23 de fevereiro de 2013

Você, minúsculo grande homem que hesita


Você reclama ou reclamou de várias coisas, mas agora se vê aí, limitado por suas escolhas e incapaz de reclamar de si mesmo, pois julga sempre ser consciente e responsável pelo que faz. Você então lê sobre o poder do inconsciente e sobre a consciência e o eu como mitos construídos para evitar a loucura e identificar alguém para honrar ou punir. Você então percebe o abismo diante de si e gostaria de se jogar lá dentro, mas sua educação burocrática o impede de fazer escolhas intempestivas e abusivas. Portanto você se tornou insensível às emoções que antes, via lampejos, cativaram-lhe, mesmo a indignação pelos erros alheios (agora facilmente tolerados), e tudo por causa das repetições, essa praga que martela ao homem os fatos do mundo e o sentido da vida, como se o hábito fosse a maior necessidade e causa de prostração que pode haver. O hábito lhe habita e não há nada que você possa fazer, a não ser andar pelado pela rua, mas isso seria um crime, além de alvo de chacota, por maior que seja seu pinto e por mais belo que seja seu conteúdo. Você não admite ouvir sons que deixam os outros em transe, os jovens especialmente, porque isso é se entregar ao império dos sentidos e do efêmero, como se as suas manias não tivessem a mesma intenção de alucinar e ao mesmo tempo sentir seu firme papel no mundo. Ou seja, todos querem ter controle sobre a própria vida, a diferença é que você não admite que esse controle se dê por fatores externos, como se os objetos que você manipula não o tornassem escravo de alguma forma. Você apenas permite em sua casa sons que lhe remetem às antigas e corriqueiras fases de raiva e frustração, prolongando esse estágio de insatisfação indefinidamente, exceto quando dá brecha às musicas que não combinam com sua personalidade, mas teimoso que é, recusa-se a dança-las.

Você fica adiando seus desejos, suas vontades, suas obrigações, como se num dia afortunado fosse efetivamente realiza-los, de forma intensa e satisfatória, como se ao finalizá-los lá na frente não surgissem outros anseios e imperativos que sugam parte desse prazer que sempre escapa pelo corpo, até mesmo nessa procrastinação, tornada hábito pela promessa de prazer, tão irrisória, mas que lhe convence. Você não quer pagar pra ver sua incompetência, então prefere manter o potencial obscuro de grandes feitos, como se as ideias não realizadas fossem mais do que ilusões e metafísicas, como sempre inventadas para fazer o homem se sentir superior aos demais (humanos ou não, desde que abaixo dos deuses). Você finge que toca, que escreve e que pensa, só para não se sentir incapaz, mas como seus parentes lhe elogiam, você internaliza essa competência amadora, temendo o fracasso público quando se tornar profissional, pois os mimos dos interessados pouco valem, então você não ultrapassa a linha do amadorismo.

Você acumula e acumula o que já usufruiu, para algum uso posterior, a fim de repetir o regozijo ou simplesmente captar trechos que marcaram sua vivência, porém raramente usufruirá desse material estocado na dispensa de seu recinto, e mesmo que venha a fruir, jamais será a mesma coisa, mas você alimenta essa esperança de que o prazer nunca irá lhe faltar, por mais ferrado que esteja. Talvez só o desespero seja capaz de motivar esse gozo intenso de tudo o que é promessa de prazer, seja nas coisas que já foram usufruídas, seja nas que você guardou para esses momentos de pânico. Talvez falte a você reconhecer que sua situação é precária, o suficiente para desesperar-se continuamente, porém isso seria andar à beira da insensatez, algo angustiante demais para ser suportado em paralelo a outras demandas, tão exigente de equilíbrio e frieza de espírito. Você quer A junto com B, por mais incongruentes que sejam, ampliando seu horizonte e reduzindo seu foco, numa fórmula eficaz para a melancolia, ao gerar inúmeras expectativas e frustrar a maioria, sem conseguir se contentar com as realizadas, pois inferiores às deixadas para trás. E mesmo assim você se acha alguma coisa, pois conseguiu mais que a maioria, e sabe que alguns lhe invejam; compara as vidas e torce para que elas não se cruzem, no máximo entrecruza olhares; esse ouro de tolo não é o final de sua mísera existência, então você traça objetivos, para cumpri-los pela metade.

Você não percebe que tudo fica para trás, mas que de alguma forma marca o caminho, como pegadas para algum perito assalariado atestar que você passou por ali, porém isso só interessa aos forenses, sempre à espreita para ferrá-lo no caso de se tornar bandido ou por ter feito alguma cagada séria na vida. Parece que você gostaria de congelar o tempo e esfregar na cara dos transeuntes, tão apressados e distraídos, sobre a grandiosidade de seus atos, como se eles não quisessem fazer a mesma coisa, tanto que entopem a internet e a televisão com coisas fugazes e banais, comprovando que todo mundo quer um espaço no mundo, todavia só as 24 horas do dia são capazes de limitar esse espaço cada vez mais apertado. “O que realmente fica dos meus atos nesse mundo natural que parece tão estranho ao projetado em nossa juventude?”, você pergunta. Eu não sei como lhe responder, somente asseguro que é assim mesmo, sufocante e cheio de oportunidades, que permite alegrias aos que não querem mais do que não podem ter. “Eu quero sempre mais que ontem, mais que hoje, mais que amanhã”, você confirma a famosa música dos Rolling Stones e impede sua satisfação nessa passagem única por este fantástico e pequeno planeta.

Você se esquece de quase tudo o que viu, sentiu e falou, tendo sempre a impressão de que não viveu, mas saiba que a memória conservada não consegue perdoar, ela rumina tanto os fatos e ideias que abre as portas para o rancor lá se instalar, pois a mente tem esse costume de mais se incomodar com um dado ruim do que se jubilar com um bom, o regozijo se apresenta quando os bons superam os ruins, desde que não haja uma catástrofe aí no meio. Você jura que quer ser feliz, contudo fica inventando subterfúgios e se ocupando de obrigações que sua razão tirana sussurra como as maiores fontes de justiça, nascendo assim a moral que diferencia o certo do errado, mas que parece muito oposta à vida artística e autêntica, onde efetivamente está a fonte de felicidade. Você então trava e adia o sorriso em seu rosto para um momento oportuno, quando as coisas se encaixarão e tudo fará sentido, como num passe de mágica. Mas você sabe que isso não existe.

