7 de agosto de 2013

Drops Despadronizados


I

Em terra de ninguém
Quem se acha dono de terra
Morto é por quem se acha rei
 
II
A água jorra,
se deságua no céu,
minh’alma se joga.
 
 
Desculpas Incertas
 
Minha voz atravessa
Corta a unha postiça
Pois não é de veludo
Não rima ão com ãos
 
As palavras atordoam
desleais projeções
com seus doces padrões
Fazem rir só uns rabugentos
e de geladeira os pinguins
 
Das estrelas a musa desceu
e na ordinária morada
Não dança, não é dádiva
Grita e se faz ouvir
Sua coroa de rubis
reverteu-se espinhosa
 
Desculpas se exigem
Desculpas fingidas
Desculpa esfarrapada
Da culpa se exime
A dupla em alívio
 
Voltam os bons discursos
Revoltam ares chucros
Berros incisivos incitam
a dissipar incertezas
a implodir reiterados silêncios
Inaudita resta a certeza
 

4 de agosto de 2013

De Galos e Ratos

 Sua vida de antemão decidida
Sua viagem à prazo antevista.
As juras: fantasias têm apelo
atrofiadas diante das mãos.
Suas respostas na planilha da entrevista
Apostasia e desapego, o chavão
a dizer: ó culto, personalista!
 
Opacos nexos perduram
Confundem sujeitos nervosos,
por fama e glória sequiosos,
A mesmice do mundo aturam.
Enfastiados como um galo
dono do poleiro de um dono brejeiro
Nem percebem quando são usados.
 
Renúncias ao que for autêntico –
Marcha de manequins sorridentes.
Anúncios reverberam ilhados,
Quem captará sentidos velados?
Fazem comparar só entre idênticos;
adaptados, dopam caracteres.
Nesse jogo competem caráteres.
 
Ao fim, o efeito direto:
Fim da arte e de todo artista
Que renova, ri e inova
alguns dialetos.
 
Os ratinhos ouvirão Josefina
Todos, imitadores e artesãos,
repetem e gozam nessa masturbação.
Senão é o estranho sofredor
Avulso, sonhador, resigna-se.

9, 8, 7...1, 2, 3, 4
Obs.: Talvez em seguida venham apenas poemas/poesias/letras, umas coisas bem atuais e outras nem tanto. Mas isso não significa que eu esteja poético e artista demais, tenho escrito e pensado bastante logicamente, apenas não expus estas ideias nesta mídia. Por sorte ou azar, minha ou dos interlocutores, as divagações não estão gravadas para a posteridade, difundiram-se ou esfacelaram-se como grãos de areia em meio ao tumulto da cidade. De qualquer forma, não sou um sujeito influente.

14 de julho de 2013

Duas (subentendidas) Considerações Psicanalíticas: II – A Violência e a Boca dos Árabes


Só para alertar: eu exporei algumas besteiras. Não tenho tanto embasamento histórico para falar sobre o Oriente Médio, leia este texto como achismo de um ocidental que não aprecia a cultura árabe, mas que compreende a dureza dos que vivem numa região onde conflitos armados são inevitáveis e que por causa deles as pessoas da região não puderam agir de outra forma e nem se entregar às liberalidades e licenciosidades do Ocidente, que para nós significa progresso moral. Na verdade, desejei fugir da contumaz análise sociológica que sempre ouvimos e lemos quando o assunto são os árabes. Foquei na psicanálise, especialmente na repressão sexual. Parece sempre uma blasfêmia colocar sexo e Allah na mesma frase, como eu sou um maldito e polemista, não ligo. Todo mundo gosta e precisa de sexo, se o Islã o trata como sujeira, parte do mesmo princípio cristão de inferioridade do corpo, nossa única sede. Estou acostumado a criticá-los, pois a sexualidade é o centro de nossa relação com o mundo, todo exercício de prazer e poder passa por ela. Fique à vontade em parar logo nesse parágrafo se você for puritano, pois para mim foder move o mundo.

Ah, só para constar, quando me refiro a árabes, digo sobre todos que moram na região ou seguem os costumes de lá, tanto faz se muçulmano, judeu, cristão, hare krishna ou budista. É claro que por ser predominada pelo Islã, este será o maior alvo da análise.

