22 de setembro de 2010

Envelhecimento, Vaidade e Finitude

Envelhecemos, seja na dimensão biológica ou na psicológica, após da maturação sexual, da idade reprodutiva, porém a sociedade não é tão implacável quanto a selva, os mais velhos permanecem. Benesses da civilização. Mas como tudo tem dois lados, o papel do idoso, principalmente no ocidente, é estigmatizado, pelo menor desempenho e maior dependência, e vinculamos as rugas, calvície e cabelos grisalhos a essa negatividade.

Apesar das perdas, onde ficam a sabedoria adquirida, as experiência vividas, os ensinamentos compartilhados, cadê seu valor? Inevitável sentimento de fracasso para quem sempre se preocupou apenas com a própria vaidade.

Ora, é tão bom aproveitar as regalias da terceira idade, de rir da pressa juvenil, de gastar a poupança acumulada e fazer o que quiser com o grande tempo livre. E, claro, brincar com a morte. Mas a imagem do asilo e de cadeiras de roda e muletas apavora alguns.

Na mulher o ressecamento e as rugas têm um peso mais forte, pois seu papel que é valorizado no ocidente, de provedora, fértil e atraente, torna-se nulo, logo ela também se anula. Adiante vai procurar distrações simples, contato social e atividade intelectual, ou recusar as paredes que a comprimem e agir como adolescente tardia. Sem devaneios e exageros pode-se mandar o sistema e supostos padrões opressores à merda e aproveitar a vida.

O segredo é a mente, o corpo é apenas seu instrumento. Aprender a viver é também aprender a morrer.

O tempo, em si, não produz efeitos biológicos, são os organismos que reagem à sua maneira e que envelhecem a seu ritmo. Cada órgão tem seu relógio próprio, logo não só cada pessoa pode parecer mais velha que outra da mesma idade, a mesma pessoa tem partes do corpo mais velhas que outras. É o excesso de variabilidade individual. Algumas variáveis facilitam a análise de riscos de morte, mas não influem no envelhecimento. Fumantes, por exemplo, não ficam velhos antes, simplesmente morrem mais cedo. Como renovamos nossas células constantemente, com exceção das nervosas, cardíacas e esqueléticas, cada cópia tende a não ser fiel a outra, então aumentam os riscos de falhas, logo de morte. É apenas questão estatística, uma negligência da seleção natural.

Após tantas conquistas do homem nos últimos dois séculos, parece que houve uma arrogância sem limites, tudo é possível, basta querer e investir. Mas não é bem assim. A natureza é implacável, e já começa a cobrar o preço das práticas insustentáveis de exploradores devassos. A fórmula da juventude é mais uma dessas megalomanias; narcisismo material, porém o que é corpóreo perece.

Parece-me que os jovens sofrem cada vez mais pressão social, em face do modelo de sociedade do espetáculo e por haver aglomerações, assim um indivíduo pensa que só terá expressividade em grupos. Ao mesmo tempo deve-se enquadrar em padrões de aceitação e ter um mínimo de diferença para ser visto como alguém especial, e não como um idiotizado wannabe. Além disso, no mundo tecnológico juventude é tudo, a velocidade e a pressa, ubíquas, oprimem, aparentar-se velho ou ultrapassado é falência do status. Todavia, isso está partindo de fora, ninguém pára para refletir.

Alguns pensam que só podem ser felizes com vaidade, como se fossem sinônimos e uma questão quantitativa, querem ser mais alegres e para isso tornam-se mais vaidosos, resultando em psicopatologias. Isso é fábula, a bela princesa é a bondade e a bruxa idosa é a maldade. Nega-se o envelhecimento, e com ele a morte, esse insuportável fantasma que os contemporâneos projetam apenas nos fracassados.

Qual seria o cenário mais correto: a paranóia pela beleza gera insegurança ou a insegurança pessoal leva a uma paranóia pela beleza, devido às exigências sociais? São tantos mimos aos jovens que largar a vida pela estética por uma vida dura e cheia de responsabilidades é difícil para muitos. Portanto, os diferentes caminhos do amadurecimento levam a diferentes focos, nesse caso.

Pessoas bonitas ganham melhores salários, dizem as pesquisas: causa e efeito enganoso.

Há expansão acelerada de cirurgias com fins estritamente estéticos: pode até haver aconselhamento médico, mas poucos vão se recusar a ganhar dinheiro, que fala mais alto que a ética. Riscos são sobrepujados por obsessões e recordes. É nisso que acaba se resumindo, porque falar em perfeição é só discurso, cada um vê o que a mente neurótica manda ver. Imagem é tudo para alguns, assim como ser modelo. Estilo caro e, infelizmente, causador de inveja a juvenis.

