8 de agosto de 2012

Poesia é para ser dita, não lida


Sardinha

Explodiam sardinhas enlatadas
Microondas é uma caixinha imprevisível
Não deixem seus fedelhos manuseá-la
Mas toda criança adora apertar botões
E atirar pedregulhos com estilingues
Afugentando passarinhos e bichanos

Apesar de a maioria categorizar
A maldade é um juízo moral
Se a praticamos é por ignorância
Porém todo mundo foi contagiado
Viver é sobreviver, que é atropelar

Parasitismo é constante natural
Pratique-o, usufrua-o, releve-o
Beije seu calmo hospedeiro,
Acaricie seu verme infeliz
Revele a mais íntima das preces
Esgotadas por falta de uso
É nosso padrão (ação por osmose)

Lamente após, derramando todo o sal
Constante nas lágrimas sangrentas,
Contudo vitais, ou capitais
Apenas se vão o que nós esquecemos
E as oportunidades não agarradas

Garras de presas apressadas
Descuidadas com as viseiras bem vazadas
Vasos de imberbe, de sangue inerte
Pés gelados – defunto distraído
Diante do corpo sem vida esta fez sentido

Lá a sirene grita, quer chamar atenção
No meio da gritaria da urbanização
Há Pelés e Sennas e Gugas
Que sonham em se firmar no esporte
Simplesmente arfam, e buzinam
Na cidade; ninguém se importa
Exceto quando um deles assassina

E o vendedor de pescado fresco
Esperneia e repete os chavões
E suporta o chato a seco
Fora do rio sempre há calor
Que só é refrescado por sacolas cheias
Só queira a cheia que cheira

As donas-de-casa sustentam a nação
Com primazia suposta da economia
Especialistas objetivos insensíveis!
Onde está a integral explicação
Que eu aprendi desde cedo a aceitar?

Descubra a sardinha espinhosa
Seleciona e retire as espinhas
Ou engula-as, sufocando gentilmente
Uma hora o coração não baterá
Mesmo, que você não possa comprovar
O mesmo que contemplar róseas rosas
- Espero que sufoque sinceramente

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