2 de outubro de 2015
Acaso: questão de crença ou de distribuição estatítisca?
Acaso, a casu, aquilo que acontece sem causa. Mas se TUDO tem uma causa precedente, como ficamos? Na verdade, há três explicações ou visões diferentes de acaso, vejamos: aquilo que não possui finalidade ou o propósito vulgarmente conhecido como “Deus quis assim”; aquilo que não foi pré-determinado como faziam as parcas na mitologia grega, tecendo o destino dos homens e dos deuses, que nada podiam fazer para alterá-lo; aquilo que não tem explicação através de relações precedentes, como no nível quântico, quando não se pode prever a posição de um elétron, apesar de haver conhecimento dos dados do teste. Queremos aqui alertar para as contingências e para a ideia de Deus provedor que acaba com o acaso. Defendemos a tese de Demócrito de que o cosmos é formado por acaso e necessidade, bem como a tese maquiavélica de que a vida humana é uma soma de virtus e fortuna. Basicamente são estas as causas para o sucesso: habilidade, talento, planejamento, conhecimento, esforço, persistência, ajuda externa e aleatoriedade. Pronto, após algumas frases podemos dispensar todos os livros de auto-ajuda já escritos. Agora vamos aos detalhes.
O surgimento do Universo é explicado (cientificamente) pelo acaso? Por que aconteceu o Big Bang? Por que existe o Ser e não antes o Nada? Ou será que o Ser é um advento do Nada? Como conhecer os episódios que antecederam a explosão que teoricamente originou o Universo? Qualquer explicação que não caia em metafísica irá simplesmente dizer: aconteceu, oscilou e explodiu – há outras teorias, é verdade, como a do eterno retorno e a do choque entre universos paralelos. Em seguida, os átomos colidiram-se casualmente e acabaram gerando estrelas, planetas, galáxias, aglomerados e etc.
A natureza é apenas necessidade e o homem é basicamente liberdade, como pensava Kant? As leis físicas exigem que certas causas resultem em certos efeitos, logo não dá para jogar tudo na conta do acaso. Ou será que tudo é determinado e acreditar no acaso seja questão de fé? Ou justamente por não recorrer a nenhuma explicação “fora” da natureza o acaso se torna uma ideia robusta? A antinomia necessidade ou liberdade incomoda os pensadores desde o começo da filosofia. A tese do acaso é uma tentativa de resolvê-la.
(Citamos a fé, que remete à religião, que por sua vez remete a Deus, que mais cedo ou mais tarde faz pensar no infinito. Essa palavra ou conceito é talvez o mais complexo de todos. Podemos conceber o infinito, mas não imaginá-lo. Pense um pouco sobre ele. Pensou? De verdade? Se sim, volte a este texto de filósofo amador/diletante.)
É possível que toda tentativa de esclarecimento do acaso deixe sempre dúvidas sobre o sentido do termo. Avancemos na tentativa de dirimir possíveis dúvidas. Acaso e aleatoriedade
são a mesma coisa? Não necessariamente. Aleatoriedade é simplesmente a alternância de fenômenos sem previsão, ou pelo menos sem certeza das previsões. Se jogarmos uma moeda para cima ela cairá em cara ou coroa; há uma causa (jogar a moeda), mas a série alternada de caras e coroas é imprevisível. Se a primeira jogada der cara e repetirmos o processo é bem possível que não dê cara novamente, isso é aleatoriedade. Encontramos outros exemplos disso (mais complexos) em: decaimento radioativo de um átomo, emissão de fótons por elétrons, geração de elétrons e pósitrons a partir de raios gama, produção de partículas pelo vácuo, movimento browniano de moléculas e recepção de algum produto da indústria cultural. Será que conseguimos deixar o termo mais claro agora?
Há um conceito antigo utilizado pelo epicurismo e depois retomado pelo filósofo Gilles Deleuze, que é o de clinamen. Ele significa um desvio mínimo da linha reta, é como se um átomo se rebelasse e por vontade própria desviasse seu percurso supostamente previsível. Isso pode ser transposto para questões humanas e se referir à liberdade e às excentricidades que os homens ocasionalmente exibem. Se o homem é livre, ele não está agindo por necessidade, será que nestes momentos ele escapa tanto ao determinismo quanto ao acaso e se aproxima de seu ser? Ou isso é metafísica barata e misticismo cristão? O livre-arbítrio é mais um conceito complexo – e mais um que não será solucionado aqui, apenas alertado.