Para as mulheres, especialmente as brasileiras, cosméticos e demais cuidados com o corpo e a imagem não são artigos de luxo, mas necessidades básicas (impostas por quem?!), é sobrevivência, como beber e comer. Ter e manter seu poder de sedução é indispensável às fêmeas, seja com alto ou com baixo poder aquisitivo, claro que algumas exageram, mas é unânime a vontade de se cuidar e ser atraente, nem sempre usando a lógica nem sendo eficientes. O uso de cremes anti-envelhecimento começa cedo, se antes era aos 30 anos, agora é aos 20 ou até mesmo na adolescência. Inclusive no uso do polêmico botox! Hedonismos...

Culpa também da expectativa de vida. Assusta imaginar-se com 70, 80 anos parecendo o senador Palpatine. Nem mesmo esperam chegar à meia-idade para ter crises ansiosas, estresse e depressão. Tolices, pois são exterioridades, maquiagem para quem só julga aparência – pretensa felicidade.

Hormônios, como o GH – que produzimos naturalmente, por meio do sono –, prometem retardar, ou ao menos disfarçar externamente, o passar dos anos. Até há efeito anabólico, mas pára por aí. Enquanto isso, surgem pesquisas relacionando-os a câncer, diabetes e aumento de colesterol. Quem os defende jura que esse será o futuro, a fronteira da medicina, o elixir tão almejado. Mas há grana e compulsões em jogo, então ações desse tipo soam como picaretagem – perigos à vista.

Muitos sabem que os radicais livres (nossa ferrugem) são os maiores vilões de nossa reposição celular incorreta, além da predisposição genética. Nesse âmbito sim podem surgir “curas”, como a nanotech – deixo isso aos escritores de ficção científica. Ademais, é questão de estilo de vida.

A natureza é sábia, não há shakes ou poções mágicas. Talvez engenharia genética tenha êxito, mas ela é tão complexa que vai demorar muito ainda para se firmar. Milagres de pessoas sem qualquer formação científica sempre foi eficiente para desesperados e ignorantes, o efeito placebo permitiu que esses curandeiros conseguissem alguma credibilidade. Muitos precisam apenas de atenção, suas mentes são frágeis, logo qualquer pretensa cura comove.

O segredo sempre esteve à disposição: evitar excessos, alimentar-se corretamente, exercitar corpo e mente rotineiramente, ser bem-humorado e equilibrar o estresse. Só que grandes períodos de indisciplina cobram seu preço, todavia, num estalo a pessoa quer reverter instantaneamente seus erros, é petulância. A chave é a constância e a tranqüilidade atenta.

O ideal cristão de espírito puro e elevado foi substituído no mundo laico e materialista pelo do corpo perfeito e poderoso. Pode-se julgar como uma perda do romantismo, como futilidade, porém é mais realista. Como deus morreu e tudo é permitido, cada indivíduo é tentado a se achar o próprio deus, forjar imagens de grandiosidade e emergir bizarrices. Mesmo aos pragmáticos o ideal não os abandona, assim como a moral é vinculada a cada ser racional que se relaciona.

Uma forma de ver beleza e transcendência em nossa efêmera existência é que os átomos dos quais somos formados são os mesmos desde a inflação cósmica, então, de alguma forma somos eternos, existíamos antes de nascer e permaneceremos após o falecimento. Assim como não passamos de rearranjos genéticos, o DNA foi herdado e será herdado (em caso de sucesso reprodutivo), então, apesar de sermos uma combinação única, nossa materialidade não é única. Não somos exclusivos como supõe nosso egoísmo absurdo. É a nossa reencarnação sem misticismo, afinal, somos insumo de vermes, é a crueza da reciclagem natural.

+_)(*&¨%$#@! WOW

17 de setembro de 2010

Peleja, Bazófia e Pedantismo (?)

Prélios

I

Túrbido pelo convício e descoco, edaz
Díscolo rebolca ao toutiço lasso a vira;
Perlustrará o Orco da Dite pingue roaz.
Galardão ao rábido e estrênuo, então refocila.

Robora, ao supitar no estelífero luco
Urbífrago e palreiro galeato hirsuto.
Dos baixéis aleia às veigas o furibundo;
Nímia caligem, mas conculca o sitibundo.

Sem pejo esposteja encastoas, aleivoso!
As venustas êmulas soltam cuquiada;
O atalaia e o assecla lobrigam, buliçosos,
Mas antoja o entono do ignavo a cachinada.

