9 de agosto de 2012

O homem só ensina bem o que para ele tem poesia


Em redes não mais

Em redes de pesca, redes imperiais
Em redes virtuais, ditas sociais,  
Tecem as aranhas teias exatas,
Filamentos invejados por engenheiros,
Com materiais tão banais valorizados,
Pois o sistema inspira e dita o que é bom;
Hoje o Deus louvado é bem gordo,
Não cabe em si após tralhas juntar

Já os invertebrados não notórios
Vagarosamente copulam,
Parindo randomicamente
E infestando o dorso de mulas
Inadvertidas, relincham a quem se lixa

Insetos sociais vivem para a rainha
Inchar, violentar e hierarquizar
Até, enfim, sua princesa herdar
Essa coroa subterrânea de lama
Amaldiçoada por quem não for usar
Esses requintados adornos, em fé –
Simbolismo difundido por Josés

A rainha de copas de Alice
Assombra coelhinhos no epílogo,
Que já sofriam com lendas caboclas
Seu papel: aterrar nossos tímidos.
Góticos se enlutam, vacilam e soluçam
Xarás diferenciados de penas se enfeitam
Parecer frígidos todos evitam,
Nessa amálgama de faces pintadas
       É a solução camuflar

Como se ocupassem o banco dos réus
Desenhos animados em peles
Já sem espaço para a livre expressão
E argolas inoxidáveis em poros
Com aberturas deveras transigentes
Sorriem de volta a rostos fechados;
A simpatia substitui olhares no breu
E condensa peremptoriamente
Esses ares austeros,
            tão fugidios

Tentando ser porta-voz ser da geração
Que muito grita, comunica tampouco,
Ao menos um loquaz membro atento:
         o locutor,
       que escarrou em prosa
Seus ilegíveis versos soturnos,
Deixando a desocupados compiladores
Da posteridade
                          o retrato da época;
E quem se beneficiaria com seus relatos
Lotado passou, tão imune, tão vago,
            Feito vaga-lume em festejo.

Em São João os fogos não atordoam,
Não mais.   
Rapaz?  
Não mais...

Obs.:  Fase poética a minha,
     quem vai nu caminhar
  sozinho nunca irá caminhar

8 de agosto de 2012

Poesia é para ser dita, não lida


Sardinha

Explodiam sardinhas enlatadas
Microondas é uma caixinha imprevisível
Não deixem seus fedelhos manuseá-la
Mas toda criança adora apertar botões
E atirar pedregulhos com estilingues
Afugentando passarinhos e bichanos

Apesar de a maioria categorizar
A maldade é um juízo moral
Se a praticamos é por ignorância
Porém todo mundo foi contagiado
Viver é sobreviver, que é atropelar

Parasitismo é constante natural
Pratique-o, usufrua-o, releve-o
Beije seu calmo hospedeiro,
Acaricie seu verme infeliz
Revele a mais íntima das preces
Esgotadas por falta de uso
É nosso padrão (ação por osmose)

Lamente após, derramando todo o sal
Constante nas lágrimas sangrentas,
Contudo vitais, ou capitais
Apenas se vão o que nós esquecemos
E as oportunidades não agarradas

Garras de presas apressadas
Descuidadas com as viseiras bem vazadas
Vasos de imberbe, de sangue inerte
Pés gelados – defunto distraído
Diante do corpo sem vida esta fez sentido

Lá a sirene grita, quer chamar atenção
No meio da gritaria da urbanização
Há Pelés e Sennas e Gugas
Que sonham em se firmar no esporte
Simplesmente arfam, e buzinam
Na cidade; ninguém se importa
Exceto quando um deles assassina

E o vendedor de pescado fresco
Esperneia e repete os chavões
E suporta o chato a seco
Fora do rio sempre há calor
Que só é refrescado por sacolas cheias
Só queira a cheia que cheira

As donas-de-casa sustentam a nação
Com primazia suposta da economia
Especialistas objetivos insensíveis!
Onde está a integral explicação
Que eu aprendi desde cedo a aceitar?