Agora volta a reclamar das coisas, dessa vez de si, indignado com a própria pequenez, incapaz de transcender, com os pés fincados na terra e a cabeça boiando no mar ou flutuando nas nuvens, sempre atrás de algo que na verdade está logo atrás, na nuca ou na orelha. Então parece ouvir algum chamado, apenas não está pronto para senti-lo em toda a extensão de sinfonia primorosa. Mas é um começo: melhor um vislumbre do paraíso do que uma temporada no inferno, porém sem essa segunda não haveria a primeira – mero efeito de comparação.

P.S.: Às vezes é preciso o anúncio de um peido para fazer florescer um texto.

18 de fevereiro de 2013

Um Hiato


Entre papos e sopapos
Uns políticos pútridos,
De posse de maças marciais,
Tossem regalias esdrúxulas.
Nunca endosse anomalias mixurucas!
 
O lema do sistema é:
Venha, trema!
E teima se puderes
Ou se pudores tiveres.
 
Nas vias dos reveses
Seguiam disputas estúpidas
Ao invés do que a lei, ou o rei, regia;
Todavia se viam entupidas.
 
Apostólicos e históricos
Estoicos cachaça rechaçam
E troçam das nossas galinhas –
Essa joça que fossa abolia.
 
Vão melando o não lindo hindie
Nos meandros de seu melindre:
O arbítrio do sátiro,
Como árbitro sabido,
É um hábito saído
De um sítio com salitre.
 
De mentes mortas
Uma mosca é amante,
Sente que há amostras
Aos montes. Lá, avante!
 
A frenologia e seu frenesi
Enfim tiveram um fim.
E não foi bem assim
Que você veio até mim
E eu vim frenar por aqui?
 
Vós, vôs, foi dez
A foz de oito pés.
Há algoz e morbidez,
Vós vos fodeis.
 
Peçais peças à beça,
Só o besta não presta
Da cabeça, apressa...
O resto é destro,
Nem presto nem canhestro;
Destoou dos sestros,
Posposto que testa
Mais às pressas?
 
Estatística sem mística
E analítica sem características
Não esticam nem criticam,
Serão sempre balísticas.
 
Sigo meu faro e atalho
Pelo bromedálio vendo otários
E um dromedário macabro.
Abro o calendário,
Evito atos falhos,
É como um candelabro,
Descaro vários.
Meus caros, me calo.
 
P.S.: Hiato duplo, um bom período sem publicar algo e um mais longo ainda sem publicar algum poema non sense.

28 de janeiro de 2013

Sobre a Filosofia Cínica - pt. 2


II

Por que os valores tácitos e a moral de uma sociedade precisam ser seguidos à risca? Por que não subvertê-los ou esfregar na cara dos cidadãos civilizados que seus hábitos são singelas conveniências que em outro momento ou local não são regras? Alguns precisam desses chacoalhões para acordar e perceber a banalidade de toda etiqueta e padrão de conduta. Além disso, a maior circulação de pessoas, portanto de ideias, favorecem a competição de interesses, e nesse jogo político não há resposta definitiva. Portanto, convicções tornam-se bobagens que o ego e a coesão social precisam defender arbitrariamente, evitando o consequente rebaixamento. Ora, a tendência de uma cidade em crescimento é misturar tudo, as influências não possuem limites definidos, logo cada valor bebeu daqui e dali; a pureza havia se perdido há tempos.

Nota-se que essa confluência de memes perturba a lógica organizadora. E o homem, apesar de não ser dominado por ela, dentro de uma sociedade instituída, utiliza-a bastante, com fins de segurança. Ou seja, para não cair em confusões imensas que atordoam, o sujeito serve-se do logos, impedindo que a instrução recebida não seja capaz de compreendê-las. Dessa maneira ele pode cumprir seu papel social com os significados que costumava colocar anteriormente, quando havia uma percepção de estabilidade. Essa situação estável não existe mais, mas ele sente que existe. Do contrário, entraria em parafuso, chutando o balde e ignorando honras e reputações. Rejeitá-las é o que faz o cínico. Ele percebeu o caos de tantos interesses conflitantes e desprezou a cultura, que até servira em pequenas comunidades, mas que em uma metrópole (ou perto disso) é inócua. Daí o cosmopolitismo como preceito, pois poucas leis universais servem em qualquer lugar, as outras são picuinhas. Os homens são todos semelhantes, é besteira arrogar a inserção num grupo superior.

O filósofo e naturalista Thoreau e o ensaísta e aristocrata Montaigne foram muito influenciados pelas ideias cínicas. Reclusos, demonstraram a seus contemporâneos e principalmente aos homens do futuro um modo virtuoso e desapegado de viver. Thoreau foi para os bosques buscar somente o que fosse essencial à vida e fez amizade com os bichos e as plantas. Contestou os avanços industriais e fez a cabeça de líderes pacifistas do século XX. Montaigne foi para seu castelo e, em homenagem a seu amigo Étienne de la Boétie, escreveu pensamentos avançados e ousados que muito tempo depois foram compreendidos e aplicados. Quis saber o que era possível saber e não foi além do básico e frugal. Ambos se prepararam para a morte e nada lamentaram, mesmo sem a certeza de outra vida.

Para superar as reviravoltas, ou segue-se o sistema, sem parar para refletir e questionar, ou volta-se para si, seguindo a velha máxima délfica do “conhece-te a ti mesmo”. O cinismo defende a segunda opção, pois seria o único modo de alcançar serenidade e certezas. Isso remete ao estoicismo, que foi bastante influenciado pelos cínicos, mas sem o humor inerente à escola de Antístenes e infelizmente tomado de metafísica que adia a satisfação para um porvir que nunca chega. Ambos buscam autonomia, ou autarquia (o termo preciso em grego), que é liberdade e controle sobre si. Os monges budistas e os mosteiros cristãos também almejam isso, só que são sérios demais para se permitirem extravagâncias como masturbar-se em público, pedir esmola para estátua ou dividir parceiros sexuais com quem se propuser a transar. Foi preciso nascer um Marquês de Sade para chocar através de uma voluptuosidade que pouco ambiciona, apenas realiza. Depender cada vez menos das coisas exteriores e não precisar buscá-las é autodomínio, e ser senhor de si acalma. O estoico e o cínico almejam essa ataraxia, mas o segundo não a transcende.

