2 de setembro de 2013

Os Pedintes nas Cidades

“Uma esmola pelo amor de Deus, uma esmola, meu, por caridade”, dizia o cancioneiro popular em meados dos anos 90, retratando muito bem a realidade das grandes cidades, em cada esquina gente pedindo trocados para sobreviver. O governo não pode cuidar de todos, a responsabilidade deve ser transferida a cada cidadão que devia ter estudado e se formado para então trabalhar em um emprego digno ou pelo menos prestando serviços para um grupo de consumidores que deveria aumentar em taxas próximas à da inflação. Mas sabemos que a economia é dinâmica, o sistema é falho, as pessoas trapaceiam, o governo é displicente e desordenado, os empresários exploram e os funcionários sempre que podem dão aquela boa enforcada no trampo. Além disso, a autonomia que a escola deveria estimular rotineiramente para suas crianças talvez não seja bem assimilada por jovens que estão mal acostumados com excesso de direitos e déficit de deveres. Quem não é um privilegiado deve ir se acostumando desde cedo que precisa cumprir várias ordens diariamente sem deixar de elaborar projetos que, se não significam independência, pelo menos pretendem levar à auto-realização, tanto em nível profissional quanto em nível particular.

O que eu quero dizer é que há um meio-termo, não dá para esperar tudo de mão beijada pela providência divina, pelo estado acolhedor, pelo coronel ou traficante protetor ou pelo papai poderoso; e não dá para tentar resolver tudo sozinho, como um atacante que pensa que pode driblar meio time e fazer um golaço – isso até acontece, só que em raríssimas ocasiões, além do mais nunca é o suficiente para ganhar o campeonato. É claro que a superestrutura tem que ajudar, ou seja, as condições macroeconômicas têm que ser propícias para elevar o nível de renda e de educação e a qualidade de vida do povo, o que é mais bem medido pelo IDH do que pelo PIB, porém essas medidas de nada servirão se não forem acompanhadas por distribuição de renda e estímulo tanto ao egoísmo quanto à solidariedade, isto é, que os cidadãos sejam autônomos, procurando beneficiar sua família, sua cidade, seu país e, por que não, seu planeta. Não é uma utopia, porque tentar evitar danos maiores é uma prática bastante realista, condizente a uma ética que talvez seja repassada no ensino básico, porém nos níveis superiores é preterida pelo decoreba dos vestibulares e das exigências do mercado: especialistas que manjam tudo da parte técnica e deixam muito a desejar em conhecimentos gerais, entre eles ética, política e estética. Nessas áreas nenhum saber é definitivo e raramente é fechado. Para ilustrar essa tendência à expertise sem a devida visão global das coisas, digo que engenheiros, matemáticos e técnicos em computação interferem muito na sociedade com seus serviços, apenas não possuem essa consciência, por não perceberem o efeito imediato, logo delegarão a responsabilidade aos corruptos de sempre.

Eu tenho que repetir o mantra: a sociedade é complexa. Porque é mesmo, quanto mais se estuda seus meandros, mais vão se revelando os nós, uns sobres os outros e impossíveis de serem desatados sem danos colaterais. Para tapar um buraco cria-se outro. O indivíduo quer sua cota de felicidade e prosperidade; enquanto ela se basear em algum tipo de predação (ganha-perde), haverá os que riem alto e os que choram em silêncio. Aliás, quem não é vaidoso socialmente? Máscaras e marras camuflam o fracasso e a confusão em que (quase) todos se encontram. Quem não tirar vantagem da situação, fingirá que tirou, e então o sorriso jocoso restará estampado na cara dos malandros de plantão, sem desconfiarem do escárnio que sofrem pelas costas. É possível subir um degrau por mérito próprio ou por demérito do concorrente.

Pedir emprego é humilhante? Trabalhar dentro da lei é degradante? Folgar nas férias é condenável? Serão poucos os que responderão afirmativamente. Mas pedir esmola sem ao menos oferecer um produto ou serviço inútil certamente será visto com maus olhos pela maioria.  Vale mais tentar cobrar o triplo do preço de um produto simples numa balada; o vendedor será esperto, enquanto o pedinte que trafega pela porta será o incorrigível vagabundo maltrapido. É fácil dizer qual dos dois é o ganancioso e qual vive no ostracismo. É o mito do progresso: o avanço técnico-científico É avanço ético e moral. A sociedade capitalista comporta o vigarista, mas tem horror ao cínico, que não movimenta o mercado consumidor e gostaria de viver de brisa, recolhendo o que encontra pelo caminho e usufruindo o que os transeuntes lhe ofereceram de bom grado. Se o trabalhador ordinário rela o ano inteiro para ter um curto período de vida mansa, porque condenar o índio ou mendigo? Se eles se recusam a se esquentar a cabeça com o que não lhes diz respeito e que talvez piore o mundo ou a natureza, sobrecarregada de detritos e gases tóxicos, que sirvam de exemplo a ser considerado.


Todos pedem, a diferença é que alguns que se contentam com pouco e outros pensam que o mundo não é o bastante. A esmola que damos sem perceber corre por aí, de mão em mão, de garganta em garganta, de palavrão em palavrão, mas só vemos como abençoado aquele que nunca admitiu que a recebera.

Nenhum comentário:

Postar um comentário