25 de maio de 2014

A sinceridade como inconveniente


"A sinceridade imprudente é uma espécie de nudez que nos torna indecentes e desprezíveis." – Marquês do Maricá

Anos atrás havia um quadro no Fantástico chamado “O Super Sincero”. Salgado era a figura que fazia as vezes do sujeito que simplesmente não consegue dizer mentiras. Ele era o personagem de Jim Carrey em O Mentiroso 24/7, isto é, o tempo todo. É claro que a alcunha “Salgado” não era à toa, pois quem diz verdades costuma ser alguém amargo, que joga sal nos olhos dos outros, que não dá refresco, em oposição ao sujeito doce, afável, fácil de digerir, de conviver, de ter por perto para alegrar a moçada e confortar as mocinhas. O interessante é que esse tipo de pessoa (a sincera) vira caricatura, é tão rara de ser vista que damos risada quando nos deparamos com tamanha sinceridade expressa no cinema, na televisão ou na literatura. A sociedade precisa de suas máscaras; o povo quer ouvir amabilidades e não quer ser desafiado por um pentelho que encosta-o contra a parede. Admito que muitas vezes importa menos o quê se diz do que como se diz, mas em certos círculos sequer eufemismos ajudam. Em prol do convívio social e do tratado de paz, muita cautela, migué e cara-de-pau.

Como é bom jogar a sujeira para debaixo do tapete, quem descobrir a montanha de farelos não terá em quem jogar a culpa, fará o serviço ingrato de limpar aquelas migalhas e ficará tudo por isso mesmo. A esperança é persistente, nós gostamos de pensar que nossos erros não darão em nada ou que no futuro esqueceremos dessas cagadas, e se alguém vier nos acusar de algo haverá sempre uma desculpa – “eu era novo”, “virei outra pessoa”, “isso é coisa do passado, mudei”, todos já falaram algo do tipo. Numa sociedade invariavelmente hipócrita não fará diferença ser mais um a enganar e se enganar. Entre manter-se fiel ao que acredita e ao que realmente é a verdade do mundo, opta-se pelas próprias convicções, afinal elas definem e limitam o sujeito. Após um processo reflexivo e doses de humildade, quem sabe ele mudará de posição e aceitará como as coisas são; porém, de supetão, é algo raro. A identidade forjada é tida como primordial, acima das flutuações de humor, das oscilações hormonais, das variações de juízo e das cascas trocadas e que largamos pela estrada.

“Faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, diz o velho chavão demagogo. Quando se é criança ouve-se o conselho de dizer sempre a verdade, mas servir de exemplo para ela não é comum – “fala para ele que eu não estou”. Isso serve muito mais para servir de controle aos pais e professores do que de padrão ético. O discurso é um, a prática é outra; o imediatismo impera. Tudo ocorre sem qualquer hesitação. Com o passar dos anos, o garotinho juvenil abandona essa “ingenuidade” e aprende a contar suas lorotas e a não ser punido por elas, pelo contrário, gosta de enganar aos trouxas e de se dar bem. Talvez ele sirva-se de um mínimo de “boa consciência”, de moral cristã, de sujeito correto, e equilibre as verdades que o comprometem com as mentiras que o favorecem, encontrando assim a chave do sucesso. Porém, uma pessoa ambiciosa estará se lixando para essas amarras, pois percebeu que “os vencedores” não se prendem a isso, estão focados nos objetivos, que em algum momento ou outro implicam em passar o rolo compressor em quem estiver pelo caminho.

Já alertava Oscar Wilde que "pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal.” O cinismo se tornou sinônimo de cara-de-pau, de picaretagem, de arrogância, justamente aquilo que a escola helênica lutava contra. Ora, não podiam os concidadãos suportar alguém tão desapegado e inferior, economicamente falando, então passaram a inverter a moral da história, como convém aos vencedores. Temos, portanto, o cínico como canalha e a gentalha como detentora da verdade. No mundo democrático isso não está muito longe da verdade, pois é onde o número faz a força, legitima discursos.  Aí, as mentiras servem, socialmente falando, de apoio e confiança mútuos, é o cata-piolho diário dos macacos numa espécie mais evoluída, racionalmente falando. Quem se negar a exercer a prática habitual de ajudar e ser ajudado será excluído, não terá certas benesses que agradam a maioria, especialmente os que se importam com o capital social.

