechado? Essa vida não seria apenas o exemplo de uma razão que se transformou em princípio de autoconservação; princípio que tem em vista apenas as configurações imediatas do meio ambiente em um presente instantâneo e pontual? Vida mutilada por não reconhecer mais sua potência de produção de valores? Caminhamos a isso ao excluir a subjetividade da normatividade?

Ficam as contundentes indagações.

 

- Textos-base:

MARTINS, Erik F. Miletta. Notas sobre “O Normal e o Patoológico” de G. Canguilhem. Extraído do site www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/n00006.htm.

PUTTINI, Rodolfo. O Normal e o Patológico e a Epistemologia das Ciências da Vida e da Saúde em Georges Canguilhem. Extraído do site www.cetrans.com.br/artigos/Rodolfo_Puttini.pdf.

SAFATLE, Vladimir. O que é uma Normatividade Vital? Saúde e doença a partir de Georges Canguilhem. Extraído do site http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1678-31662011000100002&script=sci_arttext.

16 de maio de 2013

O que é ser/estar Normal? (pt. I)


"O espanto verdadeiramente vital é a angústia suscitada pela doença".


I

Está para sair o tal do DSM-5, um manual para psiquiatras diagnosticarem pacientes com psicopatologias. A cada edição ele aumenta seu escopo de doenças, e com isso o número de doentes pelo globo afora. Quer dizer então que o mundo de fato está acabando e todos estão loucos? Interprete como quiser, mas eu mantenho o ceticismo quanto a isso, vários pensadores concluíram que “dificilmente alguém que passa por conflitos psíquicos e períodos de incerteza entrará em um consultório psiquiátrico sem um diagnóstico e uma receita médica”. Isto é, querem tanto rotular comportamentos e padrões de conduta que inventaram esse monte de transtornos para saberem com o que estão lidando, portanto, irão se sentir mais seguros para reagir e curar. Ao enquadrar os sintomas e dar um nome ao problema, acaba-se com a ansiedade gerada pela ignorância. Mas! Quanto mais se tenta conhecer, mais ignorante a pessoa se percebe, cada nova descoberta leva a outra e a generalização passa a ser especialização, afunilando-se e levando a graus cada vez mais precisos. A pergunta que se faz é: isso é realmente necessário? Já não se sabe há tempos que de perto ninguém é normal e que não há diretrizes e receitas para cada situação enfrentada e cada imprevisto inevitável?
O pior é que esses doutores juram seguir métodos rigorosos, objetivos e imparciais, como exige toda boa ciência. Senão vejamos: a evolução do pensamento científico não se deu por uma série independente, mas conectada à evolução de ideias filosóficas, metafísicas, políticas e religiosas (doutrinas estranhas ao rigor metodológico), buscando esclarecer a gênese dos padrões de racionalidade, bem como estabelecer as condições de exercício que se assumem o aspecto de técnicas e proposições com referência, entre outras formações discursivas. E na prática clínica, estamos lidando com pessoas, o que significa entrar em um terreno incerto, complexo e imprevisível.
Pergunta: existem ciências do normal e do patológico? Se afirmativo, e a medicina diz sim, como ela estabelece o que é normal? Há boas chances de essa tradição positivista estar permeada de falácias, geradas uma sobre a outra, porque uma vez iniciado o processo, não se consegue abdicar das conquistas e dos ganhos obtidos. Deveria haver uma troca justa entre o paciente e seu médico, contudo os Ph. Deuses auferem a outra parte como mais um objeto do mundo e não como um sujeito social e histórico. Penso não adiantar tratar o ser humano como máquina – até certo ponto ele nada mais é que um apunhado de células e compostos orgânicos e químicos, porém seu poder de decisão recebe influência de uma porrada de lugares.
            Então chegamos à dificuldade de afirmar categoricamente que o sujeito é de tal forma e fim de papo. O pessoal de jaleco ou se esquece disso, tentando fundar uma ciência exata no que é inerentemente subjetivo, movediço e dependente de padrões morais – moral estabelecida endogenamente, ou seja, predominando os aspectos sociais e ambientais (peculiaridades locais) sobre os biológicos – ou esse pessoal almeja desesperadamente a internalização de uma normatividade disciplinar decidida em laboratório. Vai saber o que eles intentam. Talvez o excesso de razão os tenha deixado malucos, paranoicos, querendo transformar toda experiência de sofrimento em patologia. Perigoso. Como eles não sofrem, oh, desejam solidariamente que ninguém mais sofra. Não há juramento de Hipócrates, há juramento “diagnosticar e curar”, só que na base do custe o que custar.