Descubra a sardinha espinhosa
Seleciona e retire as espinhas
Ou engula-as, sufocando gentilmente
Uma hora o coração não baterá
Mesmo, que você não possa comprovar
O mesmo que contemplar róseas rosas
- Espero que sufoque sinceramente

4 de agosto de 2012

Só Conto com VogOl


Comodoro Rondon, o ortodoxo mor, pôs no colo Bob do olho torto, o nono gnomo. E no monólogo, o conforto foi o sonho do prof.°, tolo Lord do povo bronco.
Ponto pro corso, com o gogó fez som do toró no porto do Congo – sopro roxo.
Forço o ponto morto do coro, solto o nó dos seus pomos, forjo logo o nosso prólogo, dobro J. Boscos no torso e corto foscos moços. Gongo: voz no tom, Dodô! No dó, não no sol!
Já tonto do sol, com dor, sofro por Bog (novo God dos ogros). No Box o cocô do Goro não foi odoroso; por Fobos no Orco, que tombo doloroso...
Sem nosso longo mojo, nós todos somos bobos e cômodos.
Como ovo de corvo no morro dos Xopotós, pois moro em Comodo.
Como hot dog chocho ou bolo com molho de mocotó do John (o morfólogo probo), tão gostoso! Como no forno o cotoco tem gosto bom, roo o osso do porco. Só o pombo gordo deu nojo. Xô, bolor com odor de bromo! Zonzo por mofo, rolo.
Oponho on e off: ozono é on, fóton é off. Podo-os e morro no toldo solto.
Com dons ponho o dobro do cosmos no lombo.
Nos ombros do ostro Gorpo posso pôr loló, é o modo Cocoon do lôro do Bozo – um log do torpor.
Rodo de Golf com o cosmólogo que gosto e topo ir pro show do Bono Vox em Foz. Ver cornos tontos por socos no pogo deu dó.
Polos opostos: torço por pop sob o rock, vosso xodó.
Jorro fogo por poros no nosólogo Jô, com posto em Tororó.
Tomo no copo gorós e zombo do rosto dos bocós: robôs toscos num domo.
Jogo na Loto, rogo dois prós; oh, no! Oco, oco, “lôco” como os godos, boto fogo no bongô e movo o dorso do “dotô”, o zoólogo zorô.
Que o Zorro pomposo, tocólogo em Homs, vá com vovô e Bozó no vôo, sob fog, dos Woods. Pronto, vovó, foco no cós, OK?!
É gol do odontólogo Jó, da cor dos obongos e rolo da Ororo.
Somo combos no solo do dojo, ao som do ronco do gobo, e com dolo soco no coco do homo com bojo de pompom. 
Totó foi com o bombom pro topo; volto e ploft!, só gomo de lodo. Molho o rodo e monto rolos homólogos a tocos de cromo.
Os lobos são fofos no zoo, e fogosos em Soho, no horto da Ford.
Compro o nono tomo de Gogol, book top! Por votos, dôo tal book pro oclófobo Tom, e folgo no golfo, sem job, com food, so good!
Fodo no octógono o potro e no poço, o polvo; por Fox eu gozo – pornô gonzo.
Se for ao fosso poroso posso ter mols de boro. Dobro meus bolsos e folgo do trono.
o
O
0 
Obs.: Como não foi possível escrever frases compreensíveis apenas com palavras com O, usei o mínimo possível de monossílabas com outras vogais, como: a, de, sem, não, são, é, da, ir, já, etc.

29 de julho de 2012

Moda FDP


A moda é uma filha da puta,
Só agrada às modelos e aos caras que são frutas


Padrões europeus inalcançáveis
Ganância à venda a presas tão frágeis
Até mesmo o exótico se põe calculado.
Fica fácil seduzir tolos esvaziados


As cotas servem para escamotear
Corriqueiras alegações de elitismo,
São acusações de quem à margem ficou.
Só que basta assobiar para o rabinho abanar


Rebola e rebola, enrola e assola
O recalcado, um bajulador manipulado,
Grita “cai fora” à própria imagem de outrora;
Chutando cachorros vai a bichinha embora
Então chora, sim, triste chora...


