19 de novembro de 2013

Percebes que passou?

Ela passou

Ela passou
e a meu ver
ali ficou.
Ela passou
e a seu ver
eu nem passei.

Ela ficou
e a meu ver
eu nem aqui estava.
Ela ficou
e a seu ver
eu também não estava.

Ela era real
e muitos viram
não era tipo normal.
Eu sou tão real
que ninguém me viu
coisa deveras normal.

Ela informa no olhar
nunca acelera seu passo
bem sabe o que merece descaso.
Eu deformo por tanto olhar
assevero, a ordem desfaço,
nível eterno: soldado raso.

Logo passou,
foi ela viver
simples, Bashô.
Logo ela esquecer
não pude, acabou
o sonho, sobreviver
fui só, e cá estou.

O Espuma

Incompatível
querer ser grande, mas ser pequeno;
um feito nada muito crível
é preterido ao adequado.

Ser corrigível
teimosia incomoda, covardia impressiona;
personalidade flexível
amolda-se a olhares alhures.

Sujeito versátil
pelo jeito muitos em seu funeral irão chorar
mediocridade retrátil:
o silêncio em míseros segundos.

Fora desse pátio!
a prodígios tudo, à disciplina nada,
foi discípulo volátil

se aniquilou ante à grandeza idílica.

P.S.: Estou contente com este blog, apesar de ninguém notar nem perguntar.

11 de novembro de 2013

Juventude ensinada a ser covarde


O iluminismo talvez tenha sido o primeiro grande movimento a defender a autonomia do sujeito pelo uso da Razão, a isso de chama Modernidade; ante a histórica opressão das instituições hegemônicas (Igreja, Estado e Senhores semideuses) cada indivíduo deveria tomar ciência de suas potencialidades e agir em prol de seus interesses, sempre os mediando com as demandas que o cercam (direitos aliados a deveres). Em resumo, o século XVIII lançou as bases teóricas, o século XIX ensaiou uma prática aliada a teorias mais modernas e o século XX enfim enraizou os princípios iluministas em todo Ocidente, é claro que com graus relativos à localidade e ao estágio civilizatório em questão. Portanto, nos países ocidentais foi imperativa a separação entre o poder republicano e o eclesiástico – é o processo de laicização ou secularização. É óbvio que no dia a dia ainda se notavam pequenos centros atrasados e os esparsos devotos a algum tipo de reverência aos coronéis ou sacerdotes da região, nada que políticos aplicados em instaurar o pleno Estado de Direito não pudessem evitar.
Contudo, o problema reside justamente neste ponto: quem foram os arretados, bravos e determinados que alteraram as leis, a fim de efetivar a autonomia de seu povo e conterrâneos? Interesses mais imediatistas e corporativistas não costumam falar mais alto quando o que está em jogo é uma disputa entre milhões de iguais, incorrendo inevitavelmente em perda de privilégios e da idolatria a meros ilusionistas? Somente líderes modestos e visionários defenderiam e se engajariam em prol dessa isonomia generalizada, gerando uma cultura de meritocracia e também de menores pretensões e presunções aos bem sucedidos. É mais fácil ser preguiçoso e deixar as coisas rolarem: que os acasos da vida cuidem da sorte, que o destino esteja nas mãos de algum deus ou santo e que o dedo indicador velozmente aponte a um culpado qualquer, tanto ao miserável bode expiatório quanto ao invisível dono do poder. Quem está psicologicamente preparado para ser o único responsável pelo próprio fracasso, bem como para dividir os louros da vitória com vários benfeitores? Questões existencialistas...
A sociedade já passou pelo processo de individualismo extremo, nunca antes visto na história do planeta, e agora tende a corrigir essa ingenuidade com a idéia de sustentabilidade, ao menos é o que vislumbro para este século. Processo bastante doloroso e cercado de teimosia, afinal o homem é um animal deveras vaidoso. Sendo assim, o ego deixaria de estar no centro das ações e das emoções, passando a se acomodar numa posição mais humilde. Os fragmentos não são vistos apenas num quadro cubista, mas pela janela do apartamento e dentro do próprio quarto. As antigas referências e solidez se diluem no atual mundo líquido, confundindo qualquer um que tente estruturar um sistema com motivos racionalmente justificáveis do porquê das coisas serem como são – é  a controversa pós-modernidade.
Nesse cenário, o medo se impõe como corriqueiro, as ameaças estão por toda parte e são incontroláveis, por mais que gastos com segurança tentem nos persuadir que a partir de então poderemos dormir em paz. Isso tanto é culpa de uma grandiosa cultura do medo que estimula os “cidadãos de bem” a se trancafiarem em casa quanto da razão cética que projeta cenários onde qualquer catástrofe pode acontecer, disparando casos de neurose, ansiedade e depressão. A intenção de libertar o homem se tornou uma faca de dois gumes: uns com liberdade em excesso e outros temendo a liberdade dos primeiros. A vigilância encontra-se disseminada, não só nessa parte física, mas também na parte imperceptível, isto é, nas entrelinhas dos discursos, conforme se nota com a volta do politicamente correto. Como há vários mecanismos e ferramentas tecnológicas que permitem a uma pessoa minimamente inteligente e esforçada conseguir (quase) tudo o que quiser – e tanto é assim que vemos hackers adolescentes tocarem o terror em governos inteiros, entre outros casos chocantes que intensificam o debate popular e midiático sobre a maioridade penal –, o meio mais eficiente que a sociedade encontrou para reprimir seus membros foi por meio das mensagens do poder que se mostram e se escondem diariamente, sendo mais acessadas por estudiosos e gente esperta, não pelo cidadão mediano. É incrível quão poucos são os que se reconhecem tapados e covardes, no entanto formam a maioria da população. E é incrível como exige-se coragem de todos, sob pena de ser taxado de arregão, franguinho ou fracote, mas se possível a galera sai de fininho quando a batata assa pra valer e a mão começa a queimar.
O ser humano historicamente teve se conviver em grupos reduzidos, onde era preciso agir in loco para poder interferir no meio. Havia normas tacitamente instauradas para estimular, repreender, recompensar e punir os membros. Com o advento da informática e com a explosão demográfica, portanto da comunicação global, instantânea e em massa, isso ficou muito difícil. Leis e mais leis fizeram-se necessárias. Ou então espionar tudo e todos, como se enxugasse gelo. Percebo nisso uma tendência ao retorno do senso de coletividade, pouparia custos, bem como um abandono da privacidade, agora um luxo, ou mera excentricidade.