Eu sigo minha vida com o lema na cabeça “no pain, no gain”. Onde já se viu conseguir coisas boas sem sofrer uns arranhões, levar umas topadas e rolar umas lágrimas na face amaciada? Rugas, cicatrizes e manchas fazer parte de toda vida digna: melhor se arriscar a perder o juízo do que se trancar num gabinete alheio às convulsões psíquicas e sociais. É muito sem graça ser totalmente normal, como prega a cartilha dos conservadores. Você ficaria sem história para contar e provavelmente não teria pessoas queridas ao seu lado. Quem coleciona amores e amigos possivelmente deixou uns desafetos pelo caminho, ao menos nas fases críticas. Basta relaxar e viver como se não houvesse psicopatologia séria além da que lhe faz causar danos diretos a outrem ou a si. Todos são vaidosos, invejosos e orgulhosos, claro que há nisso uma escala de intensidade; se for sofrer porque recebeu uns adjetivos, pode taxar essa pessoa de desequilibrada, não tolera juízos dos outros, tem teto de cristal.
O que, afinal, é ser ou estar normal? É difícil (impossível?) solucionar a questão em definitivo. O nome deste blog carrega um duplo sentido que faz qualquer um se perguntar: é anormalidade ou a normalidade? Ou ainda, a normal idade ou idade anormal? Tanto faz, é tudo igual. Qualquer um tem seus altos e baixos e não há juiz ou médico infalível que vá bater o martelo ou o estetoscópio em seu peito a fim de convencê-lo por a + b que o laudo ou a sentença dele é a correta, do tipo “siga-me ou se ferre”. É sempre mais uma opinião, por mais metódico e bem intencionado que ele seja, é um indivíduo que lhe conhece por um ou dois pontos de vista, e não pelas inúmeras perspectivas que teus 20, 40 ou 60 anos foram capazes de armazenar na cachola ainda flexível e sadia. Só a própria pessoa teria plena capacidade de se julgar sã ou biruta. Mas por qual critério? Bem, dizem que quem perdeu o medo de ficar louco é porque está precisando de uns remedinhos, quiçá de um estágio no manicômio. Mas quem não se engana, não é mesmo? O doidinho pode estar mais lúcido que eu.
          Bom, meu critério sobre quem é/está normal é: o sujeito ser capaz de responder as demandas de sua sociedade e de discernir crimes e não crimes, praticando atos que não violem a legislação penal. Quem escapa disso é bandido ou maluco. Mas se seguir a lei é ser justo, a lei em si não pode ser injusta? Claro que sim, mas só se for analisada de fora, se o texto não é contraditório ele é inerentemente justo, ainda que amanhã se revogue o artigo, quando passará a ser injusto, assim mesmo, de uma hora pra outra. Ou seja, assim como a justiça não possui um critério metafísico para se fazer valer, a normalidade também não possui esse tipo de condenação, avulsa ao que de fato acontece naquela sociedade. Se o hábito de mutilar partes do corpo é tido como normal em certas tribos ou mesmo núcleos ditos civilizados, essa normalidade causa espanto a quem não segue tal praxe. Como então garantir que não são os membros/cidadãos os anormais, mas sim o conjunto social inteiro? É só julgando de fora, porém o critério pode se relativizar até o limite. Será que há uma ONU da normalidade? Quem sabe seja necessário, pois muitas tretas e contendas se originam porque um se acha normalzinho e acusa o outro de ser pervertido ou subversivo, e vice-versa.
         Existe alguma exigência social universal? Talvez nenhuma, e tudo seja questão de estabelecer significados no seio do grupo social. Porém, darei um passo adiante e direi que sobreviver e reproduzir (o grupo e a pessoa) seja universal. O resto seria discurso metafísico. Ainda que algumas sociedades castrem e sacrifiquem alguns de seus membros, isso não revoga minha teoria, pois os líderes instituíram – apesar de não admitirem isso, apontando o dedo para a tradição ou a mitologia, é o que ocorre –essa violência como necessária para aplacar a ira dos deuses, que doravante passariam a ser benevolente com aquele grupo. Uma sociedade só seria realmente doente se estimulasse, ainda que indiretamente, comportamentos negativos, como suicídio, depressão e castidade. Ela não restaria por muito tempo, a doença tende a exterminar o adoecido e é justamente o que acontecerá. A sociedade pode até ser decadente e perdurar, como é o cristianismo, mas não pode ser doente, senão se apagará da face da Terra, quem sabe até dos livros de história, pois esta é contada pelos vitoriosos.
         Tudo que não deseja se expandir, e consequentemente se afirmar a fim de se manter, está doente; resignado com as pulsões de morte irá se retrair até desaparecer. Porque a saúde não é uma constante de satisfação, mas o poder de dominar situações hostis. A falta de vontade, a covardia e o isolamento são sintomas da autodestruição. Esse adoecido quer se conservar sem se adaptar às mudanças do meio; não tardará para outro Ser mais afirmativo e flexível tomar seu lugar, podendo sequer ter ocorrido a falência derradeira do doente. Nada mais justo, pois a natureza tende a manter só o que é normal, os excessos servirão de adubo e alimento à harmonia do ecossistema. Ainda que essa harmonia seja bastante assimétrica.
#£(¨@*
P.S.1: Haverá mais uma parte, mais técnica e sóbria.
P.S.2: Em homenagem a este blog, que complementa 4 anos, escolhi o tema que nomeia o mesmo.