Em que consiste a dessemelhança?
Resta apenas a diferença de alocação
Sua posição somente redireciona,
Não passa de ilusão: pirâmide ou lona


Pirâmide. Ah, pirâmide social!
Admirável retrato do estrato
Muitos a escalam, então se vangloriam,
Revelando o caráter do ser - grande boçal


A moda é uma filha da puta,
Só agrada às modelos e aos caras que são frutas.
Império da correta imagem,
Resumido em lorota e contínua veadagem


Muita pompa e pose; ó, santo photoshop
Quanta frescura sob a alcunha “fashion”
O knowhow está dentro dos books
Todo o background ali, na passarela


Meninas topando tudo por flashes
Calculadora somando prioridades
Tantas almas medidas em cash
Buscam seus tão fugazes prestígios –
Obsessão como o preço da vaidade


Vigoram as anoréxicas garotas
E os vigoréxicos metrossexuais
Virou chique ter disfunção sexual
Sobraria sem os lesados o tédio,
Declararia a indústria bancarrota


Vide as fotografias de outros tempos,
Aquele da tua avó: tempo do Ariri.
Com a mesma roupa desbotada,
Porque mamãe agora é vista assim.
Contra rugas e apelos, difícil é haver fadas


Há uma ordem: o guarda-roupa renovar
Tudo pra vender, e a nossa mente lesar

Não seguir a tendência da estação
É se autoflagelar perante os órfãos
Da desditosa, mas útil, tradição


A moda é uma filha da puta,
Só agrada às modelos e aos caras que são frutas

11 de julho de 2012

Uma cacofonia qualquer germina


Minha grosseira cacofonia

Sem poder me livrar da mania de organizar orgias,
Sua enorme energia incitava vagotonia,
Me entreguei à metalurgia – um pasmo de sintonia.
Outrora o tempo urgia; agora resto em catatonia

Era uma agonia conviver com tal hemorragia
Já que a harmonia se foi, fiquei com esta alergia.
Passava eu por cirurgia quando o doutor a pele unia
E, a fim de escapar da letargia, contraiu pneumonia

Emergia a alegria e a sinergia da sertania
Enquanto a ventania trazia, sem qualquer cerimônia,
Sua habitual magia, quedando qualquer querimônia,
Esta fobia de quem covarde a vida regia

Rangia a porteira e a parteira notava a coprofagia
Do iniciado em necromancia (culpe a autoctonia)
Duma antiga capitania, usurpado sem parcimônia
Nem misericórdia vazia. Sentia ardor de amônia!

Caqui? Cá, aqui.
Cadê ela, a cadela?
Se estiver lá, e a sesta velar,
Ela pra cá, a mandala, mandá-la-ia.
Fiz, e de novo faria, esta grosseira cacofonia
 u
n
d
Aguarde o capim germinar

São mixarias, nuances, detalhes,
Tantos aspectos banais, veniais,
Antes tão invisíveis quanto garis.
Meus olhos não estavam prontos pra ver:
O coração ignora o que não o faz bater

Saudosamente ouço alguém dizer:
“Olha como a lua hoje está bela!”
Lembro da clássica película de Méliès.
Uma frase apazigua querelas

É a volta do sentimento de nostalgia
Das coisas que eu nunca vi, mas vivi,
Pude experienciá-las amiúde.
Ah, tantas vidas já passaram, perdidas

Um vendaval derruba panos e planos.
À guerra prosseguem vários danos,
Mas o ancião persegue sorrisos;
Singelo, recebe a sós seus amigos.
Este é hoje o solo onde leve eu piso

Agora pode? Ainda não!
É momento da milagrosa oração
Aguardo a terra germinar o capim.
E agora, pode? Agora sim!

9 de julho de 2012

Delirante, Maçante e Broxante


O cantante era um estudante diletante, estava já ofegante e delirante, mas tentou, por um instante aviltante, tornar-se um extravagante mutante, inda vacilante, no tocante a não ser gratificante e nem estimulante, porque a todos os ambulantes não passava de um horripilante e degradante gritante, pois sua voz incessante e contrastante tinha, de forma predominante, sons dissonantes; um galante pedante parecia, porém elegante se via (de fato, um comediante perseverante).  

Bufante, a debutante, uma falante cheia de implantes chocantes mais cores berrantes, gritou aos dançantes algumas desconcertantes frases redundantes, mas julgando-as ressonantes; nenhum infante participante entendeu o preocupante, também alarmante, rasante da notória arrogante farsante. Doravante, os ocupantes se serviram de espumantes refrescantes, enquanto seu odor lacrimejante era fingido com desodorantes de teor perfumante (sempre desinfetantes) pelos fumantes. 