 

O Oriente Médio sempre foi ponto de ligação comercial, logo de contato, entre diferentes culturas, etnias e religiões, portanto, um barril de pólvora com pavio curto. Foi preciso acolher bem os visitantes para a grana circular e o povo ter o que comer naquele deserto amaldiçoado. Claro que tudo feito superficialmente: pagou, comeu, vazou. Os judeus se destacaram como grandes comerciantes, bons de lábia, corporativistas e organizados. O sucesso alheio desperta inveja, quem está por cima dispara fortes emoções nos ambiciosos. Os turcos seguiram os mesmos passos da judeuzada, com a diferença de serem mais brutos, como a maioria dos árabes, machistas por excelência. Além do deserto e do comércio, a gastronomia da região é uma referência mundial. Come-se quando pode e o quanto puder, pois fartura é sinal de alegria, assim como ser gordo é símbolo de riqueza, só ficando atrás de ouro, esposas e palácio. Os árabes compensam sua falta de senso estético na arquitetura. À exceção desta arte deles, as demais eu não consigo admirar.

Após esse rodeio histórico, foco na psiqué da galera. Família e religião são tudo para ela. Não é por ideologia, é pessoal. Cultivá-las e defendê-las é como um instinto de sobrevivência; tenta-se continuar vivo por motivos biológicos. É claro que quando há mais de uma pessoa vira questão política e social, mas por lá indivíduo, família e religião estão intrincados a ponto delas serem parte do indivíduo – ninguém sai por aí se mutilando. É mister mantê-los íntegros. Dito isso, fica mais fácil entender a característica passionalidade árabe. Não há ideias em jogo quando há um ataque à família ou à religião, há uma agressão física. Não se discute, se reage. Enfrenta-se o inimigo e busca-se subjuga-lo, fazê-lo se arrepender e sofrer por tamanha arrogância. Lei de talião.

Criança faz muito isso. Começa revidando na mesma moeda. Quando algumas ultrapassam os limites do olho por olho, descobrem a injustiça e se tornam adultos, uns por cima e outros submissos. Os árabes não conseguem ir além com o perdão, o exemplo tem que ser maior que a abstração intelectual. Não há outra justiça que não a imediata. É incrível, as coisas parecem incorporadas de tal maneira que a própria alma assume traços físicos, mesmo sendo etérea. Deus tem que ser vingativo, a guerra é uma rotina e só os fortes e obedientes devem sobreviver. O ente poderoso é mero reflexo da concepção de poder da população, que jura seguir uma lei divina.

 

Vamos agora à parte mais polêmica, a sexual, a gozada cultural que a gravidade dos templos, das mesquitas, das sinagogas e das igrejas tenta reprimir e escamotear. Todo mundo sabe que qualquer ponto de encontro é estopim para sexo. A aglomeração facilita o roça-roça e a troca de olhares sacanas. Daí para beijos, amassos e penetrações basta uma fresta, um vacilo do superego. Séculos de evolução nos programaram para reagirmos rapidamente às parcas possibilidades de acasalamento e posterior povoamento do mundo. Mas a moral foi inventada para permitir apenas o sexo com fins de procriação e posterior criação dos filhos, senão haveria abandono em massa de recém-nascidos e uma orgia generalizada. Ó, fora sodomia, o maior dos pecados!

Não há espaço para expressão da subjetividade, nem da diferença e nem de ideias heterodoxas, ou seja, é preciso rezar a cartilha e danem-se a crítica e a arte. Se não é possível descarregar toda energia acumulada (e ela se acumula por mais bem treinada que seja uma consciência) no sexo, se não pode sublimar essa sexualidade reprimida na arte (repetir o padrão é artesanato), se não pode tentar caminhos diferentes do que é claro e rigidamente estabelecido através de dogmas e tabus, a única válvula de escape é a violência contra o estrangeiro (stranger). O esquisito é achincalhado e afastado de dentro do grupo. E qualquer grupo coeso pratica isso. E se não praticar perderá a identidade. É o modus operandi dos árabes, mas foi preciso que funcionasse assim, do contrário viria outra tribo/etnia e os chutaria para longe. É a velha briga de torcidas, contudo aqui ela é institucionalizada e estimulada por líderes e seu rebanho. É brigar ou fugir.