O iníquo brandíloquo azoina toda a chusma,
Enfuna acérrimo e insonte a prisca ultriz bruna,
Assoberba inexorável, poltrão minaz.
Opróbrio e labéu que afeleiam o bestunto,
Do então sólito laudo, opima, almo e jucundo!

Sua alfanje o infando aflige no morrião
Do imberbe somenos, que vem a restrugir
De rastos nesse alqueive lhe afuma o bulcão
À voragem, não há mais vascas a lhe aluir...

As áscuas coruscam no tergo do giboso;
Como incude, a truz no estulto o faz rechinar,
Crebro o escarmento trescala e faz estilar;
Hiante, nuta no conspecto paludoso.

Ele acaudilha a arcana insídia, o volantim
E encasa seu gládio. A cúspide jaspeada
É lestamente, por seu provecto, amolgada
No pando mento do fedífrago chatim.


II

Procela dimana entre falésias fragosas;
Clade e alvedrio de linfas, como que ignívomas
Açodam a vasa dúctil, empeço omnígeno.

A facúndia do fâmulo, no imo, compunge;
Blandícias que podem increpar os incautos.

Gáudio do garfo, vergôntea de um preclaro áugure;
É prosápia aos íncolas de sólios e de aras
E não de zagais em desdouros, mas fastígio,
Pois açula encômios no adito vasto, o nado
Do ubérrimo Stix que acoroçoa as Piérides
Pulquérrimas, comborças de nênias canoras.

Desdita do crestador protervo, que arrosta
O alcácer com estrepes túmidos e ingentes;
Os solertíssimos êmulos nos merlões
Rebuçam um amplexo, invitos, todavia,
E medram seus semotos amentos – virentes.

O creste dealba o zerbo de cróceo horrente,
Abroquelado pospõe, mesmo cruentado
Petrecha-se de ginete, ou frisão, esfaimado

Ele moteja com arengas, pois empece
Mas não é balhesto nem mendaz, amanha o corro.
E as Parcas vulpinas azorragam-no, mesto,
Não mais puníceo obumbra, devido a seu morbo?

14 de agosto de 2010

Poema a um clássico da literatura

Aparição na Inquisição

Queimando ad majorem gloriam Dei!
Venerando o profeta salvador
Ou acatando o poderoso inquisidor
Punido como o bandido pior: Avisei!

O papa, o padrasto; paternalismo, papai!
Desgraçado, não antes do tempo, sai!
Teus Discursos destroem nossa obra,
Melhorada a partir da tua, que hoje é sobra.

Fome, tirania e depravação
É para fugir à desgraça, senão
Corruptos tornar-se-ão divinos
Alegoria mordaz em Sevilha
Sacrifícios realizados a pino
Árduos devotos fervilham

Podem ser felizes eles, tão rebeldes?
Falou o espírito da destruição
Tentando trair-te, tamanha tentação
Das profundezas, o profundo Elder

Pelo pão um dócil rebanho é formado
Liberdade escamoteada por charadas
Obediência e ignorância são moldadas
Famintos desconhecem o pecado

Você delegou poder à massa e sumiu
Desesperada, ela clama por migalhas
Ciência não alimenta, opta-se por fuzil
Crê-se naquilo que o cardeal farfalha

À distância seres enganados veneram
Formam filas e então se aglomeram
Necessidade universal de inclinação
Morte, bazófia e estupidez pela oração

Pela vulgar cobiça romana
Se corrompe, mente e idiotiza
A dádiva de outra vida ojeriza
Pois o homem é vil, só reclama

Criaturas inquietas e infelizes
Não eram os preferidos matizes
Da obra-prima de seu pintor
A elas restou a fala e a dor
Sísifo sabe o que é inútil labor

Morrem os deuses, ídolos nascem
O domador pacifica as mentes
Mister a todos uma vida coerente
Mistério resolvido, se não falhassem

Sedutora moralidade pessoal
É dolorosa sua angústia, o que é o mal?
Sagrada imagem-guia é contestada
Reino dos céus reduzido ao nada

Eis as três forças que subjugam:
Mistério, autoridade e milagre.
Os poderosos o homem alugam
Seguem os sacramentos do padre

Cães de caça de apurado faro
Césares vêem na humanidade
Uns vermes com instinto gregário
Satisfeitos na tranquilidade

Leguelhés que rastejam por comida
Perante a autoridade preferida
Não contrariam mais a submissão,
Aos humildes há eterna salvação
E aos rebeldes há infinda danação

10 de agosto de 2010

Leiloei, lê-lo-ei

Sem criatividade, mas pelo menos volto a poetar:

Surtindo Sujeitos

Surge o súcubo supremo, não sugere
À surdina suas surras dá, e submete
Sutilmente suspende, é o que se sucede

O surdo se suicida, ele não mais suporta
Suga um suco sulfúrico, de supetão
Dos sulcos o suscetível suor sufoca
Eis as superstições de um suntuoso sultão

Um suserano superior supre sujeitos
Surpreendidos foram na suruba os suspeitos
Não foram suficientes os seus suplícios
Nem os sustenidos sussurros e suspiros
É subterfúgio do suplantado suíço

Sumido susto sumário e não superável
Ao sul de onde a surucucu subordina
Suprassumo da sutura não sustentável
Surte a supremacia da sujeira suína


*<"°
Um aforismo perdido:
Quando há tolerância morre o amor.
Amar resulta em completude, busca-se a perfeição, uma sublimação.
A tolerância é impotência pela convivência. O que é isso senão política? Um jogo em que cada um quer vencer.
Casar é viver pelo hábito, sela-se o destino da mediocridade, fatalismo da potência irrealizada.

=>
E uma simples frase:
O sábio gosta de sentir, saber é consequência de quão elevados, corretos, autênticos ou complexos foram seus sentimentos.

:;.,'
P.S.: Posso dizer que estou aprendendo com a vida, a prática, as pessoas, as teorias, os erros e os póstumos. Só não sei se me torno apenas enciclopedista, alguém hábil em intertextualizar ou escrever, ou ainda sábio, a filosofar. É lado racional que às vezes prevalece, mas ainda sou humano e rebelde...

25 de julho de 2010

Crise de Identidade Masculina pt. III

Completando:

III
Quase todas as sociedades realizaram divisões por gênero, inclusive na linguagem. A entidade masculina engloba a feminina, sendo dito Homem a tudo o que for humano. Se antes o espaço público era do homem – e daí sua invisibilidade aquém de investigação científica – e o privado era da mulher, hoje tudo se misturou. É óbvio que elas tiveram que se adaptar às novas situações, também é inevitável uma reinvenção por parte deles, para provarem que continuam homens, apesar das delicadezas do mundo urbano e supercivilizado. Por outro lado, em várias culturas primitivas a agressividade é intolerável, principalmente entre os membros do grupo.
Além do gênero, outros marcadores sociais são: raça, idade e classe. Com a mudança de algum desses, novos valores e diferentes atitudes precisam emergir, porém muita gente não se compromete e não consegue fazer as transições, ficando presa ao passado, seja o machão, o idiota ou o Peter Pan. O refinamento de gosto é visto como frescura aos pobres, já a rudeza é vista como primitividade pelos ricos. Assim como o negro e a mulata, ícones da hipersexualidade que podem também representar a falta de racionalismo. Bem como a loura e alta é o modelo de beleza e de conteúdo vazio. Nessas perspectivas cada um tentará defender sua posição, julgando-se superior.
Envelhecer é doloroso, é a perda da virilidade tão cara. É preciso filosofia para saber morrer. Quem refletiu e viveu bem consegue realizar todas as travessias que nos levam à inescapável morte. Isso falta a todos, num ambiente de velocidade e de ânsia por retardar o próprio processo, infelicidades acontecem. Enquanto não se descobrir a fórmula da juventude, saber envelhecer continuará a ser um aprendizado muito caro e raro.
.
Na passagem para o século XX surgiram iniciativas do Estado para preparar o homem do futuro, submetendo os machões e vilões a privações, como a lei seca, a proibição dos duelos e da prostituição, fazendo-se presentes as religiões. Por isso, crimes de honra imunes à lei são impensáveis atualmente no ocidente, todavia, no oriente e nos mundos árabes e islâmicos são aceitos. Por outro lado, contracorrentes visaram manter o lado selvagem do homem, como o escotismo e os museus, permitindo o contato com a fauna e a flora e ensinando como era e como, ao menos em parte, deve continuar sendo o homem.
Na rotina burocrática é comum se sentir vivendo uma vida que não está à altura de seu potencial, enquanto que as mulheres se acostumam mais facilmente com a mediocridade e a praticidade de uma sociedade utilitária. Os homens necessitam de provas e medalhas, para mostrar que “é o cara”; escrevem um relatório sonhando em ser rock star. Encontram segurança em esporte, política e sexo, quando todos pensam quase homogeneamente; faz bem ao ego gritar e se orgulhar de invencionices.
.
Corpos musculosos, independendo do sexo e da opção sexual indicam, nas cidades, a preferência pelo masculino. Sendo assim, a cultura passa a moldar a anatomia e o mercado a regular o estilo de vida dos cidadãos, distanciando-os do desejo e isolando-os na vaidade, como os metrossexuais. Nichos geram lucro. Androginia e bissexualismo ampliam o leque de oportunidades.
O adolescente de hoje é a criança mimada pela publicidade, estimulada ao hedonismo, se tornando o Narciso indiferente e descartável. Ou o tiozão que paga de garotão: a diferença do adulto para a criança é apenas o preço dos brinquedos; é fácil ser menino, mas nem tanto continuar a sê-lo. O ciclo natural de nascer, crescer, copular, criar e morrer é negado. A vida feliz de sacrifícios pela amada família não lhe pertence. E fica frustrado, falta o sentido, a missão, a realização. Por se deparar com um excesso de opções acaba não se apegando a algo específico.
.
É essencialmente através da relação pai e filho que se formam os processos identificatórios e o protótipo de homem, adulto e cidadão atuante. A relação afetuosa, os conflitos e as ausências marcam no menino a ambivalência admiração e ódio. A diferença de gerações e de contextos também relativizam esse processo.
Na contemporaneidade faltam rituais de iniciação, sejam provas físicas, bar mitzvah, encenações orais, idas a prostíbulos, tudo que seja feito publicamente, para que ele se sinta seguro de que houve uma mudança ontológica naquele momento, dirigindo-se ao estágio superior. A tradição se perde na globalização. Poucas pessoas amadurecem sozinhas e espontaneamente. Os famosos trotes não se aplicam ao caso, pois há uma ridicularização do iniciado; as gangues ou o tráfico também não, pois são impostos por pessoas de conduta moral repreensiva, é rebaixamento. Anciãos ou sábios é que devem dirigir os ritos, são exemplos de sucesso, porém nossa cultura menospreza os idosos.
A aquisição da virilidade não é definitivamente adquirida, deve ser constantemente (re)conquistada. Um homem quer ser o herói de sua mulher, se ela assim o trata, sente-se elevado. Mas se sua amada despreza uma dedicação sincera de amor, o mundo dele desmorona, eram para ser felizes juntos, mas passam a ser tristes, e o homem, um menino muito, muito idoso.