A maioria é evoluída culturalmente enquanto a maioria é preponderantemente primitiva/primata? Não gosto de falar que ainda somos bichos, mas observar a humanidade parece levar a esta conclusão: somos bichos dotados de maior número de tecnologias. Enquanto a verdade e a sinceridade forem às pessoas inconvenientes e perturbações que as retiram de sua homeostase, de um lugar cômodo e privilegiado do qual não gostariam de sair sem receberem em contrapartida alguma grana ou um prazer intenso, o homem ainda estará pouco evoluído. O mundo high-tech parece colocá-lo num Olimpo sem contra-argumentação dos éticos e anacrônicos. Durará pouco para ele ficar mal-acostumado, como é de praxe. Não será difícil derrubá-lo de lá outro sujeito mais abusado. Nesse embate performático ele estará num beco sem saída ou entregue ao pragmatismo sem valores de base? Penso que ele só almeja vencer, nunca convencer, pois isso exigiria pronunciar verdades.

Eu também minto, mas tenho certeza que menos que a média estatística. Nem sempre fico bem com isso, mesmo com as mentirinhas. Evito situações sociais, especialmente as embaraçosas, penso que os outros fazem o mesmo comigo, claro que pelo motivo inverso. Ser filósofo, ou ter a pretensão de ser um, demanda isso. Não tenho o que os outros pensam ter importância, assim como eles não tem o que eu julgo de grande valia. Cada um na sua busca de ser feliz. Sendo assim, meu valor faz minha verdade, ou seria o oposto?

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P.S.: “Verdade”, neste texto, tem o significado de “expressar situações ou acontecimentos verdadeiros” e não o sentido forte e filosófico de “verdade do mundo”. Exceto os desmemoriados e os malucos, que não podem comparar a verdade com a mentira, o restante tem consciência de quando diz a verdade, como um polígrafo nos atestaria. 

13 de maio de 2014

Política atual: mesmas caras, outras garras


A política encontra-se esvaziada. É claro que me refiro aos conteúdos. Haverá eleições em breve, até lá os que discordam de mim talvez passem a me endossar. No fim dos anos 1980 (há apenas 25 anos), quando a democracia voltara a ser uma realidade dos brasileiros, os candidatos eram muito mais “peitudos”. Os programas eram divergentes, havia ideias ousadas no ar, o eleitor conseguia separar o que cada um estava pedindo. Até que desembarcou por aqui o modus operandi da política dos países com democracia avançada (Europa e EUA basicamente), tornando-se uma ingrata constante, pois o que importa no final das contas é ganhar as eleições. A maior conseqüência desse maquiavelismo – será que faz sentido usar esse termo quando se trata de democracia? – foi o marketing político. O fim: vencer. O meio: fazer o povo digitar na urna o número do(s) candidato(s) contratante. Técnica, acima de tudo, no processo. Isso foi só o começo; vamos aos detalhes.

Ter lábia, saber quando avançar, recuar ou provocar, sorrir, dar pinta de simpático, confiável e competente, vestir a roupa adequada a cada ocasião, etc. São diversas as técnicas empregadas pelos aspirantes a cargos públicos, quase sempre mais interessados em mamar nas tetas da máquina estatal inchada e em adquirir poder e prestígio ante seus conhecidos, e quiçá toda nação, do que a fim de trazer bem-estar a seus eleitores e de melhorar o país. Sendo assim, que vença o mais astucioso (ou o mais rico). São tantos os embustes e tantas as voltas que ele precisa efetuar que no fim a ideologia se perde; pouco importará no que ele acredita. O comitê de campanha preparará o terreno e farão pouca diferença as bobagens que o sacana dirá durante os poucos meses de corpo-a-corpo. Vimos isso no caso esdrúxulo de Joaquim Roriz, que colocou sua mulher como candidata ao governo porque ele mesmo havia se tornado inelegível aos 45 do segundo tempo. O pior é que a coitada quase ganhou, mas todos sabiam que quem mandaria no DF seria ele. Viva a legislação e o jeitinho brasileiro!