Tudo é motivo para discussão, um quer se pôr acima do outro e ninguém se acalma ou toma um banho frio ou se arrepende do que fez ou pensou. Tudo esquematizado e pré-programado, basta seguir à risca as instruções teológicas e sociais, então relaxe a cabeça e os pés. Isso finca raízes no padrão de pensamento, e consequentemente de comportamento diário, são as convicções guiando o corpo. Como não há estímulo ao espírito crítico nem ao cultivo das livres ciências, a mente simplesmente repete o que foi repassado quando criança e que é visto cotidianamente, com pouquíssimas variações. Não há espaço para improviso. Assim como um bebê ri ou chora perante uma situação imprevista, um árabe xinga e parte para a porrada se provocado em demasia. Sua libido se concentra em agredir, é incapaz de entender o lema hippie “Paz e Amor”, é inconcebível viver de sexo e plantas. Ele simplesmente não consegue se livrar das convicções, é escravo delas.

Não falo dos terroristas, falo do árabe ordinário, violento porque não sente prazer com o sexo nem canalizou essa energia em outras áreas. A neurose é inevitável quando a repressão é constante e sem trégua. Nervosos, acusam os outros (quem está fora), afinal se eles se acusassem, cairia o mundo, nada mais faria sentido; o prédio tem que se manter de pé, mesmo à custa da saúde mental. O corpo treme e reage quando confrontado ou apontada sua contradição. Não pode. O excesso de regras é uma tentativa de afastar o foco nos problemas internos e nos pecados que cada um cultiva quando a liberdade dá asas à imaginação. A sociedade árabe não admite desvios.

Por fim, as mulheres. Por lá elas sofrem muito, são reprimidas dentro e fora de casa, não gozam da mesma liberdade dos homens, mesmo em países mais tolerantes, e precisam internalizar o discurso a fim de se acostumarem com as dores até o dia em que não percebem mais a própria escravidão. Um escravo auto-enganado talvez tenha chance de se encontrar um dia num sublime estado de felicidade, mas um escravo ciente de sua condição jamais se dirá feliz, viverá apenas na esperança de que as coisas porventura melhorem. É a velha lição da caixa de Pandora, a tragédia grega, a triste condição humana de acreditar no que dificilmente irá acontecer, tentando viver bem e cultivando o próprio jardim, convencendo-se de que no futuro ou no porvir ele será parecido com o Éden. Retomando, as árabes jogam todas as suas frustrações e esperanças nos filhos, na cozinha e nas roupas. Projetam o próprio sucesso nos rebentos, então se orgulham quando ele é bem visto na comunidade. A parte dela está feita, atrás das cortinas, que no palco brilhe sua cria.

Elas sentem, e devem sentir, culpa do corpo pecador, evitando tocar zonas erógenas, incluindo seus próprios filhos. Imagine a situação de sentir prazer com o neném mamando em seu seio. Calam-se e vão rezar para se purificar após tal monstruosidade. Com isso, é muito provável que tenham amamentado pouco. Para compensar essa outra culpa (ter dado pouco alimento ao bebê), elas cozinham demais – é também outra forma de passar o tempo e não pensar na frustração sexual. Amplie essa escala e terá um exército de homens paparicados e com problema na fase oral. Decorre disso o excesso de cigarros e charutos. Uma fumaceira desgracenta empesteando casas, praças e bazares. Não podem ficar beijando por aí, nem chupar pintos, xoxotas ou mamilos. Contentam-se com os narguilés. Só que é narguilé pra c@r£lh¢. A boca tem sede e fome e não há suquinho ou biscoito que a satisfaça. Sem um mínimo de romantismo e satisfação sexual as neuroses irrompem.

Sem cumplicidade sexual não há possibilidade de amor. Dizer que o amor é devotado a Deus pode fazer sentido, mas só entre os monges e santos. A imensa maioria das pessoas são tentadas pelos anseios da carne. Fingir que eles não existem, logo não atendê-los, é abrir espaço para frustrações se acumularem. Mas elas precisam sair de alguma forma. E a violência é a mais fácil. Sem amor eleva-se o ódio, a vontade de destruir. A terceira opção é a indiferença. Não creio que gente passional pratique esse asceticismo. Só restou uma saída para suportar a existência: odiar.

