29 de julho de 2012
Moda FDP
A moda é uma filha da puta,
Só agrada às modelos e aos caras que são frutas
Padrões europeus inalcançáveis
Ganância à venda a presas tão frágeis
Até mesmo o exótico se põe calculado.
Fica fácil seduzir tolos esvaziados
As cotas servem para escamotear
Corriqueiras alegações de elitismo,
São acusações de quem à margem ficou.
Só que basta assobiar para o rabinho abanar
Rebola e rebola, enrola e assola
O recalcado, um bajulador manipulado,
Grita “cai fora” à própria imagem de outrora;
Chutando cachorros vai a bichinha embora
Então chora, sim, triste chora...
Em que consiste a dessemelhança?
Resta apenas a diferença de alocação
Sua posição somente redireciona,
Não passa de ilusão: pirâmide ou lona
Pirâmide. Ah, pirâmide social!
Admirável retrato do estrato
Muitos a escalam, então se vangloriam,
Revelando o caráter do ser - grande boçal
A moda é uma filha da puta,
Só agrada às modelos e aos caras que são frutas.
Império da correta imagem,
Resumido em lorota e contínua veadagem
Muita pompa e pose; ó, santo photoshop
Quanta frescura sob a alcunha “fashion”
O knowhow está dentro dos books
Todo o background ali, na passarela
Meninas topando tudo por flashes
Calculadora somando prioridades
Tantas almas medidas em cash
Buscam seus tão fugazes prestígios –
Obsessão como o preço da vaidade
Vigoram as anoréxicas garotas
E os vigoréxicos metrossexuais
Virou chique ter disfunção sexual
Sobraria sem os lesados o tédio,
Declararia a indústria bancarrota
Vide as fotografias de outros tempos,
Aquele da tua avó: tempo do Ariri.
Com a mesma roupa desbotada,
Porque mamãe agora é vista assim.
Contra rugas e apelos, difícil é haver fadas
Há uma ordem: o guarda-roupa renovar
Tudo pra vender, e a nossa mente lesar
Não seguir a tendência da estação
É se autoflagelar perante os órfãos
Da desditosa, mas útil, tradição
A moda é uma filha da puta,
Só agrada às modelos e aos caras que são frutas
11 de julho de 2012
Uma cacofonia qualquer germina
Minha grosseira cacofonia
Sem poder me
livrar da mania de organizar orgias,
Sua enorme
energia incitava vagotonia,
Me entreguei
à metalurgia – um pasmo de sintonia.
Outrora o
tempo urgia; agora resto em catatonia
Era uma
agonia conviver com tal hemorragia
Já que a
harmonia se foi, fiquei com esta alergia.
Passava eu
por cirurgia quando o doutor a pele unia
E, a fim de
escapar da letargia, contraiu pneumonia
Emergia a
alegria e a sinergia da sertania
Enquanto a
ventania trazia, sem qualquer cerimônia,
Sua habitual
magia, quedando qualquer querimônia,
Esta fobia
de quem covarde a vida regia
Rangia a
porteira e a parteira notava a coprofagia
Do iniciado
em necromancia (culpe a autoctonia)
Duma antiga
capitania, usurpado sem parcimônia
Nem
misericórdia vazia. Sentia ardor de amônia!
Caqui? Cá,
aqui.
Cadê ela, a
cadela?
Se estiver
lá, e a sesta velar,
Ela pra cá,
a mandala, mandá-la-ia.
Fiz, e de
novo faria, esta grosseira cacofonia
Aguarde o capim germinar
São
mixarias, nuances, detalhes,
Tantos
aspectos banais, veniais,
Antes tão
invisíveis quanto garis.
Meus olhos
não estavam prontos pra ver:
O coração
ignora o que não o faz bater
Saudosamente
ouço alguém dizer:
“Olha como a
lua hoje está bela!”
Lembro da
clássica película de Méliès.
Uma frase
apazigua querelas
É a volta do
sentimento de nostalgia
Das coisas
que eu nunca vi, mas vivi,
Pude
experienciá-las amiúde.
Ah, tantas
vidas já passaram, perdidas
Um vendaval
derruba panos e planos.
À guerra
prosseguem vários danos,
Mas o ancião
persegue sorrisos;
Singelo, recebe
a sós seus amigos.
Este é hoje
o solo onde leve eu piso
Agora pode?
Ainda não!
É momento da
milagrosa oração
Aguardo a
terra germinar o capim.
E agora,
pode? Agora sim!
9 de julho de 2012
Delirante, Maçante e Broxante
O cantante era um estudante diletante, estava já ofegante e
delirante, mas tentou, por um instante aviltante, tornar-se um extravagante
mutante, inda vacilante, no tocante a não ser gratificante e nem estimulante,
porque a todos os ambulantes não passava de um horripilante e degradante
gritante, pois sua voz incessante e contrastante tinha, de forma predominante,
sons dissonantes; um galante pedante parecia, porém elegante se via (de fato,
um comediante perseverante).
Bufante, a debutante, uma falante cheia de implantes
chocantes mais cores berrantes, gritou aos dançantes algumas desconcertantes
frases redundantes, mas julgando-as ressonantes; nenhum infante participante
entendeu o preocupante, também alarmante, rasante da notória arrogante
farsante. Doravante, os ocupantes se serviram de espumantes refrescantes,
enquanto seu odor lacrimejante era fingido com desodorantes de teor perfumante
(sempre desinfetantes) pelos fumantes.
Num rompante, o feirante vacilante ingeriu seis calmantes
dum fabricante importante, mas era purgante, e talvez com adoçante; a
cartomante o instigou e, suplicante, pulou até a reconfortante sala do
governante, como reclamante militante (ah, inconstante votante), exigir um
instigante reparo, não era pujante ou gigante, é claro, mas edificante e
equivalente, em sua oscilante mente de errante. Almejava ser um viajante em
Nantes, esse replicante maçante.