Num rompante, o feirante vacilante ingeriu seis calmantes dum fabricante importante, mas era purgante, e talvez com adoçante; a cartomante o instigou e, suplicante, pulou até a reconfortante sala do governante, como reclamante militante (ah, inconstante votante), exigir um instigante reparo, não era pujante ou gigante, é claro, mas edificante e equivalente, em sua oscilante mente de errante. Almejava ser um viajante em Nantes, esse replicante maçante.

Todo diamante é cintilante, quase flamejante, ofuscante até aos comandantes – excitante! Com seu ar triunfante se faz fulminantes aos exultantes pagantes, algo marcante. Ver seu eqüidistante formato é ao visitante da loja picante deveras impactante.
 - Levantem seus pisantes antiderrapantes e saiam em alucinante corrida de elefantes galopantes, a fim dos jactantes restarem conflitantes com a visão culminante e apaixonante do nunca desgastante diamante. 

O ficante prendeu barbantes no volante e os uniu ao hidrante transbordante – palpitante saiu. A lactante, por sua vez, descolorante e alvejante depositou na sauna fumegante, composta por assinantes ultrajantes – para ela foi emocionante, para eles, broxante. 
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30 de junho de 2012

Maquiagem: a batalha velada


Maquiagem, do francês maquillage, para os afrescalhados é o make up, é a pintura facial e inclusive a corporal. Qual é a finalidade, qual a motivação, o costume, a tradição ou a tendência da moda que impele uma pessoa a se pintar? Afinal, não é tão natural assim, há algo por trás desse fim, que em muitas culturas se tornou corriqueiro, sendo considerado pelos mantenedores da ordem até mesmo falta de decência, de civilidade mesmo, não maquiar a pele, essa coisa tão grosseira – epiderme defeituosa. Esta segunda pele, com claras intenções sociais e retificadores, tenta substituir a pele biológica, herdeira de uma nem sempre bela seleção natural. E haverá sempre uma velha fofoqueira a espalhar discórdia e um afeminado a clamar alegria.

A origem pode ser religiosa (ritualista), como em celebrações de fertilidade e cerimônias fúnebres, ou então guerreira (agonística), ou apenas estética e símbolo de alguma função ou posição social, como é o caso de qualquer adereço e adorno. Sociedades tribais têm por costume se apresentar a suas entidades místicas e protetoras devidamente caracterizadas, visto que seria uma ofensa entrar em contato com o divino como se fosse mais uma atividade do cotidiano, como plantar mandioca ou descascar batata. Ao perceber-se como parte da natureza, com capacidade para alterá-la e até domá-la, o homem precisou de artifícios para simbolizar sua passagem de bicho para civilizado. Essa etiqueta das etnias exige um formalismo, ainda que excêntrico para nós, os “pós-bárbaros”, pois a falta de vestimenta sempre chocou os pudicos e europeus. A selvageria, a bizarrice ou a agressividade para uns é a naturalidade ou a trivialidade para outros. É sempre chocante deparar-se com algo a que não se está habituado. Oh, quantos julgamentos inflexíveis!

O combate é outra coisa importante para os indígenas, é preciso preparar-se e fazer as honrarias e superstições de praxe a fim de não ter consciência pesada e de ninguém alegar negligência por parte do guerreiro. A pintura, assim como a armadura e as insígnias, inspira respeito e dignidade aos fracos e covardes – nítida hierarquia que distingue tipos humanos. Numa guerra só vence quem se arrisca, mas sabemos que todo cuidado pode ser pouco, e fatal. É claro que se mandinga tivesse a força que se pensa, o campeonato baiano acabava empatado, porém o determinismo em vestir a mesma cueca, pisar com o pé direito, fazer o sinal da cruz ou bater na madeira três vezes é anterior, e obviamente superior, ao indivíduo. Quem já se iludiu testemunhar atividades paranormais e macumba pesada não ousará contestar, muito menos desafiar, tal poder.