O que isso tudo tem a ver com a covardia da juventude? É devido a esse panorama, mais outros pontos que deixo de fora, que a família se fechou cada vez mais para paparicar seus rebentos e formar mimados antiéticos. A única coisa sagrada passou a ser a própria vida e a do filho que recebe o “excelente código genético” de pais que precisam se achar importantes. Caso o mundo não reconhece o valor desse pai, ele fará com que seu micro clã seja espetacular. Tratar o filhote como reizinho eleva a autoestima tanto da cria quanto do genitor. Doravante, se alguma besteira fosse cometida pelo filhinho querido, ele se esconderia debaixo da saia da mãe, se um rolo qualquer acontecesse, correria para a aba do pai, se algum babaca o importunasse, chamaria o titio delegado para resolver a treta – exemplos de amparo familiar não faltam. Não creio que isso ocorra desde sempre, havia outras coisas sagradas. A mortalidade infantil era elevadíssima, nascer e morrer era mais banal que na atualidade.
A família protege em excesso a criança e, isoladamente, não a prepara para a vida política (cidadania). O Emílio de Rousseau deveria necessariamente ser criado em comunidade precisamente para evitar a proliferação de Narcisos. No lar, sem concorrência, o garoto acostuma-se a pedir, a fazer o que bem entende, a tirar proveito das situações, caso aja como um pimpolho, conforme a professora ensinou, e a se dar melhor ainda, caso aja como o amiguinho malandro se gabou. Para enfrentar o que pode dar errado, como um trapezista que dispensa a rede de segurança abaixo de si, quem está disposto? Alguns trocam os pés pelas mãos e se tornam tempestuosos, ignorando qualquer tipo de risco, vivendo intensa e brevemente, como um James Dean. A meu ver, estes se sentem enfastiados com a facilidade de tudo e resolvem brincar de roleta russa para haver um pouco de emoção. Por outro lado, quando aparece um aventureiro consciente e treinado pulando de precipícios, pegando ondas enormes e escalando montanhas gélidas, sempre vem um temeroso para taxá-lo de louco, problemático e suicida. Ora, o objetivo é viver ou simplesmente perdurar? Recuar diante do amor, hesitar aplicar toda a força que há dentro de si, ser prudente e espalhar as fichas para pelo menos ganhar um pouco aqui e ali, esquivar-se do sofrimento à frente (inevitável e balsâmico), são formar de viver pela metade, posteriormente será necessário se contentar também com meia felicidade. Mas isso existe? Se sim, vale a pena?
Há diferença entre covarde, corajoso e intemperante (um Aquiles touro-louco). O meio-termo é a coragem. Nela encontra-se o indivíduo equilibrado que sabe dos riscos que corre, e opta por atravessá-los, pois tem um objetivo maior, e se consegue superá-los sentir-se-á o máximo, talvez recebendo, de quebra, honrarias por seu feito. Porém, hoje em dia as coisas são executadas com um lastro de segurança. Logo que alguém vai comprar um veículo, uma casa ou uma jóia, o vendedor já oferece o seguro, como se apenas o pão-duro ou o desmiolado fosse recusá-lo. Aparentemente, há tanto a perder que é melhor subir degrau por degrau do que saltar por vários de uma só vez, porque haveria a possibilidade de quebrar a cara, literalmente, em caso de falhas. É tão difícil assim simplesmente se divertir e não se preocupar com bagatelas, preferindo aproveitar o momento de virilidade e de provisória insensatez? É sempre um dilema escolher entre gastar e poupar. Passamos por ele o tempo todo. O problema é que noto que a maioria prefere ou adiar seus sonhos ou não se responsabilizar pelos efeitos colaterais enquanto (acha) que realiza seus ideais.
Há um instinto de conservação predominando em praticamente todos os lugares. Voltamos a ser macaquinhos que aprontam na surdina, que dão um tapa e fogem logo, que fazem algazarra para distrair a vítima, que agem em bando para espalhar a responsabilidade por atos quase sempre inglórios. Quem sabe nunca tenhamos deixado de ser efetivamente o astuto homo sapiens, que sobreviveu graças à sua diferenciada flexibilidade e malícia. E fomos nos convencendo de que somos homo politicus, então no “deixa que eu deixo” ninguém se compromete, que a culpa recaia no destino ou em conspirações escusas. Ser corajoso é ser ético, é fazer aquilo que a maioria não ousa fazer, ou que pelo menos espera até a linha de frente garantir que não há problema em atravessar a ponte. Ser ético o tempo todo é ser herói, é ser modelo de ação para a maioria que se escora nos protegidos do líder, puxando o saco de ambos e se vangloriando por fazer parte de um time vencedor. Ser herói hoje em dia é ser anacrônico, ou ninguém dá bola ou é achincalhado prima facie, por propor loucuras e não ter amor à vida nem respeito à tradição. Parece-me que existem heróis, e aos montes, por aí, todavia passam despercebidos devido ao comportamento de manada que impera – são tantos os grupinhos especializados e padronizados vigorando em praça pública ou virtual. Vale mais ser mais um no bojo. Vale mais ter uma ninharia para chamar de sua.
O que expus retrata a decadência de valores viris e senhoris, o espírito guerreiro foi transferido para o esporte. A diferença é que na guerra é preciso criar as próprias normas e honrar os veteranos que superaram tanto a disciplina militar quanto as tentações do massacre e da humilhação aos derrotados. Já no esporte está tudo esquematizado, basta seguir o padrão tático, ter um pouco de talento e de raça que o atleta vencerá, sendo coroado e idolatrado por seus freqüentes títulos. Ai daquele que não praticar o fair play, terá que dar n explicações sobre sua falta de caráter. As câmeras logo o denunciariam. Não há muito espaço para improvisação e nem para dilemas éticos, como ocorre invariavelmente no campo de batalha.