13 de julho de 2013

Duas (subentendidas) Considerações Psicanalíticas: I - Jovens Neuróticos e a Civilização


Observe um garoto – ou guri, piá, pivete, dependendo da sua região -, pode ser uma menina também, tanto faz, você verá como ele é cheio de energia, curioso e alegre. Uma criança normal gosta de brincar, qualquer uma, exceção feita àquelas com algum distúrbio psíquico que leva à apatia e às que, por alguma grave restrição física, cansou de sonhar em mover os braços e as pernas. É verdade que a falta de limites e o excesso de estímulos, ambos quase sempre motivados pela displicência dos pais, está formando uma geração de capetas hiperativos e mimados, ou seja, agitados e petulantes em demasia. Logo mais estarão frustrados com a frieza, a indiferença e a segregação da sociedade adulta. Mas isso é tema de outro post. Grosso modo, as crianças urbanas, ocidentais e a caminho de se civilizarem são tão divertidas e espertas quanto as “selvagens”. O lado instintivo também grita por dentro. O sortudo que ainda preserva a memória de quando era pequeno certamente me ratificará. O sortudo que tem um filho facilmente isso identificará.

Contudo, a educação, o mercado de trabalho, a televisão, a internet, a moral, etc, exigem dos pais que seus filhos percam ligeiro esse lado brincalhão e improdutivo. É preciso aprender a ler, a somar, a escrever, a decorar, a cantar o hino, a repetir frases em inglês, em francês, em cantonês, etc. Disciplina é a palavra, é a ordem. É claro que há uma unanimidade entre os moleques: a chatice de ficar sentado na carteira obedecendo à tia, de fazer os deveres e de prestar atenção em cada besteira dita na escola. Doutrinar é a palavra de ordem. Os pais têm ciência do modelo pedagógico e do conteúdo programático para onde enviam os filhos, apenas não entram em detalhes para não perderam tanto tempo e por confiarem nos diretores, secretários e inspetores.

Detalhe, os bebês crescem rapidinho, a mãe ainda se recupera dos quilinhos a mais e da descarga hormonal, o pai ainda se recompõe financeiramente com os gastos extras e então o pimpolho mal pode ser carregado no colo. Quando vai reparar na ternura, já passou. O menino fala gírias e bate-boca por futilidades. A mocinha já está de olho nos garotos mais velhos e talvez esteja aprendendo a beijar. Todos sabem que precisam seguir inúmeras normas, e eles mesmos criam outras, afinal tendem a copiar o que está implícito em sua rotina. O futuro do país em grande parte depende deles, a sociedade almejada deverá ser como infundida diariamente em suas cacholas em formação: racional, organizada, produtiva, civilizada e hierarquizada. Desse modo prosseguem o jogo. Reprimem cedo suas propensões infantis e travam no tempo. Água represada deixa marcas indeléveis no terreno. Não é fácil notar a criancice dos jovens adultos e a precocidade da puberdade? É como se os assuntos fossem praticamente os mesmos durante uns 20 anos, dos 10 aos 30.

Eis o cenário que vislumbro: brincadeiras são por pouco tempo mera distração, gradualmente a competição se torna séria e o instinto de prevalecer aliado ao pecado capital da vaidade deixam as inocentes crianças neuróticas. Então o mundo se divide em dois, de um lado os agradáveis vencedores e do outro os detestáveis perdedores. Ninguém quer fazer parte do segundo, apesar da maioria nele se encontrar. A leveza de brincar pelo exclusivo prazer lúdico está se perdendo cedo. O que realmente importa é performance e destacar-se. O céu é o limite. O pequeno da turma (café-com-leite) tem que ficar esperto, sua fase de inserção e aprovação é ligeira, célere, em breve ele terá que se afirmar, tentando superar os mais velhos. Essa seriedade é um saco.