29 de abril de 2013

O Sono e a falta dele


Eu sempre gostei de dormir tarde, depois da meia-noite, pelo menos. E desde muito cedo, creio que é porque meus pais não me disciplinaram a respeito do horário de dormir e de acordar. Eles mesmos não serviam de exemplo, e não viram importância no hábito do sono. (- Cansaste? Dorme. Não sentes mais sono? Acorda. Tens compromisso? Dorme mais cedo. É o processo natural acima das anotações da agenda.) Não acho que haja muito problema nesse assunto moral e quiçá questão de saúde. Apenas relato que sem dúvida essa repetição de apagar só às altas horas, e claro levantar quase meio-dia - menos de oito horas de sono nem pensar! –, foi como a corda de meu relógio biológico foi dada. E persistirá até eu ficar bem velhinho e passar a dormir menos.

Quando passei a ter aulas de manhã era um tormento, coisa comum a vários adolescentes, talvez à maioria dos urbanos. Quem realmente aprende/apreende algo estando sonado? É pedir para um chapado decorar a tabela periódica. O governo deveria ou instruir os pais a não permitir que seus filhos durmam após as 23h ou deveria logo alterar o horário das aulas, ao invés das 07h às 12h, das 09h às 14h. Mas sei que isso seria inviável, porque os pais saem para trabalhar lá pelas 07h também. Não sei, talvez eu esteja falando mais por experiência própria, apenas admito que minha cabeça vai pegar no tranco lá pelas 10h, antes disso mantém-se em stand by; fico só de corpo presente.

No meio rural há mais compromissos matinais, como tirar leite de vaca e recolher os ovos da galinha, além disso, é de bom tom obedecer à autoridade do galo, senão a fazenda ficaria de pernas para o ar. Na cidade grande e inflada não se espreme algo para poder beber leite, no máximo faz-se isso com aquele restinho de iogurte que teima em não sair do fundo e da boca da garrafa. Então, é normal a criação urbana tolerar infindos bocejos das 06 às 10h da matina. Para quem se acostumou, passando a gostar de dormir até quase depois de o sol ter ultrapassado o zênite, fica difícil gostar de barulho de despertador e de mãe cutucando e mandando trocar de roupa para tomar o ônibus escolar. Bom mesmo é afundar na cama e deixar o inconsciente se deleitar com os sonhos, memoráveis ou esfumaçados. Bom, estou me delongando nesta intro autobiográfica e importuna.

Meu objetivo era contar sobre as ideias que se concatenavam e mesmo hoje insistem em aparecer, antes da parte consciente da mente apagar. Como eu sofro de “insônia pré-meia-noite”, é simplesmente impossível eu dormir antes, quando muito cochilo por uma ou duas horinhas. Posso estar cansadíssimo, apagar a tv e as luzes, concentrar-me, meditar, contar carneirinho (ah, quantas coisas já tentei nesses anos), não adianta, é preciso que os espectros da madrugada surjam sorrateiramente em meu quarto para permitirem que eu fique “bem dormido, bem dormido”.

Quantas ideias eu tive, de fato incontáveis. Foi uma verdadeira lástima eu não tê-las registrado. Quantas músicas, estórias, hipóteses e motivações brotaram desta cachola entre o estado desperto e o esmorecimento. Então se perderam, uns 99,9% delas. É uma pena que os pensamentos noturnos se desfaçam quando se acorda. O despertar do sono dá sempre um sentimento de renovação, um otimismo de que os terrores da escuridão se dissipem de uma vez por todas. É possível que o sono seja uma doença para o corpo e abrir os olhos e notar o excesso de energia interna seja a convalescença, uma espécie de empurrão que todo enfermo precisa para saber que ainda não é hora de desistir. É uma pena que a insônia amoleça todo o corpo, impedindo-o de levar o pessimismo característico dos notívagos ao ápice. Ainda bem que existem psicoestimulantes para trabalhar essas ideias sombrias. Mas será que a mente turbinada não se torna sempre otimista? Evito-os e mantenho minha obscuridade. A maior parte das ideias boas é negativa, abstrusa.