A covardia é o medo consentido. E quem sente medo diariamente está com o caráter vil formado; diante de uma situação perigosa, o alarme soará, seu instinto de bicho assustado dará os comandos às pernas, ligeiro correrá até escapar da terrível ameaça ou até ele perder o fôlego, não sem antes procurar um abrigo qualquer com seu radar de homem das cavernas. Contudo, momentos de perigo, ou ao menos de dúvida sobre a melhor solução, se sucedem de hora em hora, não tem como fugir o tempo todo, a pessoa pode até tentar, mas toda renúncia sempre será um tipo de escolha. Ainda que os problemas sejam varridos para debaixo do tapete, amanhã ou depois esse manto será retirado e o entulho voltará com tudo para cobrar os juros do fujão. Há uma frase muito boa sobre tudo isso: “Os covardes morrem várias vezes antes de sua morte, mas o homem corajoso experimenta-a apenas uma vez” (W. Shakespeare).
Agora, focando no jovem, há um eterno retorno do conflito pais e filhos, leia-se uma geração a ser ultrapassada por outra. Na adolescência, digamos dos 11 aos 21 anos, os hormônios estão à flor da pele e a petulância é uma ordem interna da vontade de poder, por mais que não haja qualquer embasamento a esse sentimento de superioridade. Ali se fazem mais presentes que no adulto mais maduro e calejado: o espírito de rebanho, o temor da exclusão social, a submissão à voz do líder do grupinho almejado, a ânsia desmedida e infundada de ser aceito naquela panelinha sem graça e autoritária.
Esses nichos, essas gangues juvenis, essas tribos urbanas e infantis praticam o bullying como autodefesa e estratégia de sobrevivência, pois como não há raízes, o jeito é cortar indícios de raízes dos vizinhos. Esses nichos costumeiramente recebem qualquer novato e postulante à vaga de imbecil arrogante com desprezo e hostilidade, ato que sofrerá pequenas variações no futuro, quando for ele mesmo um membro cativo. O novato passará por provações, exigências, trotes, ritos e protocolos inoportunos. São exames que exigem menos coragem do que tenacidade, persistência e flexibilidade, ou seja, personalidade suprimida. O mais interessante é que após passar pelos testes o calouro jura que foi corajoso. Diante de uma falsa questão qualquer resposta servirá e ilusória será. Para fazer parte da patota vence-se pelo cansaço. O pior é que está cheio de trouxa para se submeter a isso com um largo sorriso no rosto, ansiando, babando, a fim de condescendentemente retribuir a seus tiranos. Para compensar essa inferioridade momentânea ele irá se rebelar contra pais, professores e demais educadores de fato, pois sabe que estes jamais revidarão suas agressões como deveriam. Numa atroz inversão, a culpa de suas humilhações não será dirigida aos que o tratam como criança, mas aos que o veem como potencial adulto responsável, pois ele mesmo ainda é mais um imaturo e marrento, ainda não está pronto para ser grande.
Não está pronto e dificilmente um dia estará. Geração Peter Pan: quer a leveza das brincadeiras e não quer o peso e a dureza da vida adulta circunspecta. Quer direitos e benesses até seus 30, 40 anos, quer ser herdeiro, playboy, madame, VIP. Quer ter status e causar inveja. Claro, sem heroísmo, apenas com a máscara da vitória, comprada, tecida ou bem maquiada. É uma viadagem sem fim. Posso estar sendo machista e conservador, mas os valores femininos parecem ter corrompido definitivamente os antigos valores viris e aristocratas. A sociedade pode ter se tornado melhor, mais tolerante e capaz de enfrentar novos desafios, assim como os neandertais deveres rudes e ríspidos sucumbiram e nós não, essa vida mais racional e cheia de picuinhas demandou novas posturas, azar dos que não se adaptarem, eles não terão sucesso.
Eu somente constato esse quadro. Talvez a coragem seja um valor dispensável ao século XXI, para tristeza dos saudosistas de bestas-feras valentes e destemidas vestindo toscas armaduras e impunhando punhais por eles mesmos forjados. Não haverá outro William Wallace nem outro Lampião, viraram lenda, que os filminhos de Hollywood, as séries da HBO e os livros de história nos dêem um mísero apanhado do que foram esses guerreiros. Para o bem e para o mal, não se repetirão. Para o bem ou para o mal, não seremos corajosos.


