Cansado da burocrática vida
Dos que labutam, pagando os impostos
E chateiam-se com tecidos róseos,
Ou traquinagem e supérfluas dívidas
O ex-cidadão largou tudo e foi à rua,
Viver do que ali achava, fez-se mendigo;
Chocava madames com suas agruras.
Gentil, não só olhava ao próprio umbigo
Por não ser um ignorante, ignorava,
Ou melhor, desprezava os arrogantes:
“Só quem é vazio valoriza insígnias”
Mas vaidosos veem nisso ignomínia
Lembrou-se de enfastiosos panegíricos
Proferidos – pérfidos apedantados
Agora só se dirigem ao cínico
Os que se encontram mal afortunados
Abestalhados inculcam seus cultos
A outrem, mas não os vencem, nem se convencem.
Já o mendigo capta o jogo dos brutos;
Grátis recebeu aquilo que os filisteus
Diziam ser um mal: a vida frugal
Colegas de praça o chamam de mindingo
E enfiam na orelha o dedo mindinho.
Respeitado e influente brada seu signo:
Por bagatelas é que não me indigno!
Pensamos nele como curva de rio
Da cultura que dispensa dispensando-se.
Gostamos de apontar à fuça o fuzil,
Somos déspotas como um Ferdinando
Pretensiosa compaixão e seus ardis
Escamoteiam sentimentos viris
Tratam como vítima o sujo pedinte
E se comprazem, não estão lá entre os vinte
Para de fingir indulgência!
Por que pensas que ele é indigente?
Algo escasso, insuficiente,
Alguém muito menos que gente?
Nem é ele o infeliz de nascença...
28 de abril de 2012
2 de abril de 2012
Chuva, eu só peço que caia devagar
Chove lá fora e aqui faz tanto frio. Assim dizia a canção popular. Assim eu me encontrava em meu lar. A água não parava de cair do céu; o som dos trovões e a repentina iluminação dos relâmpagos me acordaram. A luz do céu acorda o mundo. Ok, não choveria por anos como em Macondo, mas a insistência da tempestade me fez lembrar o clássico livro. (De leituras evasivas quero manter distância, faça você o mesmo.) A madrugada seria longa após esta rara insônia. Sem reclamar, reflito e chego a conclusões. Momentos imprevistos podem trazer bons efeitos. O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído. Há flexibilidade diante de oportunidades inesperadas, que à primeira vista seriam agourentas, mas que parecem úteis agora e agregam perspectivas, que não mais se ignora. O sábio tira proveito em cada ciclo sazonal. Toda fruta tem uma fase propícia ao plantio e à colheita. A natureza é afável ao bom homem do campo. Bem, um pouco de otimismo não mata ninguém, afinal.
Goteiras me remetem à solução de problemas. É preciso reformar o forro, o gesso, a laje, mas deixo para um momento de urgência; por exclusiva questão estética eu evito meter a mão no bolso. Pinga, pingos, manchas do pinga-pinga – o aguaceiro e o fluxo pluvial ativam na bexiga a urina. Uns dois litros saem de mim e uma hora depois, mais um litro. Enquanto a enxurrada invade a minha casa, eu me seco por dentro. Portanto bebo água, por ora ela ainda existe em forma potável, apesar de não ser tão potável assim. Nunca o é, sempre ingerimos sujeiras por aí. Não entendo como os hipocondríacos e os portadores de TOC conseguem viver: não podemos controlar tudo. Muito menos limpar!
Seco por dentro, eu me seco por fora, após uma rápida saída na varanda, a fim de verificar o carro e o cachorro. Sinto-me cumprindo deveres. Ora, isso é a moral, não a ética. Como posso agir em direção ao oposto do que defendi e alinhado ao que critiquei? Um homem não pode se reduzir a imperativos. A vida é muito mais que seguir ordens e orgulhar-se do dever cumprido. Compro, portanto, a idéia de cumprir sim um dever, mas não do que esperam de mim, e sim do que eu mesmo espero de mim, isto é, a ética da minha vontade e não a moral da vontade dos outros. E, num momento poético, tomo banho de chuva. Liberto-me da fraqueza de reclamar das derrotas e das impossibilidades que pressionam e paralisam. Subterfúgios e expiações de um derrotista. Ah, friorento, se não fosse a baixa temperatura ficarias mais tempo molhando a cabeça ao léu! Até, quem sabe, dançando com tua cálida amante um bolero de Ravel. Talvez uma corrida maluca pela rua, seminu, fosse mais libertador. Todavia isso não foi preciso; indolor, aqueles escassos segundos pulando no reduzido espaço tiveram significado suficiente. Menos queixumes, mais conselhos decentes.
A inspiração costuma surgir quando menos se espera e deve-se estar preparado para expressar tal insight. Antes eu ponderava que era possível adiar a ocasião de escrever, compor ou desenhar, até porque aquela idéia pertencia a mim e não continha em si uma iminente exteriorização. Mas não, era uma tolice, eu não passava de um palerma burocrático que julgava a arte como mais uma técnica em série, só aguardando o impulso da esteira e dos moldes industriais para surgir, ou brotar, o objeto inicialmente imaginado. Uma câmera fotográfica digital não extravasa sentimentos. Tal qual a chuva, que é jorrada das nuvens carregadas de tamanha umidade acumulada ou do choque térmico impetuoso, a obra de arte deve irromper desse entusiasmo estético imediatamente, de preferência. Essa vontade é tão impaciente que se ela não for formalizada, ela se esgota, e talvez reste efetivada num universo paralelo, pois não neste, deveras determinista. Por aqui fica apenas no inconsciente, nos recônditos da memória e da imaginação, desse indivíduo/hospedeiro. E perde-se a contribuição à humanidade – apesar de essa poética transformar nas sutilezas a pessoa. Contudo, em ambos os casos a arte é mais um espasmo da ocasião, da conversão formidável de acontecimentos que culminaram em tal evento, do que uma propriedade desse sujeito sem talento. Foi apenas um traço da subjetividade que legitimou a sua assinatura no episódio. Que sujeito é esse? Está lá fora, está aqui dentro, não tá nem aí e muito menos aqui?
Por fim, no terminadouro, no nadir, no ocaso, no crepúsculo, sugamos o resto de energia para a limpeza em seguida, do sereno noturno e do orvalho matinal, até a chegada da aurora que anuncia esperançosamente um dia cheio de ocasiões fortuitas. Doravante, caia chuva dadivosa, chove chuva generosa, inunde nossos rios, pastos e lamaçais, formando em cachoeiras véus naturais. E se não for pedir muito, que seja devagar, para o regozijo de quem possui olhos aguçados e uma mente desperta e hábil, observando o fenômeno atmosférico, algures raro, alhures corriqueiro, por aqui ambos. Para que seu aspecto cinza não signifique vazio, mas traga ventos favoráveis a encalhados navios. E aquele que arremeter lampejos de sabedoria saberá filtrar sua tormenta em benefício próprio e quiçá comunitário. Muito se sabe que após a tempestade vêm a calmaria e a bonança, entretanto muitos não compreenderam isso e perdem o bonde da alegria, resignando-se com o do choro, de águas salgadas e amargas.
Goteiras me remetem à solução de problemas. É preciso reformar o forro, o gesso, a laje, mas deixo para um momento de urgência; por exclusiva questão estética eu evito meter a mão no bolso. Pinga, pingos, manchas do pinga-pinga – o aguaceiro e o fluxo pluvial ativam na bexiga a urina. Uns dois litros saem de mim e uma hora depois, mais um litro. Enquanto a enxurrada invade a minha casa, eu me seco por dentro. Portanto bebo água, por ora ela ainda existe em forma potável, apesar de não ser tão potável assim. Nunca o é, sempre ingerimos sujeiras por aí. Não entendo como os hipocondríacos e os portadores de TOC conseguem viver: não podemos controlar tudo. Muito menos limpar!
Seco por dentro, eu me seco por fora, após uma rápida saída na varanda, a fim de verificar o carro e o cachorro. Sinto-me cumprindo deveres. Ora, isso é a moral, não a ética. Como posso agir em direção ao oposto do que defendi e alinhado ao que critiquei? Um homem não pode se reduzir a imperativos. A vida é muito mais que seguir ordens e orgulhar-se do dever cumprido. Compro, portanto, a idéia de cumprir sim um dever, mas não do que esperam de mim, e sim do que eu mesmo espero de mim, isto é, a ética da minha vontade e não a moral da vontade dos outros. E, num momento poético, tomo banho de chuva. Liberto-me da fraqueza de reclamar das derrotas e das impossibilidades que pressionam e paralisam. Subterfúgios e expiações de um derrotista. Ah, friorento, se não fosse a baixa temperatura ficarias mais tempo molhando a cabeça ao léu! Até, quem sabe, dançando com tua cálida amante um bolero de Ravel. Talvez uma corrida maluca pela rua, seminu, fosse mais libertador. Todavia isso não foi preciso; indolor, aqueles escassos segundos pulando no reduzido espaço tiveram significado suficiente. Menos queixumes, mais conselhos decentes.