Com desvio do “curso normal” podemos, ainda, referirmo-nos ao “efeito borboleta”, em que um evento minúsculo e sem importância para o todo acaba tendo desdobramentos imensos e imprevisíveis naquele momento. Em retrospecto pode até ser possível localizar a causa de eventos gigantes, como tsunamis ou bolhas acionárias, contudo a distância do momento 1 para o momento 2 pode ser tão grande que só aqueles que se acham videntes e iluminados irão se arrogar sabedores do futuro. É possível haver alguém onisciente, a ponto de identificar os mínimos detalhes que se relacionam de inúmeras formas, gerando um processo complexo? Eu duvido, mas o que não falta no mundo é gente de fé, gente que quer acreditar em sabichões. Só mesmo Deus poderia ser capaz de tal poder, mas Ele talvez seja apenas um consolo metafísico para essas questões angustiantes e sem resposta. Será que essa falta de resposta explica o porquê de tanta fé? É possível, pois o cético é o excêntrico.
Inteligência é capacidade de aprender, em especial com os próprios erros. A seleção natural teve que privilegiar os homens mais inteligentes para compensar seus corpos débeis, em relação ao restante dos animais. Criar ferramentas, organizar e manter grupos, prever caçadas e imaginar situações, entre outras habilidades, foram muito úteis à sobrevivência da nossa espécie. Sendo assim, a mente humana foi moldada para conseguir identificar causas, por mais que essas causas sejam julgamentos errôneos. E se a causa não for encontrada ou explicada foi porque algo sobrenatural interveio, assim ela infere. Contentar-se com “foi sorte ou foi azar” não parece suficiente, apesar de muitas vezes ter sido somente isso. Quer dizer que o intelecto pensa demais e conclui errado, enquanto que um apressado logo diz “isso foi lance de sorte” e está correto? Nem sempre, os acertos e erros dependem de cada situação. Certo é que a faculdade de imaginação cria mundos que facilitam a vida do homem.
As pessoas gostam de fazer correlações entre atos e efeitos, gostam de pensar que estão no controle da situação; se não for possível exercer esse controle, gostam de pensar que há um ser divino inteiramente justo que zela pela ordem do mundo. Ora, se o mundo não é um caos, deve haver uma inteligência suprema que organiza essa balbúrdia, não é mesmo? Porém, devemos perguntar: quem disse que o mundo é harmônico e não caótico? Quem disse que há justiça (no sentido metafísico e não meramente jurídico)? Quem disse que é preciso uma inteligência onisciente e onipotente para governar as coisas? Se a sua casa não receber faxina, se seus filhos não receberem educação, se você não olhar por onde anda, ainda assim é possível que tudo no fim dê certo para você. É claro que as chances serão menores do que as de quem planeja, poupa e cuida melhor. O que importa é o sentimento de conforto e satisfação por fazer algo e saber por que deu certo ou errado – e ter a quem culpar ou louvar.
O homem não consegue ver o fluxo, ele só vê a aparência. O alerta de Hume de que não percebemos a causa das coisas ainda é válido. Sim, vemos a bola branca batendo na bola preta, fazendo esta se mover para perto da caçapa, no entanto não vemos o processo – e não há como ver mesmo. Outro filósofo bretão, Russell, deu um alerta próximo a esse, sobre o realismo ingênuo: o verdejar da grama, a dureza da pedra e a frieza da neve não são exatamente o que nossa experiência ou intuição dizem que sejam. Nosso intelecto é limitado pelas exigências da seleção natural, ou seja, não foi preciso que tivéssemos olfato apurado ou ouvido sensível de cachorros e lobos, nem comunicação por sonar (ecolocalização) como de golfinhos e morcegos. A tecnologia hoje é capaz de superar grande parte das dificuldades físicas. O problema é que a civilização se desenvolveu a ponto de precisar de itens e respostas que o homem nunca precisou. Aliada a isso, a imaginação amplia os anseios, daí a teimosia em crenças e ações sem cabimento e a neurose em ter domínio completo da própria vida. Tudo isso reduz a crença no papel do acaso. Exemplos? Adquirir seguros, instalar câmeras e cercas na casa, não comer carboidratos, lavar a mão a cada minuto, tomar remédios diariamente, etc. Ora, quem disse que essas precauções impedirão causas danosas a sua vida? São apenas paliativos, não garantem nada, pois um caminhão desgovernado pode atropelar você e acabar com sua vida metodicamente planejada.