Isso porque o cínico abandonou os deuses da tradição, sabe que eles servem de desculpas para atos incorretos e não são os verdadeiros. As coisas do homem (cultura) e as divinas (naturais) não se conjugam, contudo a maioria não aceita isso. Ele blasfema contra os santos e as divindades louvadas em praça pública, bem como escandaliza o beato cidadão. Logo, como é possível ficar bem sem deuses inteligíveis e sendo mais uma ínfima criatura tentando manter a vida? Ele sente-se como um semideus capaz de desmerecer contendas e apreensões humanas e ao mesmo tempo é simplório como um cão. Ao agir conforme exige a natureza, voltar-se-á junto aos animais, mas sendo um que usa mais o que é chamado racionalidade e que julga possuir um eu.

Entretanto, alguém pode concluir que o retorno à vida frugal e rústica é estar mais próximo do magnânimo criador. Quem conclui desse modo é um cínico pouco filosófico. Após ter mostrado aos homens os limites de suas capacidades, fez de seu mundinho o verdadeiro e redentor. Ora, agiu da mesma forma que seus desafetos. Foi contraditório. Como alguns se empolgaram com a maneira cínica de viver, não se atentaram à inerente falha de toda ética e postularam-se donos da verdade e únicos a exercer virtudes. Quem assim operou foi mais um pretensioso e petulante, fingiu ser divino. A própria Natureza é divina – a metafísica cínica era panteísta, como a maioria das orientais – e indiferente ao homem, ele mesmo é o culpado e o abençoado por seus atos, a natureza apenas devolve o que recebeu, de forma impassível e isonômica.

Até hoje quem chega às conclusões cínicas costuma se apegar a um deus qualquer ou a cometer atos drásticos, como matar ou se suicidar. É muito pesado esse fardo de ser pequeno, estar sem mestres e ainda tentar ser venturoso. Perdido, o homem não costuma optar por essa filosofia, mas por consolos. Porém, a divindade se revelará fantasiosa enquanto a razão não ceder lugar à fé. Não dá para retornar à irracionalidade. É nítida a tendência ao niilismo aqui. O movimento hippie caiu nessa armadilha. Após negar sua participação numa sociedade cruel, recluiu-se, mas conjecturou tantas hipóteses alternativas que abdicaram da razão e se entregaram a entorpecentes que ampliam o uso da parte inconsciente do cérebro e a quimeras sem quaisquer evidências. Diante do nada, escolheu o prazer. Isso é mais uma face do pessimismo que não encontra respostas. Ou se opta pela ascese estoica ou pelo gozo repetido (hedonismo) – entre Antístenes e Aristipo. O exercício constante da razão angustia, e aliado à decadência material e política – o que claramente ocorreu no mundo helênico -, fez sobrar pouco espaço para a vitalidade e o vigor instintivos dos tempos áureos.

A tristeza contumaz é um estado insuportável, é contrária à vida. Os rituais primitivos buscavam afastar os maus espíritos que reduziam a alegria dos homens. Só que as forças sobrenaturais perderam seu poder perante a razão disciplinadora e controladora. Ao mesmo tempo em que o logos liberta o indivíduo das sombras e dos monstros do que é inexplicável, ele reconhece as limitações humanas. Seu excesso funda e estrutura uma cultura permeada por interditos proibitórios. Se há pujança, poderio e harmonia social as pessoas não andarão cabisbaixas e sorumbáticas, agirão naturalmente, sem muita reflexão e confiando no vizinho. Mas se desgraças sobrevêm e o sofrimento é prolongado, é preciso ruminar soluções até o triunfo chegar. Unir logos e fracasso é a fórmula do desgosto. Escapar desse cenário desolador foi a busca dos gregos sob o jugo dos macedônios e romanos. As escolas céticas, estoicas e cirenaicas propuseram saídas à derrocada iminente. Não tiveram vida longa no meio helênico, mas suas bases servem de modelo até hoje. A cada crise e ruptura esse pessimismo é retomado.

Varrer para longe os tabus e o desconforto pela crescente manipulação e escravização dos meios culturais sobre o indivíduo é o que almejam os cínicos. Mas onde eles veem honestidade, virtude e liberdade, os demais veem perversão, extravagância e ingenuidade. Os gregos eram reticentes com os estrangeiros (bárbaros), comportamentos esdrúxulos por parte desses foram interpretados majoritariamente como incivilizados, portanto dignos de repúdio. O cínico tinha ciência desse desprezo social e retribui quase que na mesma moeda, mas por motivos bastante distintos. Radicalizar e afrontar ouvintes foram modos de agir que perguntavam: “O que realmente importa?”. Poucos ousaram e souberam responder, não sem antes titubear.

Só pela renúncia ao estritamente humano e cultural seria possível a felicidade, que não está garantida. E estar feliz, para um cínico, é estar com o mínimo de sensações e de dores. Deixar o corpo e a alma estáveis e serenos é uma luta inglória, mas vale a pena, segundo os cínicos e os estoicos. O fato é que as mudanças num mundo híbrido e com ramificações exponencialmente maiores assustam quem deseja essa paz de espírito e um olhar mais lento, duradouro e profundo, a fim de captar a essência das coisas. O cínico tem sérias restrições ao futuro imprevisível e altamente mutante. Ele não conseguirá se conhecer e nem saberá o que valorizar. O estado selvagem é mais pacato e previsível, e com segredos mais belos. Ali se encontra a promessa de plenitude. Não é preciso procurar alegrias, basta ser coerente com a Natureza, assim poderá estar contente. É simplesmente querer o menos pior e não se perder com desmedidas ambições. O porém é que certas conquistas civilizatórias são quase irrenunciáveis e geram outros desejos.

No fim, esse desprezo pela humanidade pode se revelar apreço pelo cosmos. Não sem assumir grandes riscos pela crença na contracorrente. Ser alternativo exige tenacidade.