Esse sistema quadrado, rígido e excludente combinado com adolescentes que usam uma coroa na cabeça dentro de casa tem seus efeitos claramente percebidos. É o desaforo, a ausência de comprometimento com qualquer causa solidária, a agressão gratuita e a sexualidade precoce. Eles não são ensinados a casar cedo, mesmo assim querer fazer sexo, é claro, e são compelidos a isso, sob pena de ser o cabaço da galera. Quem receber esse rótulo irá se retrair ou então partir para cima dos outros, exercendo aquela marra típica dos juvenis nervosinhos e urbanoides. Sem ritos de passagem claramente identificáveis, como ocorre nas sociedades tradicionais e primitivas, os próprios jovens inventam uma forma de separar os que se julgam prontos para a vida e os que ainda estão embaixo da saia da mamãe. O problema é que na verdade ninguém quer perder o teto e a mesada do papai.

É a autonomia com um grande lastro por trás, e jamais se admite covardia ou moleza. Os índios caçam, recebem instruções desde cedo para enfrentar a vida florestal, reconhecem seu papel social e quando se tornam adultos encontram-se confiantes e sem qualquer vontade de zombar do vizinho. Seu lastro é a natureza. Sua escola é em campo aberto. Sua ambição é viver. Sua alegria está em cada momento. Ele caminha, corre, pula, atira flecha, etc. Enquanto as nossas ficam em salas quadradas, presas em cadeiras quadradas e carregando mochilas quadradas. Os hormônios anseiam por correria e contato, como entre os indiozinhos, porém a grande diferença é que os segundos têm atendidas suas necessidades imediatas e os primeiros se frustram insertos em disciplinas e restrições motoras com promessas de felicidade. Sei que essa é consequência inevitável de uma sociedade mais complexa, povoada e progressista, que talvez se iluda mais que a outra, por mais mítica que seja.

Cada estágio de crescimento tem sua hora de acontecer, é difícil adivinhar o que as crianças exatamente pedem – e nem devem ser plenamente atendidas para não criarmos reizinhos metidos -, o fato é que o organismo dá sinais comportamentais, que são ignorados por professoras mal treinadas e mal amadas, que acusam os fedelhos de endemoniados. Como etapas são puladas, elas nunca se efetivam, fica sempre aquele gostinho de quero mais. Além disso, há uma liberdade de voltar atrás e repetir certos atos que não deveriam ser convenientes para certas idades e posições. Esse relativismo é um saco também, um mínimo de repreensão deve ser internalizada para impedir que brote uma geração de retardados. É o velho bom senso sendo requisitado. Certeza que essa relação entre o indivíduo e sua sociedade nunca deixará de ser conflituosa, desde que permaneça a ideia moderna de sujeito, de um ser à parte dos outros objetos do mundo e fundamentalmente diferente de qualquer outro membro do grupo. Certeza também é que os mais velhos sempre têm suas esperanças frustradas com as reações dos mais novos, decepcionantes e aparentemente sem futuro, então um ataca o outro, de rebelde e de senil. São pais e filhos, em perpétua dialética.

 

4 de julho de 2013

Loneliness and his Lies

Anos de Solidão

Sem fogos
Na miúda
Achei dez centavos
Ganhei na loteria
Não adianta lhe explicar
Cada um que morda a própria rapadura

Minha idílica redenção
É interna
Ou deveria ser
Porta retratos pelo chão
Medalhas na parede
Não perturbam meu senso de lisura

Fé na hierarquia
Ou só coisa de maníaco
Estou acima de vocês
Que só vencem campeonatos
O novato faceiro
Se elogiado, não o compreenderiam

Mãos dentro do bolso
Mãos sobre a cabeça
Um pedação engolido à força
Lacrimejo por falta de mastigação
Logo mais não sinto
Perdi o paladar após disenterias

Autoatenção
Hábito ingênuo
De um geniozinho desprovido de fama
A praça é pequena para dois
Ninguém concede
Mas a perfeição é movimento contínuo

Coisas cativam
Gente incomoda
Quantos mais anos de solidão
Até dissimular simpatia?
Giro e sigo insensível
Julgo não haver pedregulhos me atingindo

**¬§§


Várias Mentiras

Sabe, a segurança enjoa
Quem vive só numa boa
tem lá seus sonhos.
Sonolência nada cura,
mas tatear pelas trevas
serve pra não acabar enfadonho