E na cidade, nos grandes centros urbanos, nas pós-modernas e frenéticas metrópoles, apinhada de gente que se julga muito distante dos índios, do povo do mato? Ah, eles não vivem em comunidade de duzentos habitantes, não caçam nem coletam, eles estudam, pegam engarrafamento e xingam a máquina. Seus símbolos os diferem e coloca-os acima dos demais. Jamais se sentiriam bem se comparando a povos atrasados, cujas referências são os deuses pequeninos, bem aquém do Todo-Poderoso Jeová. Seus ídolos, ícones e paradigmas são justificados, apesar de serem recentes, mas o tempo não prova nada, não é mesmo? A juventude é um bem em si; quem vive de passado é museu e arqueólogo. A sociedade individualista incentiva e (só) gera pessoas únicas, tão diferentes entre si quanto plantas da mesma espécie criadas em ambientes separados. Enquanto crescem e se autoafirmam, os jovens precisam se identificar com algum grupo (tribos urbanas), ou seja, no fundo desejam assemelhar-se, desde que dentro de um estilo visto como descolado e conveniente. É claro que eles se misturam com ressalvas, pois se simplesmente copiassem uns aos outros seriam criticados por falta de personalidade (muitos já desistiram disso, desejando ser covers, com orgulho).

E onde fica a maquilagem, lá do começo, nessa antropologia barata? Ela fica no paralelo que eu faço entre o índio/primitivo e o sujeito urbano. O disfarce continua; esses dois tipos humanos não são tão diferentes quanto se pensa. Ambos são seres instintivos, inseguros e gregários, e talvez sempre serão. A força está no coro, ainda que por aqui ninguém goste de admitir isso. Pois então, por que tantas roupas e marcas, pesados panos e iluminados cosméticos? Quem se importa? Se por lá são os deuses que julgam, por aqui é a Vox populi: voz alastrada que devasta os não convictos, olhares difusos desnorteiam os frágeis confusos. Sentir-se admirável é um imperativo em qualquer lugar, aquele poderoso que concede honrarias e coroas ao bom fiel só muda de nome nas culturas. Você deve saber o nome de seu Imperador, Senhor ou Exu. Ater-se a padrões e normas sociais impossibilita o vôo, pois a ditadura da maioria é conveniente aos medíocres, que aparam as asas de quem sonha em voar. Em paralelo, a mesma multidão exulta-se diante do herói fantasiado na telona.

Sei, estou divagando e fugindo do tema, coisa de indisciplinado. Focarei nas mulheres, sem dúvida as que mais consomem produtos de beleza, e não importa a idade da dama, desde que o desejo seja parecer jovem e atraente (ainda que ninguém concorde). Para elas há uma guerra, que é muitíssimo velada, pois ninguém a declara como tal, e (quase) todos vêem nessas fatídicas disputas de destaque mero empurra-empurra. Há muito vermelho no salão e olhares obtusos em profusão; o batom atiça no outro o desejo, erotismo que só se abranda com beijos. Se para o índio o objetivo é afugentar espíritos maus e parecer perigoso e viril aos animais e entes da floresta, para as mulheres o desígnio é desestabilizar seu alvo (pretendentes ou invejosas) com sua aparência estonteante ou somente adequada à moda, esta megera que substitui por capricho os valores em voga. O agrado transcendental de outrora se tornou a satisfação carnal e material, afinal o prazer é a teleologia da sociedade hedonista, por ora triunfal. Junte-se a isso a necessidade de posse que tacitamente cerca os ambientes badalados e teremos a conduta vaidosa predominante nos círculos sociais burgueses.

Eu vejo a maquiagem como símbolo maior dessa busca quase generalizada em destacar qualidades e esconder defeitos, seja externamente – a imagem é mais nítida e palpável do que uma idéia –, seja da personalidade e do caráter – um bom leitor de linguagem corporal capta as malandragens e sutilezas do comunicador. E mesmo as garotas grotescas, que só se expressam por preto e em muitos casos se encobrem com piercings e tattoos indecifráveis, enquadram-se nesse conceito de passar maquiagem para tentar transmitir preferencialmente as boas informações sobre si. Estas tentam desvalorizar o corpo feminino, principalmente aquele vestido com itens artificiais e mercadorias sintéticas, como arma de conquista, enquanto afirmam a rebeldia, o intelecto ou a polêmica como forma de melhoria social; do outro lado, as modelos e simpatizantes da estética corporal defendem a ética do belo, custe o que custar.