O discurso dos picaretas é sempre soft, exige pouco esforço para ser assimilado, não incomoda e não enfada, é como um vendedor que precisa agradar à cliente e não pode dizer que ela está gorda nem que a roupa ficou ridícula com tanta banha saltando. Honestidade é um dos maiores defeitos que um candidato pode ter – é claro que nenhum jamais admitirá isso publicamente. O caricato e clássico personagem Justo Veríssimo do saudoso Chico Anysio servia de alívio para os telespectadores, porque eles sabiam que os políticos pensavam aquelas imundícies, mas calavam-se. Veríssimo pelo menos tinha uma virtude: era sincero. Há muitos políticos que sequer possuem uma única virtude, são tão bundões quanto à imensa maioria do eleitorado. Tanto os políticos quanto os eleitores sabem que estão fazendo errado, mas vão fazendo mesmo assim, e o curso dos fatos vai nessa toada, ética ladeira abaixo.

Não há processo dialético, nada é acrescentado ao conhecimento e à melhoria do “fazer política”. Os argumentos devem descer suave; a fumaça do charuto é doce; o veneno mata aos poucos, como os agrotóxicos e hormônios que consumimos e são liberados porque não há pesquisas que corroborem “afirmações conspiratórias”. Mundo de plástico, seres de plástico, humanidade plastificada, paraísos artificiais cambiáveis, tudo é simulacro de utopias perdidas, tanto o concreto como o abstrato são descartáveis após três lavagens; enquanto isso desejamos apenas rir e nos divertir com o circo que é montado pelo poder. É preciso acabar com toda e qualquer ilusão: todo poder é conservador, grosso modo quer se manter no topo, sem alterar o status quo. O mundo corporativo se baseia nisso, os ricos se aliam uns aos outros e todos se protegem – lobby pra quê te quero! –, como numa grande irmandade maçônica ou judaica, ainda que ocasionalmente saiam faíscas devido à competição por uma fatia maior do bolo. Mas chamar o pobre para participar da festa ninguém chama. Pelo contrário, seduzem a base da pirâmide com brindes e truques, e o show continua para delírio da platéia entretida. Na sociedade hedonista rir é o melhor remédio, a verdade fica pra depois.

A democracia é um sistema necessário, o menos ruim dos que foram concebidos por mentes de boa intenção; é a que mais facilita combater tiranias, porém ela ainda é uma porcaria. Seu efeito mais nefasto é nivelar por baixo. Então cada cidadão se acha razoável porque não está abaixo de seu colega, contudo ambos são medíocres. Ouvimos na mídia constantemente alguém defender a democracia com unhas e dentes, como se o não democrata fosse um déspota, nazi, servo do demônio, feio e mau. E nesse espírito de grupo eles acabam achando que estão no caminho certo – “ó, até que parecemos bons, justos e belos” –, e tudo vira questão de solucionar os buracos da administração; esse é mais um tipo de discurso esvaziado. Há melhores e piores, ainda que sob certas perspectivas e alternando-se com o tempo; os primeiros estarem acima dos segundos não parece algo injusto. Injustiça é não dar oportunidade que os piores suplantem em algum ponto os melhores do momento, bem como usar critérios toscos, e.g. ser o mais baba-ovo da chefia.

Enquanto a mídia faz seu papel de trazer algumas verdades à tona o pacato cidadão se põe ao lado dos denunciantes, mas tão logo os velhos políticos tornam a aparecer na pose correta, com toda a finesse que lhes é exigida e toda a desenvoltura que repetidamente lhes garantiu cadeiras e cheques gordos, o eleitor põe em prática sua volatilidade e idiotice. O pavão entre o povão sabe conquistar, diz que está em sintonia com os assuntos mais urgentes de seu povo e antenado com os temas atuais. Ele expõe plataformas indolores, toca jingles que grudam na cabeça, profere chistes que encantam os indecisos e hesitantes, e no fim está feita a merda. O futuro governante doura a pílula, primeiro diverte, então aplica a paulada quando (re)assume a vaga de manda-chuva – o supositório é enfiado tão sutilmente no nosso rabo que nem percebemos que fomos feitos de trouxa. O papinho mole e a conversa barata dos canalhas atordoaram seu público, que acabou confirmando o maldito número na urna eletrônica. De fuxico em fuxico todos acabaram pagando o pato, inchando a pança dos macacos-velhos. E quem vai dizer que o processo não foi democrático? É claro que foi, para delírio de Malufs, Rivas e Sarneys, todavia, para tristeza da ética e da boa política.