O provável não é certo e o improvável não é impossível. Jogada de Vênus é rara, mas pode acontecer – é recomendável conferir o triângulo de Pascal para descobrir sua probabilidade, além de pesquisar os termos. Tudo tende a seguir o padrão conhecido como “regressão à média”. Sabemos que fenômenos extraordinários ocorrem de tempos em tempos, como Elvis Presley, Michael Jackson, Michael Jordan, Ronaldo e Messi, contudo, se prestarmos atenção, veremos que até eles de alguma forma são esperados, apenas a data, a hora e o local é que não são previsíveis. Esses indivíduos fora do comum são um acaso, portanto? Sim e não. Há tantos artistas e jogadores que é esperado um talento fora de série surgir dentre milhares, é como jogar dez mil vezes uma moeda, às vezes teremos uma sequência de dezenas de caras ou de coroas, o que não é esperado é logo no começo sair essa “maré de sorte”. Ou seja, há alguns pernas-de-pau, há muitos medíocres, há alguns craques e há poucos gênios. Essa distribuição não é casual, ela é esperada. O que não é esperado é um garoto nascido num fim de mundo numa família sem ter o que comer se tornar um desses gênios, que é quando retorna o acaso. Também não é esperado alguém prever com anos de antecedência o perfil desse gênio.
Nos julgamentos temos isto: inteligência, humildade, discernimento e coragem contra pressa, teimosia, convicção e egoísmo. Qual costuma prevalecer? O que é mais fácil. O senso comum tende a se sobressair, e ele ignora dados estatísticos. Talvez porque no mundo real só vemos unidades (números inteiros) e nunca as partes delas (números racionais). Talvez porque seja preciso fazer generalizações para haver alguma compreensão, ainda que apressada e errônea, dos fatos. Ou talvez porque a maioria acredita que o mundo deva ser perfeito, pois é criação de Deus, e como o acaso envolve imperfeições, ele não pode fazer parte do mundo. Mesmo os milagres, que são intervenções divinas, fazem parte do plano maior, logo vão se encaixar perfeitamente no todo, ao contrário do acaso, que é uma aberração dentro do todo.
Acaso, sorte, azar ou coincidência existem ou tudo faz parte desse plano maior, no mínimo da justiça divina? Quem nunca ouviu o jargão “nada acontece por acaso”, querendo dizer que alguém zela por sua vida; se houve algo bom foi por merecimento e se houve algo ruim foi para testar sua reação. Dizemos aqui: isso é crença sem evidências. Não há como comprovar, só há alegações em que se acredita ou se rejeita a priori. Exemplo: sua vida passada foi correta e sofrida, então na vida atual você desfruta o que foi plantado lá atrás. Preciso explicar algo mais? Outro exemplo: Deus nunca erra, se você agora sofre é porque um plano maior demanda redenção, no fim você será recompensado. Acreditar que por puro acaso a pessoa ganhou na loteria, nasceu em berço de ouro, foi baleado ou teve um filho com paralisia cerebral é tão difícil assim? Para a maioria é bastante difícil. E por quê? É petulância identificar um motivo apenas. Quem sabe seja uma característica humana; sabemos que superstições são encontradas em todas as sociedades. Até os gregos acreditavam em destino, a verossimilhança não era vista por eles como um tipo de argumento válido.
Em lógica uma proposição muda tudo, A e B é muito diferente de A ou B, mas quantos compreendem essa sutileza? Falácias convencem mais que teoria dos conjuntos ou cálculos matemáticos. Até especialistas costumam errar quando os problemas envolvem probabilidade. “Embora tenham precisado de muitos séculos, os cientistas aprenderam a enxergar além da ordem aparente e reconhecer a aleatoriedade oculta na natureza e na vida cotidiana” (MLODINOW, 2011, p. 33). Certamente os homens em geral não conseguem porem-se como marionetes, como uma roleta que gira e para dentro de algum ângulo, não é a toa que o personagem Duas Caras da DC Comics só decidia após jogar uma moeda e era doente, esquizofrênico; é como se a sanidade mental exigisse o autoengano de crer no controle da própria vida. Qual é a consequência imediata de se crer no acaso? Maior humildade, pois se você não é responsável por seu sucesso, o outro pode não ser responsável pelo fracasso dele.