Assim vimos o quanto a beleza é um conceito que muda de acordo com a época, o local e a direção do vento. Pode advir disso: aberrações gradualmente avaliadas com conivência; limites (do que pode ser feito em busca de um ideal etéreo) sempre ampliados, ou mesmo ignorados, e a futilidade, isto é, dedicar-se exclusivamente ao corpóreo (material girl). Os gays adoram isso tudo, é óbvio, poucos são bem resolvidos, sem carregar um mínimo de neurose e frustração pelo repúdio social e, não raro, o familiar também. Enfeitam-se e exigem animação e cores aonde vão. Trocam a tristeza e incompreensão interna pela ousadia e confusão externa. E as mulheres, suas melhores amigas, acabam sendo influenciadas por suas histerias. Torna-se padrão camuflar o que não se quer ver mais. As batalhas são travadas na noite, ganha quem fingir sangrar menos.

Há sempre uma referência a alcançar e uma colega a invejar. Quem se delonga olhando no espelho se ama demais, mas sempre encontra imperfeições a corrigir. Com a verde grama do vizinho e os sorrisos que encontramos no caminho nós nunca cansamos de nos comparar. Mas atenção, um espelho é tão subjetivo quanto qualquer tela impressionista. Então, por maquiar-se qual foi a sua grande conquista?
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ruk.jbv

9 de junho de 2012

Sobre Autoafirmação


Conquistar a independência pessoal não é uma tarefa das mais tranqüilas. A transição para a vida adulta exige esse abandono da dependência financeira, afetiva e intelectual da família a fim de caminhar com os próprios pés e tomar as próprias decisões perante os imprevistos do mundo. Após essa fase, viria a da interdependência, que é o reconhecimento de que não é possível realizar tudo sozinho, que sempre haverá uma carência, seja por afeto, dinheiro, cuidados domésticos ou apenas por um ouvido para escutar os sonhos, reclames e devaneios do momento. Em ambas as fases a autoafirmação se faz presente na cabeça de cada um (sentimento que às vezes nunca se vai, no caso do inseguro e fugidio) e volta-e-meia dá as caras, lembrando-nos de que as coisas poderiam ser melhores, que faltou alguma dedicação. É claro que crescer sob cobranças facilita o surgimento de obsessões e magalomanias.

Parece que é preciso continuar o bordado e torná-lo mais bonito e pomposo, com uma complexidade crescente, afinal a comparação com algum perito traz aquela inveja de que nós não somos tão capazes de algo, fazer melhor é superar o outro e a si. Aos que perseguem uma carreira profissional, ter salário maior e promoções de cargo – flashes, fama e holofotes – é como receber um sinal de que as coisas progridem conforme planejado. Contudo, haverá sempre um peixe maior, não existe um topo, os limites nós mesmos traçamos, sendo possível indefinidamente alargá-lo, feito um vício. Então, para quê serve essa superação constante? Competitividade para anular a humildade e a inferioridade que insiste em assombrar o vaidoso? Tudo isso só faz sentido quando se relaciona com alguém que se envolve com os efeitos dessas demonstrações de superioridade, e se agrava com a visão das pessoas como objetos, ou mercadorias! Com rótulos, etiquetas e preços a comparação é imediata. Um ermitão ou um cínico pouco se importaria com hierarquias e opinião alheia; orgulhosos demais desconsideram seja quem for: deuses, semideuses, inocentes ou indigentes.  

O macho distinto, o chamariz na multidão, o pavão galanteador ou o gorila provedor, todos esses símbolos que carregam consigo aquela pitada de excelência, ainda que provisória, seduzem os homens, mas também as mulheres, em especial as que assumem um papel social ativo. Porém, é sabido que o falo representa algo mais aos homens, o pavor da castração é quase nulo nas damas, ainda que estas sejam machonas. Emerge, então, essa necessidade de orgulhar-se pela própria grandeza, virilidade e potencial de peripécias, e bem cedo. Não é à toa que gangues são formadas por membros juvenis, em muitos casos imberbes, à procura de desafios a serem superados, ainda que os de fora os julguem como vulneráveis provocadores. Pichações, rachas e quedas-de-braço tentam acalmar esses insensatos com um mínimo de status na panelinha. As conquistas e as posses servem para preencher o vazio interior e acalmar a falta de um selo de qualidade. A zica é alguns se empolgarem e se resumirem à facção, importunando muito mais gente. Todavia, quem não passou por essas fases de rebeldia e vanglória pode se preocupar demais com o marasmo – morreu sonhando.