A inspiração costuma surgir quando menos se espera e deve-se estar preparado para expressar tal insight. Antes eu ponderava que era possível adiar a ocasião de escrever, compor ou desenhar, até porque aquela idéia pertencia a mim e não continha em si uma iminente exteriorização. Mas não, era uma tolice, eu não passava de um palerma burocrático que julgava a arte como mais uma técnica em série, só aguardando o impulso da esteira e dos moldes industriais para surgir, ou brotar, o objeto inicialmente imaginado. Uma câmera fotográfica digital não extravasa sentimentos. Tal qual a chuva, que é jorrada das nuvens carregadas de tamanha umidade acumulada ou do choque térmico impetuoso, a obra de arte deve irromper desse entusiasmo estético imediatamente, de preferência. Essa vontade é tão impaciente que se ela não for formalizada, ela se esgota, e talvez reste efetivada num universo paralelo, pois não neste, deveras determinista. Por aqui fica apenas no inconsciente, nos recônditos da memória e da imaginação, desse indivíduo/hospedeiro. E perde-se a contribuição à humanidade – apesar de essa poética transformar nas sutilezas a pessoa. Contudo, em ambos os casos a arte é mais um espasmo da ocasião, da conversão formidável de acontecimentos que culminaram em tal evento, do que uma propriedade desse sujeito sem talento. Foi apenas um traço da subjetividade que legitimou a sua assinatura no episódio. Que sujeito é esse? Está lá fora, está aqui dentro, não tá nem aí e muito menos aqui?
Por fim, no terminadouro, no nadir, no ocaso, no crepúsculo, sugamos o resto de energia para a limpeza em seguida, do sereno noturno e do orvalho matinal, até a chegada da aurora que anuncia esperançosamente um dia cheio de ocasiões fortuitas. Doravante, caia chuva dadivosa, chove chuva generosa, inunde nossos rios, pastos e lamaçais, formando em cachoeiras véus naturais. E se não for pedir muito, que seja devagar, para o regozijo de quem possui olhos aguçados e uma mente desperta e hábil, observando o fenômeno atmosférico, algures raro, alhures corriqueiro, por aqui ambos. Para que seu aspecto cinza não signifique vazio, mas traga ventos favoráveis a encalhados navios. E aquele que arremeter lampejos de sabedoria saberá filtrar sua tormenta em benefício próprio e quiçá comunitário. Muito se sabe que após a tempestade vêm a calmaria e a bonança, entretanto muitos não compreenderam isso e perdem o bonde da alegria, resignando-se com o do choro, de águas salgadas e amargas.
26 de março de 2012
Limpezas, por pedra
Uma limpeza
Sol é detergente
E chuva é solvente
Sonhos são calmantes
E amor, alvejante
Dentro de uma empresa
Só se pode ver presa
Tamanha beleza; um azar
Ao sorriso, nunca a relaxar
Asseio de mofadas idéias:
Convícios de Hera ou Medeia
Na fluidez do eterno devir
Faz-se o homem, enfim a sorrir
Libido é vontade, que é vida.
A dúvida põe-nos em dívida
Com a imperiosa e intolerante vontade
Exercitar-se já é estar em vantagem
Sou pedra
Humilde, de convicções maleáveis,
Sou pedra pintada, imóvel, louvável.
Reflito, não intenciono, repasso
O que todos querem ver e prever: solução
Marco meu passo num pedaço de sedução
Nua na calçada, de peito à lua,
Despercebida, eu percebo placebos
Dispendiosos, são pretensas ofensas.
Os bolsos transportam jóias e bens,
Mas a roupa desfila sem um alguém
A um palácio que toma forma de cabana,
Proferem: “bacana”! Isto é, macaco e bananas...
Logo pelos hirsutos ficarão eriçados
Com os berros d’alguma antítese (sacana?) –
Perder o controle não é descontrole
Sol é detergente
E chuva é solvente
Sonhos são calmantes
E amor, alvejante
Dentro de uma empresa
Só se pode ver presa
Tamanha beleza; um azar
Ao sorriso, nunca a relaxar
Asseio de mofadas idéias:
Convícios de Hera ou Medeia
Na fluidez do eterno devir
Faz-se o homem, enfim a sorrir
Libido é vontade, que é vida.
A dúvida põe-nos em dívida
Com a imperiosa e intolerante vontade
Exercitar-se já é estar em vantagem
Sou pedra
Humilde, de convicções maleáveis,
Sou pedra pintada, imóvel, louvável.
Reflito, não intenciono, repasso
O que todos querem ver e prever: solução
Marco meu passo num pedaço de sedução
Nua na calçada, de peito à lua,
Despercebida, eu percebo placebos
Dispendiosos, são pretensas ofensas.
Os bolsos transportam jóias e bens,
Mas a roupa desfila sem um alguém
A um palácio que toma forma de cabana,
Proferem: “bacana”! Isto é, macaco e bananas...
Logo pelos hirsutos ficarão eriçados
Com os berros d’alguma antítese (sacana?) –
Perder o controle não é descontrole
7 de março de 2012
Come on, Get Out (In & Out)
Assim como tudo o que sobe tem que descer, o que entra tem que sair. É claro que nesse segundo caso o processo não é tão óbvio e simples. Múltiplas variáveis influenciam como causas de um efeito por vezes imprevisível. Uma bolha de sabão uma hora vai estourar e um balão de gás que sobe rumo à estratosfera se esvaziará após perder pressão; a interação do ambiente externo com o interno e a troca de calor e de pressão entre eles, conforme as leis descritas pela termodinâmica, influenciarão no resultado final. Se o cenário for conhecido, basta calcular segundo as fórmulas dadas que a previsão se concretizará na hora certa, por outro lado, com um cenário não tão bem descrito, as projeções se mostrarão apenas probabilísticas, isto é, o momento, o local e o efeito poderão ser apenas conjecturados.
No que se refere às ciências humanas, apesar dos cientistas americanos tentarem objetivar ao máximo, tratando-nos como máquinas manipuláveis socialmente, ou como animais destituídos de valores morais e de senso estético e de justiça, ou seja, detentores de uma natureza essencial – com ação e reação facilmente identificáveis –, eu penso que as causas e efeitos não podem ser categóricas, jamais saberemos o que gerou tal resultado e nem que certos estímulos acarretarão em determinadas conseqüências – não com exatidão! Por que crianças gostam de soprar bolhas de sabão para em seguida estourá-las? Criar e destruir é uma tendência constante nos humanos, dá controle sobre suas vidas. E por que outras ficam indiferentes à efemeridade das coisas? Instintos de predador e de presa habitam em nós, um querendo anular o outro, restando o sujeito em convulsões mentais e sentimentais.
Quanto maior for a tensão acumulada pela pessoa, maior será a necessidade de extravasar. Sabemos muito bem disso em época de Carnaval, em viradas de ano, em happy hours e nas baladas de fim de semana. O estresse da rotina precisa ser liberado, ainda que por meios não tão nobres assim, como bebedeiras e violência. A arte é uma grande válvula de escape, porém para executá-la de maneira apropriada é preciso de um pouco de técnica, de um bom conhecimento de si e do ambiente que o cerca, de um estado emocional minimamente desequilibrado e de energia ou angústias engarrafadas, afinal ninguém pinta um quadro por dia por muito tempo. Esse transbordamento subjetivo pode gerar obras memoráveis, ou nem tanto, mas sem dúvida terá mais significado que a frieza de um trabalho técnico, um artesanato ou outra produção em série qualquer. Enfim, o espírito artístico ignora o objetivo material, a vontade é apenas de jogar para fora o que tanto agita por dentro. Talvez por isso os técnicos de esportistas não aconselham seus atletas a praticarem sexo antes dos jogos, pois aquela tensão primordial da libido – acreditam eles – é uma fonte insubstituível de garra e criatividade. Freud percebeu isso e formulou sua teoria sobre a sublimação, em virtude de libido reprimida. Quem goza demais fica sem força e rebeldia para romper barreiras – o hedonismo contra a tragédia. Esquivo-me, não hierarquizo prazeres, mas a humanidade sim.