Há outra conseqüência, exclusiva ao nível profissional: ninguém irá merecer um salário astronômico por seu trabalho. Por que pagar cem, mil vezes a alguém, em comparação ao empregado ralé da mesma empresa/companhia? É um estímulo à competição e à idolatria. Porém, como vimos, o puro acaso tem seu papel garantido nessa escalada até o topo da carreira. Palpites se tornam avaliações científicas, legitimados por uma conta bancária bem gorda. Só que é perigoso julgar alguém com base apenas em resultados de curto prazo, é preciso de mais amostras, logo de mais tempo, para uma conclusão mais realista. A percepção é distorcida pelo que chama mais atenção e corrobora as ideias ou hipóteses. O grande problema é fazer dessas ilusões a verdade do mundo. Concluímos que a verdade está distribuída; como garantir que eu ou você somos os sortudos que a possuem?
Referência (e recomendação de leitura):
MLODINOW, Leonard. O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas. Rio de Janeiro, Zahar, 2011.
20 de setembro de 2015
Desafogar Poesias
Frígida
Num coração tacanho
nenhum amor faz lar
Lá a soberba é tamanha
que só pode uma frígida
em contento morar.
Vulgar
Não bajulo ídolos com dentes d’ouro
Não me
ajusto com crápulas de Armani
E nem seduzo a oca beleza infame.
Sei que ama
a multidão da fama os louros,
São todos heróis de meia-tigela
Que o
vulgo, feito trator, vem, nivela.
Papo mole
Toda pátria é estranha
Pra quem não tem a manha
De arrumar seu cumpadi
Na lábia; papo mole
Que um tonto sempre engole.
Durmo na cova
O amor se foi...
É o tal mundo burguês
preenchido de Góis,
yuppies e filisteus.
Acordem-me da cova
quando for boa a moda
declamar suas trovas
o amante, que elos solda
e sua bela amada louva.
Mãos no queixo
Eu vejo na menina mãos no queixo
Logo
percebo que ela está tristonha
Conta a mim: estou esperando a cegonha
Mãe
solteira, não terei do herói o beijo.
Sacou?
Disto os tiranos não se convencem:
Minha liberdade não pertence
Só a mim ou aos meus parceiros
Ela é para o mundo inteiro,
Por ser indomável e oportuna
Ao chegar confunde, pois é bruma.
Coração de poeta
De amores platônicos nascem
poetas
É a mais comum forma de sublimação
Decerto, todas as damas são
incertas,
Porém nunca erra deles o coração.
Olhos de animais
Por favor, minha alma velem,
Porque meus olhos não mais vêem
a beleza oculta nos sinais
Incapaz de enxergar a Helen
me aproximo dos animais.
Danças
Quando vejo na TV antigas danças,
Inspiradas em cortejos da França,
Penso que o povo talvez fosse chato,
Seus movimentos imitavam flatos.
Sorte?
Pensa então que tem sorte?
Seu suco vende como vinho
Tanto lucrou nesse transporte
Que comprou um bom carrinho.
Mas a sorte é matreira
Por muito tempo não se engraça
Com mero vendedor de feira,
A malícia a ameaça.
Desprezos
Ela sempre o desprezou,
pois com status sem valor
não há um jovem que consiga
adquirir qualquer amor.
Só que o tempo sempre passa,
o fusquinha virou Porsche
e a florzinha tão megera
pra ser a escolhida torce.
Não tem mais qualquer valor
uma borboleta velha,
pois se ficou ultrapassada
os babacas nem dão trela.
Desejo
Desejo aos poucos e bravos
inimigos meus duras dores
da quimio cara e duradoura.
E que não lhes reste um centavo,
findando a disposição de ânimo –
esse é meu desejo magnânimo.
Cigarros & Álcool
Minha sina:
Falsa vacina.
A angústia que
trago
Para dentro
deste peito
Ansioso, enegrecido,
Onde o ar circula rarefeito,
Guarda uma verossimilhança
Com o fel, que melancólico
Se insere na
barriga
E eleva o alcoólico
Teor do sangue
Ordens do patrão
“Aqui não se admite cagão” –
É o que diz a nós o patrão –
“Quem for não ficará de pé
Até cumprir o que eu disser”
Nós rezamos “Este é meu rifle”
Babando feito um bullmastiff
Ansiando por sangue e gim,
Além da festa com Geni.
Só Pepe Legal
Passa por lá a provocativa gata
–
Os marmanjos se acham Pepe Legal,
urram, pulam, não fecham a
matraca.
Ela apenas sorri e sai do local,
deixando os galãs com suas
bravatas.