Do outro lado, o bobo da corte de vez em quando toma o lugar do rei. Tiririca e Eneias são os maiores exemplos da palhaçada que foi feita no picadeiro do Congresso. Após ver tanta roubalheira, tanta promessa não cumprida, ouvir inúmeras denúncias de corrupção, desvio de recursos e ver tudo quase sempre acabando em pizza neste país, o da infausta impunidade, o próprio eleitor se tornou um cínico. Ele ficou de saco cheio com a canalhice vigente e reiterada e protestou votando nos candidatos mais bizarros. Já que todos avacalham, ele também vai dar uma zoada no esquema. Sem culpa nem medo, tentando escarnecer dos outros como tão bem o fazem Vossas Excelências engravatadas. E viva a morte na vergonha na cara. São cerca de 2/3 de analfabetos políticos que votam sem refletir e analisar criticamente as propostas, o histórico, os ardis e a fragilidade dos candidatos. O pior é que essa maioria é capaz de decidir toda e qualquer eleição, jurando que agiu corretamente; de fato não há como contestá-la, ela é fruto do sistema, é apenas conseqüência inevitável do que foi plantado há 10, 20, 30, 50 anos atrás pelos panacas que a precederam.

Essa massa é que precisa ser conquistada, ou pelo menos não perturbada. Portanto, questões importantes ficam para depois, foquemos no que ela quer e está acostumada: fast food, fast ideas. Se algum chato quiser saber dos temas polêmicos, que procure algum cabo eleitoral bem informado e tire suas dúvidas impertinentes. Do próprio candidato ninguém jamais ouvirá uma frase realmente impactante, algo como: “eu defendo o aborto” ou “vou lutar pela legalização da eutanásia” ou “não descansarei até a maconha ser liberada”. Só candidatos e/ou partidos nanicos levantarão bandeiras tão pouco ortodoxas. Levantar a voz e falar verdades é quase um crime eleitoral, certamente é suicídio político se a aspiração for grande. Nenhum deles é corajoso a ponto de mexer em vespeiros, e na verdade só refletem a hipocrisia dominante em nossa sociedade. Fazem ou fizeram cagadas, tocam ou tocaram o terror, não são bons partidos nem para a própria filha, porém se escondem sob o trabalho cuidadoso dos marqueteiros bem pagos; e fica tudo por isso mesmo, pois imagem é tudo (ou sede é tudo?). Mudanças são propostas, mas persiste o atraso. Por que será? Se for transmitida segurança e vendido o carisma estará tudo certo, o bom trabalho terá sido feito.
 
Repito a frase inicial: “a política encontra-se esvaziada”. A banalização é geral, entre mortos e feridos fingimos que estamos a salvo. Perdemos as raízes, perdemos valores, referências, critérios, tudo parece bacana se a embalagem for bonita, se o brinquedinho brilhar no escuro, se o Inmetro liberar e se o pastor falar que tá valendo. Proferimos odes ao vazio e loas à futilidade. Os caras-de-pau são tão infames e ignóbeis que voltam ao mesmo cenário como se nada tivesse acontecido, como se tivessem sido vítimas de um complô maligno, vide Fernando Collor e Zé Dirceu. Os irritantes sorrisinhos forçados parecem uma máscara que os Motosserras usam quando saem à rua pedindo por votos para desbancar os incompetentes e perversos, como se eles mesmos fossem algo diferente e muito melhor. Eu vejo as mesmas expressões se repetindo, quase ensaiadas, só mudam os bolsos. Votamos para escolher o cofre no qual serão depositados nossos impostos e o modelo de chicote que nos fustigará pelos próximos quatro anos. São as mesmas caras, só mudam as garras, que serão mais ou menos afiadas que as anteriores, mais ou menos cruéis que as de antanho. E não adianta anular o voto, nem pensar como Bukowski, que “política é o mesmo que foder cu de gato”, pois não escolher já é se posicionar politicamente. Deixemos de ser inconsequentes.