Nesse entra e sai rotineiro, sendo que algumas entradas são diacrônicas e as saídas são principalmente sincrônicas, pois as pessoas não costumam ter paciência para retirar o que lhes incomoda, nesse processo a economia, a sociedade e a vida agradecem. Se atingíssemos um nirvana, uma ataraxia, qual seria o sentido em continuar vivendo? Ainda que muitas de nossas escolhas sejam aborrecimentos, sem elas não teríamos o que fazer e morreríamos de tédio. Que se encham as sacolas de papelão, um embuste é melhor do que o insuportável vazio. Basta saber que se trata de um engodo para não se iludir com o valor inventado. Então, aventuras são experimentadas, empreendimentos são investidos, filhos, concebidos, cidades, erguidas e filosofias, escritas, ou ponderadas. Fala-se do fim da história, o que não passa de balela, a história só chegaria ao fim quando de fato a humanidade fosse extinta, no entanto só uma catástrofe monumental seria capaz da proeza – para alguns niilistas seria uma dádiva (desmerecimento desistente de quem se paralisa perante o incontrolável).
Pressão e cobrança por resultados sobre quem não dá importância à competitividade ou para os que não têm boa auto-estima só agravam a situação. Esse estresse adicional com sinceras intenções de motivar ajuda os folgados que querem vencer, contudo não querem se esforçar. Adicionam-se raiva, gana e eletricidade e obtêm-se bons resultados objetivos, mas também maus resultados subjetivos. É a ética do vencedor com um foco em mente (derrotar o adversário), não é a ética de quem deseja uma vida mais feliz e harmoniosa. O mundo material tem desses contrapontos: inconvenientes e obstinadas adversidades. É uma pena não poder separar, no homem, a parte mecânica e a parte idiossincrática, deveras simbólica, muitas confusões seriam dissipadas. Mas não é uma pena lidarmos tão bem e intensamente com curvas e fugas pela tangente, para então voltarmos aos circuitos ovais da rotina.
Como eu disse no princípio, o processo do que entra e do que sai num indivíduo não é óbvio nem simples. Valores estão envolvidos e convencer os outros a mudá-los é uma tarefa árdua, com severos, quem sabe, efeitos colaterais. Todavia, é a partir do que se valoriza que haverá vontade para lutar, para correr atrás do que se pede e para significar a existência. Em uma esfera de informações chegando a nós como um paquiderme sobre a grama (agravado pelo fato de serem contraditórias), o sentimento de barco à deriva é inevitável a quem não tem convicções e uma sólida moral (seria coisa de fundamentalista, de dogmático). Porém, é forçoso também acreditar em algo e viver conforme a ideia, isto é, defender uma ética e praticá-la pela política. É nesse embaraço que optamos e traçamos o rumo de onde queremos chegar: o passado entrou, algum futuro sairá, pode acreditar.
No que se refere às ciências humanas, apesar dos cientistas americanos tentarem objetivar ao máximo, tratando-nos como máquinas manipuláveis socialmente, ou como animais destituídos de valores morais e de senso estético e de justiça, ou seja, detentores de uma natureza essencial – com ação e reação facilmente identificáveis –, eu penso que as causas e efeitos não podem ser categóricas, jamais saberemos o que gerou tal resultado e nem que certos estímulos acarretarão em determinadas conseqüências – não com exatidão! Por que crianças gostam de soprar bolhas de sabão para em seguida estourá-las? Criar e destruir é uma tendência constante nos humanos, dá controle sobre suas vidas. E por que outras ficam indiferentes à efemeridade das coisas? Instintos de predador e de presa habitam em nós, um querendo anular o outro, restando o sujeito em convulsões mentais e sentimentais.
Quanto maior for a tensão acumulada pela pessoa, maior será a necessidade de extravasar. Sabemos muito bem disso em época de Carnaval, em viradas de ano, em happy hours e nas baladas de fim de semana. O estresse da rotina precisa ser liberado, ainda que por meios não tão nobres assim, como bebedeiras e violência. A arte é uma grande válvula de escape, porém para executá-la de maneira apropriada é preciso de um pouco de técnica, de um bom conhecimento de si e do ambiente que o cerca, de um estado emocional minimamente desequilibrado e de energia ou angústias engarrafadas, afinal ninguém pinta um quadro por dia por muito tempo. Esse transbordamento subjetivo pode gerar obras memoráveis, ou nem tanto, mas sem dúvida terá mais significado que a frieza de um trabalho técnico, um artesanato ou outra produção em série qualquer. Enfim, o espírito artístico ignora o objetivo material, a vontade é apenas de jogar para fora o que tanto agita por dentro. Talvez por isso os técnicos de esportistas não aconselham seus atletas a praticarem sexo antes dos jogos, pois aquela tensão primordial da libido – acreditam eles – é uma fonte insubstituível de garra e criatividade. Freud percebeu isso e formulou sua teoria sobre a sublimação, em virtude de libido reprimida. Quem goza demais fica sem força e rebeldia para romper barreiras – o hedonismo contra a tragédia. Esquivo-me, não hierarquizo prazeres, mas a humanidade sim.
Nesse entra e sai rotineiro, sendo que algumas entradas são diacrônicas e as saídas são principalmente sincrônicas, pois as pessoas não costumam ter paciência para retirar o que lhes incomoda, nesse processo a economia, a sociedade e a vida agradecem. Se atingíssemos um nirvana, uma ataraxia, qual seria o sentido em continuar vivendo? Ainda que muitas de nossas escolhas sejam aborrecimentos, sem elas não teríamos o que fazer e morreríamos de tédio. Que se encham as sacolas de papelão, um embuste é melhor do que o insuportável vazio. Basta saber que se trata de um engodo para não se iludir com o valor inventado. Então, aventuras são experimentadas, empreendimentos são investidos, filhos, concebidos, cidades, erguidas e filosofias, escritas, ou ponderadas. Fala-se do fim da história, o que não passa de balela, a história só chegaria ao fim quando de fato a humanidade fosse extinta, no entanto só uma catástrofe monumental seria capaz da proeza – para alguns niilistas seria uma dádiva (desmerecimento desistente de quem se paralisa perante o incontrolável).
Pressão e cobrança por resultados sobre quem não dá importância à competitividade ou para os que não têm boa auto-estima só agravam a situação. Esse estresse adicional com sinceras intenções de motivar ajuda os folgados que querem vencer, contudo não querem se esforçar. Adicionam-se raiva, gana e eletricidade e obtêm-se bons resultados objetivos, mas também maus resultados subjetivos. É a ética do vencedor com um foco em mente (derrotar o adversário), não é a ética de quem deseja uma vida mais feliz e harmoniosa. O mundo material tem desses contrapontos: inconvenientes e obstinadas adversidades. É uma pena não poder separar, no homem, a parte mecânica e a parte idiossincrática, deveras simbólica, muitas confusões seriam dissipadas. Mas não é uma pena lidarmos tão bem e intensamente com curvas e fugas pela tangente, para então voltarmos aos circuitos ovais da rotina.
Como eu disse no princípio, o processo do que entra e do que sai num indivíduo não é óbvio nem simples. Valores estão envolvidos e convencer os outros a mudá-los é uma tarefa árdua, com severos, quem sabe, efeitos colaterais. Todavia, é a partir do que se valoriza que haverá vontade para lutar, para correr atrás do que se pede e para significar a existência. Em uma esfera de informações chegando a nós como um paquiderme sobre a grama (agravado pelo fato de serem contraditórias), o sentimento de barco à deriva é inevitável a quem não tem convicções e uma sólida moral (seria coisa de fundamentalista, de dogmático). Porém, é forçoso também acreditar em algo e viver conforme a ideia, isto é, defender uma ética e praticá-la pela política. É nesse embaraço que optamos e traçamos o rumo de onde queremos chegar: o passado entrou, algum futuro sairá, pode acreditar.
21 de fevereiro de 2012
Drunk Talk
Quem detém o poder e exerce-o, almeja manter o status quo e se sentir indispensável. Daí a invenção de valores e de moralismos para convencer os outros de que se é importante e melhor, seja em comparação com o vizinho, seja em sentido absoluto. Os desejos moldam os gostos, e não o oposto. E é difícil cavar em busca das origens desses desejos, é uma teia tão diversa, complexa e imbricada que é mais cômodo reduzir a resposta a “preferências pessoais”. Disso, resulta na necessidade de realização pessoal, que é afirmar-se no mundo e dominá-lo com conceitos quaisquer, ainda que vagos e imprecisos, desde que tragam segurança. Se todos intencionam exercer algum poder e praticar certas idéias e princípios que julgam ser a causa do bem estar e do equilíbrio intra e interpessoal, se não fosse assim estaria melancólico, rebelde, resignado ou marionete, como culpar a petulância de querer dobrar o outro? O poder é ubíquo, mesmo escravos o perpetram, claro que em doses pífias e patéticas.