Todo diamante é cintilante, quase flamejante, ofuscante até
aos comandantes – excitante! Com seu ar triunfante se faz fulminantes aos
exultantes pagantes, algo marcante. Ver seu eqüidistante formato é ao visitante
da loja picante deveras impactante.
- Levantem seus
pisantes antiderrapantes e saiam em alucinante corrida de elefantes galopantes,
a fim dos jactantes restarem conflitantes com a visão culminante e apaixonante
do nunca desgastante diamante.
O ficante prendeu barbantes no volante e os uniu ao hidrante
transbordante – palpitante saiu. A lactante, por sua vez, descolorante e
alvejante depositou na sauna fumegante, composta por assinantes ultrajantes –
para ela foi emocionante, para eles, broxante.
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h
30 de junho de 2012
Maquiagem: a batalha velada
Maquiagem, do francês maquillage,
para os afrescalhados é o make up, é
a pintura facial e inclusive a corporal. Qual é a finalidade, qual a motivação,
o costume, a tradição ou a tendência da moda que impele uma pessoa a se pintar?
Afinal, não é tão natural assim, há algo por trás desse fim, que em muitas
culturas se tornou corriqueiro, sendo considerado pelos mantenedores da ordem até
mesmo falta de decência, de civilidade mesmo, não maquiar a pele, essa coisa
tão grosseira – epiderme defeituosa. Esta segunda pele, com claras intenções
sociais e retificadores, tenta substituir a pele biológica, herdeira de uma nem
sempre bela seleção natural. E haverá sempre uma velha fofoqueira a espalhar discórdia
e um afeminado a clamar alegria.
A origem pode ser religiosa (ritualista), como em
celebrações de fertilidade e cerimônias fúnebres, ou então guerreira (agonística),
ou apenas estética e símbolo de alguma função ou posição social, como é o caso
de qualquer adereço e adorno. Sociedades tribais têm por costume se apresentar a
suas entidades místicas e protetoras devidamente caracterizadas, visto que
seria uma ofensa entrar em contato com o divino como se fosse mais uma
atividade do cotidiano, como plantar mandioca ou descascar batata. Ao
perceber-se como parte da natureza, com capacidade para alterá-la e até
domá-la, o homem precisou de artifícios para simbolizar sua passagem de bicho
para civilizado. Essa etiqueta das etnias exige um formalismo, ainda que
excêntrico para nós, os “pós-bárbaros”, pois a falta de vestimenta sempre
chocou os pudicos e europeus. A selvageria, a bizarrice ou a agressividade para
uns é a naturalidade ou a trivialidade para outros. É sempre chocante
deparar-se com algo a que não se está habituado. Oh, quantos julgamentos
inflexíveis!
O combate é outra coisa importante para os indígenas, é
preciso preparar-se e fazer as honrarias e superstições de praxe a fim de não
ter consciência pesada e de ninguém alegar negligência por parte do guerreiro. A
pintura, assim como a armadura e as insígnias, inspira respeito e dignidade aos
fracos e covardes – nítida hierarquia que distingue tipos humanos. Numa guerra
só vence quem se arrisca, mas sabemos que todo cuidado pode ser pouco, e fatal.
É claro que se mandinga tivesse a força que se pensa, o campeonato baiano
acabava empatado, porém o determinismo em vestir a mesma cueca, pisar com o pé
direito, fazer o sinal da cruz ou bater na madeira três vezes é anterior, e
obviamente superior, ao indivíduo. Quem já se iludiu testemunhar atividades
paranormais e macumba pesada não ousará contestar, muito menos desafiar, tal
poder.
E na cidade, nos grandes centros urbanos, nas pós-modernas e
frenéticas metrópoles, apinhada de gente que se julga muito distante dos
índios, do povo do mato? Ah, eles não vivem em comunidade de duzentos
habitantes, não caçam nem coletam, eles estudam, pegam engarrafamento e xingam
a máquina. Seus símbolos os diferem e coloca-os acima dos demais. Jamais se
sentiriam bem se comparando a povos atrasados, cujas referências são os deuses
pequeninos, bem aquém do Todo-Poderoso Jeová. Seus ídolos, ícones e paradigmas
são justificados, apesar de serem recentes, mas o tempo não prova nada, não é
mesmo? A juventude é um bem em si; quem vive de passado é museu e arqueólogo. A
sociedade individualista incentiva e (só) gera pessoas únicas, tão diferentes
entre si quanto plantas da mesma espécie criadas em ambientes separados.
Enquanto crescem e se autoafirmam, os jovens precisam se identificar com algum
grupo (tribos urbanas), ou seja, no fundo desejam assemelhar-se, desde que
dentro de um estilo visto como descolado e conveniente. É claro que eles se
misturam com ressalvas, pois se simplesmente copiassem uns aos outros seriam
criticados por falta de personalidade (muitos já desistiram disso, desejando
ser covers, com orgulho).
E onde fica a maquilagem, lá do começo, nessa antropologia
barata? Ela fica no paralelo que eu faço entre o índio/primitivo e o sujeito
urbano. O disfarce continua; esses dois tipos humanos não são tão diferentes
quanto se pensa. Ambos são seres instintivos, inseguros e gregários, e talvez
sempre serão. A força está no coro, ainda que por aqui ninguém goste de admitir
isso. Pois então, por que tantas roupas e marcas, pesados panos e iluminados cosméticos?
Quem se importa? Se por lá são os deuses que julgam, por aqui é a Vox populi: voz alastrada que devasta os
não convictos, olhares difusos desnorteiam os frágeis confusos. Sentir-se admirável
é um imperativo em qualquer lugar, aquele poderoso que concede honrarias e
coroas ao bom fiel só muda de nome nas culturas. Você deve saber o nome de seu
Imperador, Senhor ou Exu. Ater-se a padrões e normas sociais impossibilita o
vôo, pois a ditadura da maioria é conveniente aos medíocres, que aparam as asas
de quem sonha em voar. Em paralelo, a mesma multidão exulta-se diante do herói
fantasiado na telona.