Nessa Gotham City continental seria melhor que o Curinga viesse nos salvar de tamanha picaretagem, conversa fiada e covardia. Morreríamos com um sorriso no rosto e veríamos a verdade escancarada, após décadas de olhares desviados e da eficaz camuflagem corriqueira dos donos do poder. Como ninguém se prontificou a assumir o papel do Batman, ou se apareceu esse destemido cidadão ninguém lhe deu bola, estamos à mercê da néscia politicagem que tanto nos quer estúpidos e embasbacados. Enquanto isso, estamos na sala gritando com o Datena pela cabeça do maior bandido das últimas 24 horas; ah, como isso alivia!


4 de maio de 2014

O que aprendi com a Filosofia


Neste texto quero simplesmente exercitar minha memória e a capacidade de refletir sobre a minha própria história, como numa microbiografia, tratando exclusivamente sobre a importância do estudo da filosofia para mim. É claro que não há imparcialidade nesse tipo de análise e muito menos precisão dos efeitos que se aglutinaram para formar a pessoa que sou hoje. É estranho que a história seja mais bem vista pelo retrovisor, principalmente se ela se concentrar num pontinho distante, como se a imagem gigantesca e nítida não servisse. Será mesmo que o apelo emocional é tão nocivo para um exame minucioso dos fatos? Não esqueço uma frase que ouvi de um professor uma vez: “qualquer escrava romana sabia mais da história de Roma do que qualquer historiador pós-graduado atualmente”. Acredito nisso, mas os pensadores em geral discordam, sendo assim (aos olhos racionalistas) performances culturais e crônicas têm menor credibilidade que documentos acadêmicos.

Alheio a esse imbróglio acerca da legitimidade do conhecimento (o epistemológico sobre o know-how), resumirei minha experiência de cerca de uma década com a filosofia, com seus altos e baixos, entre leituras aprofundadas e contatos ligeiros, de rabo de olho. Posso dizer que a filosofia tem basicamente três objetivos, ou melhor, utilidades práticas: a questão do saber, especialmente no que se refere ao conhecimento histórico produzido pelo homem desde os gregos; o exame crítico dos fatos, que significa basicamente ter um pensamento lógico que dificulte a sedução dos embustes e a passada de perna pelos espertinhos de plantão; e por fim a busca pela felicidade, se não a plena, ao menos um tipo que salve a pessoa da decadência dos valores e dos horrores do cotidiano. Tudo isso eu passei a perceber desde que me interessei pela leitura de filósofos, em especial dos empiristas do iluminismo (Locke, Hume, Voltaire) em diante. Afinal, antes disso a grande maioria tratava de problemas teológicos ou demasiadamente metafísicos – herança escolástica que não me interessa.

Para mim não é tão nítida a transformação pela qual eu passei nesses últimos dez anos, porque foi tão gradual quanto o movimento de precessão dos equinócios. Eu sei que fico diferente a cada livro ou artigo lido, mas como absorvo a conta-gotas esse tipo de conhecimento penso que fica mais óbvia a mudança do ponto de vista de alguém que tem contatos mais esporádicos comigo, principalmente se esse alguém me conhece há muito tempo. Ele sairia da conversa pensando “pô, esse cara mudou, ele não costumava falar essas coisas, agora virou um chato que fica racionalizando tudo e buscando respostas para os problemas do mundo”.  Eu perceberia a minha mudança indiretamente, a partir da ignorância e superficialidade alheia, mais que pelo arcabouço teórico que adquiri; assim como percebo que sou alto ao me deparar com tantas pessoas de altura mediana (cerca de 1,70m). Talvez se eu tivesse registrado minhas angústias diárias e comparasse com as que sinto hoje, eu estivesse mais apto a notar as alterações de conduta e visão de mundo.