Em meio a tantas incertezas e dúvidas, promessas encantam a quem assiste a tudo em cima do muro, ainda que elas estejam longe da verdade. A fala carismática seduz pela emoção, porém sempre estamos à mercê dela, principalmente em estado de carência latente. É impossível uma vida completamente cínica, cética e amoral. Com toda a lhaneza que me é característica, insisto no chavão sartriano da liberdade implacável. Precisamos escolher, a toda hora optamos em seguir, parar ou retornar, e é insensato anular os desejos, como tentam fazer os estóicos e os monges. Ainda que esses anseios e afetos tragam frustrações e angústias, é a vida, doce e dura. Negar a vontade pode ser vencer a natureza, mas a que preço? Viver é experimentar, ter experiências é perigoso, porém é melhor que nunca ter nascido, logo sem oportunidades de chorar ou de sorrir. Escapar pela tangente ou descer do trem mundano é escapismo – ainda que eu pense serem úteis os parcos momentos ou fases de fraqueza como essa, desde que sob controle, ou seja, ciente do buraco que está sendo cavado. É difícil ser ateu e rejeitar o trono do bom, belo e verdadeiro. Criar valores a toda hora é cansativo, via tortuosa que bagunça a mente. Mas a integridade compensa.
Com o passar do tempo a entropia aumenta exponencialmente a distância de objetos outrora adjacentes, tal qual o fenômeno inesperado do afastamento galáctico provocado pela energia escura. Contudo, para se sentir poderoso as coisas devem estar próximas do desejado e das convicções professadas pelo influente sofista. Daí a tendência à tradição, ao reacionário e ao ortodoxo que o discurso moral carrega, mas os inflexíveis não se preocupam com isso, pelo contrário, muitas vezes estimulam a intransigência e o círculo fechado, repudiando mudanças e demais ameaças à ordem idealizada. Ciclos se repetem, fundam outros e encerram mais alguns. É muito difícil identificar com precisão início ou fim, causa ou efeito, dos fenômenos sociais ou naturais que observamos e nos inserimos. É uma soberba tola e desnecessária procurar e afirmar categoricamente que encontrou essas fontes do difusionismo cultural ou genético. Assim como é burrice defender a ignorância total, que invariavelmente levará à cegueira. Deve-se sorrir ao se deparar com essas pretensões vãs, por culpa da insegurança e da imperiosa auto-afirmação. O lance é que as manias e os hábitos comandam comportamentos automáticos – brigar com o inconsciente é matar um leão por dia.
Toda conversa é furada para quem não a aprecia, não se identifica com o assunto e não precisa dela para se afirmar perante o interlocutor. O papo furado de bêbados ou de pregadores do bom costume não é inútil para quem ali gasta a sua saliva. Ao se praticar o diálogo inúmeras informações são transmitidas, entre elas a de que se deseja ser importante e entendido no tema, isto é, parte integrante da comunidade – contumaz ambição. Contudo, há os que precisam ser o maioral, o centro das atenções, o macho-alfa, e há uns chatos que querem isso a todo momento. É precipitado taxá-los de babacas, pois entra na questão do livre-arbítrio. Se ele não existe, aquele indivíduo é apenas um hospedeiro da vontade que o domina; se ele existe, toda a responsabilidade recai em cima do sujeito, que poderá se retrair diante do fardo. Se o superego dominar dessa maneira, o respeito pelo próximo será tão incrustado na pessoa que ela se fechará em timidez e temerá exercer o poder, por causa das represálias. Como de praxe, um equilíbrio é aconselhável. E a maior dica é notar que a glória costuma ser vã (vanglória), isto é, paparicos e aclamação popular são movidos por interesses: a posição e a imagem de ídolo são maiores fontes de inveja e de elogios do que a pessoa em si. O poder do cargo é maior que o poderoso. Muitos perceberam isso e compensaram com a tirania, envolta no símbolo de salvador, embuste usado apenas para se manter no alto e abafar revoltas. Nada mais humano... Sim, o homem teima em não ser pequeno e pouco mais do que qualquer outro bicho lutando para sobreviver e se reproduzir.
A metafísica enfadonha foi o contra-ataque dos ressentidos, mas uma metafísica trágica é a resposta dos que concluíram que a realidade pode até não ser o que parece, porém nem por isso autoriza a se achar dono, profeta ou sabedor do mundo. Todos têm alguma importância, alguns mais, a maioria menos, contudo ninguém é indispensável e imortal, embora se relute contra esse fato, para si e para os outros. “Você vai morrer e não vai pro céu, é bom entender, a vida é cruel”. Lose your illusions. Desespere-se, então sinta, aconchegue-se e desfrute. Não é porque eu sou mais um que eu sou um nada. De um nada eu parto e a um nada eu chego, e nesse ínterim, no imbróglio da existência, localiza-se o tudo.
Em meio a tantas incertezas e dúvidas, promessas encantam a quem assiste a tudo em cima do muro, ainda que elas estejam longe da verdade. A fala carismática seduz pela emoção, porém sempre estamos à mercê dela, principalmente em estado de carência latente. É impossível uma vida completamente cínica, cética e amoral. Com toda a lhaneza que me é característica, insisto no chavão sartriano da liberdade implacável. Precisamos escolher, a toda hora optamos em seguir, parar ou retornar, e é insensato anular os desejos, como tentam fazer os estóicos e os monges. Ainda que esses anseios e afetos tragam frustrações e angústias, é a vida, doce e dura. Negar a vontade pode ser vencer a natureza, mas a que preço? Viver é experimentar, ter experiências é perigoso, porém é melhor que nunca ter nascido, logo sem oportunidades de chorar ou de sorrir. Escapar pela tangente ou descer do trem mundano é escapismo – ainda que eu pense serem úteis os parcos momentos ou fases de fraqueza como essa, desde que sob controle, ou seja, ciente do buraco que está sendo cavado. É difícil ser ateu e rejeitar o trono do bom, belo e verdadeiro. Criar valores a toda hora é cansativo, via tortuosa que bagunça a mente. Mas a integridade compensa.
Com o passar do tempo a entropia aumenta exponencialmente a distância de objetos outrora adjacentes, tal qual o fenômeno inesperado do afastamento galáctico provocado pela energia escura. Contudo, para se sentir poderoso as coisas devem estar próximas do desejado e das convicções professadas pelo influente sofista. Daí a tendência à tradição, ao reacionário e ao ortodoxo que o discurso moral carrega, mas os inflexíveis não se preocupam com isso, pelo contrário, muitas vezes estimulam a intransigência e o círculo fechado, repudiando mudanças e demais ameaças à ordem idealizada. Ciclos se repetem, fundam outros e encerram mais alguns. É muito difícil identificar com precisão início ou fim, causa ou efeito, dos fenômenos sociais ou naturais que observamos e nos inserimos. É uma soberba tola e desnecessária procurar e afirmar categoricamente que encontrou essas fontes do difusionismo cultural ou genético. Assim como é burrice defender a ignorância total, que invariavelmente levará à cegueira. Deve-se sorrir ao se deparar com essas pretensões vãs, por culpa da insegurança e da imperiosa auto-afirmação. O lance é que as manias e os hábitos comandam comportamentos automáticos – brigar com o inconsciente é matar um leão por dia.
Toda conversa é furada para quem não a aprecia, não se identifica com o assunto e não precisa dela para se afirmar perante o interlocutor. O papo furado de bêbados ou de pregadores do bom costume não é inútil para quem ali gasta a sua saliva. Ao se praticar o diálogo inúmeras informações são transmitidas, entre elas a de que se deseja ser importante e entendido no tema, isto é, parte integrante da comunidade – contumaz ambição. Contudo, há os que precisam ser o maioral, o centro das atenções, o macho-alfa, e há uns chatos que querem isso a todo momento. É precipitado taxá-los de babacas, pois entra na questão do livre-arbítrio. Se ele não existe, aquele indivíduo é apenas um hospedeiro da vontade que o domina; se ele existe, toda a responsabilidade recai em cima do sujeito, que poderá se retrair diante do fardo. Se o superego dominar dessa maneira, o respeito pelo próximo será tão incrustado na pessoa que ela se fechará em timidez e temerá exercer o poder, por causa das represálias. Como de praxe, um equilíbrio é aconselhável. E a maior dica é notar que a glória costuma ser vã (vanglória), isto é, paparicos e aclamação popular são movidos por interesses: a posição e a imagem de ídolo são maiores fontes de inveja e de elogios do que a pessoa em si. O poder do cargo é maior que o poderoso. Muitos perceberam isso e compensaram com a tirania, envolta no símbolo de salvador, embuste usado apenas para se manter no alto e abafar revoltas. Nada mais humano... Sim, o homem teima em não ser pequeno e pouco mais do que qualquer outro bicho lutando para sobreviver e se reproduzir.