“Eu queria provar para todo mundo que eu não precisava provar nada para ninguém.” A melhor frase sobre a verdadeira superação da autoafirmação. Mesmo ao ignorar o próximo, se a pessoa se esforçar em provar a si que é boa o suficiente, esse orgulho não terá o mesmo ímpeto de quem fez essa prova e também recebeu olhares e elogios, ou até críticas, de outrem. Vejam os autistas, eles não estão se autoafirmando, eles apenas cumprem seu dever internalizado, indiferentes a terem-no executado. Narciso tampouco se deixava abater pelos paparicos alheios, só ele valia (em juízo e em beleza), pensou ter-se tornado divino, o tal; ingênuo, tamanha adoração para tornar-se um vegetal. Mas, de resto, os vaidosos sem interrupção, nós mesmos, sofremos sem ter do público aprovação. O excesso de crítica, o opróbrio altercado e o ostracismo têm-nos derrubado. Um desarranjo mental acende um alerta, um sinal; atitudes inversas devem ser tomadas, sob pena de sofrimento crônico, amenizado ao ingerir biotônicos. Porém, ser medíocre só por simpatizar pode ser limítrofe.

                Os críticos de música detonam o excesso de firula e de intimismo de artistas com muitos improvisos e arranjos complexos. Simplificar é o caminho, dizem, por que complicar algo que pode ser direto e objetivo? A comunicação em tons maiores e alegres transmite melhor a intenção do músico, mesmo um obscuro. Voltar à simplicidade primitiva aparentemente é uma volta às origens da arte, algo tradicional e mais facilmente digerido e comercializado. Porém, quem se vê diferente dos demais precisa fugir das obviedades, deseja esconder algo dos outros, nem que seja apenas para se sentir imune aos ataques dos ouvintes ou leitores, pois eles jamais captarão o original intuito do interlocutor, que sonha com linguagem privada. É como um mágico que pratica um truque não descoberto, ao menos pelos não especialistas. Ele está simplesmente se pondo em posição superior, nem que seja num trono imaginário – há muitos Napoleões por aí. Ilusionista iludido, pois toda linguagem é pública e carrega consigo inúmeras informações, inclusive as inconscientes. Proselitismo, porém sem essa dose de auto-engano ninguém teria forças para tentar e se aperfeiçoar.

                E quem mais se engana? Quem desconhece a si e, confuso diante do mundo, esse palco giratório sem hora para encerrar os atos, age, ou melhor, reage, só para garantir alguma marca indelével na natureza: sua digital, única e pretensiosamente insubstituível. Atualmente, a identidade do jovem exige um mínimo de posses, conquistas e adereços que simbolizem certas origens, convicções e anseios, facilmente lidos e enquadrados pelo público. Ao seguir esse fluxo do sistema, a tendência é manter o padrão de atuação até envelhecer, claro que com picos e declives, dependendo da inserção social e do impacto do retorno (feedback) sobre esse, até então, jovem. Eu vejo a vaidade como o maior estímulo à autoafirmação do indivíduo; a autoestima é diretamente proporcional à análise interna dos hábitos praticados, analisados, contudo, pela ótica imaginada do outro por ele valorizado. Portanto, externa.

É importante sentir-se engajado para realizar façanhas que beneficiem a sociedade, e ainda auferir com isso elogios e prêmios. Mas ficar obcecado em ter que transmitir um suposto sucesso pessoal é outra coisa. O sucesso é mais sólido e bem visto quando é conseqüência do trabalho do que quando é um desígnio, um alvo, o foco. A maioria é sempre formada pelo comum, o ordinário, porém como as pessoas se sentem obrigadas em ser amadas, mesmo sendo deficitárias de qualidades destacáveis, elas tentam a qualquer custo agradar, resultando nesse excesso de pose e vaidade que verificamos em idas a shoppings e concursos de qualquer bobagem. Sendo assim, o objetivo é mais causar inveja nos frustrados e incompetentes do que autoafirmar-se, no sentido de superar fraquezas. Autenticidade – no que for possível enquanto ser autônomo em relação às influências do cotidiano – é equilíbrio entre vaidade e liberdade, visando progresso pessoal. Já que somos sujeitos no ambiente, e estamos sujeitos ao ambiente, vamos garantir doravante a nossa felicidade, e de quebra alegrando o entorno cheio de vaidosos, de invejosos e de inseguros como nós, cada qual em seu nível de satisfação. Conhece-te a ti mesmo e assevera tua consciência a viver bem, sem tanta severidade. 
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