P.S.: O blog está morto, estou apenas desafogando poesias do PC.
18 de junho de 2015
A arte de não escrever
Como é, após o hábito adquirido, ficar tanto tempo sem
escrever? Abdiquei da minha carreira ou talento ou mera aspiração de escritor?
É provável que sim. Este texto é apenas um último suspiro, uma dispensável
reflexão sobre a arte de não escrever. Digo arte porque quando há vontade de fazer
algo, mas que não se cumpre por algum motivo, acaba brotando sentimentos e
representações, e expô-los é justamente meu intento no derradeiro post deste
extinto blog. Mas como essa vontade é frágil, sigo o conselho do velho Buk: “se
tens que estar horas sentado a olhar para um ecrã de computador ou curvado
sobre a tua máquina de escrever procurando palavras, não o faças”.
Esclareço: estou há
cerca de seis meses sem escrever, sem botar ideias no papel; foram apenas
alguns parágrafos, versos e esboços, nunca mais de uma página. Ficar sem ideias
é impossível, não paro de pensar, porém o antigo afã está esmorecido, como se as
palavras represadas não fizessem mais falta ou diferença. Ao menos no que se
refere a textos autobiográficos como este ou então aqueles metafóricos que
acabam transparecendo parte de mim. Estou numa fase em literatura semelhante à
minha persistente fase de suspensão criativa em música. Não é simplesmente
bloqueio, é renúncia de fato. O que realizei dos 17 aos 24 anos,
aproximadamente, com guitarra e composição, foi o que eu realizei dos 24 aos 29
anos, na área da escrita. É claro que não tive sucesso em nenhum dos dois
campos, contudo houve produção de algo, e valorizo muito meu processo criativo,
mesmo na ausência de repercussão e boa recepção – não nego que algum feedback é
capaz de me envaidecer ligeiramente.
Como acredito em justificação estética da existência, na
vida como estilística da existência, é preciso criar obras, valores e
significados, daí a importância fundamental da arte, maior que qualquer outra
área do conhecimento. Porém, como estou num período sabático, ando mais
refletindo, antes deglutindo, ruminando e aprimorando meu gosto pessoal que
ansiando por mostrar ao mundo minhas impressões acerca dele. Faz alguma falta
essa pausa? Até faz, mas sei que dela sairá algo grande. É como o impulso que o
saltador necessita dar antes de pular, é como a preparação que qualquer outro
atleta faz para poder voltar a vencer. Não esquento a cabeça, nem sofro
pressão, estou ciente do que estou fazendo; eu só pararei de vivenciar a arte e
de criar algo deveras idiossincrático quando sofrer algum acidente, o qual me
transformaria em outra pessoa.
E o que quer dizer exatamente essa pausa? Resposta: minha
monografia. Escolhi um tema grandioso e tive que reunir uma grande quantidade
de material para ler para depois não escrever besteira nem algo insuficiente e
descartável. Eu não quis fazer faculdade só para ter mais um diploma, mas sim
para aprender e escrever algo útil e que me desse orgulho. E qual é o tema?
Basicamente, a estética alemã de Kant a Nietzsche. Já são seis meses
praticamente lendo apenas sobre assuntos relacionados a isso. Ainda não me
cansei, até porque o tema é amplo demais para me aborrecer em tão pouco tempo.
Vislumbro vários artigos, além da própria monografia, como filhotes desse
período de estudo. Sendo assim, penso que parar de escrever casos pequenos,
insignificantes e peculiares é um bom modo de começar a pensar grande, pelo
menos em termos acadêmicos, a fim de passar a escrever coisas mais respeitáveis
e universais. Se eu terei sucesso em mais uma empreitada? É possível que novamente
ela naufrague. Ficarei frustrado? Se eu novamente me orgulhar do meu rebento,
de forma alguma. Eu sou meu maior juiz, dane-se o silêncio ou até mesmo o
escárnio alheio.
Há
seis anos eu comecei a escrever aqui como forma de me encontrar no mundo e de desprender
angústias de dentro de mim, além de passar pelos processos de sublimação e autoconhecimento,
os quais são inevitáveis a todo escritor. Esse ciclo foi completo, como aleguei
anteriormente. Eu me tornei outra pessoa, não completamente diferente, mas sem
dúvida estranha àquela mais jovem e patética. Não sofro dos mesmos complexos.