P.S.: Dessa vez eu não quis dividir o texto, provavelmente só quem estiver realmente interessado irá lê-lo na íntegra, pois sei que ficou longo/prolixo.

5 de novembro de 2013

Sem música e poesia todo domingo é de tempo fechado

Um bom domingo

Cadeira de sol na calçada
Cuia à direita, à esquerda a cadela
O teor: releituras ao relento
E na rua alvoroços da moçada

O fim de uma mosca

Quero me perder entre seus cachos
Quero arrancar-me um pedaço
Quero ser inflamado por um facho
Abandone os meus restos, que eu refaço.

Por favor, retire essas lentes
Escuras, represam além dos raios
As faíscas e o calor desses dois olhos
Que fulminam minha fátua mente
De idéias e anseios de lacaio.

Ignore minhas asserções
E ignore outros devaneios
Deste que não será seu protetor,
É mosca em loops sem projeções
Como quem promete não ignorar
Aquela que seria o grande amor.

Jamais sorria para mim,
Poupe sua simpatia
Poupe o mísero luto meu,
Sua alegria em minha direção
Duraria pouco, assim como a razão
De ser, após seus lábios em carmim
Anunciarem do nefando o fim.

3 de novembro de 2013

O progresso poético é ético?

Rufião

Atravanca a boa andança
As vis ilações
provenientes da bocarra
do rufião das Astúrias.

O dito cujo vê galhardia
em seus imbróglios por Clarissa,
Meretrícula cocota,
nesses torrões austrais.

Furtivamente repta
Outros pernósticos
e enuncia loas nesse ínterim
monossilabamente –
Éctases do hirto.

Incide seu esporão
   em casulos inertes
      com desdém, empáfia
         tão peculiar a ignóbeis.

Junge, em decorrência
dessa fidalguia fajuta,
todos os pelintras.

É uma reles fístula,
     cujo atavismo remete
aos lendários salomônicos.


O Novo Subversivo

Repete a novela o ubíquo tema:
“ache o amor, resolva seus problemas”
A partir de então irá tudo brilhar,
pois tudo é tão lindo beijando seu par.

Declarações de amor efusivas
de um galanteador à moda antiga,
Nada mais patético, ela revida,
com pedidos de ânimo, dá em briga.

Um desempenho fantástico
Ser melhor do que os outros
Exibir sorrisos quadrados –
curtidas em peso é a prova  

Tácita hipocrisia social
Época porca e paradoxal:
Se pede só o de sempre,
embora em roupagens radicais;
Ganham só os mais mais,
ditos fodões subversivos,
deveras ajeitados ao sistema.

Fajuta e moderna transgressão:
Chocar o público em atos extremos.
Balela, haverá de chegar este dia:
“Foi internado, falou com o coração”.