Quem quer esquemas e planos
Prestes a subsistir, insano
e sem perigos?
Saudade de cenas futuras –
ansiar pelo colo do estranho,
ainda que seja o de um sujo mendigo

Ser criança é só o fim
Um ultimato carmim
de sorriso solto.
Doravante, cercas, divisas:
Um altivo adulto recusa!
Seu sorriso esconde desgostos

Agitação fugidia
Às perguntas, respostas vazias;
Amargas, ardidas, abstrusas,
as várias mentiras.
Infrutífera voz cerebral
taciturna reluta em morrer...
Escolha o engano da lira

24 de junho de 2013

O Homem 3.0: Só a Cabeça Biônica mais os seus Eletrônicos


Imagine você como uma cabeça voadora. Só a cabeça, alguns braços retráteis e um compartimento do tamanho de um notebook servindo de ombros e pescoço. Os braços são resistentes e maleáveis com alguns metros de extensão e três dedos em cada um que mais parece um canivete suíço ou a mão do Inspetor Bugiganga. O compartimento eletrônico o permitiria dispensar meios de transporte e pernas, movimentando sua cabeça poderosa em alta velocidade e sem muita preocupação com eventuais batidas, pois ela estaria muito bem protegida por um capacete blindado. Coração, ossos, músculos, garganta e pulmões só dão trabalho e podem ser facilmente substituídos por membros numa estante, escolhidos dia-a-dia como se eles fossem roupa ou maquiagem, dependendo do humor matinal para serem utilizados. Imagine só isto: seu “corpo” tão veloz quanto um carro!

Mas essa parte física seria pouco utilizada de qualquer forma, pois sua mente estaria muito mais conectada num mundo virtual de infinitas possibilidades, pois as mentes de outras cabeças etéreas estariam conectadas numa nuvem wi-fi globalizada, como em Matrix, com a diferença que esse mundo paralelo pareceria mais o Grande Lar ou outra coisa bonitinha que se pudesse imaginar. Para quê ficar com o feijão com arroz quando se pode comer escargots e lagosta de café-da-manhã? Isso para quem ainda sentisse vontade de comer, essa coisa primitiva superada por nanopartículas que eficientemente captam toda a energia necessária para se viver a partir do sol e da água mineral, e nada mais. Até porque metabolizar um corpo de alguns quilos não demandaria muitas calorias.

Para quê nariz quando não há pulmões para processar oxigênio? O compartimento faria esse trabalho, como ventoinha de computador. Nem por isso o olfato precisa deixar de existir, muito pelo contrário, você perceberia odores que nem o mais arguto animal farejador a vagar pela face da Terra hoje consegue. Um sensor em qualquer lugar da sua cabeça faria esse nobre trabalho para você. Olhos veriam em raio-x, infravermelho ou com lentes de telescópio, bastando para tanto trocá-los, como unhas postiças de travesti. Orelhas com qual finalidade, quando as ondas sonoras são mais bem peneiradas a partir de aparelhos do tamanho de uma ervilha implantados no lugar do ouvido? Um programa poderia ser modulado para captar as frequências mais agudas, que sequer os cães conseguem ouvir; as mais graves, que se aproximam ao som do Big Bang; ou simplesmente ignorá-las (mute mode on), quando você for meditar e se concentrar em um sentido apenas, como o olfato, ou em ideias grandiosas, atualmente impossíveis para nossa capacidade intelectual. Isso mesmo que você pensou, Darth Vader é fichinha. E ele não estará numa galáxia tão, tão distante.

Seu cabelo poderia ter o penteado da moda ou o mais exótico possível, seriam tantos formatos que ninguém mais estranharia. Uma vez dado o comando para seus braços mecânicos, dê adeus à ida aos salões de beleza: sem cansativas filas, irritantes fofocas ou mal entendidos. Suas mãos seriam mais precisas que as de Edward mãos-de-tesoura, qualquer cor, condicionador e demais cosméticos seriam prontamente entregues em lojas de departamento na esquina. Mas como eu disse, é provável que no mundo físico poucos estivessem realmente ligando para o decadente corpo. A ação de fato se desenvolveria em redes, com os malucos iniciando e encerrando existências como videogame; starts seriam dados a todo o momento por milhões de birutas comodamente encerrados num quartinho protegido por aí. Afinal, para quê casa se não é preciso cozinhar, deitar em camas, sentar em cadeiras, estirar-se em sofás, tomar banho, trocar de roupa, alimentar os peixinhos ou rolar com o cachorro? Móveis domésticos seriam itens de museus como ferro a carvão.