A metafísica enfadonha foi o contra-ataque dos ressentidos, mas uma metafísica trágica é a resposta dos que concluíram que a realidade pode até não ser o que parece, porém nem por isso autoriza a se achar dono, profeta ou sabedor do mundo. Todos têm alguma importância, alguns mais, a maioria menos, contudo ninguém é indispensável e imortal, embora se relute contra esse fato, para si e para os outros. “Você vai morrer e não vai pro céu, é bom entender, a vida é cruel”. Lose your illusions. Desespere-se, então sinta, aconchegue-se e desfrute. Não é porque eu sou mais um que eu sou um nada. De um nada eu parto e a um nada eu chego, e nesse ínterim, no imbróglio da existência, localiza-se o tudo.
8 de fevereiro de 2012
Na morte o filme da vida
Fazia um calor insuportável para os padrões do leste europeu. Naquele verão a Corrente do Golfo abandonou os ucranianos, deixando-os ofegantes. Se fossem caribenhos não sofreriam tanto. Dentro do trem os passageiros tentavam se refrescar como lhes fossem possível, alguns se abanando, outros tomando refrescos e outros simplesmente aproveitando o vento que adentrava pela janela. O odor exalado pelo suor começava a incomodar os mais sensíveis, mas o pior foram as flatulências, sempre há um sacana nesses momentos. A locomoção é sempre um incômodo a quem sofre com o clima, o estômago ou o ócio.
No antigo vagão soviético o barulho crescia, as locomotivas têm esta característica de efeito Doppler a quem ouve seus ciclos metálicos. Além da ferrugem e das peças que pareciam querer escapar da máquina para descansar na grama aconchegante, a velocidade aumentava; alguns estranharam aquele fato, mas foram se apavorar realmente quando um tripulante adentrou avisando-os de que o freio não funcionava mais, o sistema de segurança não havia disparado e que por um motivo incompreensível a aceleração era crescente, mas que estavam averiguando e fazendo de tudo para resolver o problema e parar a máquina antes de acontecer algo pior. Sim, pior, nada é tão ruim que não possa ficar pior do que o inferno em que se encontra – maldita Lei de Murphy!
Houve um burburinho entre os ucranianos: impropérios, rezas, maldições, tudo aquilo que costuma ocorrer em casos de crise e de desespero, de fato, ocorreu. Contudo, Orolev estava tranqüilo, compreendeu que chegara a hora de sua falência, apesar de saber que com 36 anos são poucos os que viveram o suficiente para ser possível atingir a resignação com a morte. Fatídica morte, a única coisa do mundo que é sem apelação – como discutir com essa tenebrosa senhora? Orolev chegou mesmo a rir dos garotos que se jogaram pela janela como último recurso, em vão, de continuarem vivos, divertindo-se com o som oco das cabeças de encontro ao chão. Lembrou do tempo em que tocava bongô. O acontecimento era uma pena, tendo em vista que justo agora ele havia se encantado com aquela ruiva no vagão que mais parecia uma deusa nórdica ou guerreira celta, de traços fortes e feições levemente masculinizadas, mas sem perder o charme das mulheres eslavas. Talvez se por algum milagre ele continuasse vivo, faria de tudo para não perder de vista, e de sua presença, aquele monumento. Era o tipo de mulher que faria do funeral uma festa.
Então algo ocorreu em sua mente, aquela lenda de passar um filme da própria vida nos poucos minutos ou segundos que antecedem a decadência orgânica total, que ele duvidava até então, ele a vivenciou. Começou a pensar nas mulheres que amara, com quem transou, com quem gostaria de trepar e naquelas que deixou de traçar em nome da fidelidade conjugal – significou felicidade conjugal? O amor alivia carências e traumas, mas não substitui o orgulho de ser um conquistador implacável, voraz e irredutível. Pois é, o homem constantemente dá valor à quantidade, ainda que seja um punhado de bijuteria. Pensou em seus antigos sonhos artísticos, nos quadros que poderia ter pintado, nos esboços, que ele tinha guardado em casa e que nunca teve coragem de expor. Lembrou de sua pequena ganância de se tornar grandioso com algum feito artístico, comercial ou político.
Passou, por conseguinte, a refletir como um adolescente, isto é, incapaz de projetar para além de uma semana; a amaldiçoar seus colegas torcedores do Dínamo que caçoavam dele, pois este sempre ganhava de seu time do coração; a ter nostalgia com sua vizinha que lhe dava bom dia e o deixava contente durante o dia inteiro, torcendo para que ela desejasse algo mais a ele e dele. Garotinho juvenil e inocente sem saber lidar com as pressões e os acasos da vida. Ficou triste pela nota baixa em aritmética, pois sabia que seus pais o admoestariam: ocaso intelectual. Aqui ele sonhava com o videogame que não haveria de ganhar, mas que não o deixava infeliz, afinal ainda tinha seu cachorro e seu hamster. Rebelde, como é característico da idade, começou a xingar e fazer pose de superior para escamotear seu temor e sua insegurança – defesas às depressões futuras.
Enfim, passou a ficar agitado e a imaginar como uma criança, que não entende nada do mundo, mas que também não teme nada. O medo surge quando há algo a perder, como um garoto não tem (conscientemente) sentimento de posse e de expectativas para o futuro, Orolev apenas vivia. Sob esse ponto de vista, as crianças são mais felizes. E teimava, como é corriqueiro à fase narcísica dos meninos recém socializados. Ele somente estranhava o fato de sua mãe não estar por perto em meio àquela balbúrdia rápida e cinzenta. Procurava, ansiosamente, por outras crianças para brincar, se divertir e conversar sobre o carrinho ganho no último aniversário. E também sobre o herói de seu desenho animado favorito, capaz de façanhas incríveis aos olhos de um tolinho.
Por fim, se contorceu em posição fetal, chorando e estranhando o fato de não haver colo e um seio para mamar; contentou-se em chupar dedo. Não queria parar de fazer isso, era a única coisa que lhe acalmava, em meio àquele mundo hostil e agitado. O trem atingira seu destino, escapara pela tangente e caíra dentro de um rio, matando grande parte dos passageiros com o impacto da batida, enquanto outros morreram afogados e apenas três conseguiram a façanha de sobreviver, não sem as cicatrizes dos ferimentos, das queimaduras e das escoriações ocasionadas pela forte colisão. Mas Orolev estava alheio a tudo isso, visto que era só instinto da terna infância, com o cérebro de um recém-nascido sequer teve noção da chegada de sua morte, estava apenas contrariado por não sentir o calor feminino e um peito em sua boca.
P.S.: Conto escrito há algum tempo por encomenda. Como não foi publicado (ao menos não que eu saiba) em lugar nenhum, exponho-o nesta oportunidade.
No antigo vagão soviético o barulho crescia, as locomotivas têm esta característica de efeito Doppler a quem ouve seus ciclos metálicos. Além da ferrugem e das peças que pareciam querer escapar da máquina para descansar na grama aconchegante, a velocidade aumentava; alguns estranharam aquele fato, mas foram se apavorar realmente quando um tripulante adentrou avisando-os de que o freio não funcionava mais, o sistema de segurança não havia disparado e que por um motivo incompreensível a aceleração era crescente, mas que estavam averiguando e fazendo de tudo para resolver o problema e parar a máquina antes de acontecer algo pior. Sim, pior, nada é tão ruim que não possa ficar pior do que o inferno em que se encontra – maldita Lei de Murphy!
Houve um burburinho entre os ucranianos: impropérios, rezas, maldições, tudo aquilo que costuma ocorrer em casos de crise e de desespero, de fato, ocorreu. Contudo, Orolev estava tranqüilo, compreendeu que chegara a hora de sua falência, apesar de saber que com 36 anos são poucos os que viveram o suficiente para ser possível atingir a resignação com a morte. Fatídica morte, a única coisa do mundo que é sem apelação – como discutir com essa tenebrosa senhora? Orolev chegou mesmo a rir dos garotos que se jogaram pela janela como último recurso, em vão, de continuarem vivos, divertindo-se com o som oco das cabeças de encontro ao chão. Lembrou do tempo em que tocava bongô. O acontecimento era uma pena, tendo em vista que justo agora ele havia se encantado com aquela ruiva no vagão que mais parecia uma deusa nórdica ou guerreira celta, de traços fortes e feições levemente masculinizadas, mas sem perder o charme das mulheres eslavas. Talvez se por algum milagre ele continuasse vivo, faria de tudo para não perder de vista, e de sua presença, aquele monumento. Era o tipo de mulher que faria do funeral uma festa.
Então algo ocorreu em sua mente, aquela lenda de passar um filme da própria vida nos poucos minutos ou segundos que antecedem a decadência orgânica total, que ele duvidava até então, ele a vivenciou. Começou a pensar nas mulheres que amara, com quem transou, com quem gostaria de trepar e naquelas que deixou de traçar em nome da fidelidade conjugal – significou felicidade conjugal? O amor alivia carências e traumas, mas não substitui o orgulho de ser um conquistador implacável, voraz e irredutível. Pois é, o homem constantemente dá valor à quantidade, ainda que seja um punhado de bijuteria. Pensou em seus antigos sonhos artísticos, nos quadros que poderia ter pintado, nos esboços, que ele tinha guardado em casa e que nunca teve coragem de expor. Lembrou de sua pequena ganância de se tornar grandioso com algum feito artístico, comercial ou político.