E em que exatamente eu mudei? Fico menos irritado em discussões. Ainda gosto de debater, contudo com a cabeça mais aberta, a fim de ouvir opiniões divergentes sem esquentar a cabeça, até porque sei que há os mais diferentes pontos de vista e que o meu é só mais um; se eu não consegui convencer meu interlocutor, me satisfaço em deixá-lo com a pulga atrás da orelha. Desenvolvi melhor minha argumentação, pois aulas de lógica, linguagem e filosofia analítica foram de grande serventia nesse ponto. O que me levou a melhorar a escrita neste blog, basta você, escasso leitor meu, comparar meus textos dos últimos 24 meses com os de 4 a 5 anos atrás. A filosofia de certa forma me deixou mais calmo, pois passou o afã de alcançar respostas sobre o funcionamento do mundo, da sociedade e da mente, além do sentido da vida; aprendi que não há respostas definitivas, mas sugestões que são mais ou menos contundentes. Deixei de crer no relativismo, acredito que há verdades no mundo, todavia elas são esclarecidas pelas ciências naturais, enquanto as humanas acomodam um lapso que, se por um lado nos faz quedar insatisfeitos, por outro lado traz graça à vida, permitindo justamente este tipo de discussão. Transito, então, entre o dogmatismo e o relativismo.

Acho muito estranho escutar colegas se queixarem que esperavam certas coisas do curso de filosofia, mas não acharam respostas nem respaldo a suas aflições originais. Eu duvido que o curso tenho sido inútil a ponto de precisar ser completado na marra, só para garantir um diploma ou reduzir o peso na consciência de vários anos jogados no ralo. Ou eles não prestaram atenção nas aulas, e nem leram os textos indicados e fornecidos pelos docentes, ou a inteligência deles é muito abaixo da exigida para um graduando ou são acostumados a fórmulas prontas, sempre aguardando por respostas categóricas. Se eu que já estudava e conhecia muita coisa consegui apreender muitas passagens novas e interessantes, eles que partiam quase que do zero deveriam estar com a sacola cheia de conteúdo e informações filosóficas. Cada um que cuide da sua vida e saiba o que é melhor para si, porém esse tipo de reclamação me deixa um pouco incomodado, pela falta de sabedoria. Ora, é freqüente ouvir de pessoas curiosas que filosofia era um curso que elas sonhavam em fazer, e só não o fizeram por falta de tempo ou disciplina para enfrentar anos de livros pesados; as que têm essa oportunidade não deveriam deixá-la passar como se fosse mais uma obrigação na agenda.

Eu ouvia bastante de familiares e conhecidos para fazer tratamento (psicológico ou psiquiátrico), afinal nenhuma igreja iria ajudar um ateu. Eu sempre o recusei, pois penso que problemas se resolvem a partir de ações e não reações ou cumprimento de normas e prescrições de médico ou de palestrante. Ajuda efetiva é você mesmo quem faz, quando corre atrás e se esforça para destrinchar e atenuar seu(s) problema(s) – e até mesmo afirmar se de fato há problema a ser enfrentado. A filosofia, portanto, foi um caminho natural, assim como a ciência, porém esta se concentra em explicar como o mundo é, e não para quê ele me serve. A filosofia tem uma abordagem mais humanista e subjetiva do que o frio método científico, que eu entendo como um tipo de conhecimento para seres dotados de pensamente lógico – nada garante que máquinas e cyborgs do futuro não venham a utilizá-lo em plenitude, até mais que nós humanos, porém da parte subjetiva, que é o foco da tradicional filosofia, eles jamais tirarão proveito. Foi um desafio, sem dúvida, meus estudos autodidatas e imprevisíveis, contudo sou muito grato a tudo que li e aprendi, sem eles eu seria outra pessoa; tenho certeza que seria mais irritável e incompleto do que sou hoje em dia.

Pergunto-me todo dia, para quê viver? Se não fui capaz de eliminar essa grande questão existencial (e quem é que conseguiu isso?), muitos aspectos já foram solucionados. É para achar algumas respostas coerentes e minimamente satisfatórias que estudo questões filosóficas, ou seja, não é com anseios técnicos ou profissionais, mas para aplacar angústias niilistas, que sei que são um perigo iminente e renitente. É de certa forma uma terapia, uma tentativa de cura para não entrar em colapso com tantos buracos e vazios. Para tanto, a atividade crítica é essencial, é minha “alma roqueira e rebelde”, talvez isso tenha sido o que me aproximou da filosofia, conforme a definição de John Dewey: “filosofia é a crítica dos valores, das crenças, das instituições, dos costumes, das políticas, no que se refere seu alcance sobre os bens”. É típico de pentelho isso, mas o que posso fazer?