 Colo a cabeça no travesseiro e deixo a imaginação cumprir o seu papel. Se fizer calor, retiro o lençol, se esfriar, coloco-o de volta, reviro-me para um lado e para o outro, abro os olhos na escuridão, há menos luz que antes. Definitivamente, é melhor pensar com os olhos fechados, sem nada ao redor perturbando os sentidos, a mente flui produtivamente. Infelizmente, não há muita disposição para levantar e pôr as avulsas ideias num papel, virtual ou físico. Às vezes tomo vergonha na cara e escrevo, às vezes levo dez minutinhos para isso, e às vezes mais de uma hora, esqueço que preciso estar de pé cedo e enfrentar cerca de meia hora de trânsito pentelho; é preciso se concentrar em uma coisa de cada vez e sempre temos a esperança de que seremos capazes de cumprir mais e mais tarefas, até elas se tornarem rotineiras, aumentando a eficiência de sua execução.

Sem essa reflexão sonolenta é provável que eu fosse bem diferente do que sou. Menos crítico e artístico. Pois todos precisam de algum tipo de solidão e introspecção. Mas totalmente recluso. Os dados empíricos precisam ser processados pela razão nessa fase sabática, anda que de pequena duração, para tornar a pessoa melhor e mais forte. Apenas girar é viver de aparências.

De tanto ler, estudar, executar, repetir e encontrar um padrão, a mente entra em piloto automático e não consegue ter mais ideias ousadas, enevoadas, inspiradas e enganadoras como as que ela possuía antes de compreender minimamente das coisas. Ou se conhece ou se cria, mas há curtos momentos de genialidade capazes de captar ambas as coisas. Então, haja perseverança! Reconhecer os lampejos de criatividade e embarcar neles como se fossem ônibus sem parada em estação rodoviária, e não os circulares metropolitanos. Os passageiros deles servirão de inspiração a obras cheias de significado, ao menos para quem as executa. Todos querem encontrar um ponto de equilíbrio, a fim de atingir a tão sonhada satisfação, mesmo que seja por tortuosos e desequilibrados caminhos. É bom que assim sejam, haverá mais cenas para a cabeça conjecturar.

Mente cheia ou vazia, tanto faz, o demônio da obsessão trabalhará pesado nela. Desespero, amargura e existência trágica. Tentar não levar as coisas tão a sério para não se matar, também para não se angustiar com as contradições. Elas sempre surgem para quem tenta e se permite pensar com neutralidade, retirando o ego do pedestal. Fantasiar e se regozijar: as melhores fantasias são elaboradas em situações serenas, como num quarto ou num templo, no primeiro caso a mente quer se vincular ao corpo, no segundo, quer dele se separar. Escolhe-se o que for mais conveniente.

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P.S.: Tive que acelerar um pouco para haver pelo menos dois posts neste mês. É o mínimo que um aspirante a escritor deve produzir.

3 de abril de 2013

O Bizarro Cindido


Resistir às tentações ou não resistir, cedendo aos comandos do corpo? Quando é que os olhos, a boca e os ouvidos ficam acima da razão? Amor é ética, mais que senso de estética, apesar deste ser o gatilho das relações que, depois da fase da paixão, inaugurará o algo mais; para alguns é transcendental, mas para muitos, nem um pouco. Logo, a razão auxilia no amor, mais do que o inverso, pois este tem no homem efeito quase nulo, pois seria abdicar das vontades tiranas – nada mais ilógico. Ou seja, a promiscuidade é algo bastante racional? Não deixa de ser, desde que os impulsos estejam sob as tramas em prol de uma cadeia de conquistas – ah, essa autoafirmação.

Cadeias, correntes, elos, vícios, ciclos, manias. Gire, rode, circule, incite, consuma. As pessoas juram que estão sendo autênticas, se ao menos percebessem a dose de manipulação que aturam elas seriam menos hipócritas. Talvez de pouco adiantasse, pois as máscaras são sedutoras e todos as vestem, senão a sociedade se digladiaria interminavelmente; o amor-próprio suporta apenas certa dose de verdade (em respeito aos vícios), após esse limite a sanidade se perde. E a guerra é sintoma de orgulho ferido além do suportável, basta os líderes aglutinarem meia dúzia de insatisfeitos para fazer disparar o primeiro canhão da estupidez. Quanto mais intensa é a ação, maior é o recalque acumulado. A ação humana é impulsionada por paixões que entram e de alguma forma precisam sair.