23 de julho de 2010

Crise de Identidade Masculina - pt. II

continuando o tema...

II
Muitos ainda acham justificáveis os crimes passionais, e muitas acham lindas as violentas provas de amor, como seqüestro, brigas e agressões. Além da famigerada fuga à bebida, que os cantores sertanejos conhecem tão bem. Porém, a grande maioria das mulheres assassinadas foram vítimas de atuais ou antigos parceiros, em muitos casos após estes beberem.
A pílula anticoncepcional provocou uma revolução ao separar maternidade, sexo e amor, de forma profunda e irreversível. Possivelmente, a sociedade, em geral, não acabou de assimilar todos os seus efeitos e de transvalorar (assim como em vários outros âmbitos sociais). Ficam à parte os fundamentalistas e as seitas religiosas que se recusam a acompanhar as evoluções científicas.
.
As mesmas feministas que desejavam liberdade, e libertinagem, se chocam com atos mais extremos de outras mulheres e com a fuga de homens, seja no sentido de covardia ou de cafajestagem. É uma geração que ainda herda a tradição romântica e sonhadora, que não se adapta mais à época. Aquela visão de donzela inacessível no castelo, idealizada pelo príncipe, que fará um ritual de conquista para desposá-la. Quimera diluída pelo mundo líquido, tudo flui!
Até na disputa pelo poder a estratégia feminina mudou. A tradicional cópia do padrão masculino, com o mais enfático exemplo de Margareth Thatcher, está sendo substituída por mulheres que admitem suas qualidades e atacam num ponto fraco dos homens, a pretensa superioridade da testosterona. Elas não levam a sério essa farsa. Aprenderam a jogar, a fingir que eles dominam, para satisfazê-los, e riem da covardia deles. Contudo, é difícil aceitar um papel quase de gigolô, de ser sustentado pela esposa, de ganhar menos que ela e de não protegê-la; sente-se incapaz.
.
O conceito psicanalítico de castração se aplica aos dois sexos. É pré-condição do desejo, da libido, mas o homem costuma resistir à idéia de que precisa da mulher para preencher seu vazio existencial. Pensa que por ser ativo e possuir pênis, o símbolo da potência, da inveja e do procriador, é invulnerável – frágil prepotência.
Porém, só o homem é marcado pela angústia e pelo medo da perda de seu falo, que significa volume e quantidade, quando na verdade é subjetivo, não está diretamente ligado à qualidade. Por isso, a agressividade e o sadismo são mais comuns no homem, é um meio de afastar os fantasmas da castração. O outro lado da moeda é o masoquismo feminino, que se aplica ao homem, que se faz passar por aquilo que julga ser a mulher, numa forma de satisfazê-la, e de ser punido.
.
É claro que masculinidade e feminilidade são conceitos puros, mas na prática se afetam mutuamente; são construções sociais, presentes em cada indivíduo, abrindo possibilidade justamente para parcerias, buscando na outra pessoa semelhanças e diferenças para formar uma identidade mais sólida e madura; estabilidade que fortalece. É a importância da mínima diferença, o que falta em cada um será achado no outro ser.
Por meio de conversas, da exposição de empecilhos, e da solução de pequenos conflitos por ambas as partes há uma convivência mais feliz, amorosa e menos mentiras e grandes dificuldades futuras. Deste modo, reverte-se o isolamento emocional, a introversão, a dificuldade em receber críticas e o humor que desconversa – a camuflagem da fortaleza que não passa de retórica.
Quando os casamentos eram arranjados e forçados era compreensível que houvesse dificuldade na troca de informações e de confidências, mas agora que é por livre vontade de ambas as partes é inaceitável o silêncio e as brigas por ninharias. É uma polêmica defender se o matrimônio por amor ou se o contratual é mais feliz, porém a felicidade é uma conquista individual, e no mundo liberal se não houver sucesso casando por amor é sinal de que os homens não sabem viver em liberdade.
A mulher, quem sabe, é a causa principal desta crise de identidade, mas também é a solução do drama. O homem pode não precisar de muita companhia, mas, de fato, passa mal com a solidão, precisa namorar e debater, ou ao menos ter alguém em quem mandar. Não é preciso colocá-la no pedestal, que elas desçam do trono, o romantismo era frustração de tuberculoso; que todos aprendam como funciona um relacionamento entre iguais de direito, claro que com inevitáveis diferenças biológicas, e que não caminhem rumo à androginia, com homens achando que precisam se feminilizar para agradá-las e com mulheres tendo que se masculinizar para serem competitivas no mercado e nas demais áreas da vida – identidade.