24 de outubro de 2013

A Parcialidade (natural) da Mídia

A mídia – ou os media, como você prefirir denominá-la – não tem como ser imparcial. Ela sempre carregará um cunho político quando desejar atrair atenção para si e arrecadar grana a partir dessa popularidade. E quando não é essa a intenção dos investidores e jornalistas? Ela é uma panfletagem disfarçada. Sua ideologia se oculta em conteúdos a princípio avessos a questões políticas, como é o caso de esportes e classificados. Porém seu ideário está lá, mesmo que escondido embaixo de travesseiros revolucionários ou conservadores. Muitas vezes o posicionamento é escancarado, como são a Veja (direitista) e a Carta Capital (esquerdista), nesse caso o leitor sabe de antemão o que esperar ver na revista. Mas na maioria dos casos é preciso um contato mais prolongado com o impresso ou então dicas de um conhecido sobre a publicação.
Editores jamais permitirão certos dizeres, os contrários às diretrizes e políticas da empresa, nem ofensas dirigidas a ela mesma, senão perderia sua credibilidade. No máximo, permitem-se zombarias, ou um auto-escárnio, algo que seja claro e rapidamente identificado como piada, que reluza a ironia para que nenhum desavisado, à exceção dos idiotas e dos autistas, não perceba que a falha foi intencional, para entreter um pouco a platéia, ou seja, os consumidores. Nada mais em voga do que fazer o público rir e sentir-se bem, tanto com a graça quanto com o engano de ser mais esperto que os detentores dos meios de comunicação. Também são permitidas opiniões avulsas, de colunistas e cronistas quase sempre polêmicos, seguidas do enunciado “este jornal não se responsabiliza (ou coaduna) com as opiniões aqui emitidas”, ou alguma frase semelhante a essa. É uma forma de se precaver contra futuros processos arrastados, bem como ataques furiosos do público cativo que deseja jogar tomate em quem escreveu/falou tamanha baboseira. Ora, da intolerância nascem intolerantes.
Vejam, se foi aberto um espaço entre os poucos que restam naquela mídia é porque alguém do meio ou gostou ou é parceiro de quem expôs tais informações. A conivência é óbvia, tanto é que ambos são processados (o autor e o jornal/mídia). Depois vem a mea culpa, mas até explicar que focinho de porco não é tomada rende uma odisséia – doses amargas de venenos despejados de todos os lados, bem como escoriações de tantas pedras atiradas por quem não tem cabeça aberta nem é paciente para tentar entender o que está acontecendo, a fim de tentar um debate mais civilizado, ainda que acalorado. Escolhas são feitas todo momento, um jornal não é uma feira livre ou uma praça pública, onde qualquer um pode subir num púlpito e berrar suas frustrações, suas ameaças ou seus produtos. Em toda propriedade privada há censura. Há gargalos, mais ou menos frouxos, automáticos ou arbitráveis, porque sem eles seria um deus dará. Nenhum bacana pode chegar chutando a porta e falar ao editor “publique isto aqui porque eu sou demais”. Há fiscais e redatores selecionando o que vale a pena mostrar, o que é descartável e o que é abominável.