Mas o contrato social, o famoso pacto entre os cidadãos cansados do medo da morte, instaura o controle sobre cada membro. Sem poder agir conforme os desejos, entra em pauta a metafísica, a crença no algo mais, seja religião, nação ou ideologia. Passada essa histeria coletiva, a maioria ainda reluta em descrer nelas, enquanto muitos aceitam a ausência de sentido nas coisas. Percebem que não adianta tentar implementar seus desejos, há muitos interesses em jogo e o seu é somente mais um entre a multidão de sequiosos. Então o capitalismo chega com tudo, como ilusória solução ao niilismo crescente, diz para seus rebentos consumirem e se aperfeiçoa a ponto de não deixa-los descontentes sem novidades interessantes a cada estação. É a produtividade de um lado e a neofilia de outro. O prazer é repetido, o hedonismo se instaura, mas a satisfação passa.

Aspirações podem ser reprimidas em prol de um bem maior, que então se empilhariam como pólvora velha em dinamite esquecida, bastando um pequeno pavio ser aceso para detoná-la. Antes disso, neuroses irromperiam para amansar a besta interna, que deve se regozijar de tempos em tempos. Conversar com máquinas às vezes resolve, pois virtualidades são mecanismos artificiais do cérebro, projetando uma realidade adaptada à fome que em alguma de suas sinuosidades desperta e dispara as sinapses, mas a saciedade é efêmera e fortalece o sujeito. As bombas simplesmente adiam sua explosão.

Aparece a culpa, o senso cristão de que algo está errado. Pecados mortais precisam ser redimidos, do contrário (novamente), a sanidade seria perdida. Autoflagelação, possessão ou depressão, sintomas já corriqueiros num ambiente que os estimulam, mas nunca admite. Não geraria dinheiro, esse mundo precisa hodiernamente de doentes para prosperar, claro que a maioria escorando um no outro, torcendo para não ser contaminada com alguma chaga mortal, e uns malditos bamburrando e sorrindo. Ciclicamente esse modelo se desgasta e entra em crise, porém não há outra alternativa; então outra malandragem, outros slogans, se reinventam, jurando que gastar é bom, é história, mesmo que seja o fim da história. Ah, dali pra frente é relaxar e gozar, o resto está resolvido.

Tolices são compartilhadas e aplacam nervosismos que outrora fizeram surgir gangues em bairros periféricos – viva os games e o pornô. Sentir-se bem é um imperativo, melhor que seja sem prejudicar um desavisado, ainda que o sujeito satisfeito seja um merda: cada vez mais sua mente derrete, irremediavelmente sua personalidade se compromete e seu coração não entra em jogo, jamais compete. O problema é quando a maioria for assim (já é?): a agir na realidade como no mundo virtual. Sem oponentes fica fácil vencer e conquistar. Isso tudo é se aceitar ou um autoerotismo? As pessoas só postam sorrisos, nunca suas verrugas, anseiam por controlar, pois de alguma forma sabem que serão controladas, querem ao menos escolher seu capataz. Que seja na base da intimidação, assim a tortura será menor, e talvez até mútua! Quem não se considera, o outro desconsidera.

O mais importante é não ser deixado de fora, nada pior que a angústia do ostracismo. É melhor a fofoca correr solta do que ninguém lhe notar. A responsabilidade recairá sobre cada ser medíocre, sorte daqueles que jogam a culpa nos outros, aliviam-se. Os que engolem seco e se calam, travam, e travados permanecem. Diante da forquilha, do caminho bifurcado, não conseguem se decidir, quem sabe delegarão sua escolha à manada que vem logo atrás e certamente os empurrarão para a direita ou para a esquerda, para nunca mais poderem escolher o lado de lá. Ao menos experimentarão e terão um dia uma nova chance de ir para A ou B com menos hesitação.

Os convictos, que não se permitem hesitar, causam muita inveja, mesmo que um olhar atento revele a inconsistência de suas convicções, como um instinto que só quer passar por cima do que surge à frente dos chifres tresloucados. Mas será mesmo imprescindível essa legitimação da razão? Não será mais útil ouvir os apelos dos hormônios e dos sentimentos que urgem independentemente de métodos e gélidos esquemas? Todos têm as suas carências, presumindo-se que ninguém é uma máquina que apenas cumpre ordens de serviço. Preencher essas carências com o que parecer urgente no momento é como a maioria age, eticamente ou não.