P.S.: Pode não parecer, mas esse texto me deu um trabalho do cão. Foi uma tomada de consciência de minhas limitações teóricas, acadêmicas, sintáticas e literárias. Mas talvez um cínico diria para mim: "em que isso importa? Vc não saiu do lugar". É difícil mesmo ser um cínico...

27 de janeiro de 2013

Sobre a Filosofia Cínica - pt. 1


I

Farei aqui ponderações sobre a escola cínica; sobre o cinismo, esse termo que perdeu o sentido original, tornando-se mero sinônimo de cara-de-pau. Quem foram os cínicos e quem ainda segue tal filosofia de vida? Só os anêmicos, os mímicos ou os bulímicos? Apenas adianto que ela é bastante pragmática, desapegada e pessimista. Ética socrática na vertente dos lúgubres artistas. Sem abdicar do ar de superioridade perante os pretensiosos mortais (com suas meias verdades), paradoxalmente a partir de uma posição inferior, do olhar do cão abandonado, mas que pelo labor supera paixões e quaisquer tipos de dor. Aquele que se rebaixa a viver como um cão revela-se acima dos homens ordinários. Ele sabe do que é capaz e está alheio às convenções sociais, essas máscaras que aprisionam o sujeito, tolhendo-o dos riscos e desafios da natureza, de livres bichos.

O cínico foca em sua existência mesma e está pouco preocupado com intrincadas teorias e abstrações que nada lhe dizem, afinal estão no mundo das ideias. Quem não cessa de divagar, cessa de praticar. Por que tanta apreensão em nomear e definir as coisas? O falatório não passa de tautologias que só dizem o óbvio ou de recheios que caem no absurdo e no convencimento por retórica. O cinismo exige uma ética, contanto que contenha uma cartilha minimalista com o essencial para viver, apesar dos não-cínicos acharem disso isto: mero sobreviver. Questões linguísticas devem ficar em suspenso, pois o uso das palavras resulta em aporias. O ceticismo teórico é radical feito o pirrônico, porém a inércia cética é incoerente diante das necessidades do mundo, do corpo e da alma. O simples agir soluciona as contradições, pois ninguém morre delas, mas de inanição, sim. A lógica e a falta dela convivem em equilíbrio no homem bem resolvido e contente. Não há maior coerência. O perigo está na pretensão e não na frugalidade, está na coação e não na sobriedade.

E como é possível manter a retidão diante da decadência, da corrupção e das disputas sem fim e sem sentido dos homens? É ficando à parte, recusando-se a pertencer a tal estado degenerado, não sendo conivente com tamanha imundície, falsidade e mesquinharia. Arrogância, dificuldade em lidar com mudanças e com as maculadas sequelas que as misturas inevitavelmente acarretam? É bem possível. O estado originário se perdeu, a entropia significa aumento exponencial da distância inicial, ocorreu uma hibridização daquele pontinho branco harmônico e puro. É duro aceitá-la, mas por ser inevitável, é preciso. Essa dificuldade em suportar ser sujo para sempre, sem possibilidade de redenção, reduz a gana de viver. Especialmente se for entre os pobres e podres homens, mas longe, no meio da selva e da relva, há uma chance; é o mais próximo do ato original que se pode estar. É a crença no “mito do bom selvagem” de Rousseau. A civilização não pode dar marcha à ré, mas um indivíduo pode tentar; é o que o cínico faz. Ele tenta redimir os erros dos outros e das instituições corporativistas. Como o vizinho espelha sua podridão, o cínico foge desse sinistro reflexo.

E vai para onde? Para um lugar onde não precisa mais zombar dos outros, pois isso lhe lembraria de sua condição miserável – todo escárnio é também uma apunhalada em si, pois descontar a frustração no outro é escamotear os próprios defeitos. A multidão tende a agir como rebanho dócil, tolerando falhas em prol do grupo – é uma loucura legitimada. Isso não deveria ser permitido. Mas proibir todo ato seria loucura maior! Solução? Novamente, o isolamento. Que cada um seja juiz, júri e réu, acusador e acusado, e numa só alma – suporte essa angústia ou se mate! Só não é permitido prolongar a fealdade da massa de gente carente e vaidosa. Gente que cria e venera deuses e ídolos, tão ocos e supérfluos quanto um toco de bambu. Só fora dos grupos a sede de poder irá obliterar, até esse ermitão perder as papilas gustativas que saboreariam o amargor do domínio.

Os progressistas creem num futuro sempre melhor e os reacionários pensam que a idade de ouro ficou lá pra trás. Ambos erram, só há o aqui e agora, e esse presente é apenas o momento onde é vivida toda experiência, sem valores prévios nem tradições. Ou seja, cada ato é forçoso e banal. Mas o homem adora erguer monumentos por suas conquistas e bravuras. Todo poder seria contingência do orgulho. E como as pessoas têm necessidade de se sentir poderosas!

A indiferença é quase uma norma ao cínico, uma das poucas. Decorre disso a suspeita de arrogância por parte dos desavisados que recebem patadas, bicadas ou mordidas dele. Na verdade, há apenas introspecção e um mergulho na única fonte de conhecimento que se pode controlar, não totalmente, mas uma grande parte dela, que é o próprio eu. E quem se faz de objeto de estudo deixa pra lá o que não lhe diz respeito, que é em suma o resto do mundo. Que incongruente um mendigo orgulhoso! Contudo, essa não é a questão, o cínico é amoral, quer apenas cutucar feridas que o povo não vê, pois não reconhece suas idiossincrasias como doenças. A mosca zumbe até o homem lhe dar um tapa mortal, porquanto do entorno ela não sairá. Este é papel do cínico na praça, uma velha lição de Sócrates: ironizar o interlocutor até este reconhecer a própria pequenez e ignomínia.