21 de julho de 2010

Crise de Identidade Masculina (pt. I)

Finalmente me dediquei a escrever sobre este tópico. Vai parecer mais um relatório de faculdade, mas foi o jeito que eu achei de expô-lo, mais científico que artístico, afinal, ando assim. Dividirei em 3 partes para não ficar (tão) cansativo e para fácilitar a edição.

A crise, ou limiar, ou ponto de ruptura, ou no mínimo mais um momento de valores tradicionais em cheque, no que se refere à masculinidade, ao patriarcado e ao conceito de ser homem/macho alfa se apresenta com nitidez. Basta ver e se deparar com tendências e bizarrices que há apenas alguns anos não existiam – vide os metrossexuais e os transexuais gays (p.e. homem que se tornou mulher e se relaciona com mulher). Sendo assim, o que resta das diferenças? Viveremos num mundo andrógino? A moral é tida como difusa e indefinida ou como rígida e ortodoxa?
Dicotomias: homem ou mulher; postura diagonística ou domesticada; guerreiro ou pai de família; yang ou yin; aventura/nomadismo ou tradição/sedentarismo; excessos ou ordem; riscos ou calmaria; antissocial ou sociável; razão ou emoção; egoísmo ou altruísmo, atividade ou passividade. Qualidades ou valores que habitam em todo mundo e que simbolizam diferenças que cada um optará por seguir, para assumir uma reputação que o precederá. E apenas do lado masculino haverá a possibilidade de heróis e anti-heróis reverenciados, arquétipos de juventude, coragem e honra.
.
Rousseau, em seu pedagógico livro "Emílio", expôs preceitos de como o homem/garoto e mulher/moça deveriam agir no mundo laico a se formar (o honrado pensador e a pudica esposa), um precursor da educação repressora da era vitoriana. Esta, em especial, teve como conseqüência o excesso de casos de histeria e o aumento dos escândalos por adultério. Afinal, ninguém consegue viver contente numa clausura. A literatura tirou proveito disso, em personagens clássicos, como Mme. Bovary, Capitu e Anna Karienina, damas cheias de culpa e vergonha por seus atos subversivos. Educação que ainda ressoa: uma inércia do machismo sem que as mães percebam, criando filhos que se sentem superiores, sem respeito às garotas, treinados para catar mulher.
Antes da II GM era comum a mulher precisar do homem para qualquer realização, o que fugisse à esfera das ordens dele seria segredo. Ele exigia controle absoluto, queria saber de tudo e mesmo assim desconfiava, apesar de todos os mimos. Hoje em dia, para ela tudo seria prescindível do homem, em especial as suas conquistas pessoais? Talvez sim, e assim sendo, eles se encontram confusos e perturbados; o papel antes exclusivo de provedor é então compartilhado.
A família seria o último refúgio de poder para esse homem acuado, melancólico e esgotado. Porque ele quer ter aquilo que sua mulher quer, e acha que tem! Enquanto que ela sempre acha que falta algo, ficando ciumenta, e por vezes paranóica. Nem todo homem assimila que nem sempre (ou quase nunca?) o que as mulheres querem é aquilo que ele tem a oferecer.
.
Pode-se afirmar que os papéis sociais encontram-se foscos para ambos os sexos. (É correto dizer que só existem dois sexos?) As conquistas de bens e direitos do movimento feminista no pós-guerra gerou maior competição no mercado de trabalho, além da grande inserção de mulheres em locais antes de predomínio ou até de exclusividade masculina, inclusive pela morte dos maridos em batalhas. Entre outras revoluções sociais, que costumam ter por alvo a contestação e a queda das hierarquias dominantes.