A ética libertina é um desses casos. Ouvem-se os apelos do tesão e danem-se as incongruências ou as consequências danosas aos edifícios da vivência, como reputação, família, posses, instituições e órgãos. Há sempre um medo latente de ser taxado de safado, ímpio, larápio e sacana, porém isso é fichinha contra os hormônios que entorpecem a mente e tornam a visão turva. Os libertinos fizeram a seguinte pergunta: a dúvida da traição mais freia ou acelera a própria infidelidade? E concluíram que é melhor se livrar desses dilemas, abraçando os acasos da vida. Viver é festar.

Eles enfrentam a dura batalha contra a moral e os bons costumes, além da batalha interna de ter de esquecer tudo o que aprendeu até então, para efetivar as fantasias mais bizarras. Quando uma minoria choca os caretas da sociedade burocrática, os moralistas logo se aprumam para combatê-los. Ser subversivo é difícil, mesmo entre quatro paredes. É impossível haver mutualismo num caso desses, mesmo que a intenção seja boa (de haver comensalismo), pois o orgulho de quem não participa interpreta o fato como uma sacanagem de parasitas sociais que tanto corroem os alicerces da tradição de verniz consumido. Sobra cara-de-pau para dizer que nunca haveria de cometer tais libidinagens e falta a modéstia de permitir que outros contemplem por aí essa beleza de deitar.

Nem todas são humildes em admitir que não são rainhas, contudo ainda podem falar, ainda que com uma voz embargada, o que parece insuficiente. E nem todos são pacientes a fim de suportar as histerias jorradas por princesas sem mais o afã de serem coroadas, e ainda sorrirem, para eles seria suficiente. Refúgios contornam as frustrações. Abstrações auxiliam na sublimação. A falta de sentido prossegue. Pequenas vitórias enganam a autoestima. É essa a bizarrice de sentir-se cindido.

21 de março de 2013

Quem te ouve?


Inaudito

Ninguém te escuta
Ninguém te lê
Ninguém te entende
Ninguém te quer
Sequer para te foder
como o culpado frequente.

É a sobrevida, amigo
bicho, lixo, carrapicho,
ainda a respirar, ofegar, resfolegar,
tentando ser a outrem peste.

Mas em desgraça nem vírus se instala,
No máximo bactérias e abscessos
te desfiguram, sem dores –
As feridas e suas cicatrizes
são histórias a incorporar,
Então um leguelhé encontrou sentido –
as chagas prestaram favores.

Cometes os teus deslizes
sem notar que são carcarás
expungindo a tão seca terra
dos fortes e fartos fedores,
Seu barulho pouco incomoda
os distraídos em lares perdidos,
Eles nada leem, veem ou ouvem
que não lhes seja de suma importância.

Mas essa utilidade causa repugnância
aos enfermos do decaído mundo:
Sem máscaras acham-se os sãos.
Contra o padrão nada pode um nauseabundo!
Ah, onde hoje se encontra
a esconsa campana

dos vulgos sadios?
 
 
O Cofre

Empurrei o cofre até o meu limite
E tentei empurrar mais um pouco
Segui empurrando...
Em-pur-ran-do
 
Apenas parei quando a loucura interveio
Meu rosto contorcido não era mais de um feio
Era o de um exótico ouvinte
Que gesticulava sem falar,
Ou seria sem parar?
 
Tiques nervosos expressavam confusão mental,
Foram tentativas de ordenamento
Ainda que atabalhoadas,
A meu fiel público: os quatro ventos,
Demanda muito usual.
 
Aos chistes sempre seguiram
Sorrisos nervosos
Gargalhadas, farofada.
Então derrotei meu terrível,
Abominável e temível oponente:
O Nada!
 
Vislumbro-me insano,
Minha condição sine que non,
Para me sentir vivo e bem,
Não mais um neném,
Pra nunca mais ser bebê.
 
Agradeço ao maçarico –
Derreteu certas conexões,
Fundiu oblíquas terminações
E abriu o cofre em meu peito.
Descobri que sou rico.
 

 

17 de março de 2013

Você Quer?!


O Cão e a Dona

 
Eu me arrastei até você,
Das pernas delgadas, lustrosas, folgadas,
Feito um cão adestrado,
Feito o cachorro que sei que sou.
 
Então você me pôs na coleira,
Puxando-a meigamente quando queria
E abruptamente quando eu pedia.
Era o amor, entre lambidas e afagos.
 