Ele se serve do humor negro, às vezes sutil, às vezes escrachado. O principal é expressar ironias, mordacidade, aquela denúncia que só os espertos e atentos captarão. O cínico não deseja mudar o mundo, muito menos outra pessoa, ele solta suas frases e quem puder que faça bom uso delas. São poucos os humildes que param para escutá-lo, mas com certeza não se arrependerão; Alexandre Magno recebeu uma pitada de sabedoria cínica com somente uma frase enigmática, sinal de que não é preciso ser grandioso ou eloquente para ser o suficiente. Pelo contrário, a ganância se alimenta justamente do tamanho do hospedeiro, feito câncer esfomeado. Reconhecer esse mínimo à vida plena talvez seja mais difícil que acumular bens e posses, como fazem os bilionários.

Todavia, quem nada, ou pouquíssimo, tem quer mais. O homem tem essa mania de desejar sem parar. Ele vai querendo e se aprisionando. Então quando perde um dente, uma dentadura ou um dente-de-alho chora. Já o cínico não lamenta as perdas, jamais terá depressão. Seu saber e sua memória lhe bastam. A felicidade não está no mundo exterior, mas no interior. A única coisa que tem a perder é a própria vida, pois única. Ele tenta aproveitá-la ao máximo, apesar de não parecer. Só não quer se entregar aos caprichos dos sentidos, uma vez que desvirtuam. A virtude lhe é cara e bem definida, esse é seu objetivo diário, até a morte; ele nunca terá momento de descanso, apesar do desapego material. E essa virtude é política, não moral. Sua intenção é genérica, não localizada, daí seu desprendimento às coberturas jornalísticas. Não há muito a que zelar e ao mesmo tempo há tanto dever a ser cumprido, isso se explica pela relação complexa entre corpo e alma. Eles se inter-relacionam de forma imbricada e deixam seu dono perplexo e angustiado para aplacar os ânimos.

Cada necessidade do corpo vai gerando mais outra, mesmo depois de satisfeita, é parte natural do processo orgânico. A vida é cíclica. A cada ação, uma reação, e por aí vai, até retornar, com outra roupagem e em outro contexto, porém com aspectos muito semelhantes. Reduzir a velocidade dessa espiral é o alvo do esforço incansável do cínico, isto é, tentar retardar o movimento de rotação, apesar de isso ser uma tarefa hercúlea. Pouco importa. Sentir-se um herói, mesmo que ninguém mais o julgue como tal, reconforta. Quem sabe este não é o cinismo que o cínico não percebe: sua vida virtuosa e heroica é mais uma pretensão humana que nada vale? Reconhecer isso o tornaria mais tolerante com as falhas dos outros. Ele busca respostas também, não é apenas provocador, logo suas acusações e seus escárnios voltam pra ele, quando pensa agir melhor que os demais. Como toda ação humana é ética e política, e funda valores que passarão mais cedo ou mais tarde também pelo escrutínio público, ninguém está aquém ou além dele. Porém, os cínicos parecem querer se posicionar ao largo desses juízos. Só que a responsabilidade pesa para eles igualmente.

15 de janeiro de 2013

Oferendas e Descartes


Minha jangada, após anos de uso, foi deixada aos cuidados da correnteza, e por esta seguiu até descer em câmera lenta pela garganta sempre úmida de uma foz qualquer; enfim digerida por um lago receptivo, um desses bons anfitriões o qual a Natureza é pródiga em formar. Naquelas pacíficas águas minha jangadinha foi bem aproveitada, como sempre são as oferendas que os desapegados entregam de coração exultante, pois sabem que no ciclo do carbono, ou no de vários outros elementos químicos, todo item ou ação carregado de energias boas e sinceras é sabiamente reaproveitado para manter o meio ambiente harmônico e seus seres vigilantes e brilhantes. Se o excesso dessas doações transbordar o rio, não há com o que se preocupar, a água das enchentes costuma fazer brotar sementes esquecidas e ovos depositados, ainda não eclodidos. Todo alimento deveria ser assim: um singelo barco à deriva. O tempo se encarregaria de encontrar um destinatário que, de bom grado, usufruiria e se regozijaria com mais uma dádiva do mundo.

Todo objeto que encontramos pelo caminho é sugestivo. A princípio é apenas um esboço, uma silhueta dificilmente discernida, um projeto de uma realidade do porvir, que uma mente sagaz e uma vontade irresistível irão transformar em algo maior, seja por prospecção ou por simples manuseio baseado em repetições insistentes. Para visualizar além das sombras são precisos olhos iluminados, coisa rara. Essa matéria-prima, uma pedra rara em estado bruto, é um rascunho a ser lapidado por uma técnica e fluído pela inspiração de um anseio tirânico. Mas um objeto inerte precisa dessa arbitrariedade, a fim de sair do marasmo ao prazer quase sublime que só atos ao bel-prazer são capazes de garantir. Ao final, voilà, uma bela obra de arte. Se a volição for somente ancorada em preceitos e padrões deveras rígidos, haverá artesanato – ele tem o seu desfrute, mas não se compara ao assombro de uma arte autêntica e original. Em tudo consta um fundo a explorar.

Imaginem quantas obras-primas e tesouros imortais da humanidade, seja em forma física ou apenas na memória efêmera dos povos, esfacelaram-se no ar porque faltara um desses detalhes que insistem em escapar dos sentidos humanos: tempo ou conhecimento ou devoção. Cada sujeito observador e desejante tem o potencial artístico de produzir uma dessas preciosidades, porém são poucos os intempestivos, disciplinados e ousados para chegar a tamanho êxtase. Ser produtivo em quantidade e qualidade não é para qualquer um, mas bem que podia ser, se houvesse estímulo para tanto. Contudo, a maioria quer facilidades e diferenciação por bobeiras. Esquecem-se das essências.

O problema é que a doença os doentes da modernidade teimam em não reconhecer. Vidrados nas últimas novidades anunciadas com promessas de trinta segundos de felicidade eterna eles estão ocupados demais para mudarem seu foco. Todo médico sabe o valor que há em mudar de ares e paisagens, nem que seja pela amplitude que a visão do paciente ganharia. Porém, eles se amam tanto que não sabem quem são nem onde estão. A viagem ao interior é íngreme, mas as ladeiras não são mais tolerantes pelos passageiros, pois obtusos e marejados. Eles já sabem como e onde serão enterrados e lamuriados; enjoado com o caminho bastante tracejado, deslumbrados ficam com os sininhos dourados em meio à pressa da feira. Bichos adestrados não podem mais pensar por si e buscar essências, seguem normas e formalidades, sem elas, restam irresolutos.