Passou, por conseguinte, a refletir como um adolescente, isto é, incapaz de projetar para além de uma semana; a amaldiçoar seus colegas torcedores do Dínamo que caçoavam dele, pois este sempre ganhava de seu time do coração; a ter nostalgia com sua vizinha que lhe dava bom dia e o deixava contente durante o dia inteiro, torcendo para que ela desejasse algo mais a ele e dele. Garotinho juvenil e inocente sem saber lidar com as pressões e os acasos da vida. Ficou triste pela nota baixa em aritmética, pois sabia que seus pais o admoestariam: ocaso intelectual. Aqui ele sonhava com o videogame que não haveria de ganhar, mas que não o deixava infeliz, afinal ainda tinha seu cachorro e seu hamster. Rebelde, como é característico da idade, começou a xingar e fazer pose de superior para escamotear seu temor e sua insegurança – defesas às depressões futuras.
Enfim, passou a ficar agitado e a imaginar como uma criança, que não entende nada do mundo, mas que também não teme nada. O medo surge quando há algo a perder, como um garoto não tem (conscientemente) sentimento de posse e de expectativas para o futuro, Orolev apenas vivia. Sob esse ponto de vista, as crianças são mais felizes. E teimava, como é corriqueiro à fase narcísica dos meninos recém socializados. Ele somente estranhava o fato de sua mãe não estar por perto em meio àquela balbúrdia rápida e cinzenta. Procurava, ansiosamente, por outras crianças para brincar, se divertir e conversar sobre o carrinho ganho no último aniversário. E também sobre o herói de seu desenho animado favorito, capaz de façanhas incríveis aos olhos de um tolinho.
Por fim, se contorceu em posição fetal, chorando e estranhando o fato de não haver colo e um seio para mamar; contentou-se em chupar dedo. Não queria parar de fazer isso, era a única coisa que lhe acalmava, em meio àquele mundo hostil e agitado. O trem atingira seu destino, escapara pela tangente e caíra dentro de um rio, matando grande parte dos passageiros com o impacto da batida, enquanto outros morreram afogados e apenas três conseguiram a façanha de sobreviver, não sem as cicatrizes dos ferimentos, das queimaduras e das escoriações ocasionadas pela forte colisão. Mas Orolev estava alheio a tudo isso, visto que era só instinto da terna infância, com o cérebro de um recém-nascido sequer teve noção da chegada de sua morte, estava apenas contrariado por não sentir o calor feminino e um peito em sua boca.
P.S.: Conto escrito há algum tempo por encomenda. Como não foi publicado (ao menos não que eu saiba) em lugar nenhum, exponho-o nesta oportunidade.
28 de janeiro de 2012
O Fascínio das Máscaras
As máscaras me fascinam. Você pode até discordar, mas este texto não é sobre você, é sobre mim, e também não quero convencer ninguém do poder que elas causam, é apenas para justificar meu sentimento. Talvez tenha sido o filme O Máskara que eu adorava ver quando criança. Justificativa boba, com certeza, racionalizar as emoções perde grande parte do encantamento delas, com isso nós acabamos por descobrir falhas e defeitos, sejam dos objetos sejam os nossos, durante o trajeto do discurso. Bem, isso é o que menos importa, eu apenas me delongo por exercício literário a fim de estimular minha prolixidade.
Originalmente, as máscaras, que podem ser feitas de materiais sólidos e relativamente duros ou então de corantes para pintar o corpo, serviam para fins religiosos e ritualísticos. Muitos devem saber disso, afinal quanto mais primitiva uma sociedade, mais os aspectos místicos e sobrenaturais permearão aquela cultura. A principal simbologia é no sentido de encarnar as forças da entidade desejada (persona, no caso do teatro), se não a própria entidade mítica, visando afastar coisas prejudiciais, como secas, morte ou dilúvio, ou atrair coisas boas e elevadas, como clarividência, curas e coragem. Ocorre, por vezes, um conflito, ou uma dualidade, entre o bem e o mal. Ambos existem, cabe ao homem saber utilizar cada um dos pólos no momento que lhe for conveniente e arcar com suas conseqüências, como ocorre no candomblé. A presença do mascarado facilita a leitura dos participantes do culto e assegura alguma ordem em meio ao caos natural, ou ainda à confusão da cosmogonia.
Os ritos são envoltos em seriedade moral, reforçando um compromisso emocional e social, regulando, coagindo e disciplinando os membros. Há também as máscaras fúnebres, que facilitam a travessia dos mortos, como ocorria no Egito, as de animais que encarnavam o espírito selvagem do espécime, e as que representam funções sociais, como símbolo de status ou de passagem para outra fase da vida. Há, ainda, aquelas para a guerra ou combate, que protegem física e psicologicamente o soldado/guerreiro, entre outros exemplos. O ponto em comum entre todas elas é a mudança de personalidade e a identificação com a ideia.
E por que se faz necessária essa mudança, esse intercâmbio de caráter e de atitudes? O homem tem muita dificuldade em ser íntegro e autêntico o tempo inteiro, precisando de formas de êxtase e evasão, acessando o inconsciente, ou seres metafísicos? Até que ponto uma vestimenta encarna outro aspecto da personalidade, que não havia no corpo totalmente nu? A máscara é o adorno mais representativo em dissimular, camuflar e transmutar a pessoa? É provável que sim, afinal evoluímos socialmente para aprender a identificar minúsculos detalhes do rosto, como rugas, pintas, expressões, heranças genéticas e desfaçatez. Coisa que não acontece com o restante do corpo, que apresenta formatos, relevos e texturas mais homogêneos, e dependendo da cultura encontra-se totalmente escondido.
Expressões multifacetadas, necessidade de assumir uma aparência pública de títulos e possuir um orgulho por ser tão honrado. Quando a pessoa se resume a essas procuras incessantemente e nega aquela calma meditativa que os orientais tanto nos ensinam, que seria sinônimo de serenidade e do maior passo no trajeto diário da felicidade (é claro que aconselhar a adoção exclusiva desta postura zen aos ocidentais é um erro, eu falo da lição), essa pessoa me pareceria perdida e escrava de seu ambiente, com a cabeça rodando diante das pressões da competitividade. Esta máscara egocêntrica seria a da hipocrisia, que seduz pela ilusão de ser um axioma, bem diferente daquela primordial, que era a que buscava curas e crescimento pessoal pela comunicação com forças e espíritos diversos. Como prismas e caleidoscópios que nos oferecem imagens borradas, distorcidas e oscilantes, mas que estimulam a criatividade e uma perspectiva enriquecida, através das novas percepções.
Nos Carnavais de Veneza ou do RJ, nas Saturnais romanas, no Mardi Gras de New Orleans, nas festas à fantasia corriqueiras, está implícita a idéia de libertação, de se fazer o que não se pode ou não se deve praticar na rotina de trabalho e estudos. Pela catarse, pela epifania, pela inversão de valores e de papéis, os sentimentos de pertencimento à natureza, à vida, ao grupo, se fortalecem. São momentos dionisíacos de despersonalização em prol da integração e do pacto, de denúncia do ridículo de normas, instituições e paradigmas, e de percepção de ser apenas mais um integrando um todo grandioso e importante. Doravante, são reveladas a fragilidade e a efemeridade da existência, o que nos enriquece, faz perder a arrogância no mundo fechado em que estávamos – este não passava de uma criação ilusória para proteção contra os inimigos desconhecidos que sempre suprimem as idiossincrasias.
Os teatros romanos e gregos, preferencialmente este último, lidaram muito bem com a idéia de representação e imitação. Oscilavam o trágico e o cômico, o sagrado e o satírico, o real e o falso, alegrias e tristezas. Aludiam a temas e personagens do passado, evocando-os no momento da encenação. Os atores, o cenário e as máscaras eram os principais símbolos para a compreensão do público, bem como do aspecto mítico e moral que carregava. Pela mediação entre o texto/roteiro/mito e o espectador/iniciante o ator/articulador (hypokrités) se transforma num herói ou vilão, capaz de enfrentar qualquer adversidade, expressando com todo o corpo a mensagem, mas que só a máscara é capaz de enfatizar.