Sei, estou divagando e fugindo do tema, coisa de
indisciplinado. Focarei nas mulheres, sem dúvida as que mais consomem produtos
de beleza, e não importa a idade da dama, desde que o desejo seja parecer jovem
e atraente (ainda que ninguém concorde). Para elas há uma guerra, que é muitíssimo
velada, pois ninguém a declara como tal, e (quase) todos vêem nessas fatídicas
disputas de destaque mero empurra-empurra. Há muito vermelho no salão e olhares
obtusos em profusão; o batom atiça no outro o desejo, erotismo que só se
abranda com beijos. Se para o índio o objetivo é afugentar espíritos maus e
parecer perigoso e viril aos animais e entes da floresta, para as mulheres o
desígnio é desestabilizar seu alvo (pretendentes ou invejosas) com sua
aparência estonteante ou somente adequada à moda, esta megera que substitui por
capricho os valores em voga. O agrado transcendental de outrora se tornou a
satisfação carnal e material, afinal o prazer é a teleologia da sociedade
hedonista, por ora triunfal. Junte-se a isso a necessidade de posse que tacitamente
cerca os ambientes badalados e teremos a conduta vaidosa predominante nos
círculos sociais burgueses.
Eu vejo a maquiagem como símbolo maior dessa busca quase
generalizada em destacar qualidades e esconder defeitos, seja externamente – a
imagem é mais nítida e palpável do que uma idéia –, seja da personalidade e do
caráter – um bom leitor de linguagem corporal capta as malandragens e sutilezas
do comunicador. E mesmo as garotas grotescas, que só se expressam por preto e
em muitos casos se encobrem com piercings
e tattoos indecifráveis, enquadram-se
nesse conceito de passar maquiagem para tentar transmitir preferencialmente as boas
informações sobre si. Estas tentam desvalorizar o corpo feminino,
principalmente aquele vestido com itens artificiais e mercadorias sintéticas,
como arma de conquista, enquanto afirmam a rebeldia, o intelecto ou a polêmica
como forma de melhoria social; do outro lado, as modelos e simpatizantes da
estética corporal defendem a ética do belo, custe o que custar.
Assim vimos o quanto a beleza é um conceito que muda de
acordo com a época, o local e a direção do vento. Pode advir disso: aberrações
gradualmente avaliadas com conivência; limites (do que pode ser feito em busca
de um ideal etéreo) sempre ampliados, ou mesmo ignorados, e a futilidade, isto
é, dedicar-se exclusivamente ao corpóreo (material
girl). Os gays adoram isso tudo, é óbvio, poucos são bem resolvidos, sem
carregar um mínimo de neurose e frustração pelo repúdio social e, não raro, o
familiar também. Enfeitam-se e exigem animação e cores aonde vão. Trocam a
tristeza e incompreensão interna pela ousadia e confusão externa. E as
mulheres, suas melhores amigas, acabam sendo influenciadas por suas histerias.
Torna-se padrão camuflar o que não se quer ver mais. As batalhas são travadas
na noite, ganha quem fingir sangrar menos.
Há sempre uma referência a alcançar e uma colega a invejar. Quem
se delonga olhando no espelho se ama demais, mas sempre encontra imperfeições a
corrigir. Com a verde grama do vizinho e os sorrisos que encontramos no caminho
nós nunca cansamos de nos comparar. Mas atenção, um espelho é tão subjetivo
quanto qualquer tela impressionista. Então, por maquiar-se qual foi a sua
grande conquista?
wwço
ruk.jbv
9 de junho de 2012
Sobre Autoafirmação
Conquistar a independência pessoal não é uma tarefa das mais
tranqüilas. A transição para a vida adulta exige esse abandono da dependência
financeira, afetiva e intelectual da família a fim de caminhar com os próprios
pés e tomar as próprias decisões perante os imprevistos do mundo. Após essa
fase, viria a da interdependência, que é o reconhecimento de que não é possível
realizar tudo sozinho, que sempre haverá uma carência, seja por afeto,
dinheiro, cuidados domésticos ou apenas por um ouvido para escutar os sonhos,
reclames e devaneios do momento. Em ambas as fases a autoafirmação se faz
presente na cabeça de cada um (sentimento que às vezes nunca se vai, no caso do
inseguro e fugidio) e volta-e-meia dá as caras, lembrando-nos de que as coisas
poderiam ser melhores, que faltou alguma dedicação. É claro que crescer sob
cobranças facilita o surgimento de obsessões e magalomanias.
Parece que é preciso continuar o bordado e torná-lo mais
bonito e pomposo, com uma complexidade crescente, afinal a comparação com algum
perito traz aquela inveja de que nós não somos tão capazes de algo, fazer
melhor é superar o outro e a si. Aos que perseguem uma carreira profissional,
ter salário maior e promoções de cargo – flashes, fama e holofotes – é como
receber um sinal de que as coisas progridem conforme planejado. Contudo, haverá
sempre um peixe maior, não existe um topo, os limites nós mesmos traçamos,
sendo possível indefinidamente alargá-lo, feito um vício. Então, para quê serve
essa superação constante? Competitividade para anular a humildade e a
inferioridade que insiste em assombrar o vaidoso? Tudo isso só faz sentido
quando se relaciona com alguém que se envolve com os efeitos dessas
demonstrações de superioridade, e se agrava com a visão das pessoas como
objetos, ou mercadorias! Com rótulos, etiquetas e preços a comparação é
imediata. Um ermitão ou um cínico pouco se importaria com hierarquias e opinião
alheia; orgulhosos demais desconsideram seja quem for: deuses, semideuses,
inocentes ou indigentes.