O senso comum entorpeceu os viventes, que não plenificam suas experiências, estão demasiadamente adormecidos.  Mas há aqueles que o defendam, esses não passam de ruminadores, um gado que muge e ronca de pé, e ainda assim julgando-se desperto. Enquanto isso, os lustradores e enceradores de móveis e peças luxuosas se preocupam com o brilho dos metais que ninguém irá reparar, ao invés de retirar a poeira, as teias e o mofo de mentes anestesiadas, por pouco não  putrefatas. Mas cada um conhece o que é importante e zela por isso. O sol nasce para todos, porém cabe ao homem posicionar seus maiores bens para receber a energia diurna do astro-rei. Cabe a ele decidir o que ofertar ao rio, poluindo-o ou conservando-o. O ciclo não para.

 

13 de janeiro de 2013

Inveja do lado de lá


O criticado de hoje é o aliado de amanhã, o bode expiatório de sino dourado de hoje é o compadre de amanhã, o Exu chuta que é macumba de vestes badaladas de hoje é o santo de amanhã, a persona non grata metidinha de hoje é o parceiro de amanhã. É assim a vida dos invejosos sem opinião formada. Falar, reclamar, chiar, resmungar, choramingar pitangas porque foi excluído da patota é comum para quem não sacou como os fatos se amarram. O novo rico, ou apenas a classe média emergente, não me deixa mentir. E eu queria estar enganado, mas não sou iludido.

“A nossa inveja dura sempre mais tempo que a felicidade daqueles que invejamos.” Talvez a inveja seja o pecado capital mais recorrente de nossos pobres e ignorantes cristãos. É tão fácil falar mal do playboy de vida mansa quando se está do outro lado da rua. O sentimento ruim surge de bate-pronto e precisa sair para não deprimir o pé-rapado. Então o coitado enche a boca para reclamar da falta de ética dos burgueses de condomínio. Quem mais rasga o verbo é quem mais tem culpa no cartório. É igual a pai safado de menina bonita ou marido possessivo de mulher boa, eles aprontaram das suas, sabem do que outro homem ou as mulheres são capazes, portanto professam loquazmente sua hipocrisia aos colegas, vizinhos e cachaceiros da meia-noite. Não se enganem, discurso inflamado é sinal de culpa enrustida.

Como a maioria dos homofóbicos que dizem não admitir filho, amigo ou político baitola, esse ou já queimou ou ainda queima ou se contorce de vontade de queimar a ruela. Reconhece que aquilo não é legal socialmente, mas no escurinho se diverte pra valer. Quem sabe não seja inveja da diversão alheia mais do que incômodo pela perversão que degenera os bons costumes interioranos? Nem eles sabem responder. Recalcar por demais os prazeres faz com que conscientemente só seja repassado o sermão que se acabou de ouvir ou que insistentemente é gritado nos ouvidos pelos submissos anos da miserável vida de periquito. A gaiola é a maior fomentadora da inveja. O bichinho quer sair e aproveitador a saudável liberdade dos transeuntes risonhos e bem vestidos. O oprimido sempre carregará a dor da humilhação sofrida. Quanto pior o sentimento, maiores serão os gritos. As grades podem até sair de seu rosto, mas permanecem em seu peito comprimido.

E se o voluntarismo não significar felicidade autêntica, há uma farmácia na esquina fornecendo antidepressivos aos angustiados e apressados urbanos. Um sorriso na face é um grande sinal de vida boa, ou no mínimo de uma vivência satisfatória. O que um sorriso não é capaz de provocar! Um infeliz é capaz de mudar de time, de bairro, de profissão, de ideologia e de caráter para possuir um sorriso contumaz em seu já cansado rosto, em sua expressão cabisbaixa e em seus ombros derrubados por pesos físicos e metafísicos. A aparência garante mais sucesso que a legítima personalidade. Assim pensam os fracos de espírito e deslumbrados pela encenação.

 Manifestações externas de aprovação contam mais pontos que a retidão moral que sabe identificar o certo e o errado, o digno e o ignóbil, o faça e o não faça. Estoicismo nada pode contra as torrentes hedonistas que espalham fotos de gente sorrindo e pulando de alegria. Como dizer que a vida desses não é boa quando seu quarto é mobiliado por itens sombrios e circunspetos? Conclusão lógica: divertir-se é melhor que suportar no osso as lombadas e intempéries da encosta nebulosa e estacionada. Motivação torna-se a palavra de ordem, mas para isso é preciso mudar de ares, conhecer novos idiotas e tornar-se mais um. Pertencer é um imperativo, o contrário é fracasso. Por essas e outras o compartilhamento garante a alegria dos carentes.

Falta, sempre falta, algo, nem que seja ruim. O que não pode predominar é o vazio. Esse é o mal maior. Ocupar-se é não dar sopa para o azar. E assim se precaver do terrível demônio da modernidade: o tédio. Só que nessa espiral muitos bestalhões são lançados em mundos indesejados, com mais problemas que o anterior, mas tudo bem, antes apagar incêndio a jogar pedra no lago. Chegando junto dos que prometem farra e vida boa, o reclamão e mal amado vai à forra, claro que não sem batismos e impaciência até sintonizar a frequência sem chiados. Que os infelizes que ficaram para trás entendam e se adaptem ao novo sujeito. Pergunto: quem se sujeita mais aqui?

Pose, poser! Flashes não faltarão, pipocarão até cegá-lo, quem sabe isso não será o necessário para fazê-lo voltar a enxergar? Enquanto a inveja for sua força motora não haverá salvação, o fetichismo é sua pretensa redenção. Talvez tenha sido o melhor pra sua vida, do contrário haveria suicídio ou veias escorrendo por ralos. Apenas saiba que continuará ralo, sem sacar como os fatos se amarram. Apenas sua postura mudou: os criticados agora recebem elogios e a vidinha de antes se tornou alvo de escárnio. E chega de se vangloriar que o lado daí é o melhor e que o lado de cá da rua restam os losers. Cada um com sua fantasia de felicidade e suas acusações de tolice. A sua inveja permanece, mas não gerou inveja nos outros, seu objetivo não foi totalmente concluído.