E o que se pode falar de hoje? Onde estão as máscaras, ou os mascarados, da contemporaneidade? Bem, elas existem, mas ainda resgatam a memória dos antepassados e a tradição de uma cultura longeva? Elas estimulam a fantasia e o lirismo no espectador? Ou todo o caráter mítico, mágico e sobrenatural se perdeu e foi substituído por desejos egoístas e inseguros, que querem se refugiar num anonimato apenas para prejudicar os outros, sem trazer simbologias éticas e de partilha? Em parte sim, conforme vemos os avatares nas redes sociais que anseiam por denegrir a imagem dos outros porque a própria reputação está manchada ou é nula. Há ainda a espoliação das artes populares pela máquina e pela globalização esmagadora; a arte e o artista, regionais e envolvidos na cultura carregada de simbolismo próprio, passam a ser estigmatizados como artesanato e artesão, tornando-se, enfim, peça e operário. Nessa linha vai se perdendo o rico e subjetivo sentido da vida.
Não é preciso estar em cima do palco ou participando de um ritual para vestir uma máscara e se transformar. Roupas, decoração, maquiagem, corte de cabelo e alteração de semblante já seriam suficientes para a mente captar a intenção e alterar, ao menos em parte, o sentimento e a expressão do indivíduo em terminada situação. O maior exemplo é a mulher que sai para a festa ou a balada. Sem um vestido bonito e atraente, sem uma maquiagem que esconda defeitos e sem um penteado bem cuidado e invejado, ela se sentiria insegura na roda de amigos e para ser considerada gata pelo namorado ou pelos homens que ela deseja atrair. No trabalho e em ocasiões formais ocorre a mesma coisa, com quem precisa de segurança para não ser esculachado por olhos perversos. Se usássemos uma máscara, que possui uma expressão fixa e transmite, geralmente, uma intenção apenas, seria mais fácil. Mas a vida social exige dinamismo e complexidade, essas simplicidades são quimeras.
Por fim, descrevo o que penso dos heróis e vilões mascarados. Ao assumir o anonimato o herói realiza atos duplamente heróicos. Primeiro, por “fazer o bem” sem isso ser necessário e, segundo, por não querer glória (enquanto cidadão comum). A dúvida é saber até que ponto o homem ordinário ainda tem orgulho de sua limitação e não precisa se modificar para se sentir bem. O Superman não conta porque ele, ironicamente, não é humano. O Batman é um caso mais oportuno, pois ele não tem superpoderes e tem uma vida boa como magnata. Ao vestir a armadura ele se torna uma pessoa sombria que desperta medo em muitos conterrâneos, e não é incomum ele abdicar de seu alter ego, cansado da fantasia e da maldade de sua sociedade. Mas a esperança não morre e ele persiste com o personagem salvador. O Wolverine é outro que prefere ser ele mesmo a ser herói.
Contudo, a maioria prefere a idéia de ser grande e idolatrado. Esse também é o caso dos vilões, só que esses agem mais para chamar atenção porque não conseguem ou não gostam ser bons moços. Eles se mascaram para não serem reconhecidos; é fácil notar que seus personagens servem para fazer o que sempre quiseram, mas que a moral não permitia. Sob a máscara a coragem aparece e o homem que ali havia antes não existe mais, por ser medroso. Resta saber até que ponto sua crise de identidade se manifestará, se o comportamento antissocial era seu ideal e só faltava o empurrão do anonimato ou se a vanglória subiu-lhe à cabeça, a ponto de se tornar um vício, não querendo voltar no tempo para levar uma vida mais frugal. Há rebeldia, insegurança e dificuldade de entender e lidar com as opressões. Fugindo para a “maldade”, o vilão colhe os frutos da sua rapina e dos seus raptos, porém fica condenado pelos outros e por si mesmo a usar a máscara. Sem ela doerá ver no espelho a contradição entre a honestidade e a ingenuidade daquele rosto outrora ético e a ganância do bandido disfarçado. Fora das HQs nós também fazemos essas escolhas, qual máscara usar, quando e por quanto tempo? Elas são reflexos de nossas personalidades ou elas passam a incorporar em nós características antes ausentes? A partir disso, agiremos: herói ou vilão?
//\///_-_-_
P.S.: Esse assunto rende mais ainda, até pq eu não falei tudo o q gostaria, mas como parece ser um tema nerd (HQ) e eu não tenho opiniões muito abalizadas, deixo por isso mesmo. É assim, muitas vezes me contento com o pouco q tenho, a frugalidade pode ser um bom remédio para ambições desmedidas - a gestão do pior.
Originalmente, as máscaras, que podem ser feitas de materiais sólidos e relativamente duros ou então de corantes para pintar o corpo, serviam para fins religiosos e ritualísticos. Muitos devem saber disso, afinal quanto mais primitiva uma sociedade, mais os aspectos místicos e sobrenaturais permearão aquela cultura. A principal simbologia é no sentido de encarnar as forças da entidade desejada (persona, no caso do teatro), se não a própria entidade mítica, visando afastar coisas prejudiciais, como secas, morte ou dilúvio, ou atrair coisas boas e elevadas, como clarividência, curas e coragem. Ocorre, por vezes, um conflito, ou uma dualidade, entre o bem e o mal. Ambos existem, cabe ao homem saber utilizar cada um dos pólos no momento que lhe for conveniente e arcar com suas conseqüências, como ocorre no candomblé. A presença do mascarado facilita a leitura dos participantes do culto e assegura alguma ordem em meio ao caos natural, ou ainda à confusão da cosmogonia.
Os ritos são envoltos em seriedade moral, reforçando um compromisso emocional e social, regulando, coagindo e disciplinando os membros. Há também as máscaras fúnebres, que facilitam a travessia dos mortos, como ocorria no Egito, as de animais que encarnavam o espírito selvagem do espécime, e as que representam funções sociais, como símbolo de status ou de passagem para outra fase da vida. Há, ainda, aquelas para a guerra ou combate, que protegem física e psicologicamente o soldado/guerreiro, entre outros exemplos. O ponto em comum entre todas elas é a mudança de personalidade e a identificação com a ideia.
E por que se faz necessária essa mudança, esse intercâmbio de caráter e de atitudes? O homem tem muita dificuldade em ser íntegro e autêntico o tempo inteiro, precisando de formas de êxtase e evasão, acessando o inconsciente, ou seres metafísicos? Até que ponto uma vestimenta encarna outro aspecto da personalidade, que não havia no corpo totalmente nu? A máscara é o adorno mais representativo em dissimular, camuflar e transmutar a pessoa? É provável que sim, afinal evoluímos socialmente para aprender a identificar minúsculos detalhes do rosto, como rugas, pintas, expressões, heranças genéticas e desfaçatez. Coisa que não acontece com o restante do corpo, que apresenta formatos, relevos e texturas mais homogêneos, e dependendo da cultura encontra-se totalmente escondido.
Expressões multifacetadas, necessidade de assumir uma aparência pública de títulos e possuir um orgulho por ser tão honrado. Quando a pessoa se resume a essas procuras incessantemente e nega aquela calma meditativa que os orientais tanto nos ensinam, que seria sinônimo de serenidade e do maior passo no trajeto diário da felicidade (é claro que aconselhar a adoção exclusiva desta postura zen aos ocidentais é um erro, eu falo da lição), essa pessoa me pareceria perdida e escrava de seu ambiente, com a cabeça rodando diante das pressões da competitividade. Esta máscara egocêntrica seria a da hipocrisia, que seduz pela ilusão de ser um axioma, bem diferente daquela primordial, que era a que buscava curas e crescimento pessoal pela comunicação com forças e espíritos diversos. Como prismas e caleidoscópios que nos oferecem imagens borradas, distorcidas e oscilantes, mas que estimulam a criatividade e uma perspectiva enriquecida, através das novas percepções.
Nos Carnavais de Veneza ou do RJ, nas Saturnais romanas, no Mardi Gras de New Orleans, nas festas à fantasia corriqueiras, está implícita a idéia de libertação, de se fazer o que não se pode ou não se deve praticar na rotina de trabalho e estudos. Pela catarse, pela epifania, pela inversão de valores e de papéis, os sentimentos de pertencimento à natureza, à vida, ao grupo, se fortalecem. São momentos dionisíacos de despersonalização em prol da integração e do pacto, de denúncia do ridículo de normas, instituições e paradigmas, e de percepção de ser apenas mais um integrando um todo grandioso e importante. Doravante, são reveladas a fragilidade e a efemeridade da existência, o que nos enriquece, faz perder a arrogância no mundo fechado em que estávamos – este não passava de uma criação ilusória para proteção contra os inimigos desconhecidos que sempre suprimem as idiossincrasias.
Os teatros romanos e gregos, preferencialmente este último, lidaram muito bem com a idéia de representação e imitação. Oscilavam o trágico e o cômico, o sagrado e o satírico, o real e o falso, alegrias e tristezas. Aludiam a temas e personagens do passado, evocando-os no momento da encenação. Os atores, o cenário e as máscaras eram os principais símbolos para a compreensão do público, bem como do aspecto mítico e moral que carregava. Pela mediação entre o texto/roteiro/mito e o espectador/iniciante o ator/articulador (hypokrités) se transforma num herói ou vilão, capaz de enfrentar qualquer adversidade, expressando com todo o corpo a mensagem, mas que só a máscara é capaz de enfatizar.