Os problemas são outros. Os objetivos também. Tornei-me careta demais? Acelerei
o processo de amadurecimento? É provável que sim. É provável que tenha apenas
alterado a direção da chatice. Certo é que estou sereno e satisfeito com o que
me tornei, apesar da lacuna das realizações profissionais e artísticas, por enquanto.
Como eu disse, minha consciência está tranqüila, fiz o que estava ao meu
alcance. Evito sempre sentir rancor e arrependimentos, pois isso dá úlcera e
cancros. Sentimentos ruins devem durar pouco, apenas a angústia pelo vazio
inerente de sentido do mundo é que deve perdurar.
Fico com esse último solilóquio,
desta vez não foi muito soturno, e então me despeço, deixando-os com alguns
versos de Leminski, meu poeta favorito: “Essa minha secura/essa falta de
sentimento/não tem ninguém que segure,/vem de dentro./Vem da zona escura/donde
vem o que sinto./Sinto muito,/sentir é muito lento.” Adeus.
28 de maio de 2015
Um retorno para enganar a torcida
Criatura da noite
É na noite
que irrompe as vezes inesperadamente,
quando o habitual vira estranho.
Bate o vento
buscando por coisas sorrateiramente
que tanto esforçamos em camuflar.
Acende-se
a luz que ilumina artificialmente
aquilo que teimamos em não ver.
Respiremos
a fim de aliviar oportunamente
um peito atormentado d' ilusões.
Enfrentemos essa noite
Encaremos maus agouros
Criaremos no final
Um monstrengo vampiresco?
Formado em sua metade
pela escuridão total
e na outra parte um corpo
que vê no sol um mal?
Biodinâmica
Tinha uma pedra no lugar do coração,
mal fazia uso desse órgão.
Pétalas petrificadas se espalharam,
paralisando suas entranhas.
Utilidade? Só acima da cervical,
via processo top-down.
Ele morreu sem saber que nas minúcias
era expresso o júbilo total.
Tinha uma pedra no lugar do coração,
mal fazia uso desse órgão.
Pétalas petrificadas se espalharam,
paralisando suas entranhas.
Utilidade? Só acima da cervical,
via processo top-down.
Ele morreu sem saber que nas minúcias
era expresso o júbilo total.
Caminhando nas nuvens
Foi por tanto tempo,
sozinho ou acompanhado,
que estive na busca por você,
solitária residente dos meus sonhos.
Havia um buraco neste peito
carcomido pelas beiradas, mea culpa
Nada queimava,
mas a pele seca ardia.
Gastei tanto tempo preso,
olhando para trás
e para os lados, miséria
Havia aqui uma enchente represada.
Quem eu era então
nunca mais reencontrei
Tanto a esperança quanto a verdade
estavam em você, meu paraíso.
Estando ao seu lado
eu caminho nas nuvens
Conquanto seja meu fado
que os espinhos se curvem.
Você não é mais sonho
eu estou em altas nuvens
De nada me envergonho
qu'eu pra sempre lhe louve.
Mergulho do albatroz
Hey!
Olha bem aqui pra mim
Carrego um vazio em meu peito
Vem
Escrever num ser em branco
Tudo que eu preciso é de emoções
Eu nada sou sem teu olhar,
Artigo forte, cru, sagaz,
Não pedirei para agires devagar
Nem desconfia que essa meiga voz
É sem malícia da sereia o canto
Mas age em mim feito albatroz feroz
Eu nada sou sem teu olhar,
Artigo forte, cru, sagaz,
Agora espero o mergulho do albatroz...
Vou liberar a torrente de lamúrias
E enfim regozijar-me em leve bruma
Pérola Branca
Ó, pérola branca
Há tanto tempo lhe desejo
Que deste peito arranca
Promessas, suspiros, mil beijos.
Com ideias suspensas
Enquanto bebo leite com pera,
Pois no futuro ostras não pensam.
Polida em meu bolso
Guardo-a, pérola branca
Prometida ao mais belo pescoço.
Ó, pérola branca
Há tanto tempo lhe desejo
Que deste peito arranca
Promessas, suspiros, mil beijos.
Com ideias suspensas
Enquanto bebo leite com pera,
Pois no futuro ostras não pensam.
Polida em meu bolso
Guardo-a, pérola branca
Prometida ao mais belo pescoço.
É o que há
Relembremos
Da saudosa fase ingênua
Dizeres infantis
Sonho puro logo escoa
Respiremos
Que foi que eu fiz que a machucou?