Por que o menino inocente que ficou paralítico após um bebaço atropelá-lo em plena calçada rende mais manchetes que uma senhora de meia-idade que conseguiu um transplante de rim após anos de espera na fila de doação de órgãos? Há pesquisas de mercado a fim de reconhecer a priori o que será mais comovente e bombástico, logo rentável. Só iludidos e incautos ainda acreditam em telejornais que apenas noticiam: os fatos como são; a realidade nua e crua; o mundo tal como aconteceu. É impossível contar todas as histórias do planeta, muito menos com detalhes e contextos subjacentes, que escapam à primeira vista. Os profissionais sabem como as coisas mais ou menos funcionam, e as seguem, costumeiramente em prol da boa repercussão pelo público – o leigo e avoado mais o atento e fiel. Tanto é assim que os jornais quase sempre repassam as mesmas notícias. Porra, há tanta coisa acontecendo por aí e somente aquela meia dúzia de fatos foi escolhida, tem coisa errada aí! Pois é justamente a linha editorial e a práxis jornalista, ambas padronizadas, que entram em cena e geram essa indústria de notícias. Celeridade está continuamente na pauta do dia.
Veículos especializados são mais interessantes, mas esses têm o objeto definido de cara, seu público-alvo está em busca de detalhes, de aprofundamento no tema, por isso ali todos são menos hipócritas, não escondendo suas intenções e causas, ainda que esses meios nada tenham a ver com política, como revistas sobre bicicletas, maquiagem ou dietas. Porém, ao traçar como norte tal objeto, este passa a ser valorizado, como algo que uma boa parcela da sociedade deveria também levar a sério; portanto a ética é explícita, ficando a política nos meandros das escolhas conscientes. Na hora em que o governo estimular ou desestimular a atividade/comércio de seu objeto de pesquisa as intenções dos donos das revistas ficarão claras: alegria quando do estímulo, pois trará maior venda ao produto/serviço; reclamação quando do desestímulo, leia-se, prejuízo. A ideologia comunista é maluca, afinal, ignora o peso que a busca pelo lucro tem para o ser humano; o capitalismo é mais realista.
Não há motivo para assombro, você tem certeza que algum dia decidiu sobre algo com total imparcialidade? Por que esperar tal juízo divino e perfeito de alguém que busca dinheiro, poder e influência? Você, no lugar deles, faria diferente? Se você for um idealista (radical e ingênuo) jurará que sim, na posse de saberes e grana, prestando grandes favores ao país a seu querido povo. Mas eu duvido muito. Você é mais um homem, sempre com algum grau de vaidade e de orgulho, quase sempre em níveis elevados quando a terra é ampla e seus direitos, quase ilimitados. Tolos são os que acreditam em santos. Precavidos são os que desconfiam dos ardis dos homens. Os espertos vivem, já os trouxas simplesmente sobrevivem. A natureza ainda é preponderante em nós, após mais alguns séculos de civilização talvez o cenário se transforme, enfim radicalmente. Até lá, toleremos nossa parcialidade e nossas pretensões.


P.S.: Texto escrito sob encomenda, mas sem taxas nem restrições, tanto é que publico aqui, por isso sou o único responsável pelo modesto conteúdo.

20 de outubro de 2013

No Love Lost

amores de juvenil

sou telecinético
o que quero consigo
na hora, por meia-hora
foi-se embora o meu sonho,
deságuo-o pela urina.

minha musa me assassina
com ela nada que quero consigo
não chora, me parte e nem cora,
se ouve as sentenças oníricas
logo joga um balde d’água fria.

minha mãe nunca me dizia
“procure alguém como eu”.
edipianamente perdido,
sob referências faltantes,
exerci um galanteio ateu.

até pelo breu a pé passeei
é que os perrengues evitei.
Sem ter em quem tocar,
platonicamente perdido,
alguém por aí diz que amei.

aprendi as fêmeas a admirar
eu? eu não as tinha.
ego ainda incompleto
faz jus a se contorcer
‘té que se exulta ou definha.