O macho distinto, o chamariz na multidão, o pavão
galanteador ou o gorila provedor, todos esses símbolos que carregam consigo
aquela pitada de excelência, ainda que provisória, seduzem os homens, mas
também as mulheres, em especial as que assumem um papel social ativo. Porém, é
sabido que o falo representa algo mais aos homens, o pavor da castração é quase
nulo nas damas, ainda que estas sejam machonas. Emerge, então, essa necessidade
de orgulhar-se pela própria grandeza, virilidade e potencial de peripécias, e
bem cedo. Não é à toa que gangues são formadas por membros juvenis, em muitos
casos imberbes, à procura de desafios a serem superados, ainda que os de fora
os julguem como vulneráveis provocadores. Pichações, rachas e quedas-de-braço
tentam acalmar esses insensatos com um mínimo de status na panelinha. As
conquistas e as posses servem para preencher o vazio interior e acalmar a falta
de um selo de qualidade. A zica é alguns se empolgarem e se resumirem à facção,
importunando muito mais gente. Todavia, quem não passou por essas fases de
rebeldia e vanglória pode se preocupar demais com o marasmo – morreu sonhando.
“Eu queria provar para todo mundo que eu não precisava
provar nada para ninguém.” A melhor frase sobre a verdadeira superação da
autoafirmação. Mesmo ao ignorar o próximo, se a pessoa se esforçar em provar a
si que é boa o suficiente, esse orgulho não terá o mesmo ímpeto de quem fez
essa prova e também recebeu olhares e elogios, ou até críticas, de outrem.
Vejam os autistas, eles não estão se autoafirmando, eles apenas cumprem seu
dever internalizado, indiferentes a terem-no executado. Narciso tampouco se
deixava abater pelos paparicos alheios, só ele valia (em juízo e em beleza),
pensou ter-se tornado divino, o tal; ingênuo, tamanha adoração para tornar-se
um vegetal. Mas, de resto, os vaidosos sem interrupção, nós mesmos, sofremos
sem ter do público aprovação. O excesso de crítica, o opróbrio altercado e o
ostracismo têm-nos derrubado. Um desarranjo mental acende um alerta, um sinal;
atitudes inversas devem ser tomadas, sob pena de sofrimento crônico, amenizado
ao ingerir biotônicos. Porém, ser medíocre só por simpatizar pode ser
limítrofe.
Os
críticos de música detonam o excesso de firula e de intimismo de artistas com
muitos improvisos e arranjos complexos. Simplificar é o caminho, dizem, por que
complicar algo que pode ser direto e objetivo? A comunicação em tons maiores e
alegres transmite melhor a intenção do músico, mesmo um obscuro. Voltar à
simplicidade primitiva aparentemente é uma volta às origens da arte, algo
tradicional e mais facilmente digerido e comercializado. Porém, quem se vê
diferente dos demais precisa fugir das obviedades, deseja esconder algo dos
outros, nem que seja apenas para se sentir imune aos ataques dos ouvintes ou
leitores, pois eles jamais captarão o original intuito do interlocutor, que
sonha com linguagem privada. É como um mágico que pratica um truque não
descoberto, ao menos pelos não especialistas. Ele está simplesmente se pondo em
posição superior, nem que seja num trono imaginário – há muitos Napoleões por
aí. Ilusionista iludido, pois toda linguagem é pública e carrega consigo
inúmeras informações, inclusive as inconscientes. Proselitismo, porém sem essa
dose de auto-engano ninguém teria forças para tentar e se aperfeiçoar.
E
quem mais se engana? Quem desconhece a si e, confuso diante do mundo, esse
palco giratório sem hora para encerrar os atos, age, ou melhor, reage, só para
garantir alguma marca indelével na natureza: sua digital, única e
pretensiosamente insubstituível. Atualmente, a identidade do jovem exige um
mínimo de posses, conquistas e adereços que simbolizem certas origens,
convicções e anseios, facilmente lidos e enquadrados pelo público. Ao seguir
esse fluxo do sistema, a tendência é manter o padrão de atuação até envelhecer,
claro que com picos e declives, dependendo da inserção social e do impacto do
retorno (feedback) sobre esse, até então, jovem. Eu vejo a vaidade como o maior
estímulo à autoafirmação do indivíduo; a autoestima é diretamente proporcional
à análise interna dos hábitos praticados, analisados, contudo, pela ótica
imaginada do outro por ele valorizado. Portanto, externa.
É importante sentir-se engajado
para realizar façanhas que beneficiem a sociedade, e ainda auferir com isso
elogios e prêmios. Mas ficar obcecado em ter que transmitir um suposto sucesso
pessoal é outra coisa. O sucesso é mais sólido e bem visto quando é
conseqüência do trabalho do que quando é um desígnio, um alvo, o foco. A
maioria é sempre formada pelo comum, o ordinário, porém como as pessoas se
sentem obrigadas em ser amadas, mesmo sendo deficitárias de qualidades
destacáveis, elas tentam a qualquer custo agradar, resultando nesse excesso de
pose e vaidade que verificamos em idas a shoppings e concursos de qualquer
bobagem. Sendo assim, o objetivo é mais causar inveja nos frustrados e
incompetentes do que autoafirmar-se, no sentido de superar fraquezas.
Autenticidade – no que for possível enquanto ser autônomo em relação às
influências do cotidiano – é equilíbrio entre vaidade e liberdade, visando
progresso pessoal. Já que somos sujeitos no ambiente, e estamos sujeitos ao
ambiente, vamos garantir doravante a nossa felicidade, e de quebra alegrando o
entorno cheio de vaidosos, de invejosos e de inseguros como nós, cada qual em
seu nível de satisfação. Conhece-te a ti mesmo e assevera tua consciência a
viver bem, sem tanta severidade.