Minha personalidade pede por provocações e ironias. Para não acabar rabugento e cínico, tive de me unir à arte, em seu aspecto estético, lúdico e brincalhão. Não que essa tática tenha sido um xeque-mate às aflições e às rotulações, mas foi a forma que encontrei de equilibrar as exigências racionais e as emocionais. Penso que quem ignora respostas fáceis, dogmáticas e que apelam à autoridade, como é comum no discurso religioso, deve compensar esse desamparo com muito ímpeto atrás de soluções mais condizentes com o mundo contemporâneo, que é quando entram filosofia, arte e ciência. Isso me serviu, mas é preciso muito cuidado, por depender demais de autonomia, humildade e disciplina. O homem tem uma tendência a se autovangloriar, caindo no autoengano. Faço o que posso em me aperfeiçoar e evitar essas babaquices, mas sou humano...


Deixo a bola levantada para os que se interessarem em mergulhar nesse universo ainda pouco difundido, em comparação com o misticismo e as amenidades vigentes. Alerto que é caminho sem volta. Doravante, persisto em minha metamorfose ambulante.

1 de maio de 2014

Egos sedentos e feridos


Reclamação todo mundo ouve quase que diariamente, e só um santo para não exercer o queixume de vez em quando. Mas que gente que vive reclamando é um porre, dificilmente alguém vai me negar. São os ranzinzas, os rabugentos, os “morrugas”, os embirrados.  Muitos sequer têm noção de que incomodam o próximo; outros sabem que são pentelhos e pouco se importam, não podem deixar passar uma oportunidade de se fazer notar – ainda que seja com a pecha de importunos. E você aí, encheu o saco de alguém hoje?

Triste constatação, o homem como sujeito que não quer se convencer que está sujeito a inúmeras situações e não tem controle de quase nada de sua vida; reage para tentar inflar e/ou amansar seu ego. Ou você nunca tinha percebido isso, achando-se dono da situação e livre para fazer o que bem entendesse? Escute-se reclamando da TV, do PC, do nenê, do fuzuê, e o que mais lhe aborrecer. Talvez tenha uma parte da percepção dos outros sobre essa pessoa inconveniente que é você. Não que eles também não sejam assim, mas quem sabe não fizeram esse teste, colocando-se como observadores de si mesmos. E aí, notou sua chatice?

Isso tudo é normal, o homem (na dita situação normal) busca prazeres e foge de dores (termo que deve ser lido como oposto ao prazer). E como fazer para alcançar tais deleites? Cada um (minimamente livre) que aprenda a gostar do que lhe parece bom e faça de tudo para manter certas pessoas, certos cenários, certos objetos perto de si. “Ah, mas só ricaços podem ficar em sombra e água fresca o tempo todo”, algum invejoso poderá rebater. E quem foi que disse que esse tipo de vivência é boa? Percalços fazem parte do aprendizado. Se você só teve contato com um mundinho cor-de-rosa e sorridente, é provável que você jamais saberá valorizar coisas sutis e corriqueiras, sem critérios para comparar o que é valioso com o que é banal. “É isso mesmo, esse povo tem uma vidinha fútil”, um recalcado poderá me ratificar. Não se deixe enganar, é um sinal de inveja, ainda que de outro tipo. Pois quem disse que a sua vida ordinária e repetitiva também não é fútil, talvez mais que a do playboy e a da perua?

O prazer nos traz sensações de bem-estar e de poder. Sexo e drogas são grandes tentações por causa disso, deixam algumas pessoas tão contentes e satisfeitas que passam a se achar superiores às demais, tão tristonhas e cabisbaixas, como se estas se preparassem para o abate. A atividade libera certos hormônios que nos incita a querer mais, a repetir o que foi bacana e a buscar desafios que nos engrandeça e nos divirja ainda mais dos vizinhos infelizes. “Eu quero, eu posso, eu consigo!” são alguns dos imperativos de livros e palestras de autoajuda. Não que sejam exatamente balelas, mas são discursos vazios e simplórios demais. Tudo bem, às vezes a felicidade se encontra nas coisas mais simples, mas um pouco de experiência e inteligência dispara o alerta contra um golpe mequetrefe. Se a fórmula para conquistas, e posterior vida feliz, fosse tão óbvia e acessível não haveria tanta gente mal-humorada e deprimida. Seria desprezar a capacidade de raciocínio e esperteza das pessoas. “Coitados, eles têm a resposta ali, na ponta do nariz, e não a agarram”, lamenta algum tolo com um best-seller na mão. O homem é mais complexo que isso; substâncias e dizeres rápidos e certeiros podem até alegrar e divertir, porém duram pouco. Até mesmo bichos amestrados se cansam da sequência resposta-recompensa. Então, já se fez de patinho hoje?