Ela e você, nada a ver

 “É ela, é tempo, é meu momento”
Não, é sempre dela o tempo,
que para se lhe repara
E passa bem lentamente
se passa a linda seriamente.

Você quer flores mandar
Quer por rosas vermelhas
fincar-lhe marcas vermelhas, ou róseas
Mas prossegue alva, impassível,
dela os alvos dispensam floreios.

“Palpita em meu úmido peito
o que denomino coração passento”
Não recebe um alento qualquer
e pensa ter lido em olhos ocultos
a retardatária atenção.
Seu retardado, isso é tão... engraçado?

Como casal sorridente e sólido
Sonhara por noites a fio
entre os pilares do vazio
Desabe esse palco insólito!
Ela e você não têm nada a ver.

  

16 de outubro de 2013

Em Defesa da Arte Ilusória e Simbólica

O artista, com sua moral mais frouxa que a do cientista, gosta de inventar sentidos para o que sente, ansiando por mais que o óbvio e o ordinário. Após tomar consciência disso, doravante ele continuará a acreditar em condições fantasiosas, ilusórias e agradáveis. Como uma criança, mantém a imaginação fértil e vê graça em situações banais para um adulto esclarecido. A empiria do mundo é necessária, mas está longe de ser suficiente. Na verdade, ele precisa renunciar à frieza da explicação racional ou da argumentação lógica e conclusiva. Ele até aceita essas verdades objetivas e genéricas, porém se resumir a elas seria reduzir seu ser a condições claustrofóbicas, dentro de um mundo material e desprovido de simbologias abstrusas. Ou seja, ele vai além do que a ciência informar, numa tentativa de não alienação, bem como para não se achar mais uma peça instrumental para o objetivo de outros, objetivos esses raramente nobres ou motivadores.
O mundo é visto, portanto, como uma exposição gigantesca, ora ao ar livre (as melhores) e ora em salas quadradas (as rentáveis). Cada elemento da realidade pode ser combinado aleatoriamente com outro, ao bel prazer do espírito sequioso por enlevar esse indivíduo inspirado e inspirador – ao menos a quem aceita essa metafísica repleta de interpretações, ora herméticas, ora psicodélicas. O que de fato importa é tornar a própria vida mais leve e fornecer meios para fazer com que mais pessoas também relaxem, contemplem e participem desta exclusiva visão de mundo, ora insinuando, ora chacoalhando a sociedade. Isso tudo pode ser papo de doido, mas cada um é capaz de ver essas cores, essa aquarela informacional que a inércia da rotina nos condiciona a não enxergar; dá para vê-las mesmo num ambiente acizentado e sem fazer uso de psicotrópicos, basta para tanto aceitar esses paliativos estéticos que incitam as paixões adormecidas após anos de repetição (trabalho, deveres, afazeres domésticos e praxes das relações sociais).
O sentimento mítico permanece no homem e, após a morte de Deus, o misticismo se sentiu órfão e foi se abrigar em religiões pouco fundamentadas, mas também entre os artistas insatisfeitos com dogmatismos, o que gerou vanguardas modernistas e os movimentos hippie e beat, por exemplo. O uso mínimo do intelecto (bom senso) é o suficiente para reconhecer a falsidade de todas as religiões tradicionais; assim sendo, restou aos artistas contemporâneos expressarem sua inquietude ateísta e instintiva de forma alternativa e em conjunto com os gatos pingados desprovidos do manto divino. O início do século XX foi pródigo nisso.
Que o século XXI não se resuma a cumprir os desígnios da máquina, que as pessoas se esforcem em criar algo propositivo e além da rigidez (talvez perfeição) dos computadores, essas calculadoras ambulantes incapazes de brincar freneticamente, pelo simples fato de que isso dá prazer e uma ilusória sensação de poder. Abordagens unívocas e consenso geral (unanimidade) enfastiam e não seduzem, apesar de muitos se irritarem com opiniões e manifestações contrárias à sua, mas isso é só o ego resistindo às possíveis ameaças. Enquanto o ser humano estiver aquém da eficiência das máquinas, haverá primazia das emoções sobre esquematismos caretas.
Que a obsessão e a neurose características de sujeitos deveras racionais – condição típica da nossa época transbordante de informações e conteúdos utilitários – sejam destinadas a obras confusas e vislumbradas pelo público, ainda que restritas aos persistentes apreciadores de arte alheia à indústria cultural. Essa tendência à especialização é mais um efeito angustiante da sociedade pós-moderna, e ainda não se assentou; as pessoas não sabem direito o que fazer com tantas expressões que sequer chegam a fundar escolas e já se tornam ultrapassadas. Há muita coisa interessante por aí, porém a ausência de interesse dos investidores por algo sem apelo comercial impede maior aprofundamento do tema/técnica/estilo. O artista cria de acordo com o ritmo e ciclo de suas inspirações ou vivências. Sem retorno, produz ou porque acredita em sua obra ou porque não consegue não se expressar, é maior que sua pessoa. É possível que após um tempo, quem sabe algumas décadas, esse artista encontre quem desfrute da sua vaidade e do seu discurso até então incompreensível ou inapreciável. A genialidade leva sempre um tempo maior para ser digerida pelos medíocres. Para Van Gogh, de que adiantou ter vendido somente um quadro em vida? Ele precisava criar, e criou, regozijando-se, sem dúvida, com cada girassol pincelado.
 Se o artista experimenta seu monstrinho e este não o mata, sabe que o conjunto desses esboços subjetivos terá seu valor reconhecido um dia, mesmo que por mais uns poucos e esparsos malucos como ele. Esse é o sacrifício que a arte autêntica exige. Viver julgando-se incrível, morrer julgado como miserável extravagante. Quem está vazio não pode preencher ninguém, e a maioria das pessoas encontra-se nesse estado, afinal o Ocidente é altamente niilista, por mais que não admita. Sendo assim, a falta de feedback pode ser recebida com algum consolo, pois certos mimos só fazem emergir a vanglória. Enfim, a ficção faz parte da natureza humana, somente quando se tornar outra espécie que o homem parará de sonhar. A arte é quem melhor cumpre esse papel de fábrica de sonhos, mais que qualquer bugiganga nipônica ou yankee. Sem ela, viver seria dispensável.