Eu farejava suas unhas quebradas
E me afastava ao cafungar esmaltes.
No banho as sombras escorriam
Sobre sua face borrada,
Intensificando sua beleza cinzenta.
 
Fiel, lati para toda e qualquer ameaça,
Fui a um canto sempre que ordenava;
Abanei o rabo para seus queridos,
Mas também para meus comparsas.
 
Fiz cara de quem caiu da mudança
E faz de tudo por tigela de leite.
Foram ardis de felino manhoso,
Cuja verdade nunca alcança.
 
Realizei gracinhas por ser torto,
Implorei por não ser direito.
Você fingiu e me aceitou de volta;
Enfim praticou o crime perfeito:
Veneno em meu favorito prato!
 
 

Sobrequerer

Se querer fosse poder
As pessoas morreriam
De tanto sentir prazer

4 de março de 2013

Redação Juvenil


Minha Mão

 

Eu tenho certeza de que a minha mão é a parte do corpo que mais vejo. Ela está bem diante da minha fuça, todo dia, e às vezes me sinto enjoado dela, mas esses são os momentos que nem eu me aguento. Conheço cada veia que se mexe, ossinho que se destaca quando forçado, unha, pelo e digital, sei quando estalar os dedos e o som que fará – é claro que tudo nas devidas proporções. A expressão famosa deveria ser alterada para “conheço isso como o dorso da minha mão”, mas talvez não soasse tão bem quanto a original. Constatação estranha essa (conhecer em minúcias a própria mão), pois a mão dos outros é uma das últimas coisas a ser notada. Talvez a mão seja o umbigo egoísta que entra em contato com o mundo, mas que passa despercebido e só quem é íntimo o conhece e o toca. Diferente é nosso rosto, que só nos é conhecido diante de um espelho, e ao contrário dos vaidosos, raramente me olho diante dele, exceto quando saio do banho – nesse caso é sempre. É por isso que quando alguém critica minha barba, meu cabelo, meus cravos ou outra imperfeição eu nem ligo, pois atento-me a minha mão.

A mão é quase o símbolo do tato, apesar da pele cobrir o corpo inteiro. É com ela que costumamos coçar, tocar o outro e os objetos, sentir o calor ou o frio, segurar ou empurrar os pesos da rotina, pegar ou largar o que nos interessa ou não, como numa partida de tênis. É com ela que tomamos muitas decisões, mesmo que seja um mero ato final, como assinar, apertar um botão ou digitar um texto. Azar de quem não tem as sutis ranhuras na ponta dos dedos, visto que sente menos a textura dos objetos.

Os ombros carregam aquilo que os braços rapidamente fadigariam, mas as mãos, na soma, carregam muito mais peso que imaginamos antes de parar para refletir. Atlas se auxiliava dela para suportar o mundo. Quem sabe se deixasse esse labor tortuoso apenas às suas costas, tornar-se-ia mais insensível e corcunda, abandonando as pessoas a destinos mais miseráveis? Quem sabe essa ausência de mãos guiando-nos não tenha tornado cada ser humano mais mesquinho e infeliz? Quem sabe a linguagem de libras não deveria ser matéria obrigatória nas escolas, como português, inglês e espanhol? Quem sabe mais apertos de mãos reduziriam a violência?

Já me aconteceu de tanto olhar para as mãos, focando em seu tamanho avantajado, que cheguei a sonhar com uma delas inchada e descomunal, como no clipe Everlong, utilizando-a como um superpoder. Desperto, fica difícil imaginar como seria a minha vida sem uma das mãos, ainda mais sem ambas, ou mesmo com elas, mas incapaz de utilizá-las. Teclados, cordas, folhas, coisas grandes e pesadas, coisas miúdas e sutis, e no que mais eu encoste e nem me recorde por parecer tão banal, tudo isso seria como algo inatingível, um holograma que não posso pegar, pois apenas vislumbrado e que escapa inevitavelmente entre os dedos, feito água da cascata. Acordar um dia e não ver as minhas queridas mãos onde deveriam estar seria sufocante, traumático, doloroso, sofrível, desesperador. Seria pior que perder a língua ou o nariz ou talvez a perna. O quê, a mão é mais importante que a perna? E por que não? Além do fator estético e da rápida locomoção, uma perna não tem muita utilidade. Muletas, próteses e cadeiras de roda estão aí para rapidamente substituí-la, enquanto a mão exige muito mais avanços tecnológicos. Mesmo com todas as bactérias e toda a sujeira que se infiltra e se espalha por ela, os momentos de prazer advindos do toque da mão compensa uma enfermidade passageira; não há anticorpos para um regozijo perdido, ninguém largaria um osso saboroso porque ouviu avisos de que ele pode fazer mal, mesmo trazendo tantos outros benefícios.