Pregar igualdade é gerar eterna tensão, em um exaustivo trabalho de justificar as pirâmides forjadas, como foi o papel do positivismo e dos publicitários da industrialização, típico do fim do século XIX. A única desigualdade aceita é a biológica, de natureza ou, para alguns, divina. Igualdade que passa a aumentar os privilégios das mulheres e a diminuir os dos homens.
Ser Pai de família não é mais um destino, assim como não há mais um modelo único de família, cada um planeja seu futuro como quiser. À primeira vista pode parecer mais fácil ao jovem, por diminuir a pressão dos pais e parentes nas escolhas pessoais, mas em outra visão significa maior responsabilidade e capacidade de tomar decisões solitariamente. It’s do or die!
.
O olhar masculino simboliza seu poder onisciente e invisível de objetivar, como a torre central das prisões ou o big brother de Orwell ou o olho de Horus, ou ainda de Sauron, vendo tudo sem ser visto, entrando na intimidade e punindo. Se fosse de outro modo seria encarar, um chamado à briga, coisa que o poderoso não faz com quem julga inferior.
A questão primordial, enfim, não é quanto ser homem, mas como ser homem num ambiente rapidamente mutável. O herói executivo e o revolucionário foram algumas das opções que eclodiram em meados do século XX. A admoestação por não ser “cabra macho” permanece.
Essa reafirmação do papel de macho tem como o efeito a violência “amorosa”. Leis, como a “Maria da Penha”, elaboradas para coibir práticas arcaicas e não condizentes com a civilização almejada são evidência de um sintoma social do momento de confusão. Reivindicar normalidade é absurdo; tecnologias, implantes e esvaziamento moral fazem surgir inúmeras peculiaridades.

26 de junho de 2010

Arte e Artistas

Diante da arte meu prazer é rebaixado por quem não o compartilha. Sinto-me só. A singularidade é um outro nome da solidão. Meu amigo adora a obra que eu desprezo, assim duvido de mim mesmo. Porém, a arte não se comprova, experimenta-se. Questão de gosto, que deseja ser onipotente, apesar de ser deveras subjetivo, e possui a petulância de querer se impor a todos os observadores.

A arte parece que nunca vai morrer e que não tem um momento preciso de nascimento, ou seja, preexistia em algum lugar, e que um sujeito inspirado fez a graça de proclamá-la a nós, mortais. A obra-prima paira acima de nossas consciências, só um dom exótico poderia torná-la objeto de veneração. O artista é um místico, um intérprete dos deuses, vê o que os demais não vêem – paradise lost. Após contemplar a iluminação, exprime-a com suas idiossincrasias e técnicas adquiridas. A fallen god remembers his heaven.

O homem ordinário, então, idolatra, torna sua concepção de gênio em efetividade e satisfaz a própria vaidade, enquanto o artista se regozija com sua pretensa divinização. Actually, he digs his own grave. E que ninguém observe como é feito o trabalho, é onde reside a mágica, um ilusionista nunca revela seus truques, ou haveria desapontamento, a beleza seria desvanecida. Véu que mantém a imagem sacra. Contudo, poeta (poien: criar) ou teórico (theôrein: observar)? Inovador ou plagiador, sonhador ou confidente, historiador ou profeta? Ingênuo culto ou sábio ignorante.