“Ninguém é realmente digno de inveja, e tantos são dignos de lástima!”
 
P.S.: Tentarei iniciar uma nova fase, com escritos mais despojados, dependerá da inspiração, da disciplina e do tempo vago. Não que isso vá mudar alguma coisa...

29 de dezembro de 2012

Só para fechar o ano e manter a média mensal


Em atos se fazendo

Eremita, um tanto arcano,
Escuta os prantos, soprando
Entre sapatos e panos.
Eia, de um salto entra o profano,
Errante mulato obsceno,
É ingrato, assim vai procedendo.
E sai do mato o sarraceno,
Está armado, com maça ardendo;
Entoa bem alto seus hinos.

Tem estado nosso assassino
Em estratos, vem decaindo
Espalhado, e dor reluzindo.
Eu sei como trato meu sono,
Escapei do nefasto Cronos;
Estampo no retrato o trono
Espelhado, os nobres repondo.
Ecoa seu brado o forte huno,
Ermo, revirado e profundo.

Encolheste, incauto Bruno!
Epíteto: gato ou Raimundo.


Hesitante

Hesitação, posto ser oposto
À excitação, essa vontade que arde,
É do elo excisão, está avessa a duelos.
Soberba, versa sobre equitação
Não sobe, não sente a tração;
Atração? Só por equiparação.
É o parado palhaço sob porções
De emoção, o espaço do cadarço,
Age calabreadamente.

Irresoluto, solta soluços;
Ao titubear é um tatu ao mar;
A cada vacilo acode bacilos;
Sempre incerto, suspende-se, aberto.
Sujeito inseguro, de ares soturnos,
Por seu jeito indeciso é nunca preciso,
Todos são: ameaça, vício e mordaça.
Tolo, trepida na via entupida
E trôpego se agita, já sôfrego.

Passará a vida a claudicar
Com sua triste cauda a arcar...

º°o0.
P.S.: Que venha 2013, apesar de não prometer nada.

16 de dezembro de 2012

Vontades, Instituições e Ética


Desde que o homem compreendeu que suas vontades são insaciáveis – elas podem ser efetivadas e acalmar a pessoa, mas retornam após um curto período de satisfação e euforia – e que um indivíduo conflita com seu semelhante, ou um povo com seu vizinho, para garantir os próprios anseios (em geral os mais imediatos), líderes entenderam que precisavam regular as ações das pessoas a fim de manter alguma ordem e força do grupo, com fins de sobrevivência, esse imperativo biológico. Em decorrência disso nasceram leis, regulamentos, dogmas, éticas, interditos, etc. Colocaram de um lado os vícios e de outro as virtudes. Os orientais foram mestres na dominação da vontade e muito antes dos pretensiosos europeus perceberam que para haver coesão comunitária e evitar os lobos conterrâneos precisavam elaborar filosofias e cartilhas rígidas, regulando as condutas dos aldeões cada vez mais apinhados, antes sequer destes agirem. Num território com pouco alimento para tanta gente, a saída, enquanto se desenvolviam tecnologias mais eficientes para colheita, lavoura e armazenamento, foi garantir a segurança do povo em detrimento da liberdade. Então as religiões inventaram que liberdade é não ser escravo do corpo, essa frágil matéria cheia de desejos tirânicos, mesquinhos e sem fim, que insiste em perturbar a alma. Comande sua mente, mantenha-se tranqüilo, permaneça sereno e atingirá o nirvana, sem os aborrecedores conflitos terrenos. Todos (a princípio) aceitariam a doutrina pregada diariamente, não discutiriam com a autoridade diretamente enviada pelos deuses e se resignariam com o pouco, mas suficiente, que possuíssem. A idéia de ciclo lhes era lugar comum, apesar de estar sob a alcunha de destino (dharma ou karma). Sem dúvida foi uma práxis útil, pois certas culturas perduraram e se tornaram milenares.

Não estou querendo dizer que esse foi o único motivo das vitórias sucessivas, após tormentas e invasões regulares; desafios que todo vivente enfrenta, como que para provar que merece estar vivo, favorecendo o aperfeiçoamento genético. Porém, é difícil negar sua importância à resistência ante a entropia. Também não quero pregar a estratégia quase sempre bem sucedida de repressão social através de manipulação psicológica em prol de líderes com objetivos nem um pouco democráticos. Por mais que os fins possam justificar os meios, atualmente toda decisão autoritária e impositiva gera focos de revolta, maiores ou menores, eficazes ou frouxos. Cada cultura que defenda seus interesses e prossiga com seus valores, apesar da globalização tender a homogeneizá-los pela primazia da economia, do capital e do consumo. Contudo, vejo que apontar a um caminho único, facilmente identificável e com promessas de felicidade seduz os incautos e necessitados (a maioria) por um pedaço de madeira qualquer para não se afogarem nos oceanos niilistas que cobrem igualmente quase todo o planeta. Essas garantias de satisfação imediata são infalíveis, apesar de danosas para quem um dia se ver marionete. Todavia, uns pensam que viver bem é não se perturbar e outros, que é realizar as aspirações. Em ambos os casos é preciso haver paciência.

O que fazer doravante com essas vontades? Toda ação interfere no ambiente e na sociedade, podendo nesta o fato se dar de forma indireta. É angustiante tomar ciência do potencial de corrosão e destruição que cada um carrega. Isto é, o outro deve ser levado em conta; a ética do libertário é a mesma do tirano, com diferença de escala apenas. Ignorar isso é tentar se imiscuir da culpa de ser mais um ferrando com o mundo já tão judiado. Olhem eles aí, os judeus, que tanto entendem de reprimir as vontades em prol de um deus corporativista e severo com os infiéis, bastante idêntico aos seus eternos rivais muçulmanos. Nessa briga de Jeová contra Alá, a humanidade é derrotada, como sempre aconteceu – os gregos e os nórdicos bem o sabem. Viver com os olhos voltados para o céu, se não for astrônomo com assistentes vigiando as condições dos equipamentos, é correr o risco de ser picado por uma víbora matreira e vil. A evolução não diz que os mais fortes e inteligentes vingam, esse privilégio é dos mais aptos, quase sempre os mais baixos e sacanas. O ser humano, por sorte ou não, está num nível de poder escapar em boa medida dessa grande lei. Os memes falam mais alto que os genes, contudo quase toda moral existente nos grandes povos privilegiou o comportamento de rebanho domado, ou seja, ignóbil – é o preço de ser animal social. Por outro lado, a visão progressista defende uma consistência cultural baseada tanto em idéias quanto em atitudes, com a devida reflexão posterior para ajustar o melhor rumo, sob pena do povo se tornar afetado ou bruto. A problemática está em saber quem terá mais poder: os progressistas ou os conservadores?