Fantasma obstinado
Insiste no que passou
Se eu digo que é
casual
Você devolve gritando
Que está marcada em agonia
E nada mais será igual!
Então só isso é o que há?
Eu perdido revirando lixo
sem me reconhecer no espelho
por culpa do seu capricho
Então só isso é o que há?
Aquele homem nobre e sonhador
você pisou e largou pra trás
sem nem pensar na solidão
Eu nunca achei, nunca pensei
Que você fosse chegar a tanto
Eu nunca achei, nunca pensei
Que você, minha amada...
fosse chegar a tanto
Suspeitos perfeitos
Medicamento não é indicado quando há suspeita de dengue
O devedor já olha de lado ao novo anúncio de “vende-se”
Se estremece o colorado quando escuta o nome Mazembe
São os suspeitos perfeitos, suspeitos perfeitos
Na produção de defeitos produzem defeitos
Ao persistirem sintomas, deverá consultar um médico
Um ignorante jamais se preocupará com o léxico
É felizardo o rapaz que recua diante do tétrico
São os suspeitos perfeitos, suspeitos perfeitos
Na produção de defeitos produzem defeitos
Medicamento não é mesmo indicado quando qualquer suspeita de
dengue
O devedor já olha meio de lado ao repetido anúncio de “vende-se”
Se estremece o colorado ao escutar este maldito nome:
Mazembe
São os suspeitos perfeitos, suspeitos perfeitos
Na produção de defeitos produzem defeitos
Vento
das seis
Ele bate no pelo e você sente no ventre
esse é o planeta vento. Ah, sopro potente!
Se ele estraçalha o seu motivo sai do Caribe
um furacão atropelando, nem dá pra sacar seu timbre.
Bóreas lendário mesmo batendo em lama
O efeito vem da lua e faz maré levar mil camas.
Ele bate no pelo e você sente no ventre
esse é o planeta vento. Ah, sopro potente!
Se ele estraçalha o seu motivo sai do Caribe
um furacão atropelando, nem dá pra sacar seu timbre.
Bóreas lendário mesmo batendo em lama
O efeito vem da lua e faz maré levar mil camas.
P.S.: Um respiro, para publicar 8 poemas acumulados. Escreverei apenas mais um (?) post, para comentar sobre a experiência de ter ficado 6 meses sem escrever. Grato pela atenção de todos vocês três.
28 de dezembro de 2014
The End
Acabou, that’s all folks, we’ll see you around. O
post anterior prenunciava: “This is the end, beautiful friend/This is the
end, my only friend, the end”. O
ciclo se fechou, “see you in another life, brother!” É difícil cometer suicídio, dar um ponto
final, admitir o desfecho, mas desta vez é o que está acontecendo. Não tive
muita visibilidade, não tenho seguidores além do meu círculo familiar. A
internet já tem informação suficiente, pode prescindir das minhas opiniões pouco
abalizadas e dos reclames deste tolo que pela derradeira vez escreve/posta. Quero
deixo fluir as ideias às altas da madrugada, num parágrafo apenas, pouco me
importando para pontuação, coesão e formalismo. Tenho minha companheira
destilada a meu lado esquerdo, fiel escudeira de tantas jornadas entre noites amargas, deste sujeito reiteradamente mal-acompanhado. Suicídio não é mais algo que eu cogite, portanto meu corpo está a salvo de sofrer danos de mim mesmo (que pleonasmo!), porém meu alter ego é quem pagará a pena pela guinada à normalidade. É possível que o lado da força tenha vencido, por isso não há mais graça em querer duelar contra um oponente que jaz inerte no solo quente sem poder compartilhar do calor tantas vezes amaldiçoado na terra das árvores retorcidas. Certamente levarei mais tempo que o previsto para compor o texto de despedida, o almoço de meio-dia de domingo que espere, será adiado por uma ou duas horas. O Nor-Mal de seis anos atrás (na verdade faz mais tempo, no entanto o que começou a gritar mundo afora tem mais ou menos esse tempo de existência) não existe mais, não poderei precisar quando ele partiu, faz alguns meses, sendo que o lançamento dodébut conseguiu adiar a ciência de sua partida,
devido ao fôlego das palavras expressas em versos então impressas e lidas por
umas sessenta pessoas. Eu sei que a grande maioria leu três ou quatro poemas,
mas tenho a esperança de que lerão mais, afinal possuem o livro guardado em
algum canto do quarto, assim como eu tenho os meus, que ocasionalmente folheio
sem ânimo, em face da impossibilidade de captar seu conteúdo com uma rapidez de
processamento avançado como o das máquinas high-tech. Contento-me em ler
umas seiscentas páginas por mês das, sei lá, sessenta mil que se encontram no
aguardo de serem lidas, assim como eu me contento em ter três poemas lidos dos,
sei lá, trezentos já escritos. Algo eu realizei, produzi, expeli, adornei,
exortei, revelei, desvelei, conforme aletheia heideggeriana. É motivo de
orgulho, ainda que minúsculo, pois não fiquei com a boca escancarada esperando
a morte chegar e nem me satisfiz, como muitos o fazem, em bater carimbos e
assinar ofícios em série atrás da máscara do burocrata-padrão, leia-se Aspones,
Dilbert ou samambaia conveniente. Não consigo mais me pôr no lugar do André de
seis anos atrás – no que ele sentia, desejava, vislumbrava e compreendia. Fui
enriquecido por experiências, sofrimentos e conhecimentos que me transformaram.