Em arte a posteridade se autoproclama juiz, o futuro é um céu imenso que atrai, como chamá-lo de vazio? Nostalgia e esperança. Alto e baixo, julgamentos e valores antropocêntricos, pois no infinito, todas as direções de equivalem – horizontalidade do ser. Entretanto, só o homem julga, é o eixo ao qual toda vertical deve ser paralela – egocentrismo. O sol está em nós, o desejo cria seu céu, sonhos se repetem, tenazmente. A imaginação conjectura a promessa do zênite, mas do obscuro e do incognoscível nada se prova – agnóstico sonhador ou artista sonâmbulo.

Não há o belo em si, o prazer é seu limite definidor, a cada desfrute uma criação – pathos e hedonismo. Beleza é duplicação temporária: pela mutabilidade do objeto sentido e pela fugacidade de quem o sente. Valor é historicidade afetiva, a (r)evolução do tempo muda a sorte das coisas, logo, não há finalismo. Assim, a obra não é mais causa, mas efeito do desejo, a inspiração torna-se a face oculta deste.

Artista, mais albatroz que Hermes – o oráculo da sua própria vontade – escuta trovejar internamente as potências subversivas do desejo; idéias que percorrem as veredas íngremes da criação. Ícaro ascende furiosamente. Renúncia à contumaz crença da perfeição, porém, só há troca e regressão. Tudo era id na origem, no corpo adulto permanece a infância, e sua perversidade, sua ânsia por prazer, sem objeto e sem unidade. E cada um sofre o peso da criança que foi, é e continuará sendo.

Ouroboros: só partimos para ficar, só saímos para voltar. Crescer é um jogo e envelhecer é a morte. Letting go, só há viagem para o esquecimento, time heals. Consolação sem fantasmas. Humor. Sublime: o ponto derradeiro, o cume, a região cega que funda os demais valores.

O sonho, muitas vezes precoce, de estar voando significa o desejo ardente de estar apto para os atos sexuais – Vênus inspiradora. E o artista preserva a parte sonhada de sua infância e a recria, para continuar a sonhar que se tornará grande. Leva a vida como brincadeira, apesar da burocracia e dos deveres ubíquos se contraporem a essa concepção lúdica. Nesta velha dança a gente não se cansa de continuar criança. Por isso não importa, a quem não teve infância, o amor e a arte.

Vida como fenômeno estético. Arte como guardiã do sono de viver, como máscara da solidão, expressão vital e espírito maculado. Por sofrermos, precisamos do prazer; como toda criação é uma alegria, pelo intrínseco aumento do ser, é mister amar a arte, para criar o que nos falta ainda a ser; é a superação do drama de não ser.

A vida, enfim, livre da morte, ou ainda, não há morte, só há vida que se cessa. O criador e o observador da arte encontram em si o meio de superar o que os atemoriza. Sentem em si um excesso ou uma falta de sentido no senso comum e buscam o equilíbrio através da oscilação.

O desejo é estético quando só desfruta de si mesmo. Ele abraça o fugaz, o transitório, o frugal, os ciclos, os fluxos e os movimentos. Enquanto o prazer não, este é neurótico e compulsivo, sempre se anulando e querendo repetir. No entanto, há no perverso algo de artístico. Um incomodado que quer incomodar. Projeção do desejo pela não adaptação à realidade.

A arte avança, sem progresso. Nos museus é onde se conhece a criação, mas fora dele é que se cria. Toda arte é criadora, e seu oposto? Toda criação é artística? Cada um tem a estética que merece.

Artista é como que um ponto de condensação do universal no singular. Original todos podem vir a ser, mas ser verdadeiro é raro, é o diferencial. Se não fosse pela arte, os segredos de cada um permaneceriam trancafiados. Mas a faculdade de expirar uma inspiração se impõe ao artista, porque ele quer tudo o que tem e faz. É possuído por si e reinventa os valores e as regras de suas obras.

Incapacidade de viver a morte na plenitude de sua satisfação. A arte sobrevive a si, o passado torna-se presente na efetividade do prazer proporcionado. Ficamos, então, contemporâneos do eterno; na cultura, os vivos são dominados pelos póstumos.

No começo tudo era incipiente, toda inovação era grandiosa, os precursores e a vanguarda ficaram com os méritos e as glórias culturais, e o que resta, agora, tão tarde? Apenas técnica e cópia? Todo trabalho criativo exposto como artesanato, mercadoria para as massas? A raridade é um encanto insubstituível, o que é infungível tem seu preço elevado. Crise da época, concorrência ingrata. Milhões de anônimos que sequer buscam seus lugares ao sol, ou em meio aos flashes, almejam apenas reconhecimento num nicho cada vez mais reduzido – entropia e perda da criatividade.