.,;
3 de junho de 2012
Nossa irascibilidade corriqueira
É mais fácil destruir do que construir, isso é intuitivo. A
existência pessoal nunca está acabada, apesar de todas acabarem. A vida é
construída o tempo todo, mas basta um mísero infortúnio, como uma agulha
contaminada ou um alucinado de arma em punho, para que a morte se apresente com
toda sua perversidade, sempre à espreita para alegria das funerárias, esse
serviço funesto que lucra com a tristeza alheia. Toda mudança pode ser vista
como uma morte, da convicção, aquela idéia acoplada ao ego. Os impacientes são
agressivos diante das transições; quem não percebeu o valor das sutilezas quer
passar como um trator sobre o incompreensível, portanto incontrolável e
amedrontador, isto é, algo acima de suas forças rudimentares. Os orientais há
muito sabem e ensinam a virtude da paciência, estão acostumados com o contato
com a natureza, tão grandiosa e sublime quando contemplada em conforto, e com
as relações sociais em ambientes sofríveis e apinhados; a vida zen arrefece a
agressividade teimosa que a qualquer momento pode irromper como uma bomba.
Os jovens de hoje, os garotinhos criados em apartamento, em
condomínio ou outro lar urbano, quase sempre trancafiados por causa do zelo
excessivo de pais atordoados com as notícias alarmantes da violência sempre
crescente, apesar de nunca citarem as estatísticas em queda, esses jovens quase
não têm raiz, isto é, há pouca tradição transmitida, não sabem de onde vieram e
se identificam com algo imediato que lhes afeta. Não é tanto culpa da falta de
comunicação dos pais, estes também desconhecem a própria linhagem ou então
querem esquecer um passado rural e tortuoso, digno de pena diante de valores
burgueses tão em voga nos shoppings, vitrines e anúncios metropolitanos; é mais
culpa do acelerado êxodo rural e da falta de mestres, com excesso de ídolos.
Voltando ao imediato, quero dizer com isso a influência sobre os jovens de algo
que seduz pelo efeito avassalador de causar prazer e liberar frustrações, como
é o caso do videogame (item para mim emblemático), ou da Barbie e do sonho de
ser princesa contemporânea, no caso das meninas. Nas entrelinhas a indústria
transmite sua mensagem a quem não tem discernimento, então os pais acatam, ao
notarem o brilho nos olhos de seus rebentos, além de não verem mal algum em
compartilhar valores consumistas e vaidosos. E o ciclo segue: é fácil convencer
uma mente em branco.
Isso daí levará a que? Onde quero chegar com esse preâmbulo
gratuito? Novamente sairei do nada e chegarei a lugar nenhum? Ou desta vez
haverá uma conclusão clara e perceptível? Bem, isso depende do leitor, enquanto
isso eu tentarei desenvolver minha argumentação. A psicanálise nos ensina sobre
a importância dos primeiros momentos de vida, a tal relação quase simbiótica
com a mãe, além dos traumas infantis, entre outras teorias para lá de
controversas no meio acadêmico. É certo que a saída do conforto da barriga, do
colo, dos braços, da casa, quem sabe da cidade, da mãe, ou mesmo do pai, se
este criar um laço forte já na primeira fase da vida da criança, essa saída,
ainda que temporária, é impactante para uma cabecinha frágil e medrosa. Passa o
tempo, a relação com os pais, que em geral é afetuosa e pacífica, vai se
revelando mais humana, ou animal, com advertências, violência e erros; a noção
de pai herói ou de mãe perfeita vai diminuindo, pois é claro que de perto todos
têm defeitos, mas isso não significa que a admiração por eles diminua – nesse
ponto se trata de outro processo complexo que não esmiuçarei aqui. Além disso,
as informações externas podem chegar com mais força do que a referência
paternal, ainda que essa sempre seja um paradigma para quem vive em família. Enfim ,
quero dizer que mesmo na redoma do lar sentimentos negativos podem aflorar. Com
o contato crescente com o mundo dos “outros”, do desconhecido com 1001
possibilidades, esses incômodos sem dúvida aparecerão, pois retira as crianças
da zona de conforto, testa-as – atitudes criativas e respostas elaboradas são
exigidas.
Com isso, eu chego ao ponto central: nossa reação perante o
imprevisto. Qual a primeira impressão que temos diante do que não estamos
acostumados e que na maioria das vezes nos deixa acuados, senão perplexos? É a
rejeição, a negação, o preconceito, a vontade de eliminar. O ódio é instintivo,
suplantá-lo seria exigir uma posição humilde ou desapegada ou compreensiva, ou
amorosa (o amor é o oposto do ódio). Porém, somos seres etnocêntricos, não
gostamos de admitir que nosso lugar não seja bom, seria uma ofensa pessoal, sem
esse auto-engano passional de que nossa nação (etnia, clube, ou algo do tipo) é
a melhor, ou ao menos é correta e formadora de pessoas superiores ou
preparadas, nossa existência estaria em perigo, haveria crise, um momento de
ruptura urgente que deixou tal nação sem sentido. Com o individualismo, esse
etnocentrismo, ainda que sem raízes históricas, se acentua, pois o Eu se torna
o Deus a cultuar, ofendê-lo seria uma blasfêmia, é mister tirar satisfação.
As religiões em geral pregam a humildade justamente para
haver menos guerras, mortes e uma cultura de ódio sem fim. Entretanto, elas se
utilizam de discursos simplistas e servis. Também não somos uns canibais, nem
tão “homem lobo do homem”, somos seres sociais e solidários, contudo sempre
desconfiamos do vizinho. Sem um mínimo de humildade, alteridade e compaixão
haveria mais mortes do que nascimentos, o que inviabilizaria a sobrevivência de
um povo, ainda mais com armas na mão. Essa lei da selva, ou de pirata como eu
prefiro chamar, predomina em locais sem essa lição de humildade, principalmente
com homens competitivos e vingativos (a vingança é outra reação odiosa). E por
que esse ódio cresce tanto? É justamente pela afronta ao status quo, que muitos
preferem chamar de honra. É impossível eliminar isso, é a primeira reação. Uma
civilização que busque infiltrar valores transcendentais ou progressistas ou
persistentes (no sentido de uma obra que perdure) deverá ter cidadãos educados
a superar esse instinto destrutivo. Sem a tolerância resta o enfrentamento, que
numa barbárie se traduz em guerra civil, ou na submissão como valor.