Esqueça como o homem fez sua história e prepare-se para o futuro. Mundo pós-humano. Esquisitices à parte, um cenário semelhante ao exposto é bastante viável. Em poucas décadas (5, 10 ou 15), acredite, a tecnologia pode muito bem avançar a ponto de realizar (quase?) inteiramente esse panorama, que soa como excentricidade a nós – humanos limitados pelo aparato corporal ineficiente, a tal prisão platônica. Como não existe outro mundo (ou pelo menos a certeza dele), alguns cientistas doidões resolveram projetar o mundo das ideias por aqui mesmo. Ou no mínimo logo ali, além das conexões de internet – ou por outra alcunha certamente batizada. E nem tão longe, aqui mesmo, pois o corpo/a cabeça seria bastante remexido: dentro dele haveria tantos chips, softwares e partículas minúsculas que a parte eletrônica talvez suplantasse a orgânica. Tudo objetivo e correto, beirando à perfeição. Cabe questionar: ela existe? Para alguns, parece-me que sim.

Viagem minha? Infelizmente (para mim, sujeito analógico e anacrônico), não. Busque autores pancadas como Ray Kurzweil, Nick Bostrom e Edgar Franco. Saber sobre Cybercultura ajuda também, e a referência é Pierre Lévy. Pesquise sobre futurismo, transhumanismo, promessas da nanotecnologia, imortalidade humana, backup da mente e outros temas correlatos que nos remetem aos ousados e fascinantes livros e filmes de ficção científica. É assustador, mas para muitos é promissor. Homem (?) sem amarras. Ou ser biônico plenamente satisfeito e realizado (!). Para mim, é mais o triunfo da objetividade fria e hedonista que julga haver uma resposta definitiva para a vida: progredir tecnologicamente e inundar os sentidos de informações muito além de um oceano terráqueo. Uma galáxia seria pouco. Uma vida não é o suficiente para explorar o universo.

Ou quem sabe seja simplesmente crítica de alguém atrasado que tem medo das inúmeras implicações que uma revolução, uma gigantesca mudança de paradigma e uma novidade imprevisível podem trazer. Sem dúvida, há muitos pontos positivos, como redução de conflitos, sustentabilidade ambiental, erradicação da miséria, educação (ainda que meramente técnica) e previsibilidade comportamental. Mas nada possui só lados bons e tem unanimidade entre os sujeitos pensantes. Penso que o grande problema seja ético, bioético. A máquina é superior ao homem? A razão deve predominar sobre as confusas emoções, custe o que custar, doa a quem doer? Se bem que estamos falando de um conjunto de seres insensíveis e autossuficientes. Não se aplica?

Fica a dica para você refletir sobre conjecturas possíveis e que podem ser comparadas com casos mais concretos e próximos de sua realidade, cada vez mais mutante e acelerada. Esforce-se e concordará comigo. Até onde você quer ir? Querer será poder. Desejou, conquistou. Simples assim. Simples? Nunca é simples quando se fala de vontade. Vá pensando aí, para mim foi útil, espero que para você também seja. Enquanto isso, aproveite este mundo, onde querer é só o primeiro passo para poder.

Para encerrar, fico com esta frase de Giacoia Jr: “Uma das acepções do niilismo é esta: o ideal do humano reduzido à intensidade minimalista da sobrevivência; o ideal de felicidade rebaixado ao hedonismo consumista, à incapacidade de elaborar uma experiência de sofrimento, ao desejo obsessivo de bem-estar, conforto burguês e segurança, o acobertamento no anominato do coletivo, a diluição de toda verdadeira personalidade, a negação da diferença pela tirania identitária do uniforme”.

 

P.S.: Eu deveria ter pesquisado mais, para escrever com mais embasamento. Deixarei essa tarefa a meus leitores. Quis liberar o fluxo de ideias de uma vez só. Estava represado, achei o assunto instigante e, como uma criança, me empolguei, mais agi que pensei. Deixarei o cuidado reflexivo para o tempo.
 