E o que se pode falar de hoje? Onde estão as máscaras, ou os mascarados, da contemporaneidade? Bem, elas existem, mas ainda resgatam a memória dos antepassados e a tradição de uma cultura longeva? Elas estimulam a fantasia e o lirismo no espectador? Ou todo o caráter mítico, mágico e sobrenatural se perdeu e foi substituído por desejos egoístas e inseguros, que querem se refugiar num anonimato apenas para prejudicar os outros, sem trazer simbologias éticas e de partilha? Em parte sim, conforme vemos os avatares nas redes sociais que anseiam por denegrir a imagem dos outros porque a própria reputação está manchada ou é nula. Há ainda a espoliação das artes populares pela máquina e pela globalização esmagadora; a arte e o artista, regionais e envolvidos na cultura carregada de simbolismo próprio, passam a ser estigmatizados como artesanato e artesão, tornando-se, enfim, peça e operário. Nessa linha vai se perdendo o rico e subjetivo sentido da vida.
Não é preciso estar em cima do palco ou participando de um ritual para vestir uma máscara e se transformar. Roupas, decoração, maquiagem, corte de cabelo e alteração de semblante já seriam suficientes para a mente captar a intenção e alterar, ao menos em parte, o sentimento e a expressão do indivíduo em terminada situação. O maior exemplo é a mulher que sai para a festa ou a balada. Sem um vestido bonito e atraente, sem uma maquiagem que esconda defeitos e sem um penteado bem cuidado e invejado, ela se sentiria insegura na roda de amigos e para ser considerada gata pelo namorado ou pelos homens que ela deseja atrair. No trabalho e em ocasiões formais ocorre a mesma coisa, com quem precisa de segurança para não ser esculachado por olhos perversos. Se usássemos uma máscara, que possui uma expressão fixa e transmite, geralmente, uma intenção apenas, seria mais fácil. Mas a vida social exige dinamismo e complexidade, essas simplicidades são quimeras.
Por fim, descrevo o que penso dos heróis e vilões mascarados. Ao assumir o anonimato o herói realiza atos duplamente heróicos. Primeiro, por “fazer o bem” sem isso ser necessário e, segundo, por não querer glória (enquanto cidadão comum). A dúvida é saber até que ponto o homem ordinário ainda tem orgulho de sua limitação e não precisa se modificar para se sentir bem. O Superman não conta porque ele, ironicamente, não é humano. O Batman é um caso mais oportuno, pois ele não tem superpoderes e tem uma vida boa como magnata. Ao vestir a armadura ele se torna uma pessoa sombria que desperta medo em muitos conterrâneos, e não é incomum ele abdicar de seu alter ego, cansado da fantasia e da maldade de sua sociedade. Mas a esperança não morre e ele persiste com o personagem salvador. O Wolverine é outro que prefere ser ele mesmo a ser herói.
Contudo, a maioria prefere a idéia de ser grande e idolatrado. Esse também é o caso dos vilões, só que esses agem mais para chamar atenção porque não conseguem ou não gostam ser bons moços. Eles se mascaram para não serem reconhecidos; é fácil notar que seus personagens servem para fazer o que sempre quiseram, mas que a moral não permitia. Sob a máscara a coragem aparece e o homem que ali havia antes não existe mais, por ser medroso. Resta saber até que ponto sua crise de identidade se manifestará, se o comportamento antissocial era seu ideal e só faltava o empurrão do anonimato ou se a vanglória subiu-lhe à cabeça, a ponto de se tornar um vício, não querendo voltar no tempo para levar uma vida mais frugal. Há rebeldia, insegurança e dificuldade de entender e lidar com as opressões. Fugindo para a “maldade”, o vilão colhe os frutos da sua rapina e dos seus raptos, porém fica condenado pelos outros e por si mesmo a usar a máscara. Sem ela doerá ver no espelho a contradição entre a honestidade e a ingenuidade daquele rosto outrora ético e a ganância do bandido disfarçado. Fora das HQs nós também fazemos essas escolhas, qual máscara usar, quando e por quanto tempo? Elas são reflexos de nossas personalidades ou elas passam a incorporar em nós características antes ausentes? A partir disso, agiremos: herói ou vilão?
//\///_-_-_
P.S.: Esse assunto rende mais ainda, até pq eu não falei tudo o q gostaria, mas como parece ser um tema nerd (HQ) e eu não tenho opiniões muito abalizadas, deixo por isso mesmo. É assim, muitas vezes me contento com o pouco q tenho, a frugalidade pode ser um bom remédio para ambições desmedidas - a gestão do pior.
24 de janeiro de 2012
Você tem medo do quê?
Que Medo?
Vemos na TV, em filmes, seriados policiais,
O horror, em games, suspenses e manchetes de jornais.
Temor e fobia das exceções, do particular,
Torna-se a regra; é demais, tudo parece declinar
A elite e os poderosos obtêm fartos lucros
Com o medo disseminado prioritariamente
Pela mídia, da urgência e do espanto dependente,
Que manipula a percepção, vidrando olhos brutos
Os medos vão se alimentado, uns aos outros,
Enquanto a maioria se retrai e não vive
A minoria se diverte com o capeta solto
O poder me ilude com o que eu nunca tive
As boas novas costumam restar, ignoradas:
As estatísticas precisam ser más, adulteradas.
Pelo debate non sense e simplista não se aprende
Sobre o contexto geral, que de tudo depende
São raros casos, mas os parcos insanos chocam.
Muito alardeiam, divulgam, ressoam, retumbam!
Os sensacionalistas à tarde de plantão
São experts em plantar ciladas e dissensão
Anseio e pavor diante do desconhecido
Receio e terror de conjecturas tenebrosas
Fanfarrões ditam a diária e líquida prosa;
Ficções repetidas como fatos verídicos
A pobreza, a desigualdade social,
Cidades inchadas de gente, sem empregos,
Falta de atenção por parentes sem apego
São as causas da violência e da dependência.
Drogas e armas fáceis só disparam o mal
Preferimos adiar os problemas profundos
Aparentemente insolúveis e pouco baratos
Para nos dedicarmos àqueles imediatos
Com alvos e culpados exatos – puna os imundos!
Adoramos bodes expiatórios – malha o Judas! –
Há clareza, controle e certeza: imperativa calma.
Pouco nos importa se assim vendêssemos a alma,
Pois com inimigo invisível: “Deus nos acuda”
Cresceu a insegurança por estas perdas:
De nossas provisórias vidas e posses.
Raciocínio doente, pessoas azedas.
Certas mudanças podem ser golpes de sorte
Vemos na TV, em filmes, seriados policiais,
O horror, em games, suspenses e manchetes de jornais.
Temor e fobia das exceções, do particular,
Torna-se a regra; é demais, tudo parece declinar
A elite e os poderosos obtêm fartos lucros
Com o medo disseminado prioritariamente
Pela mídia, da urgência e do espanto dependente,
Que manipula a percepção, vidrando olhos brutos
Os medos vão se alimentado, uns aos outros,
Enquanto a maioria se retrai e não vive
A minoria se diverte com o capeta solto
O poder me ilude com o que eu nunca tive
As boas novas costumam restar, ignoradas:
As estatísticas precisam ser más, adulteradas.
Pelo debate non sense e simplista não se aprende
Sobre o contexto geral, que de tudo depende
São raros casos, mas os parcos insanos chocam.
Muito alardeiam, divulgam, ressoam, retumbam!
Os sensacionalistas à tarde de plantão
São experts em plantar ciladas e dissensão
Anseio e pavor diante do desconhecido
Receio e terror de conjecturas tenebrosas
Fanfarrões ditam a diária e líquida prosa;
Ficções repetidas como fatos verídicos
A pobreza, a desigualdade social,
Cidades inchadas de gente, sem empregos,
Falta de atenção por parentes sem apego
São as causas da violência e da dependência.
Drogas e armas fáceis só disparam o mal
Preferimos adiar os problemas profundos
Aparentemente insolúveis e pouco baratos
Para nos dedicarmos àqueles imediatos
Com alvos e culpados exatos – puna os imundos!
Adoramos bodes expiatórios – malha o Judas! –
Há clareza, controle e certeza: imperativa calma.
Pouco nos importa se assim vendêssemos a alma,
Pois com inimigo invisível: “Deus nos acuda”
Cresceu a insegurança por estas perdas:
De nossas provisórias vidas e posses.
Raciocínio doente, pessoas azedas.
Certas mudanças podem ser golpes de sorte
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