A infantilidade das pessoas gera reações agressivas. Talvez
eu esteja em defesa de uma sociedade pacífica demais, com valores positivistas
e racionais em demasia, porém devo criticar essas pulsões de morte (Thânatos)
quando efetivadas – a estupidez humana é sem limites. A educação e a prática da
convivência cordial, que servem de exemplos sólidos aos que não têm uma
referência prolongada de violência, ou mesmo a estes, parece-me o caminho mais
eficiente para uma cultura cortês, disciplinada, em defesa de obras mais elevadas
do que brigas de rua. É claro que não há como sonhar em eliminar a
agressividade, todavia pode-se sonhar com agressões canalizadas em obras de
arte, esporte ou jogos sem feridos. De novo, o videogame como refúgio. Ao se
pôr “na pele ou na mente” de uma personagem a pessoa pode fazer o que quiser
sem risco de punição, uma situação cômoda, contudo ela passa a compreender um
mínimo sobre ver o mundo de outra ótica. No caso dos jogos violentos a raiva
contida é descontada virtualmente, costumando ser suficiente para evitar
maiores danos.
Por fim, cito o fenômeno das redes sociais. Parece que todos
precisam se expor para sentirem que pertencem à sociedade ou mesmo ao mundo.
Todos agora precisam ter e demonstrar opiniões, ainda que sejam sem embasamento
e homogêneas, na verdade é preferível que sejam semelhantes à da maioria, há
menos risco de repreensão. E quais são os usuários mais freqüentes e
comentadores? Justamente os jovens, os que se encontram frustrados por não
terem realizado ainda algo grandioso, por não terem uma identidade definida,
por perceberem o esvaziamento de sentido nas coisas, enfim, por não se sentirem
satisfeitos com a própria existência, geralmente parasitária, sendo assim,
partem a direcionar suas raivas ao que lhes desconforta, por mais ínfimo e
banal que seja. Ato geralmente praticado na covardia do anonimato e no conforto
da cadeira do quarto. Ali fica fácil berrar, eu quero ver gritar na cara do
traficante que ele é um câncer social, ou ao político que ele enoja o país, ou
ao tirano que ele deve morrer, correndo o risco de ser mordido por um cão, ter
a mãe morta, levar spray na cara ou levar pedrada na cabeça como os egípcios.
Mas não, reclamam que a Microsoft está com layout ultrapassado ou que o
Facebook censurou suas fotos.
Raulzito teria vergonha desse povo que só sabe protestar e
desafogar sua ira barata sem ao menos ser um latino-americano que sabe se
lamentar. Raulzito não aprovaria uma geração pró-sistema e que é metamorfose
ambulante, mas que não se admite nem se admira como tal. Geração em que todos
têm uma já velha opinião formada sobre tudo sem nem ter tido a oportunidade de
confrontar idéias, muito menos tempo de formular juízos. Ou seja, é mais fácil
xingar e botar a culpa no bode que rumará ao deserto para alcançar a redenção
que essa alcatéia de tolos lobisomens juvenis nunca terá. A ira cotidiana
precisa de palavrões. A irascibilidade corriqueira precisa desabafar no boteco
ou pela internet, sob pena de acumular chagas que resultarão em melancólicos
arrependidos. O rock outrora recebia de braços abertos esses gritos de
liberdade e de angústias, porém agora recebe o chororô dos frangotes.
É bom gritar, é bom desabafar, é bom protestar, mas é
preciso saber onde fazer, e principalmente como fazer. Os punks já demonstraram
sua infantilidade, os emos a sua depressão, os góticos a sua melancolia, entre
outros, sempre babacas surgirão reclamando com inveja da felicidade alheia,
ainda mais que todos possuem voz e meios de divulgá-la. Apesar da quase
obrigatoriedade de ser feliz, ou pelo menos de assim parecer, a sociedade está
doente, o aumento do consumo de remédios, drogas e livros de auto-ajuda e a
procura por psiquiatras, pastores e xamãs contemporâneos, em parte atesta isso.
Sempre nos assemelharemos a uma criança carente e apavorada no escuro. Saber
encarar a vida como a tradicional criança em contato com o mundo sempre novo e
fascinante é igualmente fascinante. Gritaremos às vezes e até quebraremos
alguns vidros, apenas demonstrando nossa incompreensão e fraqueza diante dos desafios.
Ambos são naturais, um é fácil e instintivo, já o outro é mais dureza de
praticar: o ódio destrói, o amor constrói.
27 de maio de 2012
Toda frase é dispensável. Nós prosseguimos enunciando-a
Agora, o vazio
Agora partem os valores e os princípios.
Ué, cadê a verdade que cá se postava,
Que amiúde na rotina revelava-se?
Ética dos costumes emblemática
Os pais entregam seus filhos a outrem criar
Em paz estragam a cria de gerações
Então carregam a culpa pelos maus tratos:
Babás supersticiosas, mamães ociosas
Descarga de tensão em jogos virtuais
Bullying, humilhação e pedra em animais.
Uma criança não é anjo e nem capeta,
Busca sua identidade e auto-afirmação;
Anseios sob repressão bastante a afetam
O retrato de família coesa de outrora
Cunhou o reles jargão “tal pai, tal filho”,
Mas se desgastou, seu brilho foi-se embora.
Restaram os genes e o teimoso atavismo
Qual será a influência predominante?
Aparentemente há sorteio, é randômico.
A ignorante pressa nós arrogamos,
Não se nota o óbvio e restam os reclamos:
“O bom dura pouco”, “o mundo está perdido”
Deparar-se com o vazio é comum
É muito incomum lhe sorrir de volta
Ninguém convida agressor algum,
Porém, conviver com o inimigo íntimo
Desperta em nós compaixão – lugar-comum
Preenche-se o vácuo com cores berrantes
Berro interior após lutas hercúleas –
Imperativo do hedonismo a todo instante
Sem vestir a máscara de ator contente
Julgam-me persona non grata ou enfadonha –
O Surto da Síndrome do Decadente
&EΣε€Є
Maletas e Muletas
Qual é o peso das malas que levamos nas viagens?