Fiz o primeiro passo, que consistiu em compreender, ainda que ligeiramente, o ponto de vista de cima, isto é, o da estrutura: as instituições precisam de alguma maneira seduzir, manipular ou conduzir (ou outro termo mais adequado) seus membros numa direção pra atingir objetivos e valores pré-traçados. Hobbes, Maquiavel, Marx e Weber talvez sejam os pensadores mais notáveis dessa perspectiva. Sem essa arbitrariedade reguladora haveria o risco de anarquia e de barco à deriva, pois confiar nos homens, por si só conseguindo uma convivência pacífica por meio de acordos tácitos e isentos de tabus seria acreditar num nível divino da “natureza humana”, que sabemos ser deveras passional e selvagem. E mesmo a razão não me parece suficiente a evitar o caos e a barbárie, pois sem questionamentos éticos e políticos (sempre relativos), ela é estéril e mecânica, capaz de cometer atrocidades, como a ciência nazista ou soviética, ou ainda segundo futuros distópicos narrados por filmes e livros de ficção científica. Agora quero abordar a visão de baixo, do humano ordinário, que introjeta essas ordens de cima e tenta repassá-las, mas que inevitavelmente se vê diante de dilemas por causa de sua vontade que vai de encontro aos deveres da boa convivência.

O homem não é um elefante que observa tudo de cima e anda devagar, a cuidar de seus parentes e tentando ser discreto, apesar de sua grandiosidade. Nós estamos mais para pavões, papagaios, raposas, cordeiros, lobos, alces, macacos, abutres, ratos e gralhas. Gostamos de aparecer, demonstrar mais importância do que temos, falar sem muita capacidade para tanto e se for preciso voar em cima das sobras. Não é muito fácil convencer as pessoas de que elas são fracas e pequenas sem apelar para a subserviência a um senhor qualquer, fantasioso ou sanguíneo. Apesar dessa pequenez humana há muito que ser feito, o existencialismo tratou muito bem sobre esse tema. Menos pretensão, metafísica e arrogância e mais senso prático. A ciência já nos situou no mundo, restando às filosofias explicar sobre as inúmeras possibilidades de viver melhor e mais livre.

Entre as filosofias que tratam sobre a vontade posso citar estas: budismo, estoicismo, hedonismo, epicurismo e cristianismo. É claro que há muitas outras, mas vou me ater a essas. O budismo, o estoicismo e o cristianismo, grosso modo, compartilham a idéia de que é preciso controlar ferrenhamente os desejos, a ponto de evitar que eles nasçam, por mais difícil que isso possa parecer. Os desejos nos afastariam do que é realmente importante (as virtudes) e nos levariam ao mau caminho (dor e existência infeliz, aqui ou além). Essa defesa do desapego e do asceticismo se torna cada vez mais difícil em um mundo que bombardeia os transeuntes de informações, banais ou nobres, e estimula-os para consumirem. O hedonismo defende o prazer acima de tudo, único bem disposto de sentido, num voluntarismo exacerbado que obviamente privilegiaria os mais fortes e protegidos (piratas ou reis), pois cada passo dado em direção à liberdade, ou libertinagem, é um passo atrás à segurança (a sua ou a dos outros). Nesse caso está mais alinhado com a ideologia capitalista. Já o epicurismo seria um meio termo entre a retidão moral e a devassidão. Ele aceita o prazer como um bem, pois o homem é dotado de várias sensações que exigem afagos, no entanto vincula esse prazer à tranqüilidade do espírito, uma vez que satisfeitos os desejos (rigorosamente selecionados) a pessoa se tornaria mais feliz e virtuosa, instruindo demais companheiros a segui-la.

Em suma, é difícil ficar indiferente perante os fatos da vida, e mesmo que se consiga não há garantia de vida feliz, a menos que haja uma convicção de que a única felicidade possível é aquela quando se consegue não desejar (ataraxia). Também não há garantias de satisfação plena com desejos insistentemente renascidos e penosamente realizados, a música do Rolling Stones toca até hoje, a comprovar que a maioria concorda que não dá para obter satisfação plena, uma vez que o tédio se instala e o vício se presta a dominar o sujeito quando ele menos espera. É um jogo sem vencedores, há no máximo consciência limpa por haver coerência em seguir princípios e normas. Os maquiavélicos riem com os objetivos alcançados a qualquer custo, mas com a condição de desconhecerem os estragos lá do caminho. Já os beatos e monges sorriem sem mostrar os dentes, jurando contentamento ascético. Questão universal e antiga, respostas relativas e contingentes.

Eu queria não passar vontade, mas passo. Talvez a virtualidade conquiste tantos adeptos ansiosos justamente pelo alívio imediato. Eles descarregam suas frustrações, preenchem a carência com atenção superficial e controlam o momento, ignorando as conseqüências, até porque na hora elas são de fato imperceptíveis. Mas tudo volta, os orientais sabem disso há muito tempo. O mundo dá voltas. As coisas passam, mas alguma substância permanece; metamorfoses ocultam o caráter original. Tudo tem um preço, é bom se conscientizar dos possíveis efeitos de cada ação. Assim como a ignorância é uma bênção: os olhos não veem, o coração não sente e o sono é longo e contínuo.
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P.S.: Ando um pouco desanimado para escrever essas coisas frívolas e de parco embasamento e resultado prático. Venialidades que muitos outros já escreveram, enquanto eu simplesmente repasso ao vento ou aos bytes, ignorando as origens e os leitores. Porém, se eu não escrevesse seria ainda pior, pois acho melhor ser um incompetente do que um incapaz ou inativo.