Eu não apenas mudei, fui efetivamente transformado, não sem antes me ver
transtornado, ainda que ninguém, além de mim mesmo, tenha notado tal emoção.
Aquela mudança que a maioria passa na adolescência eu passei, como é de praxe,
tardiamente, entre meus vinte e poucos anos. O que eu precisava escrever,
desabafar e contestar naquela época não é possível mais se repetir. A página
foi virada. O eterno retorno é um mito, serve apenas para impressionar os
garotinhos juvenis. Minha memória não é muito boa. Há o lado ruim disso (não
poder de bate-pronto resgatar no subconsciente os conhecimentos que se pensava
adquiridos), assim como há o lado bom (não guardar rancor e nem criar raízes às
convicções estúpidas que aprisionam muita gente). Quem sabe este texto
personalíssimo sirva de mea culpa, para que eu mesmo relaxe com os erros
que uma incipiente neurose não admitiria, bem como para aqueles que não me
perdoaram até hoje por minha rispidez habitual possam dissipar a sua mágoa.
Procure você também relevar, a maior causa dos erros é a ignorância, seguida da
auto-afirmação, dois itens comuns a todos os homens, e que a vivência é capaz
de aperfeiçoar e corrigir nos futuros conceitos e comportamentos. É disto que trata
esse texto aparentemente non-sense: olhar para trás, fazer um balanço do
que aconteceu e enxergar as melhorias que servirão de escada para um porvir sem
ressentimentos. A culpa, a perfeição e o pecado são malditas ideias cristãs que
destroem a psique de muito desavisado. Por favor, esqueçam-nas, apenas servem
para derrubar a auto-estima do indivíduo que ainda não conhece o “para além do
bem e do mal”. Não há divindades, nem inferno e nem reencarnação, há apenas
pessoas desejando persistir, procriar e expandir. O homem não é necessariamente
ruim por essa redução naturalista, porém é um ser para se desconfiar. Respeito,
tolerância, liberdade e punição aos folgados. Simples. Mas o homem caça
confusão e sei que jamais o que diz respeito a ele será tratado de modo frio,
racional e impessoal. Que seja. Viveremos, aprenderemos e nos adaptaremos,
tanto para que nossas próprias vontades sejam satisfeitas quanto para que nosso
meio/sociedade/comunidade/humanidade possa se satisfazer minimamente. Não há
equilíbrio nesse embate indivíduo x grupo/estrutura. Haverá sempre um mal-estar
por ambas as partes, mas isso não é o mais importante. Há muito conteúdo para
se revisar. E a lição que fica, quem sabe, é que enquanto cada um puxa a
sardinha para seu lado, as sardinhas podem se reproduzir mais ou menos, depende
de nós garantir esse ciclo de vida e morte. Um indivíduo (token) pode morrer,
mas o ser genérico (type) deve permanecer. O espírito sobrevive. Uma vez que a
flecha foi lançada, seu efeito irá reverberar, tudo faz parte de uma engrenagem
ampla que não possuímos intelecto nem instrumentos para captar todos os seus
desdobramentos (não chamo isso de Deus!), e espero que continue assim. Seria um
determinismo, e sem a ideia (mesmo que ilusória) de liberdade é preferível não existir.
Este foi o fim de um ciclo, mas não o fim de um processo. Todo córrego deságua em
um dos três oceanos. Pode ser um grão, uma gota ou uma célula, se se fizer
sentir, valeu.
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