Será leve se aproveitamos o percurso – leves rodinhas
Mas toda mulher carrega nas costas as bagagens
As covardes traições cometidas contra os queridos
São sinceras fugas diante da angústia de viver sem amor
Quando o outro desejado nos rejeita, resta o rancor
Amor platônico só é bom quando nunca deseja agir,
No mundo ideal toda ação é prova da imperfeição
O que é perfeito se contenta em ser pura potência,
Infelizmente, o homem precisa das aplicações
E doravante se arrepende com as conseqüências
O medo aprisiona, mas ninguém preso fica,
Despontando a gritar regozijos, nem diz ser rica.
A vítima o agressor culpa, pesando sua consciência,
Enquanto isso, toda mulher carrega as bagagens,
Após precisa inventar as próprias miragens
Para viver, por vezes seguimos às cegas.
Segue a seta que tu apontas a ti mesmo
Um dia te pegarás contemplando adegas,
Senão viverás de muletas dependendo;
Eu ando sem elas, jamais me arrependo
.
P.S.: Excepcionalmente 3 postagens no mês, por nele completar 3 anos de blog.
12 de maio de 2012
O Inferno de Strindberg
Trespassando a burguesia temos o infernal, tal qual Hefesto,
forjando o modernismo, mas desta vez como fruto poético, e não como metalurgia.
Das gélidas trevas, “nascido já nostálgico do céu”, foi compelido a fugir do
inferno da sociedade que o criou, por conta do bombardeio moral a suas idéias
controversas. Ora, se a racionalização é inútil quando tudo é ilógico e hostil
à existência, inevitavelmente conturbada e carregada de tormentos dentro da
cachola, o melhor, aliás, o fatídico, é contestar essa tradição. Não antes sem
haver uma pitada de vingança, pelo orgulho ferido de ser excluído do meio
acadêmico por causa de métodos pouco ortodoxos. Como culpar o pavio curto, as
manias e o imanente espírito artístico? O melhor seria nunca ter tido
pretensões positivistas, desde que a sociedade aceitasse a subjetividade e os
dramas humanos como fonte de conhecimento.
Essas concepções transgressoras da subjetividade aliada a
uma proposta criativa para a então eminente arte são permeadas por conflitos e
turbulências. As alucinações e os devaneios, sejam visões corriqueiras ou
esporádicas, formulam as próprias significações, que são singulares e contíguas
e, sem dúvida, criativas e ousadas. E toda a matéria-prima se encontra no
cotidiano, na vida pesada, na jornada de dores por perdas e de perdas com
dores. Se o fato se apresenta, não o temamos nem reprimamos, absorvamos, ainda
que pareça ser uma “luta inútil contra os invisíveis”. Se os números falam,
respondamo-los, afinal toda ajuda é bem vinda. Se os parentes e amigos não
podem vê-los, que se esforcem para atingir a verdade. Comunicação é relação que
exige capacidade de iniciativa, apesar de não estarmos a toda hora pró-ativos –
mas que infortúnio!
- Paraliso, destruo, rompo, dissolvo a ordem presente. Sou o
incendiário do mundo! Desde pequeno busquei a Deus, mas reneguei esse déspota e
encontrei o demônio (Alp). Já que o
Inferno é o espelho da Terra, eu serei enviado, como Bhrigu, às profundezas por
meu mestre, em face da minha presunção, e trarei de lá o fogo purificador. Mas
antes disso, passem pelos labirintos de minha mente, que é inteligível, contudo
são poucos os heróis como Teseu dispostos a percorrê-lo.
É útil, ainda,
salientar que a travessia possui muitos pontos cegos e as tochas iluminam-na
por pouco tempo; aquele que compreender que deve abandonar o temor o quanto
antes, tateando por algum tempo no escuro, encontrará a saída mais cedo, pois
as sinuosidades diminuirão. Por tortas estratégias criam-se retas. Enfim nasce
o senso estético, deveras atormentado.
No meio da luta entre o bem e o mal, ou ao menos de seus
conceitos, o artista buscava auxílio das forças divinas, que até lhe davam
forças, contrabalançado pelo medo infundido. Nesse campo de batalha espiritual
vozes advogavam para o escritor tomar o caminho mais proveitoso, porém ele se
sente puxado violentamente por esses poderes que se movem no mesmo sentido, mas
em direções opostas. Como saber se a escolha o levará à redenção ou ao abismo,
sendo que as culpas e os pecados enrijecem-se em sua consciência? Durante a
existência raramente podemos usar o fio de Ariadne, os sucessivos pontos de interrogação irão
assombrá-lo; saber responder ou evitar as perguntas pode ser tranquilizador.
Todavia, se os questionamentos não cessarem, os tormentos aumentarão exponencialmente,
trazendo a insanidade ao indivíduo. Logo o inferno êxito logrará.
A fim de obter bons resultados em alquimia, o literato de
outrora sofre com a aflição por conta do manuseio de elementos químicos sem a
proteção e os cuidados necessários. As mãos encontram-se assadas, a dor crônica
o impede de realizar qualquer trabalho manual, inclusive usar a pena; porém o
significado das escamas se soltando da pele foi de limpeza, o corpo se
encarregava de expelir os venenos. O sangue era a consagração da atividade.
Tudo isso era facilmente suportável, a única agonia era não dever
agradecimentos além de a si mesmo e à alquimia. A solidão, o silêncio e o
deserto eram imperativos ao temperamento irrequieto, curioso e teimoso. Para
suportar o isolamento foi preciso dispensar a sociedade, e se fosse preciso,
como de fato foi, dirigindo-lhe ofensas, inclusive a entes queridos. Incauta
soberba: isolado ninguém faz milagre, é apenas ilusão.