e³3&E
P.S.: Esse texto foi escrito há algum tempo, eu prometi a mim mesmo trabalhá-lo melhor, até mesmo como projeto de monografia, mas estou sem tempo e foco, fiz pequenos ajustes e publico-o assim mesmo. Às vezes eu preciso de certos empurrões, como eles não chegam, fico com minhas humildes produções independentes e centralizadas. Reconheço o valor da ajuda externa, mas com o passar do tempo estou ficando mais e mais rabugento e cheio de manias, talvez a situação seja irreversível, esse é um dos contratempos da solidão, apesar dela ter para mim vários pontos positivos. Enfim, é uma vida de artista quase eremita. Se eu passasse por mais perrengues é provável que eu produzisse mais e melhor...

10 de outubro de 2013

Quem um dia esperou de mim poesia?

Poemas sem títulos

I
Aquarela de um poeta:
por versos vis escreveu sua história,
mesmo querendo escrever coisas belas.

II
Quem é severamente ferrado
Não gosta, dissimula, disfarça
Atraindo para si holofotes:
Rei se estima em amplo descampado

III
tu recebes vários aplausos
e te vanglorias por nada.
então vês como é falso teu povo
pra não mais cair em ciladas.

IV
Dizem que ele entende de solidão,
qual nada, só aporrinha
Sempre volta da feira com uma dúzia de limões,
beberica seu santo a caipirinha

V
Império do efêmero e das aparências
Civilização voltou ao primitivo
O não-verbal valendo mais que palavras
Imediatismos despertam paixões,
Agora sem freios. Hedonicamente
Recusamos o rótulo decadentes

VI
Dialética prolixa
Miríade de mixórdias
Nuanças a se perscrutar
a ignomínia do apedeuta.

Desfalece a persona
e doravante abrolham
Rebentos da marafona,
Inda que a concatenar
o incremento de fidalgos.



P.S.: Mesmo sendo poesias com pouco amor, quem esperava de mim de poesias autor? Ser alternativo é ser surpreendente, não faço parte de grupo algum, isso sim é ser independente. O resto é autoafirmação, há pouco feedback na solidão. Sou um Zé Ninguém, portanto não posso dizer amém.