“A mão que afaga é a mesma que apedreja”, já dizia o verso, a mão contaminada é a mesma que traz o antídoto e a cura, sem ela seria como morrer de desgosto, pois fora impossibilitado viver plenamente. Se os olhos são a janela da alma, as mãos são a porta; o primeiro serve principalmente para notarmos o que está distante e não podemos trazer para perto, ou ainda para facilitar os passos e o manuseio, mas há tantos animais que se locomovem bem sem eles, servindo-se de outros sentidos como radares; já a mão é primordial para o que está perto. Podemos dispensar os olhos quando estamos ao lado de quem amamos, tocamos seu corpo e permitimos que informações além da obviedade da visão adentrem em nosso espírito. Se eu quero algo perto de mim, puxo-o com uma das mãos, quase sempre com a direita, devido ao fato natural de ser destro – muito me admira quem sabe escrever com ambas as mãos e não se atrapalha ao usá-las, não tive a disciplina dessa prática motora. Então, abraço-o ou apenas deslizo sobre ele.

Talvez as virtualidades não me prendem justamente pela impossibilidade de tocá-las. Acho que a tecnologia demorará muito ainda para transformar o mundo 2-D em 4-D (3-D seria ainda virtual), e talvez nem compense tamanho esforço, apenas o teletransporte supriria esse agudo anseio de aproximar o que está longe das nossas mãos, contudo perto dos olhos. Há muito menos graça em simplesmente observar do que tocar, como seria bom se primeiro tocássemos o que desconhecemos, para enfim vermos o que era. Mas quem anda vendado dentro de casa? Sem as mãos nos enganamos mais facilmente, talvez a partir dela haja uma chance de captar a energia, a essência, o âmago das coisas e das questões. Infeliz daquele que a perdeu ou não a usa. Infelizes dos árabes larápios que tiveram-nas decepadas, carregando o estigma social e a tristeza de praticamente perder o sentido do tato – sofrimento duplo num lugar por si só sofrível.

Tudo bem que já existem próteses para substituir qualquer membro perdido, mas não é a mesma coisa. Sem essa muleta evoluída o sujeito ainda sentirá aquele pedaço faltante de seu corpo coçando, formigando ou latejando, e com ela, mais realizará tarefas grosseiras, como andar, segurar ou acenar. Duvido que um dia cheguemos à perfeição de uma mão natural, com todos os seus filamentos e nervuras mandando sinais alucinadamente a uma mente consciente que só quer saber do básico, mas que tem o potencial de sentir muito mais que o corriqueiro ou os comandos biônicos. Com estes corre-se sempre o risco de perder algo mais que a sensibilidade dos dedos.

Bizarrices acontecem, como a síndrome da mão alheia, um pedaço de nós pode agir contra a nossa parte preponderante, a que chamamos de eu – nunca duvide do que uma porção importante sua seja capaz de fazer. Cada dedo pode vir a ser um tentáculo, um punho cerrado carrega uma grande energia potencial, uma mão aberta pode proferir um tabefe ou um golpe mortal, fisicamente ou não. Agradeço a esse conjunto de carpo, metacarpo e dedos, sem ele eu seria menor do que já sou. Com ele, carrego inúmeras possibilidades de vida ou morte, que talvez se comparem somente ao cérebro e ao coração. Doravante, prosseguirei sentindo o mundo e aperfeiçoando-me.
 
P.S.: Sem P.S. dessa vez, rá!

28 de fevereiro de 2013

E Mais Inutilidades Ruminadas


Se for à Floresta Use Capacete
 
Se der cana ao capeta, usará a caneta;
Se der na carpa um cacete, sujará o carpete.
Sinal do palacete que se cala é capacete;
Se um canalha retirar o valete
Surgirá cavalete, ou canalete.
 
Sob a capa a vedete parece um cadete,
Sem colher comum almoça a mulher.
Sempre as flores estarão em festa na floresta;
Sobre aquela garrafa gigante
Sei que garante andar a girafa.
 
Cochicho de Carrapichos

Do cochicho à rixa basta ser prolixo,
Pixa o muro, mas é esguicho do lixo,
Enquanto Garrincha de amplo fecho pechincha
Com seu capricho, bem fixo – tornado prefixo.
 
A bicha lixa sua unha mixa
E destrincha um rabicho entre buchichos.
Logo o nicho suplica: “lincha ela”,
“Afixa no crucifixo”, “deixa que eu guincho” –
São os relinchos do povo carrapicho.