15 de junho de 2013

Tententender


A Alaíde
 
Alaíde, vosso alarido é chororô
Sentis repulsa por tudo que não vos pulsa.
Essa fleuma é causa da grande celeuma
e do tumulto transformado em insultos.
Minha asserção: caminhais sem tanta aversão!
 
Sabeis que algazarra não precisa ser farra,
Após as injúrias restará a lamúria
diante do penhasco, a vós o meu asco.
É nossa dissonância, pois carrego esta ânsia:
Demonstrar repugnância por vossa flanância.
 
Batuques
 
As bagunças de um lúgubre burguês:
Badulaques de butique e buquês;
Uns lacres, dois baques e laquês.
Basbaque por batuque luandês!
 
Aversão
 
Vê, sentir aversão ao Ave César
é conversa de quem vem versar
em Versalhes por falta de asserção
Faz tergiversar e dispensar
seus haveres, não quer averbar
só quer o que é adverso conservar.
 
Convém rever esta confusão:
As aves como a veraz versão
daquele que sem ver malversa
até haver de ceder em convulsões.
Então ele teve de reversar,
senão, para ele deserção!
 
Antevê o são de tenaz visão:
Na conversão haverão de adversar
sem as enviesadas lições
os adversários, pois é de César
o dia – Ave! –, seu aniversário...
 
 
P.S.: Foram esses os versos, sentiu aversão?

9 de junho de 2013

Eu também faço Rap


No subúrbio tenha sempre seu ardil
 
Ando pelo bairro e paro na esquina
Está pichado o muro, maior cheio de urina.
Sigo o meu rolé, não suporto essa caatinga;
O buraco é tenso, não te explico, é só vendo
A cinquenta passos eu percebo um moreno
Chego perto dele, o malaco tá fedendo.
 
Nesta noite, sei, carniça é minha sina,
Parto para o bar, que o goró me alucina.
Que infelicidade, me oferecem cocaína.
Tenho cara de burguês?
Um perdidão talvez?
Não quero ser freguês
De malucos, sim, vocês!
 
No subúrbio tenha sempre o seu ardil
É a lei da selva bem no meio do Brasil
 
O tiozinho no sinal se levanta, é um alento,
Dirige-se até mim, passos em câmera lenta
E pede um real, eu recuo – só lamento.
Seu bafo de cachaça não tem vivo que aguenta
A morte é mais um caso, apenas um intento.
As ruas da cidade é esse tipo que frequenta
 
O conselho de milhares serve de alerta
Infortúnio coletivo é o que a voz projeta
Que nosso excluído a sombra o proteja
Pois lixo voltará, no prato ou na bandeja –
Não seja o que ele enseja
E veja no que o fim despeja.
Não seja o que ele enseja
E veja no que o fim despeja.
 
Relaxo todo o corpo, prossigo mó intrépido,
Não demora muito, quase piso num decrépito.
Aqui por essas bandas desgraça é em avalanche
Não dá nenhuma Chance, agiliza uma Revanche,
Sou macaco velho, tenho sempre meu ardil:
Longe mês de Abril, fugidio, nem me Viu!
 
No subúrbio tenha sempre o seu ardil
É a lei da selva bem no meio do Brasil
 
Se eu fosse engravatado, fodão do Ministério,
A vida desses manos não teria mais mistério.
Retirava da gaveta plano gasto, já bem velho:
Distribuía a Renda, acabava com a Tristeza,
Não haveria um moleque sem jantar e sobremesa.
Por enquanto ele chora: ou almoça ou reveza,
Ou almoça ou reveza.
 
Em assuntos tolos todo povo é bem sincero
O papo é furado; lá a tia, vem com lero.
Quem dera com o tráfico grau de sigilo zero
É pow, pá, pum! Não vai sobrar nenhum...
 
Barbárie e violência, tretas que não tolero.
Ciclos retomados e infantes sem futuro.
“Um peito com três Furos, assim é que eu Faturo”,
Diz o vagabundo, com fuzil, atrás do muro...
 
No subúrbio tenha sempre o seu ardil
É a lei da selva bem no meio do Brasil