Uma pena isso, pois os impetuosos percebem a burrada após
algum tempo e então se consomem de remorsos. Fraquezas dos sentimentais: álcool
e meretrizes. Péssimas companhias, apesar de contínuas. A durável vaidade e o
orgulho ferido desses seres precisam de escapes e de desculpas, ainda que
esfarrapadas – contagia-se pela hipocondria e pela paranóia. O estrangeiro em
uma terra não tão estranha vê ciladas em toda parte. Isto é, sai duma jaula e
entra numa gaiola. Sentir-se no abismo da tristeza é apenas uma projeção da
própria incompetência. Compadece de si para provocar a piedade das
misericordiosas. Perdido por dentro, portanto perdido por fora.
Ao velho a juventude é um inimigo natural, desde que ele não
a tenha aproveitado, ou seja, envelheceu sem viver, fez-se ranzinza, turrão e
casmurro: “o outono aqui dentro, a primavera lá fora”. Após uma sucessão de
eventos sem significado, o tédio surge e a melancolia se instaura. Sem paixão a
vida é um fardo; incapaz de declarar seu desejo por qualquer dama (interessante
ou não) ele ficava passivo, sendo escolhido por alguma rara mulher de atitude.
A fim de evitar o sofrimento com uma libido não efetivada, ele reprimia sua
paixão e punia-se como se isso fossem “pecados ou tentações” – doente. Na falta
de equilíbrio, agarrar-se ao terço, à cruz e aos cristais é a maneira mais
rápida para alcançar alguma serenidade. O espírito corregedor do ocultismo
remeteu nosso herói ao mundo platônico; longe deste terreno, a nostalgia
libertava-o dos anseios carnais e decadentes.
Notas e escritos num diário funcionaram como um bom remédio.
Expressar o que incomoda, e exige sair do sujeito para se difundir e
influenciar mundo afora, alivia e sempre traz um mínimo de paz de espírito. O
problema é se desequilibrar novamente e cair em superstições e manias tolas –
efeito da insegurança. Um moderno querer regressar à Idade Média quedará
maluco, a história não perdoa. Por ora, é impensável conviver com as dúvidas e
as incertezas, apesar de não ser possível escapar delas. A razão organizadora e
tirana enfim tem seu efeito colateral: tormentos psíquicos. É mister haver uma
fé: a felicidade é um fim a todos, se por um caminho (o racional) não foi
possível atingi-la, restou optar pelo outro (o ascético), “e que renasça a
harmonia da matéria e do espírito”.
Para retornar o sentimento de juventude e livrar-se dos
tormentos foi preciso fugir dos sórdidos ambientes onde freqüentava. Num jardim
parisiense a alegria absorveu-o, claro que provisoriamente, enquanto pensava
vislumbrar e contemplar a beleza natural que o divino criou. Bastou um leve
incômodo (a ele uma maligna provocação) para a paranóia e a irritação voltarem
com tudo – todos eram suspeitos de conspirações para infernizá-lo e agravar sua
angina. Sem encontrar uma ciência metafísica, tudo lhe parecia deslocado e
labiríntico – a beatitude fora perdida. Ao menos ele levantou a hipótese de ser
o culpado pela demente imaginação, ainda que não se convencesse disso. E pouco
importava sua culpa, ele não se considerava dono do próprio destino.
Vencido, deita-se resignado e disposto a morrer, curvando-se
às incomensuráveis forças divinas. Porém, tal qual um judeu, seu orgulho é
inflado pelas inúmeras humilhações e ele dirigidas. Vitimiza-se constantemente,
em parte a fim de despertar compaixão e clamar por auxílio, em parte porque
justificaria seu estado de danação. É mais por birra e vaidade que o ranzinza
não se mata – jamais deves regozijar teus inimigos! Podes sair estropiado da
luta, “mas com as honras do combate”. Após esse demasiado convívio com a
tristeza, ódio, ira e vingança instauraram-se em seu coração definitivamente,
ou em sua mente. Malditos sejam os ricos, os felizes, os viventes...
Enfim reconhece que passou por belos momentos, por
celestiais estados de espírito, e que essa felicidade, ou alegria, só é
possível com os cuidados e com a limpeza da consciência. É a má consciência,
esse morcego que à noite bate à porta e entra de assalto no quarto, que traz a
perspectiva neurótica e pessimista das coisas. Só dá adeus aos bons sonhos quem
não tem paciência e diz não ter tempo para regar o próprio jardim; e os que não
sabem o que querem. Esses sonhos parecerão curtos aos olhos de quem os
dispensou em detrimento a outros mais atuais. Assim, seguirá em marcha
aleatória, em peregrinação a um objetivo sem sentido, pois não sabe o que quer.
Quem não reflete sobre o que realmente deseja avistará tentação em qualquer
bijuteria.
O demônio tornou-se um espantalho apenas e Strindberg
consolou-se com esta graça concedida: Swedenborg devastou as ervas daninhas em
sua mente e sua luz clareou o céu. Por fim, expiação, e conseqüente salvação,
por uma religião nova e progressista. Após uma formidável batalha contra o
verdadeiro inimigo (superego versus ego), a resolução: arrependimento (perdão).
A ajuda de Balzac foi pontual: “o remorso é a impotência de quem persiste no
erro. Só o arrependimento é força que acaba com tudo”. E sua vida não terminou,
não houve tragédia, mas sim cura – redenção! E termina católico, sem trair seus
antepassados (a religião mater), e
ainda passivo, alegando que foi o próprio catolicismo que o perseguiu e
esclareceu-o sobre a existência. Existência essa que servirá de exemplo aos que
não se deixarão enganar pela vaidade de um profeta-impostor, que se julgava
inútil e tolo, mas que deu, ao menos, uma ínfima contribuição ao mundo, ou uma
imensa, se você tiver mente aberta a um aprendizado litero-filosófico.
Fonte Bibligráfica:
STRINDBERG. Inferno. Ed. Hedra, 2010.
Fonte Bibligráfica:
STRINDBERG. Inferno. Ed. Hedra, 2010.
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