Palavras de estímulo pipocam pelos ambientes porque nunca as pessoas quiseram tantas coisas e, como é de se esperar, nunca se frustraram tanto. Tento inverter o jargão “querer é poder”. Vejo que querer é justamente cavar um buraco para ter de preenchê-lo mais tarde. Tente você fazer um buraco em seu quintal e ficar contente com o trabalho de porco. Depois vá lá, jogue terra de volta, ajeite a graminha e espalhe uns gnomos. É provável que o jardim esteja mais feio que antes, mas você estará mais satisfeito, pois estava cansado de olhar para flores banais. O homem é assim, prefere fazer besteira para depois consertar e mostrar para todo mundo que é um vencedor – o pior é que a maioria compra a idéia fajuta – do que ficar tranqüilo, sem cometer grandes erros para ninguém reparar. Nesse mundo de pose mulherão não é a vizinha de óculos, mas a Roberta Close. Sacou a patifaria?

“Não admito que filho meu faça/seja isso, eu o expulso de casa”, vocifera um pai linha-dura, enquanto outro, mais psicopata, jura que mata. Que escolha um filho desses pais tem? Ou se reprime ou foge de casa. Seus desejos não sairão de lá repentinamente, contudo, como a força de vontade ainda é pequena quando a pessoa é pequena, é provável que o garoto repasse os preconceitos patriarcais e ignore os anseios ultrajantes (aos olhos do pai). Isso é um grande problema? Eu penso que sim, pelo fato de que quanto mais ferido, retalhado, lesado for o ego de uma pessoa mais perigosa ela se torna, ou para ela mesma ou para os outros, colegas ou avulsos. Suas vontades terão de ser redirecionadas, senão advirão doenças, e as conseqüências podem vir a ser nefastas. Uma personalidade formada em função de exigências sociais e paternais não pode ser autêntica, o que mandarem fazer, será feito. E o pior é que essa pessoa se julgará dona de si, exigindo afagos e mimos. Você é um desses alienados?

Em suma, queremos, seja a guerra, seja a paz pelo preço de guerrear. Ao querer tentamos realizar o desejo. Quase nunca pensamos que esse desejo é maior que o objeto desejado, por isso valorizamos o objeto ou a pessoa que foi conquistado(a). Assim, é mais fácil perceber a retribuição, é palpável. Nosso ego precisa de vitórias, para se achar digno de viver e ser admirado. Por mais que não haja vitórias, inventamos – e.g. pagar impostos. Ninguém quer ser o loser (fracassado), quem pensa que é um, pode crer, está doente. Orgulho e vaidade caminham juntos, como se competissem entre si; ao “subir na vida” a humildade da pessoa vai se escondendo, a menos que ela seja bastante autovigilante. E não é incomum naquela que se estagnou haver um orgulho contumaz, como se jamais se permitisse perceber a própria pusilanimidade. Gente ignóbil é mais comum do que se imagina, domina o mundo – ou eu que sou um desesperançoso com a espécie humana? Egos precisam de afagos e de engodos; políticos, “celebridades” e mafiosos não me deixam enganar. Após e exposto, você abaixou sua bolinha ou, mais do que nunca, fará questão de empinar o nariz publicamente?

Dizem que ter autoestima é tudo; pode até ser, mas não inibe o fato de ser um egocentrismo. Com o tempo a tendência é restringi-lo, e nem por isso será reduzido o bem-estar, pelo menos entre aqueles que realmente venceram na vida. Se você entendeu o que eu disse e for aplicar as lições é provável que em breve vá perceber essa satisfação serena. Ou eu que estou com o ego inflado? Ou eu que sou um golpista?Você que sabe, se seu ego permitir-lhe uma análise mais imparcial. Diante disso, você me endossa ou me impugna?